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Raposa Herbívora | Libertação animal, na teoria e na prática

15/10/2025

Rascunhos Antiespecistas | Quando a linguagem se torna cruel: a proibição do “burguer vegetal”


No dia 8 de Outubro, os eurodeputados discutiram uma proposta que, entre outros aspectos, requeria a proibição de termos como burger, salsicha e escalope para produtos de origem vegetal. Por outras palavras, tais produtos não podem ser mais denominados e rotulados com tais termos. A proposição é a seguinte:
Emenda 113
Proposta de regulamento
Artigo 1.º – n.º 1 – ponto 8 f) (novo)
Regulamento (UE) n.º 1308/2013
Anexo VIII – parte II A (nova)

No Anexo VIII, é acrescentada a seguinte parte:

Parte II A
Carne, produtos de carne e preparações de carne

Para efeitos da presente parte, entende-se por carne as partes comestíveis dos animais referidos nos pontos 1.2 a 1.8 do Anexo I do Regulamento (CE) n.º 853/2004, incluindo o sangue. Os termos e denominações relacionados com carne, abrangidos pelo artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 1169/2011 e actualmente utilizados para carne e cortes de carne, devem ser reservados exclusivamente para as partes comestíveis desses animais. (...)
As denominações abrangidas pelo artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 1169/2011 que são actualmente utilizadas para produtos e preparações de carne devem ser reservadas exclusivamente a produtos que contenham carne. Essas denominações incluem, por exemplo: bife, escalope, salsicha, hambúrguer (...) Os produtos e cortes de aves definidos no Regulamento (UE) n.º 543/2008, que estabelece as regras de execução do Regulamento (UE) n.º 1234/2007 do Conselho no que respeita às normas de comercialização da carne de aves de capoeira, devem ser reservados exclusivamente às partes comestíveis dos animais e aos produtos que contenham carne de aves. As denominações acima mencionadas não devem ser utilizadas para qualquer outro produto que não os referidos e excluem os produtos de cultura celular.
O fundamento apresentado foi que a utilização das palavras supracitadas para definir preparações à base de plantas não é transparente e pode induzir o consumidor a erro. Na verdade, a intenção é clara: defender os interesses da pecuária, o que implica defender uma visão que privilegia a carne de animais. A votação — de um parlamento agora mais distribuído à direita (Alô, veganos que separam veganismo de política? Este texto também é para vocês) — foi favorável à proposta. É particularmente estranho a União Europeia proteger uma das indústrias comprovadamente mais poluidoras, ao ponto de aprovar esta mesquinhez, e ao mesmo tempo bater o peito e garantir que está a trabalhar muito em prol do ambiente e da sustentabilidade. Pessoalmente não compreendo como podemos correlacionar ambas de forma coerente, visto não ser possível haver justiça climática com exploração animal.

Enquanto à superfície esta proibição aparenta ser um mero disparate e um gasto de recursos políticos (e é-o também, atenção), o seu âmago esconde alguns alicerces da exploração animal: a perpetuação e normalização do especismo simbólico e do especismo psicológico.

Assim como outras formas de opressão, o especismo — que é a discriminação com base na espécie — é repartido em várias categorias. De facto, categorizar é uma das bases da discriminação, visto a mesma necessitar de uma visão dualista, algo que é explicado por Carol J. Adams: em The Pornography of Meat, Adams refere que existe a categoria “A”, culturalmente classificada como superior, racional e a que mantém a ordem – e, por isso, tem o privilégio de explorar, a seu bel-prazer, a categoria “Não A”, que é culturalmente entendida como inferior, emocional e instável, pelo que, além de precisar de ser subjugada, precisa de aceitar essa subjugação. Veja-se que Adams define a categoria considerada inferior como “Não A” em vez de “B”: tal deve-se por, no raciocínio hierárquico construído e imposto por “A, “Não A” ser totalmente despojada das qualidades e capacidades que qualificam o primeiro como sumamente superior. “Não A”, além de inferior, não tem autonomia e é vista como uma extensão imperfeita, dependente de “A”, que necessita de ser vergada e submeter-se às vontades de “A”. No caso da discriminação especista, “A” são os animais humanos e “Não A” são os animais não-humanos.  E, para manter este fosso segregador, diversos estilos de discriminação são congeminados.

O especismo simbólico refere-se à forma como a linguagem, a cultura e os símbolos reforçam a ideia da superioridade humana em relação aos animais. Já o especismo psicológico actua na mente colectiva ao reforçar o hábito de associar “comida de verdade” à carne animal, enquanto despreza o vegetal e o reduz a “imitação”, “substituto” e “artificial”. Os animais tornam-se, assim, imperceptíveis enquanto seres sencientes e reduzidos a mercadoria.
Fica, assim, evidente que esta proibição não é só uma questão de semântica: é uma tentativa de preservar a percepção cultural que temos em relação à carne e aos próprios animais. É mais uma das milhares de rodas que movimentam a engrenagem do especismo, sendo que esta roda, recentemente inserida pela União Europeia, recorre à linguagem veladamente para fortalecer, ainda mais, o conceito de que certos animais são alimento – e que os seus pedaços formam o substancial e inevitável protagonista do nosso prato. As suas contrapartes vegetais são, assim, ridicularizadas e reduzidas aos rótulos acima mencionados.

Esta interdição também mostra aquilo que o especismo é: cruel, hegemónico e dissimulado. Cruel porque, juntamente com o capitalismo, depende do sofrimento e da matança de animais para prosperar. Não foi por acaso que, sem surpresas, o sector pecuário regozijou-se com esta decisão de proibir os termos para opções vegetais;
Hegemónico porque não admite que a divergência ganhe força, por mais que essa força seja uma humilde gota num imenso oceano de vilanias – e é aqui que entra a pressão da indústria da carne, incluindo tornar termos gerais exclusivamente seus;
Dissimulado porque, ao mesmo tempo que argumenta pela proibição desses termos “para não enganar os consumidores”, despersonaliza os animais de tal modo que os respectivos retalhos em nada se assemelham a eles. Um hambúrguer não se parece com uma vaca. Uma salsicha não se parece com um porco. Porque se esforçam tanto para tornar os animais referentes ausentes dos seus próprios corpos? Porque é que os animais são obliterados ao ponto dos seus pedaços nos fazer esquecer que antes, em vida, existiu um indivíduo completo, complexo e consciente?

Um pormenor presente na emenda e que achei interessante foi a definição oficial apresentada para “carne”: partes comestíveis de animais. Foi a partir dessa premissa que o argumento de exclusividade das palavras hambúrguer, salsicha, etc., foi desenvolvido, visto que carne, de acordo com a dita, é unicamente de animais – sendo assim, obviamente que faz sentido as definições supratranscritas só poderem ser aplicadas àquilo que for de origem animal.
Achei interessante porque, etimologicamente, a palavra “carne” deriva do latim caro, carnis, que significa “substância do corpo”. No entanto, não era especificamente sobre substância animal e referia-se a qualquer parte mole do corpo independentemente da sua origem. Carne de coco, carne de caju e carne de melancia são alguns exemplos: tais expressões existiam (e ainda existem!) e eram consideradas correctas e normais. Em suma, originalmente, carne designava a parte comestível e macia de algo. Mais tarde, com o aumento do consumo de animais e o domínio da pecuária, o termo foi apropriado cultural e economicamente para significar, exclusivamente, o tecido muscular de animais. Como podemos ver, rebaptizar e expropriar palavras não é uma novidade da engrenagem especista.

Quanto aos termos que fomentaram todo este debate, são designações para formatos de alimentos e como estes foram confeccionados: “hambúrguer” é um preparado arredondado, feito com um ou mais ingredientes principais, que foram picados, temperados e aglomerados; “salsicha” é um enchido que, apesar de comummente ser de carne de animais, também pode ser feito com vegetais: há registos culinários medievais de salsicha de arroz e lentilhas, por exemplo.

Questões etimológicas e históricas à parte, outro factor que esta proibição criou é que um hambúrguer, uma salsicha e um escalope, ao só poderem ser designados como tal se forem de origem animal, passam também a carregar, exclusivamente, o que vem juntamente com a carne mas que nos é invisível: a dor, a tortura e a morte. Usemos as armas do especismo contra ele próprio: denunciemos o real significado do que está por detrás daquilo que se consome.

No fundo, esta proibição revela o medo de um sistema que teme qualquer questionamento ou crítica ao monopólio da carne – e, paradoxalmente, ao mostrar esse medo, oferece-nos a chance de ver as coisas com mais clareza, como o mundo vegetal não necessitar das designações que o status quo, no alto do seu preconceito, lhes nega constantemente. Concordo que devamos resistir e exigir o direito de usar essas palavras — afinal, não é por ser isento de origem animal que deve ser silenciado —, mas, ao também revelarmos que não precisamos delas para legitimar o que é vegetal, estamos a desmantelar esta lógica de subordinação, que ridiculariza o vegetal ao acusá-lo de copiar o animal através desses termos para se viabilizar. Estamos, de alguma forma, a libertar a alimentação à base de plantas da dependência do discurso dominante. Como escreveu Ruan Félix, um cogumelo não precisa de ser chamado de bife ou de bacon para brilhar – só precisa de ser chamado pelo que é: um cogumelo. Um simples, carnudo (ups, espero que a UE não me excomungue) e apetitoso cogumelo.

No fim, o que está em jogo não são somente palavras, até porque a verdadeira transformação não está apenas em nomes ou rótulos: está em reconhecer a manipulação e a má-fé por detrás deste jogo, de escancarar as rodas desta engrenagem e, numa contracorrente desobediente, escolher o que é vivo, sem violência, sem domínio e sem medo. Está em semear e cultivar a nossa própria lógica. Uma que floresça sem sangue e sem morte. E com essa lógica seguimos, seja a informar, a criar ou a cozinhar. Um prato vegetal de cada vez.


Imagem: Roman Odintsov
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alimentação antiespecismo rascunhos antiespecistas
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18/09/2025

Panquecas para quem não as sabe fazer



J'accuse... moi 😬 No que toca a panquecas sempre fui a maior nabiça hortaliça: queimava-as, deixava-as cruas, deixava-as pesadas, colavam na frigideira, na crepeira, em todo o lado. Sou péssima a seguir regras de culinária mas, neste caso, cumpria à risca com os ingredientes, as medidas e o modo de preparação, tudo muito direitinho, para no fim a panqueca sair toda torta 🌚 Não creio que haja alguém igual ou pior do que eu em preparar panquecas, pelo que esta receita vai ser, sem sombra de dúvida, infalível para qualquer pessoa que experimentar fazê-la. Seja um ás ou um noob, o sucesso é garantido!

Só precisam de:

1 cup de farinha de trigo extra fina

1 cup de leite de soja (utilizo o da Alpro com sabor a baunilha para adoçar automaticamente)

1 colher de sopa de vinagre de maçã

1 colher de chá de fermento químico

½ colher de chá de bicarbonato de sódio

1⁄4 colher de chá de sal

½ colher de sopa de óleo vegetal

Segredo número um: talhar o leite de soja, para as panquecas ficarem mais macias e menos densas. Se quiserem ser chiques podem chamar a esse processo de 'confeccionar o buttermilk vegetal': integrem o vinagre no leite e deixem repousar cinco minutos.
Enquanto isso, misturem, numa tigela à parte, os ingredientes secos — farinha, fermento, bicarbonato e sal.
Combinem o leite talhado e o óleo aos ingredientes secos e misturem delicadamente só até incorporar. Não batam demais e não se preocupem se a massa ficar com alguns grumos.
Segredo número dois: permitam que a massa descanse cinco a dez minutos antes de a cozinharem: isso resulta em panquecas mais altas e fofas.
Na crepeira, ou numa frigideira antiaderente, em lume médio-baixo e previamente aquecida, coloquem 1⁄4 cup por panqueca. Cozinhem até surgir bolhas na superfície, virem e deixem cozinhar mais dois ou três minutos.

E pronto, panquecas fofas garantidas — mesmo para quem, como eu, sempre se baralhou com elas ♡

Extras que funcionam lindamente na massa:

Framboesas frescas
Morangos picados
Mirtilos
Raspas de limão
Pepitas de chocolate (as da Vahiné são isentas de substâncias animais)

Simples, com frutas, manteiga de amendoim, xarope de agave, chocolate... dêem asas à imaginação (e à gulodice, muahaha). Sirvam preferencialmente quentinhas, mas frias também ficam boas ♡
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15/07/2025

Bolinhas de grão fáceis de fazer



Ultimamente a cozinha tem sido um espaço terapêutico: a modorra e a desmotivação têm-me fustigado a mente impiedosamente, pelo que preferi dar uma pausa no conteúdo mais intelectual e dedicar-me um pouco a ter a barriga em beira de fogão. O blogue não vai virar site de receitas mas, como referi aqui, compreendi que até é pertinente mostrar víveres simples, acessíveis e plenos de sabor. A luta também se faz no prato, pelo que a comida é um activismo – e se for antiespecista, melhor. É o que se deseja.

Estava a matutar numa ideia para o almoço da criança que, além de versátil, fosse minimalista, saborosa e saudável. De almôndegas passei para falafel e do falafel para umas bolinhas de grão-de-bico feitas no forno, não fritas. São insanamente deliciosas e insanamente fáceis de se fazer.

Mais uma vez é uma receita de olhómetro, mas nada temam: entrem no maravilhoso mundo da culinária intuitiva com estas bolinhas de grão espectaculares.

Só precisam de:

Pouco mais de 1 cup (cerca de 170-180 g) de grão-de-bico cozido

½ (40 g) cup de aveia instantânea

1 cenoura pequena ralada (nas bolinhas da fotografia esqueci-me de adicionar a cenoura 🌚 também ficam boas mas a cenoura dá uma textura e cor mais interessantes)

Azeite (fiz um pequeno splash, mas deve ser sensivelmente 1 colher de sopa cheia)

Molho de soja (outro splash, provavelmente 2 colheres de sopa) ou sal

Ervas secas a gosto (numas coloquei orégãos, nestas pus limão e tomilho. Usem as que quiserem, experimentem, arrisquem)

Pré-aqueçam o forno a 180°C.

Numa taça, esmaguem bem o grão-de-bico com um garfo. Adicionem a aveia instantânea e envolvam bem.

Juntem a cenoura ralada, o azeite, o molho de soja e as ervas. Misturem com as mãos até obter uma massa moldável. Se estiver seca coloquem um pouco de água; caso tenha ficado demasiado pastosa acrescentem alguma aveia instantânea.

Moldem bolinhas pequenas e repartam-nas num tabuleiro forrado com papel vegetal. Levem ao forno durante 15 a 20 minutos.

Estas bolinhas ficam óptimas quentes ou frias, o que as torna perfeitas para marmitas. Para as acompanhar fiz um molho de iogurte absurdamente simples: como a criança não vai muito à bola com alho em pó e com ervas que fiquem visíveis, limitei-me a misturar umas gotas de limão e de molho de soja num iogurte de soja natural estilo skyr. Por aqui foram um sucesso (milagre, farta de selectividade alimentar já ando eu 😑).

Para as conservar:

Retirá-las do tabuleiro quente e distribuí-las numa superfície com papel toalha por baixo (isso vai ajudar a eliminar alguma humidade e gordura enquanto arrefecem). Quando estiverem frias, guardá-las num recipiente hermético, idealmente forrado com papel toalha, e guardar no frigorífico até dois dias.
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22/06/2025

Bolo de morango (feioso mas saboroso)



Quando o blogue nasceu não tinha quaisquer intenções de partilhar receitas: além de tantas pessoas já publicarem comidas tão bonitas e tão boas, não faço propriamente pratos esteticamente cativantes: faço refeições simples, como o típico arroz com feijão que não enche os olhos mas o estômago. Mas aos poucos fui sentindo que, visto comer ser uma forma de activismo e também um acto político – principalmente quando o movimento se quer antispecista – até faz sentido uma comum mortal, com zero aptidão em técnica culinária, mostrar os seus esquissos gastronómicos e assim espelhar uma das realidades além-Instagram: comida sem filtros, acessível, fácil de confeccionar e que, apesar de ser feia que dói, nela residir uma panóplia de aprazíveis sabores. Então decidi perder a vergonha e apresentar este bolo que, apesar de ainda ter o papel vegetal por baixo e a cobertura esparramada à toa, é tão delicioso que merece o seu lugar nesta mui vasta blogosfera.

Esta receita dá para um bolo pequeno e rende seis fatias.

Ingredientes:

2 copos (250 g) de farinha de trigo

2 colheres de chá rasas (8 g) de fermento químico (se quiserem, podem substituí-lo por 6 g de fermento em pó + 2 g de bicarbonato de sódio)

¼ colher de chá (1 g) de sal fino

½ copo (120 ml) de óleo vegetal

¾ copo (150 g) de açúcar mascavado

1 ½ colher de chá (7,5 g) de pasta de baunilha (utilizo da Vahiné e não quero outra coisa. Prefiram pasta em vez de aroma, por a primeira ter verdadeiramente baunilha e isso influenciar totalmente o sabor)

½ copo (120 ml) de leite vegetal

1 colher de sopa (15 ml) de sumo de limão (para um toque mais citrino dupliquem a quantidade)

½ copo (120 g) de compota de morango sem açúcar

Morangos médios picados (costumo usar uns dez)

Para a cobertura:

Natas vegetais de soja para bater, como as Whipping Soya da Alpro

Gotas de limão

Pasta de baunilha

O papel vegetal diz olá 😬

Pré-aqueçam o forno a 170°C e forrem uma forma pequena (com 16 centímetros de diâmetro, por exemplo) com papel vegetal. Untem ou pulverizem as laterais com óleo.

Misturem os ingredientes secos: numa taça peneirem a farinha, o fermento químico e o sal.

Tratem dos ingredientes líquidos: noutro recipiente, e com uma vara de arames, misturem o óleo, o açúcar, a pasta de baunilha, o leite vegetal e o sumo de limão. Mexam bem e devagar, para que a massa incorpore ar e fique fofinha.

Envolvam a compota e os morangos picados no preparado líquido.

Adicionem gradualmente os ingredientes secos aos líquidos, mexendo delicadamente até ficar homogéneo. Como os morangos picados ficam presos na vara de arames podem finalizar com uma espátula mas sem bater depressa para que o bolo não fique excessivamente denso.

A massa deve estar com alguma constância e um aspecto acetinado. Caso escorra demasiado adicionem um bocadinho de farinha de trigo; se estiver demasiado firme complementem com um fio de leite vegetal. O ponto ideal é a massa deslizar devagar quando vertida para a forma.

Levem ao forno por 40 a 45 minutos ou testem com um palito até ele sair limpo. Evitem abrir a porta do forno o máximo possível para diminuir o risco do bolo colapsar.

Deixem o bolo arrefecer antes de o desenformar. Enquanto isso, preparem a cobertura: batam as natas de soja com uma varinha de arames eléctrica ou com uma batedeira, acrescentando gotas de limão e pasta de baunilha. Também podem colocar xarope de tâmaras no lugar da baunilha.

Quando o bolo já estiver frio distribuam a cobertura e decorem com morangos frescos. Levem ao frigorífico por algumas horas (idealmente de um dia para o outro) para a cobertura firmar.
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07/03/2025

“Não cheguei ao topo da cadeia alimentar para comer alface”


O ano é 2025 e ainda ouvimos as mesmas justificações falaciosas e forçadas de há 20 anos ou até mais. Justificações para o injustificável, que é transformar um ser complexo, com sensações e emoções, num mero retalho despersonificado e que, aos nossos olhos, nos deixa bem longe do animal que outrora foi, tornando-o invisível. Uma descaracterização hedionda e tortuosa, transformando grotescamente um indivíduo numa mera comoditização. Que, um dia, estes argumentos, ainda lançados em loop infinito, diminuam até atingirem aquilo que verdadeiramente são – o ridículo. Que, um dia, precisar de contra-argumentar exaustivamente também diminua até deixar de ser necessário: será sinal de que a libertação animal está, finalmente, cada vez mais perto de ser conquistada. Até lá, continuemos a mostrar que todas as bases que sustentam estes hábitos especistas não são mais do que puramente infundados.

“Os nossos antepassados não aprenderam a fazer fogo para comer carne cozida e evoluir até onde estamos hoje para eu comer mato e começar o retrocesso.”

Os nossos antepassados são precisamente isso: antepassados. Os nossos antepassados viviam em constante modo de sobrevivência. Também não tinham os recursos e conhecimentos que temos actualmente, pelo que não existe lógica neste argumento ad antiquitatem. Nós não vivemos como eles viviam: então, para quê mencioná-los?
Os nossos antepassados descobriram o fogo e, agora, podemos usar esse fogo para cozinhar alimentos que não implicaram exploração e morte desnecessárias.

“Nós somos superiores aos animais.”

Ao longo dos séculos, o uso e abuso das diferenças (físicas, biológicas, entre outras) foram um entrave para a evolução civilizacional. Os esclavagistas defendiam que se explorassem negros referindo como estes eram menos inteligentes; os homens maltratavam as mulheres por considerarem-nas mais fracas fisicamente e intelectualmente; povos indígenas foram massacrados pelas mesmas razões, bem como crianças foram continuamente negligenciadas por serem mais vulneráveis do que os adultos. Se ainda hoje esse tipo de discriminações acontece, levando a acções violentas e criminosas, é por muitos insistirem que essas diferenças encontram-se acima de qualquer condição moral que garanta os plenos direitos a todo e qualquer indivíduo. Não passa de puro egoísmo que visa, exclusivamente, a protecção dos interesses pessoais de alguns em detrimento dos outros.

Essa desconsideração que leva o ser humano a classificar-se superior encontra-se também, e em larga escala, no modo como continuamos a tratar os animais não-humanos. Não é a inteligência, a força física, a capacidade moral, entre outros factores desse género, que definem a defesa da equidade. Se assim o fosse, um porco merecia ter mais direitos do que uma criança de três anos já que é mais inteligente. Se assim o fosse, indivíduos num estado avançado de demência não teriam direitos, já que perderam a sua capacidade moral.
Não são as nossas aptidões que nos tornam superiores aos animais não-humanos e que permitem que os exploremos para o nosso benefício. Os animais, assim como nós, sofrem — e, assim como nós, têm o interesse de não sofrer.

Mas os leões também matam animais para comer.

Estou perdida: primeiro nós podemos comer animais porque somos mais inteligentes do que eles, e agora podemos comer animais porque outros animais também o fazem? Afinal, em que ficamos?
Só o facto de não sermos leões é suficiente para esta comparação não ter sequer cabimento. Os leões não criam animais em massa: não os inseminam artificialmente, nem os manipulam geneticamente. Não matam mais de um milhar de animais por segundo e não os retalham em pedaços para serem dispostos em prateleiras comerciais. Eles, e outros animais carnívoros, necessitam de comer animais ao contrário de nós. Para eles é uma questão de sobrevivência, não de escolha.
Se temos competências racionais que nos separam da vontade superficial instintiva, e se temos também princípios morais que nos leva a questionar como devemos tratar os outros, porque não abrangemos essa capacidade e esses princípios em coisas tão simples como a alimentação?

Os nossos antepassados caçavam. Nós somos caçadores por natureza.

E pelos vistos os supermercados, com os cadáveres previamente preparados e embalados, substituíram a savana de outros tempos.
O ser humano foi caçador-colector há milhares de anos e caçava por sobrevivência e necessidade. Com o tempo evoluiu, sedentarizou-se, formou-se civilizacionalmente, começou a cultivar os seus próprios alimentos, adquiriu novos hábitos, novos pensamentos e novas preocupações sociais, políticas, religiosas, interpessoais, intrapessoais e morais. Nós somos fruto de uma evolução a todos os níveis e, actualmente, vivemos numa época em que a senciência animal é um facto e não uma suposição. Um caçador-colector sabia lá que os animais sofriam – provavelmente nem sequer tinha uma designação para classificar os animais. Para além disso, eles não conheciam e não tinham à sua disposição os milhares de produtos de origem vegetal que hoje temos. Simplesmente não faz sentido nenhum insistir nos costumes passados quando o presente é totalmente diferente.

Tu não és perfeitinha, sabes? Quando andas pela rua pisas e matas formigas, por isso só estás a perder o teu tempo.

Exigir perfeição a quem é imperfeito mas tenta fazer o seu melhor para provocar o mínimo de mal possível aos outros é brutalmente desonesto.
O facto de existirmos implica, obviamente, a morte de animais; mas, ao passo que tal não nos impede de ser contra as touradas ou contra os testes em animais, também não nos impede de deixar os animais fora do prato. Não é por não conseguirmos salvar uns que devemos ignorar aqueles que podemos ajudar. Assim como todas as filosofias, lutas e princípios de vida, o antiespecismo não é e não pode ser purista: no entanto, isso não é uma obstrução para a sua prática.

O ser humano evoluiu quando começou a comer carne, pelo que a evolução estagnará se deixarmos de a consumir.

O Robson Fernando de Souza, autor do Veganagente, tem uma resposta tão perfeita que não resisti em transcrevê-la aqui (se ainda não conhecem o site aproveitem para dar uma vista de olhos, é bastante informativo):
“Este argumento adopta uma visão que alterna uma abordagem darwiniana da evolução com um ultrapassado olhar lamarckista. Em relação ao passado, ele pode até ter algum sentido, se forem ignorados os questionamentos existentes sobre o passado alimentar distante do ser humano. Mas erra ao dizer que o vegetarianismo compromete a evolução humana, uma vez que a sedentarização e modernização das sociedades humanas tornou a nossa espécie livre das pressões selectivas naturais que outrora nos teriam requerido uma alimentação omnívora. Os humanos das sociedades modernas (...) já não precisam de caçar, nem mesmo de matar qualquer animal com fins de consumo alimentar. 

Há uma alegação semelhante paralela, de que o ser humano precisou de carne para aumentar o seu volume cerebral e, por isso, o vegetarianismo ameaça causar um retrocesso. Mas ela tem uma essência basicamente lamarckista, baseada na transferência hereditária não genética de mudanças corporais e já refutada pela teoria darwiniana e pela genética mendeliana, ao crer que o cérebro aumentará à medida que as pessoas continuem a comer carne (...).”


Não cheguei ao topo da cadeia alimentar para comer alface.

De todos os animais, somos os únicos que utilizamos um sistema artificial para provocar uma criação daqueles que matamos para comer. Isso não faz de nós predadores por natureza, contrariamente aos animais que caçam. Para além disso, considerar correcto e natural explorar e/ou mesmo matar os mais fracos é igualmente utilizado como argumento por aqueles que perpetuam crimes contra o seu próprio semelhante. Se o senso comum é peremptório ao afirmar que não temos o direito de dominar os outros, só por esses outros serem mais frágeis, então também não temos o direito de dominar os animais não-humanos.

E se parares numa ilha deserta e só estiver lá uma galinha?

– Sempre tenho companhia;
– Cuido da galinha, chamo-a de Mimi e vamos viver grandes aventuras;
– Como raio a galinha foi parar a uma ilha deserta?
– E porque raio irei parar a uma ilha deserta?

Se todos virassem vegetarianos, os animais utilizados para consumo deixariam de ser úteis e extinguir-se-iam.
Este é um dos raciocínios que mais me confunde, tanto por carecer de lógica como por existir outro totalmente oposto: de que, se pararmos de comer animais, estes serão em demasia e tomarão conta de tudo. Só a disparidade destes dois raciocínios mostra a falácia presente em ambos.

“Temos de perceber que a produção de produtos de origem animal assenta numa base de oferta e procura; isso significa que, quando vamos a um supermercado e compramos determinados produtos, estamos a exigir que estes continuem a ser fornecidos.
Os fazendeiros não criarão animais que sabem que não conseguirão vender, simplesmente por não ser viável economicamente. Se aliarmos isso com o facto de que o mundo não se tornará vegano de um dia para a noite, o processo será gradual durante um longo período de tempo, o que significa que quantas mais pessoas se tornarem veganas, cada vez menos animais serão criados para a produção de derivados de animais. Assim, num cenário em que todas as pessoas são veganas, não haverá uma situação em que tenhamos biliões de animais vivos a andar por aí, em que ou os tenhamos de libertar na Natureza ou que os tenhamos de matar, porque o número de animais que estão a ser criados diminuirá de acordo com a proporção de pessoas veganas.
Quanto ao outro argumento, de que se os animais não forem criados para consumo acabarão extintos, podemos vê-lo desta forma: se não criássemos estes animais eles não existiriam de qualquer das maneiras, visto que eles são fruto de uma selecção e mutação genética por nós criadas. Por causa dessas mutações, dificilmente esses animais conseguiriam sobreviver sozinhos na Natureza, pelo que precisam dos humanos para cuidar deles, algo que os santuários já fazem.
Além de tudo isso, ao erradicarmos a pecuária estamos a permitir que os habitats naturais (os que foram destruídos por causa dessa indústria) ressurgem, o que também permite que a vida selvagem e a biodiversidade natural floresçam.” 
Ademais, afirmar a “utilidade” que os animais têm para o humano é uma objectificação clara dos mesmos. Acabamos por esquecer que possuem um propósito na vida e consideramos correcto explorá-los para nosso benefício.
Argumentar que as vacas, os porcos e as galinhas vão extinguir-se se pararmos de comê-los leva a recordar o que os apoiantes da tauromaquia ameaçam constantemente: que o fim das touradas levará ao desaparecimento do touro bravo (e sabemos que isso não é verdade).

A minha comida caga na tua.
Esta é já um clássico: nem pode ser considerada um argumento, mas precisava mesmo de a incluir aqui.  Considerem-na um bónus na categoria de tesourinhos deprimentes.
As vacas, os porcos e até mesmo os peixes ingerem os seus próprios dejectos. Nas pecuárias, a higiene é tão nula que os animais acabam por não ter outra opção senão comer o que sujaram com as suas fezes. Os seus insumos também não escapam incólumes: por exemplo, um ovo é poroso, pelo que fica facilmente contaminado com matéria fecal, e o leite de vaca é uma miscelânea de fezes, sangue e células somáticas que a pasteurização não consegue eliminar por completo. Mas sempre é mais fácil cuspir uma frase sem sentido e em tom de deboche triunfante do que pensar um pouco nesses pormenores demasiado óbvios 🙃



Imagem: Pexels
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antiespecismo comer animais crueldade com animais direitos dos animais
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07/01/2025

Pão de ‘queijo’ e um pedido de desculpa pela minha ausência

Pois é, o interlúdio metamorfoseou para uma ausência. Não que me tenha esquecido do blogue — pelo contrário, pensei inúmeras vezes nele, nos temas que pretendo escrever e nos textos que quero partilhar — mas o tempo insiste em ser inexistente, além da saúde mental permanecer demasiado fragilizada para dar asas a exercícios intelectuais. Tenho um quintilião de livros sobre ética animal para estudar, de modo a apresentar as minhas considerações por aqui, mas nem uma frase consigo apreender sequer. É como se o cansaço fosse uma nimbo-estrato de ferro, bloqueando a minha mente de capacidades básicas como ler e escrever. E, a cada dia que passa ,é como se essa nuvem se enrolasse mais, e mais, e mais, transformando-se num traiçoeiro novelo espinhoso e emaranhado.

E, se de um lado o cansaço é um enorme condicionante, no outro está o pessimismo e a desesperança, filhos das inúmeras tragédias que, impotentes, actualmente assistimos e da desconfortável impressão de que estamos embriagados na apatia e na intolerância. Cada vez mais sinto que o altruísmo e a compaixão estão a desvanecer perigosamente, o que me deixa a pensar se ainda é pertinente semear gentileza numa batalha que parece estar cada vez mais perdida. Antes conseguia sonhar, mesmo estando o mundo doente, mas tudo isso findou. O niilismo só não se assenhoreia de mim porque o coração, apesar de trucidado, todos os dias assiste como o ser humano é bom por natureza e que, precisamente por isso, vale a pena continuar a resistir. A libertação animal parece-me cada vez mais longínqua, tendo em conta como nos temos aprisionado uns aos outros com os grilhões da ganância e do ódio, mas a luta tem de prosseguir, mesmo que seja a minoria a abraçá-la. Esta e outras mais, pela liberdade de todas e de todos, tenha pele, pêlo, penas, escamas ou simples casca.

Finalizado este desabafo, acrescento que continuo sem saber quando voltarei a estar mais activa por estes lados: no entanto, garanto que tanto o blogue como a causa não estão olvidados e que pretendo, assim que me sentir melhor, retornar com consistência. Também tenho intenção de criar uma nova rubrica, enquanto me encontro incapaz de desenvolver conteúdo para os Rascunhos Antiespecistas, com dicas de leituras voltadas para os mais pequenos. Até lá, permanecerei um pouco mais no casulo que teci para me recuperar e deixo-vos com uma espécie de receita de uma espécie de pão de ‘queijo’ (também chamado de pão de beijo ou de pão sem queijo, sendo que o chamo de bolinhas de tofu). Não sei se é propriamente correcto designá-la de receita por ter sido feita a olho, mas é tão saborosa que tinha de partilhar.


Vão precisar de:

Tofu firme

Azeite

Sal fino

Levedura nutricional

Polvilho doce e polvilho azedo

Pré-aqueçam o forno a 180°C.

Esmaguem o tofu até ele ficar o mais despedaçado possível. Acrescentem sal e levedura nutricional a gosto (eu coloco muita levedura, fica espectacular) e azeite o suficiente para obter uma mistura levemente hidratada mas não oleosa e nem demasiado seca. Envolvam tudo muito bem, aproveitando para moer ainda mais o tofu.

Aqui é a parte em que a intuição trabalha com a precaução: coloquem, aos poucos, os polvilhos, um de cada vez. Eu coloco um pouco mais de polvilho doce do que azedo por gostar das bolinhas mais macias, mas se preferem uma capa mais crocante invertam e adicionem um pouco mais de polvilho azedo do que doce. Misturem até obter uma consistência firme mas não dura. O preparado também não pode ficar com uma textura farinhenta: deve estar húmido e sem colar nas mãos limpas e secas.

O preparado necessitará de ficar, sensivelmente, com uma consistência similar a esta. Aqui fiz cerca de 700 gramas de tofu, o que rendeu 22 bolinhas (teria dado mais se uma certa mini madame não tivesse assaltado a tigela continuamente 🌚).

Moldem em bolinhas e distribuam no tabuleiro do forno forrado com papel vegetal, deixando assar por 20 minutos.

Retirem do forno e deixem arrefecer por alguns minutos: quentinhas são deliciosas, mas também são boas frias. Comam tudo e não deixem nada 😊


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09/04/2024

“A alimentação vegetariana não é saudável”


Quando parei de comer animais aconteceu um fenómeno para lá de espectacular: de repente, quase toda a gente virou nutricionista do dia para a noite. O mais engraçado é que antes, quando tinha quebras de tensão e gripe com frequência, ninguém me dizia nada porque eu comia carne. Agora, que já não sei mais o que é ter quebras de tensão e muito raramente me constipo, todos têm alguma coisa a dizer relativamente à minha alimentação e como estou a fazer tanto mal à minha saúde.

Ouvi tantas vezes que a alimentação vegetariana não é saudável que já perdi a conta: aqui, exponho as inferências que consegui lembrar. Todas as respostas têm como base estudos credenciados e o conhecimento de nutricionistas e médicos.
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07/02/2024

Cosmética natural | Desodorizante Miristica



Procuram por cosméticos que, além de não testados em animais, só têm ingredientes do bem e são artesanais? Então fiquem por aqui, que este post é para vós. Quem me segue há algum tempo sabe que sou fã da Miristica, um dos nossos tesouros de cosmética nacional e feita à mão. Descobri a marca no ano em que a Inês a lançou, já lá vão quase 10 anos. Das suas alquimias bonitas que já usei, o desodorizante ainda não tinha sido uma delas – e continuo sem acreditar que só decidi experimentá-lo agora.

Andava desesperadamente à procura de um desodorizante que me ajudasse a amenizar o odor axilar: o corpo tem as suas maneiras peculiares de se transformar depois de ser casinha de outro ser vivo e, pelos vistos, achou interessante apresentar-me a belíssima da bromidrose 🌚 Perdi a conta de quantos desodorizantes experimentei, tanto artesanais como convencionais, sendo que nenhum estava a conseguir ser eficaz. Até o formato spray, que tinha abandonado há anos por razões ecológicas, tornei a usar tal foi a aflição. Tudo em vão. As bactérias das minhas axilas só se riam das minhas tentativas frustradas de as neutralizar.

Foi por (um feliz) acaso que efectuei uma encomenda com a Inês e aproveitei para conversar com ela sobre esta situação. Passados uns dias recebi um desodorizante dela juntamente com a minha compra ♡ Este é com aroma a eucalipto, obtido exclusivamente a partir de óleo essencial, e a base é de óleo de coco, cera de soja (não OGM) e manteiga de karité prensada a frio. Os restantes componentes são o bicarbonato de sódio, argila branca, amido de milho e óleo essencial de tea tree, que é naturalmente um antibacteriano. É isento de água, o que o torna altamente concentrado, pelo que uma pequena dose basta.

Coloquei uma camada fina enquanto fazia figas com todas as forças. A textura é granulosa por conta do bicarbonato de sódio mas não arranha a pele e o desodorizante espalha-se bem. Não mancha a roupa e, como fica sequinho assim que é colocado, não forma aquela espécie de película super desagradável que parece baba de camelo raivoso. Logo por aí gostei dele e desejei muito que resultasse comigo.

Nas primeiras aplicações não conseguiu fazer efeito, devido à pele ter sido constantemente impregnada por antitranspirantes: assim como fiz com os desodorizantes anteriores continuei a insistir, na esperança de que funcionasse.
E assim o foi. Ao fim de sete dias, mais coisa menos coisa, o cheiro passou a ser zero. Os dias passaram para semanas e cá estamos nós implacáveis. Agora as minhas axilas são um pequeno eucaliptal graças à Inês. Ah, mulher, que sejas eternamente abençoada ♡

Os desodorizantes da Miristica são sustentáveis desde o conteúdo à embalagem, sendo armazenados em frascos de vidro. Há em dois tamanhos e, além de eucalipto, há de alfazema ou neutro (sem aroma).

Preço: 6€ (40ml) e 14€ (14ml)


MIRISTICA
100% vegano ♡ 0% de crueldade ♡ Ecológico
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08/01/2024

Rascunhos Antiespecistas | Os peixes também sentem



Finalmente: três quartos de século depois de ter anunciado, consegui iniciar esta rubrica! Já há algum tempo que pretendia partilhar por aqui textos mais teóricos relacionados com direitos dos animais, mas é conteúdo que exige duas coisas que, neste momento, não tenho: cabeça e tempo. Ainda assim, estava a custar-me imenso não avançar com ela, pelo que pensei em, pelo menos, traduzir algum estudo relacionado com a senciência dos animais –  um tema que considero de suma importância divulgar e desenvolver para uma compreensão mais aprofundada sobre estes nossos irmãos tão maltratados por nós.

Então recordei-me de um artigo que li, há alguns anos, sobre as investigações de Jonathan Balcombe sobre os peixes, as quais ele reuniu num livro: encontrei a obra em inglês e já a adquiri para, futuramente, escrever aqui os meus pareceres sobre.

Já escrevi um artigo extenso sobre a senciência dos peixes, no qual juntei diversos estudos científicos: no entanto, por serem dos animais mais discriminados por nós nunca é demais sabermos mais sobre eles.

Sobre o autor: Jonathan Balcombe é um etólogo inglês. O seu trabalho está distribuído em mais de 60 artigos científicos e em seis livros, todos eles relacionados com a senciência e o comportamento animal. É editor associado da revista Animal Sentience, da Humane Society Institute for Science and Policy, e dá palestras sobre comportamento animal e a relação que temos com os mesmos.

Este texto é uma tradução de uma entrevista para a NPR.

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Os Peixes Também têm Sentimentos: A Vida Intíma dos Nossos Primos Subaquáticos
Jonathan Balcombe | NPR • Junho de 2016

Quando pensamos em peixe, provavelmente é na hora do jantar. Já Jonathan Balcombe, por outro lado, dedica-se a investigar sobre a vida emocional dos peixes. Balcombe, que actua como director da [revista] Animal Sentience da Humane Society Institute for Science and Policy, declarou a Terry Gross, da Fresh Air, que os humanos estão mais perto do que nunca de entender os peixes. “Graças aos avanços na etologia, sociobiologia, neurobiologia e ecologia, podemos agora compreender melhor como é o mundo para os peixes”, diz Balcombe.

No seu novo livro, What A Fish Knows: The Inner Lives Of Our Underwater Cousins, Balcombe apresenta evidências de que os peixes têm uma consciência — ou “senciência” — que lhes permite sentir dor, reconhecer humanos individuais e ter memória. Ele argumenta que os humanos deviam avaliar as implicações morais em relação a como capturamos e exploramos os peixes. “Nós matamos entre 150 milhões e mais de 2 biliões de peixes por ano – e a forma como morrem (na pesca comercial) é, de facto, bastante sombria”, alerta. “São inúmeras as mudanças que se fazem necessárias para se reflectir numa melhoria na nossa relação com os peixes”.

Destaques da entrevista

Sobre como podemos saber se os peixes estão a sentir dor

O estudo mais primoroso sobre a dor em peixes que já vi foi feito há alguns anos por uma bióloga chamada Lynne Sneddon, no Reino Unido. Ela recorreu a peixes-zebra, que são comumente usados em pesquisas. E o que eles [grupo de estudo] fizeram foi colocar um cardume de peixes-zebra — não me lembro de quantos, talvez uns trinta — num tanque complexo que tinha dois espaços. Um dos espaços estava ornamentado, com pedras e vegetação: já o outro era árido. Provavelmente já adivinhaste em qual espaço os peixes passaram todo o tempo – no ornamentado. Os peixes apreciam lugares para se esconder e também de um ambiente estimulador.
Depois, injectaram nos peixes uma de duas substâncias. Uma delas foi uma solução ácida, conhecida por ser cáustica e presumivelmente dolorosa para os peixes, caso eles sintam dor. A outra, administrada em metade dos peixes, que foram seleccionados aleatoriamente, era soro fisiológico. Os peixes foram observados, para ver como se comportavam, e todos continuaram a nadar na parte do tanque mais ornamentado. Então, foi dissolvida uma solução analgésica no espaço vazio – e eis que alguns peixes começaram a migrar e a nadar para ficar naquela área totalmente indesejável, tendo sido apenas aqueles que foram injectados com o ácido e não os que foram injectados com a solução salina. Penso que seja uma demonstração bastante convincente da dor nos peixes.


O que significa senciência animal

A senciência é como a gravidez: estás grávida ou não; és senciente ou não. E se um animal é senciente, o que é indicador de algum tipo de consciência, com particularidade na capacidade de sentir dor e, ainda diria, por extensão, de sentir prazer, então, para mim, isso figura que o animal tem tracção moral, ou deveria ter tracção moral – grosso modo, que o animal merece a consideração dos outros. Porque aquele animal pode ter um dia bom e um dia ruim e podem acontecer coisas boas ou ruins com ele. E isso, como eu disse, é a base da ética.

Sobre alguns peixes de recife que parecem reconhecer mergulhadores individuais

Houve um novo estudo que mostrou o reconhecimento individual de rostos humanos por peixes; sendo assim, é altamente provável que reconheçam mergulhadores individuais. Eles aparecem [para os mergulhadores] para serem acariciados; quase parecem cães. Não sei se eles rolam para que a barriga seja acariciada, embora alguns tubarões entrem num aparente estado de euforia quando têm a barriga esfregada.

Sobre com os peixes usam uma “linha lateral” para sentir a pressão da água e navegar à noite

[Os peixes] têm alguns outros sentidos muito interessantes e que valem a pena mencionar. Um deles é a sensação de pressão ou movimento da água graças a uma linha lateral. Estamos agora a falar de peixes ósseos, não de tubarões ou raias; são os peixes ósseos que possuem essa linha. Podemos notar uma fileira escura de escamas ao longo da linha central de um peixe ósseo, e essa é, na verdade, uma sombra projectada por essas escamas específicas. Há uma depressão em cada uma dessas escamas, e nessa depressão existem pequenas câmaras em forma de copo, que contêm gel e pequenos pêlos que projectam e detectam mudanças de pressão. É muito útil para navegar à noite, para evitar coisas perigosas em condições de visão limitada, entre outras situações do género.

Sobre os sentidos eléctricos que alguns peixes possuem

Alguns peixes, incluindo tubarões e acho que também as raias, são electrorreceptivos, ou seja, podem detectar sinais eléctricos de outros organismos. Também há peixes electroprodutores: os peixes-faca da América do Sul e os peixes-elefante são ambos produtores de electricidade. São providos de EODs, que são descargas eléctricas de órgãos, e usam-nos como sinais de comunicação – e o modo como o fazem é impressionante: por exemplo, eles mudam a própria frequência se nadarem perto de outro peixe com frequência semelhante, para não se atrapalharem e se confundirem. Eles também mostram deferência desligando os seus EODs quando passam por um detentor de território – até porque não é boa ideia irritá-lo, pelo que provavelmente é melhor ficar “em silêncio” durante esse momento.

As percepções e habilidades sensoriais dos peixes são fruto de mais de 400 milhões de anos de evolução, pelo que não é propriamente surpreendente que eles tenham formas fascinantes de sentir os seus ambientes.


Sobre os peixes recorrerem a flatulência como meio de comunicação

Há um exemplo realmente curioso que envolve arenques e que não resisto em citar. Acho que se inventasses uma frase que melhor captasse isso, uma frase delicada, comunicação flatulenta talvez fosse o termo apropriado. Eles [os arenques] vivem em cardumes enormes e emitem gases do ânus em grande número, o que emite um som. E eles parecem usar isso como um dispositivo de comunicação – talvez para sinalizar aos outros que é hora de subir ou descer da coluna de água, por ser aquela altura do dia em que os predadores aparecem mais.

Sobre o comércio de peixes e a popularidade do cirurgião-patela, o peixe apresentado em Finding Dory

Alguns dos métodos de captura [destes peixes] são hediondos: envenenamento por cianeto, que mata muitos dos peixes visados, bem como aqueles que não são alvo, além de ocasionalmente serem utilizados dispositivos explosivos. E depois temos as vicissitudes do transporte, onde são levados através dos continentes e a taxa de mortalidade é bastante elevada.
A Dory [do filme da Pixar] é um cirurgião-patela: como o filme vai chamar muita atenção para esta esta espécie, é certo que a mesma será popular no comércio de peixes [para aquários]. Infelizmente, os cirurgiões-patela, ao serem capturados na natureza, estão sujeitos a alguns males dessa indústria. Precisamente por isso, estamos a fazer uma campanha activa na tentativa de desencorajar as pessoas de comprarem esses peixes: quando compras um produto estás a dizer ao fabricante para continuar a vendê-lo e nós não queremos que isso aconteça. ■


Imagens: Pexels e Google
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09/11/2023

Documentário mostra ligação entre exploração animal e racismo ambiental


Por mais que tentemos desligar os movimentos sociais uns das outros, a verdade é que estes permanecem interligados. Negá-lo só ajuda a fortalecer ainda mais os problemas que procuramos resolver e as opressões que sonhamos em dissolver. E o veganismo não é excepção.

A importância de encarar o veganismo como luta política no colectivo — fugindo da imagem que ergue maioritariamente, como um estilo de vida e mero consumo individual — é fulcral para conseguirmos as tão desejadas jaulas vazias. Para isso, tal óptica requer compreender como as discriminações se comunicam – mostrando, assim, que sem libertação humana não poderá haver libertação animal.

The Smell Of Money abre uma janela para visualizarmos um pouco esse vínculo – neste caso, entre o especismo e o racismo, no qual a natureza também é afectada. O documentário denuncia os impactos sofridos pelos habitantes de Duplin, na Carolina do Norte, EUA, causados pela Smithfield, uma das maiores exploradoras de porcos. Os moradores são predominantemente negros e, apesar da batalha judicial que decorre há décadas, a empresa continua a escudar-se com a indiferença e parca influência política, visto a Carolina do Norte permitir que pecuárias descartem os dejectos dos animais borrifando-os pelo ar com recurso a máquinas. As consequências são terríveis: restrição de ar puro e pouco acesso a água limpa, bem como os excrementos revestem constantemente as paredes exteriores das casas.

Entre 2018 e 2019, um dos juízes que tratou deste processo referiu que, se fossem mansões de ricos e políticos, no lugar de pessoas pobres, a celeuma teria sido imediatamente resolvida com o cessar da empresa pecuária. A sua declaração, brutalmente crua mas necessária, escancara como o sistema ignora descaradamente indivíduos de certas classes e etnias, bem como não olha a meios para transformar animais em lucro.

Kate Mara, uma das produtoras do documentário, declarou: “Esperamos que o filme enfureça as pessoas pelo flagrante desrespeito da pecuária pelo bem-estar animal, ambiental e pelas comunidades carentes, nas quais a indústria instala-se e destrói vidas. Não podemos continuar com o nosso actual sistema alimentar e ignorar o racismo ambiental que assola estas comunidades.”

O documentário está actualmente a ser exibido em alguns cinemas estadunidenses e, de acordo com o site oficial, ficará brevemente disponível em streaming. Vejam o trailer abaixo:


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05/09/2023

Nova rubrica do blogue: Rascunhos Antiespecistas



Quando idealizei o blogue, há uns bons anos, a intenção primeira era partilhar textos de cariz mais teórico sobre direitos dos animais. Sempre senti que esta esfera é bastante esquecida e que merece ser um pouco mais trabalhada por, a meu ver, ser onde começa toda a acção de sensibilização e informação – e, além disso, enriquece e fortalece bastante a componente prática da causa em questão.

Involuntariamente desviei-me do principal objectivo do blogue pelo que, depois de algum descanso mental e reajustamento de prioridades, decidi criar os Rascunhos Antiespecistas, uma rubrica especialmente dedicada a conteúdo teórico sobre tudo o que esteja ligado a ética animal. Nela encontrarão:

– Textos filosóficos sobre ética animal;
– Traduções de artigos científicos sobre senciência e emoções nos animais;
– Artigos sobre antiespecismo interseccional.

Para terem uma ideia do tipo de textos que irão compor esta rubrica, espreitem:

Os animais na mitologia grega

Podemos amar e comer animais?

O nosso fascínio pelos animais consegue ser mórbido

O desafio do veganismo: costumes especistas e manipulação publicitária

Emoções nos animais, de Marc Bekoff

Senciência e sentimento de si nos animais

Matar animais: o primeiro passo para a psicopatia

Além desta rubrica, irei passar a apresentar documentários e livros sobre direitos dos animais, com o intuito de enriquecer ainda mais toda esta temática.

Não basta querer combater o especismo: é vital desconstruí-lo e isso envolve mergulhar em mares revoltos e desconfortáveis, mas que ajudam a despertar a nossa consciência para a relação que estabelecemos com os animais – e como a mesma é terrivelmente injusta, cruel e alimenta outras tantas opressões sociais. Com esta rubrica pretendo, além de regressar ao estilo de escrita que mais gosto, convidar, a quem tiver interesse, a uma reflexão mais profunda sobre a luta antiespecista e tudo o que a ela está interligado. Tenho vários assuntos que desejo desenvolver mas que necessitam de ser estudados com calma, o que tornará o desenrolar desta rubrica demorado – todavia, com o coração tranquilo, valerá muito mais a pena ♥

imagem: @call.me.cliff
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07/07/2023

Sobre mudanças e recomeçar


Pois é. O desenrolar da vida é uma montanha-russa repleta de metamorfoses que nos levam a redefinir as nossas prioridades. É um tecer de casulo que começa por ser confuso, até mesmo doloroso. Muitos novelos amontoam-se na cabeça e embrulham-nos o estômago com a sensação de um vazio que teima em invadir o nosso âmago quando mudanças abruptas surgem, qual turbilhão que se forma sem qualquer aviso. Mas quando abraçamos esta tempestade que, inicialmente, nos magoa, a calma irrompe e abraça-nos de volta. E que bom nos apercebermos que é dessa calma que precisamos, em vez de contra ela lutarmos.

Desde 2021 que me mentalizei que ia deixar de conseguir escrever no blogue com frequência. Foi assoberbante reconhecê-lo, já que esta minha casinha digital, a escrita e a causa animal são-me ternamente importantes. Ainda tentei equilibrar todos os pratos que já tinha e os novos que repentinamente se empilharam, mas a saúde mental começou a vergar, perigosamente, com tanto peso. E, antes que a mesma se estilhaçasse, eu própria deixei que alguns desses pratos caíssem.

Neste caso, as redes sociais.

Decidi sair do Instagram. As exigências da transmutação bonita (e também bastante caótica, mas sobretudo bonita) que ocorreu no meu quotidiano mostraram-se incompatíveis com o ritmo imposto pelas redes sociais: um ritmo sufocante, que me pressionava a criar conteúdo mesmo estando sem ideias, disposição e, principalmente, tempo.
Desacelerar era vital. No entanto, quando ficava alguns dias sem publicar, a punição revelava-se severa: tanto era o algoritmo que me invisibilizava, cortando o alcance do meu trabalho, como as próprias seguidoras não perdoavam e paravam imediatamente de o ser. Então, na tentativa impossível de equilibrar todos os tais pratos, negligenciei o blogue.

E negligenciei-me a mim.

Sentia que precisava de aplicar uma dedicação ao Instagram que não podia dar. Estava em negação por acreditar cegamente que, ao mínimo milímetro de inactividade, estava a falhar com os animais. Acreditava que atingir uma certa quantidade de gostos era fulcral e que tal tanto espelhava a qualidade do meu trabalho como o quanto eu tinha conseguido divulgar sobre a causa. Estava presa numa teia de insanidade que eu própria originei.

Outra situação que alimentava ainda mais todas estas camadas danosas era o formato curto das descrições, que me forçava a encafuar dizeres tão complexos em meia dúzia de linhas. Não poder escrever sem limite de caracteres frustrava-me imenso.

A fragilidade da minha saúde mental devorava compulsivamente toda esta nuvem de veneno e, aos poucos, compreendi que não podia continuar mais. Tinha deixado de ser eu: sentia-me um autómato frio e metálico em vez de uma coisa orgânica, feita de carne e sonhos, e isso provocou muitas feridas.

Vivemos num momento em que privilegiamos conteúdo dinâmico mas que seja o mais compactado possível, para simplesmente o mastigarmos e descartamos ao fim de dois minutos. Textos longos são a total antítese de tudo isso e, consequentemente, a resistência aos blogues é enorme. Quando parei de postar no Instagram (ainda permaneci nos stories, mas em vão) as visitas por aqui caíram a pique: de início foi chocante, já que estava habituada a receber milhares de visualizações diárias, e cheguei a considerar voltar a passar raiva no Instagram, mas o desejo de escrever sobre os direitos dos animais com a devida atenção que merece, de desenvolver argumentos e de produzir artigos com qualidade não mo permitiu e ainda bem. E, maiormente, ser incapaz de conciliar a vida pessoal com toda esta azáfama tecnológica também não mo permitiu,
e ainda bem.

Assim, com esta mudança o meu trabalho deixou de ficar fragmentado, abrindo o espaço que eu necessitava para voltar ao conceito inicial do blogue – textos mais reflexivos e teóricos sobre ética animal. Foi uma peça fundamental que acabou por ficar olvidada e não pretendo repetir esse erro.

Poder respirar fundo e utilizar as horas que despendia em publicações do Instagram para atender as minhas novas responsabilidades foi crucial para a cicatrização das sevícias emocionais. Ter optado por ficar exclusivamente com o blogue e saber que, nele, posso escrever à vontade tirou uma carga monstruosa dos meus ombros. Sim, vou deixar (na verdade já deixei) de ter inúmeras leitoras mas, depois de olhar para a situação num todo, aceitei que esse sacrifício, além de inevitável, é necessário. Finalmente estou genuinamente feliz e, para mim, essa alegria passou a ser mais relevante do que números.

A todas as pessoas que me liam e pararam de o fazer; a quem seguia o meu trabalho somente pelo Instagram e, por isso, deixou de acompanhar; a quem ainda me acompanha: com todas as artérias do meu coração, agradeço a cada uma de vós. Ideias e projectos estão a fermentar na minha cabeça e espero partilhá-los, quiçá, num futuro próximo e quando o tempo for suficientemente livre para o conceder ♥
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22/05/2023

Cosmética natural | Cuidar a pele do bebé com Saponina ♡



Se tivesse de escolher uma palavra para definir a Saponina seria cuidado: desde os ingredientes à estética minimalista e delicada, é impossível não reparar na dedicação que a Liliana tem, com gosto genuíno, no seu trabalho. Recordo-me quando conheci a Saponina há uns bons anos: na altura, a Liliana ainda só fazia velas perfumadas, saquinhos terapêuticos (com arroz e lavanda que, quando aquecidos ou arrefecidos, ajudam nas dores de cabeça, menstruais, etc.) e pouco mais. De longe fui acompanhando o crescimento do seu catálogo que, agora, conta com uma quantidade generosa de cosméticos, incluindo uma linha para bebés – que descobri, precisamente, por andar à procura de produtos para a minha bebé que fossem mais ecológicos. E que descoberta feliz esta ♡
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18/04/2023

Maternidade Vegana com a Bárbara Magalhães 💙 barbaRAWords


Bárbara. Uma força da natureza. Livro aberto, coração resiliente. Mãe fera, mãe colo. Que se abre, inteira e infinita, num abraço que carrega três amores. Alma livre, inspiradora, por remar contra a maré das tradições que continuam a legitimar violências várias – desde o pequeno animal humano ao animal não-humano maior. Obviamente que ela não podia ficar de fora desta rubrica — caso contrário ficaria uma sensação de algo incompleto — e, assim como eu, espero que adorem cada palavra que ela aqui partilhou ♥


Fala um bocadinho de ti.

Chamo-me Bárbara, sou mulher fascinada pela vida, mãe maravilhada de 3 filhos veganos (11, 5 e 3 anos) e namorada apaixonada pelo homem que caminha a meu lado. Sou, enfim, uma mulher rendida aos sentimentos incríveis que se experimentam no turbilhão duma família recheada.
Sou licenciada em Psicologia, mas actualmente prefiro mergulhar nos assuntos da saúde física, especialmente na sua associação com a alimentação e o estilo de vida. Sou autora dos livros Lexy, o menino vegano e Onde está a proteína? e descobri uma paixão pelo desporto aos 43 anos: a musculação. A vida é cheia de descobertas boas.


Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?

Tornei-me vegana em 2009. Já tinha deixado de comer animais em 1999 depois de ter visto um documentário sobre a exploração de animais em diversas áreas. Aquilo abanou o meu mundo: chorei durante semanas sempre que me lembrava, como pude eu estar adormecida tanto tempo?
Mas, de 99 a 2009, embora tivesse longos períodos como vegana, acabava por ceder às tentações do queijo: na altura não existiam queijos veganos, senão teria sido muito mais rápido. Se compararmos as opções veganas de hoje com as que existiam naquela década, é absurdo. Quando me tornei ovolactovegetariana só existia soja desidratada e uns burgers que sabiam muito mal, hahaha. Eu sabia que animais não comeria mais mas o queijo foi realmente difícil; está provado que ele é, de facto, aditivo. Mas consegui, hoje sinto zero falta.


Como foi a tua alimentação durante as tuas gravidezes? Que cuidados tiveste?

Tive mais cuidados a nível de suplementação: reforcei iodo, B12, vitamina D3, K2, os ómegas. Tentava ser constante, pois, sabia que era importante ter bons valores, tanto para a gravidez como depois para amamentar (ainda amamento em tandem os dois mais novos). Também reforcei alimentos ricos em ferro, especialmente no segundo trimestre. Durante a gravidez e o aleitamento ingiro também mais calorias do que fora desse período, claro, tendo cuidado para ingerir alimentos variados, como vegetais, frutas, sementes, frutos secos, cereais, dando preferência aos que não têm glúten, super alimentos, etc.

Arte de Catie Atkinson

Como é a alimentação em casa? Quais são as refeições preferidas dos teus filhos?

É uma alimentação variada, tentando que seja a maioria do tempo bem saudável, mas também com alguns ‘pecados’ veganos de vez em quando. Não deixamos de comer as nossas pizzas, bolos, gelados! A preferida do Lexy é lasanha caseira, a do Leonardo são couves, grelos, brócolos, ele delira com isso a qualquer hora do dia. O mais novo gosta muito de batidos com frutas, mas também adora uma coisa um pouco menos saudável mas que tenho de esconder no frigorífico para ele não estar sempre a pedir: vuna (aquela imitação de atum).


Como mãe de três crianças, como lidas com o especismo do dia-a-dia? E como é que as tuas crianças reagem a ele?

Já são tantos anos disto, que honestamente quase já não é assunto. Mas já foi. Na primeira gravidez tive de ouvir coisas como “Estás a por a vida do teu bebé em risco com essa alimentação” e depois dele nascer, “Não vais ter leite nenhum”.
Mas sabes, quando aos 6 meses fui à pesagem e o médico disse “Ele está mesmo gordinho e saudável, andas-lhe a dar papas, não?” e eu respondi “Não, é mesmo só o meu leite”, ele mudou a sua perspectiva sobre esta alimentação, dizendo coisas como “Eu nunca vi um leite tão nutritivo como o teu, de facto a alimentação vegana tem tudo”. Não foram necessárias discussões: eles foram o exemplo vivo de que é possível ter uma gravidez saudável, filhos saudáveis e amamentação prolongada com uma alimentação plant based.


O teu filho mais velho foi a tua inspiração principal para o teu livro infantil “Lexy, o Menino Vegano”. Quando decidiste escrever o livro, qual foi o teu principal objectivo? Irás escrever mais livros infantis sobre veganismo futuramente?

A ideia para o livro começou em 2015; lancei o livro em 2016. O meu filho estava a crescer e não havia um só livro em português sobre veganismo na altura para lhe mostrar: encomendei um livro dos Estados Unidos mas ele era focado no mal estar dos animais. Eu queria falar do assunto duma forma leve, divertida, uma personagem com quem ele se identificasse, pois era o único vegano na sua escola. E na verdade foi um grande sucesso por isso, porque muitas famílias não veganas viram no livro Lexy, o menino vegano uma ferramenta boa para apresentar o assunto aos filhos. Também nas escolas foi e ainda é muitas vezes debatido com as crianças. Fiz algumas apresentações em escolas e todas foram de muito sucesso. E sim, estou a escrever um novo livro infantil no momento que espero lançar ainda este ano!!


Partilhas conteúdo sobre maternidade. Achas que as mães estão apagadas dentro do movimento vegano? O que podemos e dever fazer para as mães terem mais voz e espaço no veganismo?

É assim, como eu sigo várias mães veganas, não vejo esse apagamento que referes, mas talvez sim, talvez fosse importante mais mães falarem da sua maternidade vegana para desfazer tantos medos e mitos que ainda existem. Devíamos ver mais entrevistas, mais debates, mais páginas voltadas para a maternidade vegana, para que se banalize o assunto, já que é uma forma de alimentação e de vida cada vez mais comum.

Arte de Katie M. Berggren

Também partilhas sobre criação com apego e a importância de respeitar as crianças, ambas um pouco distantes da educação infantil padrão. A teu ver, já há alguma mudança geral nesse aspecto ou ainda muita resistência? Como podemos mostrar às pessoas adultas que a criação com apego não é ‘estragar’ as crianças e sim um passo fundamental para quebrar um ciclo de violência infantil que se perpetua há gerações?

Sem dúvida que existem mudanças, mas ainda há muito terreno para andar. Infelizmente não à velocidade ideal, mas estamos melhor do que estávamos na minha infância ou na tua, com certeza. Ainda vemos que sempre que alguém lança uma conversa sobre colo, sono acompanhado, amamentação, há resistência, há sempre alguém que fala na independência dos pequenos e no excesso de mimo. Tão longe da verdade, pois o apego leva à segurança e futura independência. Ou, sempre que alguém fala contra as palmadas há muita discussão, acredito que por muita culpa materna/paterna, pois é mais fácil esconder numa desculpa do que admitir erros e agir. Todos cometemos erros. Eu cometi imensos, mas o importante é a consciência imediata desses erros, o desejo de mudar e a acção para mudar.
Não aceito o conformismo, não aceito que simplesmente desistamos de ser melhores para os nossos filhos. Haverá luta mais importante de que esta? Do que fazermos o melhor para criarmos crianças felizes, seguras, protegidas, acarinhadas, respeitadas, que se tornarão um dia líderes, médicos, activistas, professores? Não me parece que haja algo mais importante para o futuro do que isto. Oferecer amor para ver amor no mundo.


Por fim, queres deixar uma mensagem para mães que são criticadas e/ou desincentivadas por serem veganas e criarem as suas crianças de acordo com os seus valores?

O meu conselho é: estejam informadas e seguras das vossas opções. Quando estão seguras, essas críticas e tentativas de desmotivação não têm impacto em vocês. Eu, por mais que tenha ouvido todo o tipo de presságio sobre a gravidez, amamentação, crescimento dos meus filhos, mantive-me firme, pois sabia que estava a trilhar o nosso melhor caminho. Sabia que aquelas vozes que me tentavam melindrar nasciam da ignorância sobre este assunto. Porque deveria eu ficar medrosa ou recuar, quando sabia que quem me alertava não tinha qualquer conhecimento sobre este assunto em concreto? Estudem, leiam muito sobre alimentação (sempre, toda a vida, há sempre muito a aprender!), sigam mães veganas, fortaleçam os vossos passos, para que a vossa voz grite sempre mais alto do que todas as outras. ■
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10/04/2023

Investigação denuncia a ligação entre produção de colagénio e violência contra indígenas



Nota do blogue: em 2021 fiz um pequeno artigo sobre a ineficácia do colagénio enquanto produto ingerido ou aplicado. Não me debrucei tanto sobre a crueldade animal, visto acreditar não ser necessário fazê-lo quando já a expus por diversas vezes noutros textos.
Há uns dias, deparei-me com esta reportagem sobre a conexão sórdida entre o colagénio e a desflorestação da Amazónia, bem como a violência cometida contra as comunidades indígenas que tanto lutam para a proteger. No nosso dia-a-dia, mesmo não vendo, mesmo não sabendo, produtos aparentemente inofensivos escondem uma teia hedionda de atrocidades. Atrocidades contra animais, contra a natureza, contra os próprios humanos. Atrocidades que, camufladas por um véu entorpecedor, unem-se num abraço grotesco carregado de dor, sangue e lágrimas.
Por esse motivo decidi pegar nesta investigação e traduzi-la. Porque precisamos de ver.
Precisamos de saber.
Precisamos de mudar.


***

O mau cheiro chega antes dos camiões, que estão carregados com peles que foram arrancadas de carcaças de gado dias atrás. As moscas estão por toda a parte.

Os camiões vão para Amparo, uma pequena cidade industrial do estado de São Paulo, sudeste do Brasil. Aí, a Rousselot, uma empresa que pertence à texana Darling Ingredients, extrai o colagénio – um ingrediente presente em suplementos de saúde e que está no centro de uma mania global de bem-estar.

Mas, enquanto os consumidores mais entusiasmados do colagénio afirmam que essa proteína pode melhorar cabelo, pele, unhas e articulações, por retardar o processo de envelhecimento, a mesma tem um efeito questionável na saúde do planeta. O colagénio pode ser extraído da pele dos peixes, porcos e gado, mas por detrás da popular variedade “bovina”, em particular, existe uma indústria sombria que impulsiona a destruição de florestas tropicais e alimenta a violência e os abusos dos direitos humanos na Amazónia brasileira.

Uma investigação da Bureau of Investigative Journalism, The Guardian, ITV e O Joio e O Trigo, descobriu que [a criação de] dezenas de milhares de bovinos criados em fazendas, que estão a destruir as florestas tropicais, foram processados em matadouros ligados a cadeias internacionais de fornecimento de colagénio.



Parte desse colagénio leva-nos à Vital Proteins, propriedade da Nestlé e grande produtora de suplementos do supracitado. A Vital Proteins é vendida à escala mundial – incluindo online na Amazon, nas lojas Walmart nos EUA, na Holland & Barrett e na Boots no Reino Unido e na Costco em ambos os países.

A investigação – a primeira a correlacionar o colagénio de origem bovina com a perda de florestas tropicais e a violência contra os povos indígenas – encontrou, pelo menos, 2,600 quilómetros quadrados de desmatamento ligados às cadeias de suprimentos de duas operações de colagénio no Brasil, ambas relacionadas com a Darling: a Rousselot e a Gelnex, adquiridas pela Darling por 1,2 mil milhões de dólares americanos. Não está claro o quanto desse desmatamento, que foi calculado pelo Center for Climate Crime Analysis, está ligado à Vital Proteins.

Especialistas encaram a preservação da Amazónia como a chave para enfrentar as mudanças climáticas. Da mesma forma, defendem os direitos dos seus povos indígenas, amplamente reconhecidos como os melhores guardiões da floresta. Quase metade das áreas mais bem preservadas da floresta tropical está dentro dos territórios destes povos.

Como resposta aos seus consumidores, depois que o TBIJ abordou os revendedores para fazerem comentários sobre tal, a Vital Proteins declarou que “acabaria com o fornecimento da região amazónica imediatamente”.

A Darling Ingredients disse ao TBIJ que a empresa e a sua subsidiária, Rousselot, monitorizam os seus fornecedores e excluem aqueles que não atendem aos seus critérios de fornecimento responsável. Um porta-voz acrescentou que as empresas “desempenham um papel crucial” na “recolha e reaproveitamento de subprodutos animais que, de outra forma, seriam descartados”. Ele alegou que não poderia comentar sobre a Gelnex, já que a sua aquisição, em Outubro de 2022, ainda não foi formalizada.

A Holland & Barrett referiu que está comprometida com o fornecimento responsável, para garantir que as cadeias de suprimentos não contribuam para o desmatamento. A empresa acrescentou que sobrelevou estas alegações com a Vital Proteins e que levará em consideração uma acção correctiva caso novas violações de política sejam encontradas.

Um porta-voz da Boots disse: “Estamos em contacto com os nossos fornecedores para ter garantias sobre o fornecimento do colagénio”.

A Costco frisou que levou as alegações a sério e entrou com contacto com os seus fornecedores. A Walmart e a Amazon recusaram-se a comentar.


O mito do subproduto

O colagénio bovino é um dos chamados subprodutos da pecuária, o que no Brasil corresponde a 80% de toda a perda da floresta amazónica.

Todavia, subproduto é um termo enganoso, de acordo com a Environmental Investigation Agency, um grupo de defesa ambiental com sede em Londres. “Não chamaria nenhum deles de subprodutos. As margens para a indústria da carne são bastante estreitas, pelo que todas as partes vendáveis do animal são incorporadas ao modelo de negócios”, disse Rick Jacobsen, gerente da política de comoditizações da EIA.

Os produtos sem carne [com outras substâncias de origem animal] correspondem a pouco menos da metade do peso de uma vaca abatida e podem gerar até um quarto da renda dos frigoríficos, de acordo com as estimativas da Bain & Company, um grupo de pesquisa de mercado. De longe, os subprodutos mais valiosos são as peles do gado usadas para fazer couro e colagénio.

Estima-se que a indústria do colagénio, como um todo, tenha o valor de 4 mil milhões de dólares [americanos] por ano.



Ao contrário da carne bovina, soja, óleo de palma e outras comoditizações alimentares importantes, o colagénio não é coberto pela futura legislação de devida diligência na União Europeia e no Reino Unido, projectada para combater o desmatamento. As empresas de colagénio, portanto, não têm obrigação de rastrear os seus próprios impactos ambientais.

“É importante assegurar que esse tipo de regulamentação abranja todos os principais produtos que possam estar ligados ao desmatamento”, asseverou Jacobsen.

A maior parte da desflorestação causada pela pecuária pode ser atribuída a fornecedores indirectos das empresas, segundo Ricardo Negrini, promotor federal do estado do Pará, Brasil, que supervisiona os compromissos climáticos dos processadores de carne bovina. O gado é frequentemente transferido de fazenda para fazenda, passando por diversos estágios de criação, pelo que uma vaca nascida em terras desmatadas pode ser engordada para abate numa fazenda de terminação “limpa”. Contudo, Negrini disse que, actualmente, todos os frigoríficos têm capacidade de rastrear o gado que compram.

Legislação para combater o desmatamento ligado à pecuária não leva em consideração o colagénio


Com o aumento das vendas de carne bovina, couro e colagénio, mais e mais florestas foram derrubadas e substituídas por pastagens nos últimos anos, com terras muitas vezes confiscadas ilegalmente. A virtual impunidade para a grilagem de terras durante o governo Bolsonaro também alimentou ataques a comunidades tradicionais. Em 2021, no terceiro ano da sua presidência, ocorreram 305 invasões contra terras indígenas. Foi três vezes mais do que os números relatados, em 2018, pelo Conselho Indigenista Missionário da Igreja Católica.

“Não há expansão da pecuária na Amazónia sem violência”, disse Bruno Malheiro, geógrafo e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.

A uma curta distância do escritório de Malheiro em Marabá, município com o terceiro maior rebanho bovino do Brasil, a paisagem é aplainada por pastagens. Camiões transportam gado constantemente para os inúmeros matadouros da região.

No município vizinho de Bom Jesus do Tocantins, uma placa verde pontilhada de balas fica ao lado da estrada que leva ao território indígena Mãe Maria. Vista de cima, esta terra, lar do povo Gavião, é uma parcela verde-escura de floresta tropical debruçada numa colcha de retalhos de fazendas.


Para Kátia Silene Akrãtikatêjê, a primeira mulher líder do povo Gavião, é como viver numa ilha. O seu povo sente-se “cercado, sufocado”, disse ela ao TBIJ. A reserva Mãe Maria é o único território em centenas de quilómetros que ainda se assemelha à imponente floresta amazónica.

Malheiro chama-lhe de “um processo de confinamento territorial”. Para os Gavião, a manutenção da mata onde caçam, pescam, cultivam e recolhem sementes vem com ameaças, tentativas de invasão e incêndio criminoso.

Em Setembro do ano passado, uma vila inteira foi incendiada: uma escola, dezenas de casas e um pedaço de floresta foram reduzidos a cinzas. O incêndio não foi acidental, abonam eles, e a comunidade continua a viver com medo.

“[Os fazendeiros] destroem o que é deles e invadem o que é nosso. Não entendo porque destroem tudo”, indagou a líder indígena.

De acordo com José Batista Afonso, advogado e defensor dos direitos fundiários, trabalhador na Comissão Pastoral da Terra em Marabá, a região oferece um vislumbre de como seria toda a Amazónia caso a pecuária continuasse a se expandir sem controlo.


Cadeias obscuras de suprimentos

As cadeias de abastecimento de colagénio bovino são altamente intrincadas, com inúmeros intermediários envolvidos na aquisição e no processamento.

O colagénio Peptan da Rousselot é a marca líder mundial e exporta o referido para os EUA e Europa, onde possui várias fábricas.

A Rousselot obtém peles de vaca da BluBrasil, um curtume localizado dentro de um complexo em Bataguassu, Mato Grosso do Sul. Tal complexo é da propriedade da Marfrig, uma das três grandes empresas de carne bovina do Brasil. Fornecedores de gado da Marfrig têm sido ligados à destruição de florestas tropicais e a invasões territoriais do povo indígena Guarani Kaoiwá.

Em 2021, a usina comprou animais da fazenda Campanário, uma grande propriedade que viola o território Guarani Kaoiwá em Laguna Carapã, também no Mato Grosso do Sul. A área é conhecida pelo seu elevado índice de violência contra indígenas. A Marfrig contou ao Bureau que apenas uma pequena parte da propriedade está em cima da terra ancestral, que a empresa afirma não ser totalmente reconhecida como território indígena. O proprietário da fazenda Campanário não respondeu ao pedido do Bureau para comentar. A BluBrasil também não.

Um relatório da Greenpeace de 2021 também descobriu que a mesma fábrica da Marfrig estava ligada à destruição do Pantanal, outro bioma brasileiro e berço da biodiversidade.

A Marfrig confirmou que o fornecedor em questão estava registado como fornecedor indirecto, mas afiançou que o mesmo se encontrava em conformidade com as suas políticas na época. A empresa acrescentou que a monitorização de fornecedores indirectos é “um dos maiores desafios da cadeia pecuária brasileira”, mas que trabalha “incansavelmente para mitigar qualquer vínculo entre o desmatamento ilegal e outras irregularidades na sua cadeia produtiva, tanto na Amazónia quanto nos demais biomas”.

A Gelnex, por sua vez, vende colagénio para produtos de saúde, ingredientes alimentícios, entre outros items, globalmente. Obtém peles de gado da Durlicouros, um fabricante de couro brasileiro que as limpa e descarna após o abate. Nesta fase, as peles cruas são tratadas para evitar o apodrecimento antes que as camadas de pele sejam divididas em cadeias separadas de produção de couro e colagénio.


Lote de gado num matadouro da Minerva, em Araguaína. Centenas de bovinos abatidos aqui são criados em fazendas que invadem a Mãe Maria e outras terras indígenas.

A Durlicouros obtém as suas peles de gado abatido nos matadouros da JBS e da Minerva, de acordo com várias entrevistas efectuadas a camionistas e outras fontes locais. Centenas desse gado são criadas em fazendas que invadem a Mãe Maria e outras terras indígenas.

Num contacto recente com os investidores, o CEO da Darling Ingredients, Randall C. Stuewe, afirmou que a aquisição da Gelnex aumentaria enormemente a produção de colagénio da empresa.

A Gelnex declarou ao TBIJ: “Todas as matérias-primas utilizadas pela empresa são provenientes de fornecedores aprovados, devidamente registados perante os órgãos reguladores aplicáveis e legalmente autorizados a operar de acordo com as leis vigentes”.

O curtume DurliCouros informou que “atende aos mais rígidos padrões de sustentabilidade nacionais e internacionais”. Tanto a Durlicouros como a BluBrasil receberam a classificação ouro da Leather Working Group (LWG), associação do sector que avalia a sustentabilidade dos membros. A LWG disse ao Bureau que este é um “tópico complexo” e que trabalhará por um padrão “100% de desmatamento e conversão livre até 2030 ou antes”.

A JBS referiu que, embora existisse desmatamento em algumas das fazendas identificadas, as suas compras eram “totalmente compatíveis” com os seus protocolos de aquisição e monitorização, além de que outras aderiram aos seus padrões.

O terceiro maior frigorífico brasileiro, o Minerva, frisou que trabalha para garantir que o gado adquirido não seja proveniente de propriedades com áreas ilegalmente desflorestadas, adicionando que vigia “100% dos fornecedores directos”.

A Nestlé disse que as alegações levantadas não correspondem ao seu compromisso com o fornecimento responsável e contactou o seu fornecedor para o assunto ser investigado. Também anunciou que está a tomar medidas para garantir que os seus produtos sejam livres de desmatamento até 2025.


***

Uma versão desta investigação também surgiu no UOL.

Imagem principal: Kátia Silene Akrãtikatêjê, líder do povo Gavião

Repórteres: Elisângela Mendonça, Andrew Wasley e Fábio Zuker
Colaborador: Centro de Análise de Crimes Climáticos
Filmagem e fotografia: Cícero Pedrosa Neto
Produtora de vídeo e produtora de impacto: Grace Murray
Editor de vídeo: Oliver Kemp
Animação: Jules Bartl
Editor de ambiente: Robert Soutar
Editor global: James Ball
Editor: Meirion Jones
Produção: Frankie Goodway
Verificador de factos: Alice Milliken`

Esta história foi produzida com o apoio da Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center. O nosso projeto Food and Farming é parcialmente financiado pela Quadrature Climate Foundation e parcialmente pela Hollick Family Foundation. Nenhum dos nossos financiadores tem qualquer influência sobre as nossas decisões ou resultados editoriais.

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