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Raposa Herbívora | Libertação animal, na teoria e na prática

26/03/2026

Rascunhos Antiespecistas | Sexismo & Especismo: Um Ensaio de Lisa Kemmerer


Nota do blogue: Ao percepcionarem sobre certos pontos similares que conduzem à opressão de grupos diferentes, algumas filósofas aprofundaram os seus pensares e investigações e criaram uma vertente feminista que começou a ser difundida e discutida nos anos 70: o Ecofeminismo. Mesmo sendo relativamente recente, foi e é amplamente explicado e defendido por várias feministas de vários países: Ivone Gebara (Brasil), Mariama Sonko (Senegal), Samantha Hargreaves (África do Sul), Françoise d'Eaubonne (França), Alicia Puleo (Espanha), Vandana Shiva (Índia) e Lisa Kemmerer (EUA), autora do artigo traduzido nesta publicação, são algumas dessas mulheres.

Resumidamente, o ecofeminismo é um movimento que correlaciona o feminismo com outras lutas anti-opressão, como o ambientalismo e o especismo, também se estendendo nos direitos de outras minorias e com um olho crítico no sistema capitalista. Por outras palavras, é uma esfera filosófica que advoga a conexão entre lutas libertárias, visto as discriminações (contra mulheres, o ambiente, os animais, etc.) apresentarem simetrias nas suas posturas e perpetuações. Este ensaio de Lisa Kemmerer ajuda a entender o ponto de vista deste posicionamento feminista, além de apresentar algumas dessas simetrias.

Sobre a autora: Lisa Kemmerer é uma filósofa e activista norte-americana reconhecida pelo seu trabalho em Ética Animal e Justiça Interseccional. Bacharel em Estudos Internacionais, Mestre em Teologia e Doutora em Filosofia, é fundadora da Tapestry, uma organização sem fins lucrativos dedicada à educação e ao estudo sobre as várias estruturas opressoras e como estas estão conectadas. As suas dezenas de artigos e livros abordam, precisamente, esse tema através do ecofeminismo, ética alimentar e a consonância entre religião e direitos dos animais.

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Ecofeminismo, Mulheres, Ambiente, Animais
Lisa Kemmerer | DEP. Deportate, Esuli, Profughe, No. 23/2013

Tempo de leitura: aprox. 20 minutos | Descarregar o PDF


Sistemas de Opressão

Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.

Dualismo

O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)

De maneira semelhante, a “natureza” é distinguida da civilização, da cultura e dos seres humanos. A Natureza é aquilo que é não é afectado pela Humanidade, e ser humano é ser civilizado e culto: isso é ainda mais evidenciado na nossa tendência dualista de encarar os humanos como separados e distintos de todos os outros animais. O dualismo também divide a mente do corpo e a razão da emoção(1), tratando cada uma como distinta e separada. Estas categorias supostamente exclusivas de masculino/feminino, natureza/cultura e humano/animal, não reflectem adequadamente a complexidade do mundo em que vivemos e nos encontramos. (...)

Hierarquia

O pensamento dualista é corriqueiro no mundo ocidental, bem como em muitas outras civilizações. Através do dualismo, homens, seres humanos, civilização, cultura, mente e o pensamento racional são concebidos como detentores de um conjunto particular de estimadas características, compactando mulheres, animais não-humanos, natureza selvagem, corpos, o mundo material, emoções e intuição numa categoria à parte e considerada inferior. Em Pornography of Meat, a ecofeminista Carol J. Adams usa os termos “A” e “Não A” para descrever esta categorização dualística. Feministas e ecofeministas notaram que o dualismo não é apenas uma divisão de indivíduos e outros elementos em categorias separadas, mas também em categorias iguais. Qualquer elemento e qualquer pessoa inserida na categoria “Não A” é encarada como mutuamente interligada e abaixo de tudo o que compõe a categoria “A”.

A língua portuguesa(2) corrobora este raciocínio: termos depreciativos, utilizados para referir mulheres, são aplicados para referir animais não-humanos, como “vaca”, “galinha” e “porca”. Em comparação, os homens possuem poucas referências relacionadas a animais, sendo que parte das mesmas têm um cunho positivo, como “garanhão” – um forte e viril animal de grande beleza. Em contraste, adjectivos pejorativos, cuja utilização é mal-intencionada e com maldade, são frequentemente reservados para mulheres. Além disso, as mulheres também são visualmente conectadas com animais não-humanos, corpos (em oposição às mentes) e à Natureza, quando retratadas como objectos sexuais ou hipersexualizadas, desde sereias a coelhinhas [da Playboy]. Já os animais, especialmente os explorados como mercadoria, são definidos com traços físicos distintamente femininos, como olhos grandes, pestanas longas e corpos curvilíneos, como poderosamente demonstrado em The Pornography of Meat.

Opressão

Através do dualismo e da hierarquização, indivíduos, atributos e objectos físicos são separados em dois grupos. Um grupo, “A”, tem precedência sobre o outro, “Não A”: tal resulta numa hierarquia que favorece os que se encontram na categoria “A”, levando-os a ganhar poder e controlo sobre aqueles que estão na categoria “Não A”. Esse poder e controlo estão espelhados no sexismo, no antropocentrismo e no especismo. O sexismo oprime as mulheres por elas serem, simplesmente, mulheres – não porque elas são inerentemente indignas ou inferiores, mas simplesmente porque não nasceram com genitália externa e saliente. É evidente que a natureza dos órgãos genitais não é uma diferença moral relevante, ao ponto dos homens receberem privilégios e oportunidades que são negados a quem não nasceu com genitália externa e saliente.

Similarmente, o pensamento antropocêntrico tende a assumir que todos os elementos humanos — cultura, civilizações e os próprios humanos — devem ter poder e precedência sobre todos os elementos não-humanos – o mundo natural e tudo o que nele habita. Novamente, não há diferença moral relevante entre todas as coisas humanas e todas as coisas não-humanas, de modo que o primeiro tenha maior estima ou receba mais poder e privilégio sobre o segundo. Todavia, todas as coisas humanas recebem essa estima e esse poder em relação a todas as coisas naturais e não-humanas e, como resultado, foi concluído como certo e apropriado que a Natureza seja vista como um recurso para uso humano, a qual os humanos exploram, controlam e manipulam para os seus fins pessoais(3). E, frisando, não ser humano não constitui uma distinção moralmente relevante, o que não justifica a exploração, controlo e manipulação dos animais pelos humanos. Ainda assim, aos humanos foi concedida esta vantagem, que perpetua a exploração e manipulação dos animais por e para os seres humanos.

Apesar da falta de qualquer distinção moral e relevante entre homens e não-homens, entre seres humanos, as suas civilizações e o resto da Natureza, e entre os seres humanos e o restante mundo animal, homens e humanos ocupam lugares de privilégio e poder, controlando e manipulando os outros e o mundo ao seu redor. Eis a definição de sexismo, antropocentrismo e especismo: todos os seres e outros elementos que foram agrupados, em conjunto, na categoria “Não A” — mulheres, Natureza e animais não-humanos — são injustamente discriminados e oprimidos por, em nome e em relação aos que se inserem na categoria “A”.

Tal situação justifica o controlo de “A”: quem está na categoria “A” é avaliado como alguém que pode e deve estar no comando, de modo a obter vantagens e servir-se de quem está em “Não A”, o que normaliza ser sexista, antropocêntrico e especista. Por exemplo, as mulheres, ao serem assinaladas como estando mais preocupadas com aspectos materiais (como o corpo) do que com as questões da mente, e sendo julgadas como mais propensas à emoção do que à razão, faz sentido que os homens sejam mais incentivados à educação e formação, bem como terem mais possibilidades de emprego. Assim, também faz sentido as mulheres serem empurradas para o cuidado do lar, para o trabalho doméstico e para a reprodução(4). Se as mulheres são menos cultas e menos civilizadas, é pertinente os homens controlarem as suas vidas. E, da mesma maneira, se as vacas e as galinhas carecem de razão e cultura, pelo que são mais corpo do que mente, também elas podem ser controladas por quem está na categoria “A” e usadas para propósitos “superiores” pela referida.

Através deste processo, “Não A” é visto como/torna-se dependente de “A”. As mulheres são vistas como/tornam-se dependentes dos homens para protecção e apoio financeiro; a Natureza é vista como/torna-se dependente do ser humano para cultivar e administrar áreas selvagens indomadas (distribuição da vida selvagem, inundações e incêndios florestais, por exemplo) e, supostamente, para proteger a Natureza da obliteração; e os animais não-humanos são vistos como/tornam-se dependentes do ser humano em aspectos como “gerir” (como na gestão da vida selvagem), cuidar e fornecer sustento e assistência médica (animais domésticos, etc.). E, em troca de protecção, gerenciamento e disposição, espera-se que aqueles que estão na categoria “Não A” atendam às suas necessidades – como cozinhar, limpar e proporcionar satisfação sexual, oferecer produção e pasto, e fornecer leite, ovos e carne, por exemplo. As mulheres, a Natureza e os animais são igualmente classificados como inferiores, dependentes e, por isso, devidamente controlados e explorados.

Na verdade, por os indivíduos “Não A” serem avaliados como dependentes e irracionais [definições essas criadas pelo grupo que os discrimina, explora e oprime], muitos dos que se encontram na categoria “A” sentem-se no direito de controlar quem está em “Não A” com violência. Sentem, consciente ou inconscientemente, que uma camada de força, cultura e de razão são transferidas para os que estão na categoria “Não A”, daí as mulheres, a Natureza e os animais deverem ser subservientes, de variadas maneiras, à categoria “A”.

Acontece que, mesmo quando “A” não fornece nada [de positivo] para “Não A”, os indivíduos de “A” mantêm uma posição de poder e de controlo sobre “Não A”. Recentemente [e ainda presente em algumas civilizações e culturas], era impossível uma mulher acusar o marido de violação; violentar a Terra continua a ser legal; o abuso de animais, só agora, está a começar a ser reconhecido e tratado como um crime grave (mas, regra geral, tal acontece quando os infractores são visados como perigosos para os seus semelhantes). Assim, não é surpreendente que a violência doméstica, o assédio, a violação em encontros amorosos, a violência contra animais e o abuso permaneçam teimosamente (e irritantemente) tão comuns.


Mulheres e Animais – Corpos Para Exploração

Por partilharem semelhanças entre si, do que com uma árvore ou um riacho, os paralelos da opressão são particularmente marcantes no que diz respeito às mulheres e aos animais não-humanos. Os detentores de poder (“A”) tendem a controlar e a explorar os corpos femininos, especialmente a sua biologia reprodutiva – seja mulher humana ou fêmea animal. A autoridade do marido sobre a esposa, e a incapacidade histórica de acusá-lo de violação ou de reivindicar os seus filhos contra a vontade deste, é um dos inúmeros exemplos do controlo de “A” sobre “Não A”. As mulheres e as crianças são, há muito, tratadas como propriedade exclusiva dos maridos – é a sua mulher e, portanto, a sua vagina para aceder, o seu útero para preencher, os seus filhos para continuarem com o seu nome, a sua linhagem, o seu trabalho e a sua propriedade.

Da mesma forma, os praticantes da denominada “criação animal” também compreendem o gado, os porcos e os perus como a sua propriedade pessoal – a sua vaca e a sua porca e, portanto, as suas vaginas para aceder, os seus úteros para preencher e os seus filhos para serem explorados para ganhos pessoais.

Assim como os seres humanos que criam animais para essa finalidade, que mantêm esses indivíduos em situação de dependência forçada, utilizando os seus corpos físicos para atingir os seus próprios fins, engravidando as fêmeas e reivindicando os seus descendentes, os homens, tradicionalmente, mantinham as esposas em posição de dependência forçada e usavam os seus corpos físicos para os seus próprios fins, engravidando-as e reivindicando os seus descendentes. Lamentavelmente, ainda são muitos os que ainda o fazem.

Embora o casamento tradicional(5) denuncie amplamente o controlo de “A” sobre “Não A”, o tráfico sexual é outro exemplo adequado deste fenómeno. As mulheres apanhadas na rede do tráfico sexual são vítimas que têm os seus corpos vistos como uma mercadoria que pode ser explorada lucrativamente por e para aqueles da categoria “A”. Essas vítimas são zurzidas por terem corpos femininos, órgãos genitais femininos e por serem indivíduos “Não A”. Por serem “Não A”, são vistas pelos indivíduos “A” como controláveis e exploráveis, em que outros indivíduos “A” as comprarão e, portanto, “possuem” parte do indivíduo “Não A”.

Normalmente, essa “propriedade” é comprada para o propósito explícito de “A” ter acesso ao corpo feminino para prazer sexual e, também, para trabalho doméstico. Outros indivíduos “Não A”, vulgo, animais não-humanos, também são adquiridos para os seus corpos e o seu trabalho serem explorados por pessoas da categoria “A” que desejam conquistar objectivos pessoais, nomeadamente o lucro. Assim como as pessoas que são capturadas pela indústria do tráfico sexual, os animais “de criação” são explorados especificamente por causa da sua biologia feminina. Vacas, porcas, peruas e galinhas são, adicionalmente, exploradas pelo seu leite materno, ovos e para reprodução.

Vacas na Indústria dos Lacticínios

Os “seios” (tetas, glândulas mamárias, úberes) e o leite materno das vacas são comoditizados, explorados e controlados, para fins lucrativos, por aqueles que possuem e administram fazendas e indústrias leiteiras. Os mamíferos só amamentam após o parto, pelo que os produtores recorrem a um método denominado rape rack para inseminar artificialmente vacas: consiste em inserir a mão e o braço nas suas vaginas e aspergir o esperma de um bovino através de um dispositivo próprio, para assim engravidar as vacas à força. Quando o bezerro nasce, o fazendeiro retira-o imediatamente da mãe, apesar do desespero das vacas, das suas tentativas em defender as suas crias e do seu lamento contínuo pela perda dos seus recém-nascidos. Dependendo do sexo, o bezerro ou é vendido para ser carne de vitela (machos) ou para ser criado e engravidado à força como a sua mãe (fêmeas), bem como ordenhado para a produção de produtos lácteos. Privada do seu rebento, uma vaca muge desesperadamente durante dias a fio, enquanto as máquinas estão ocupadas a bombear o leite que seria para o seu filho e que será vendido como iogurte, gelado, queijo e leite.

Tal como acontece com as mulheres e jovens apanhadas nas indústrias da violência sexual(6), o stress e a miséria que as vacas experimentam nas fazendas leiteiras têm o seu preço. Estes animais, embora possam viver naturalmente até aos 25 anos, nesta indústria começam a ser um “gasto” depois de cinco ou seis anos de gravidezes, partos, separações forçadas e ordenha perpétua. Nessa fase, são encaminhadas para o abate. Como os seus corpos foram brutalmente fustigados, frequentemente chegam ao matadouro incapazes de andar ou ficar de pé, sendo por isso drogadas ou empurradas para fora dos camiões de transporte. As vacas sofrem na indústria do leite por serem fêmeas — e porque amamentam quando dão à luz — e porque os produtores de leite sentem-se no direito de manipular e explorar a biologia feminina para ganho pessoal. Esses produtores lucram com as secreções mamárias das vacas, com a sua prole e, eventualmente, com o seu corpo quando ela é vendida para a produção de hambúrgueres.

Galinhas na Indústria de Ovos

Assim como as vacas, as galinhas são exploradas precisamente pela sua biologia feminina, já que os seus corpos produzem ovos. Quando as galinhas atingem maturidade sexual suficiente para nidificar, põem ovos até definirem uma ninhada e aí passam pela incubação até os ovos eclodirem. Obviamente, não é nada disso que acontece com as galinhas na indústria de ovos. Nesse negócio, os ovos são incubados num ambiente isolado, longe da mãe galinha: em vez de nascer no escuro, sob a penugem quente e ao som do cacarejo da sua mãe, o pintainho nasce numa superfície dura sob uma luz néon brilhante e silenciosa. As crias passarão o resto das suas vidas num ambiente artificial, sem ar fresco ou luz natural, em confinamento caótico com muitas outras galinhas. (...)

O pintainho recém-nascido é movido ao longo de uma esteira rolante: nessa etapa, os machos são retirados e descartados. Algumas indústrias empilham-nos em sacos de plástico fechados, para que sufoquem até à morte, enquanto outras os atiram para um moedor (vivos). Tal ocorre por os galos não terem utilidade para a indústria dos ovos.

Os pintainhos fêmeas, sem dúvida, ouvem os pios gritantes e desesperados dos seus irmãos enquanto continuam a descer pela esteira rolante, onde são agarradas e empurradas para uma máquina munida de uma lâmina que lhes corta uma parte significativa dos seus bicos. Daí em diante, serão incapazes de se alimentar naturalmente ou de alisar as suas penas adequadamente. Esse processo, o debeaking [debicagem], é extremamente doloroso mas estabelecido como vital para que as galinhas, num ambiente tão lotado e miserável, não se biquem umas nas outras, talvez até à morte.

Se sobreviver à remoção do bico, o pintainho fêmea será transferido para um barracão gigantesco com milhares de outros pintainhos fêmeas, onde irá crescer durante cinco meses. Caso sobreviver [a taxa de mortalidade é elevadíssima], a agora galinha será enviada para as gaiolas em bateria, do tamanho de um micro-ondas, geralmente com outras cinco galinhas. Aí, ela permanecerá, de pé, sobre uma superfície de arames, num espaço que chega a ter mais de 100 mil aves nas mesmas condições. As gaiolas estão dispostas em longas fileiras e empilhadas, o que faz com que as fezes das galinhas que estão por cima acabem por cair nas que estão por baixo. Com o tempo, os seus corpos ficam imundos e as penas quebradiças, de tão sujas.

Muitas vezes, uma companheira de jaula morre e as outras galinhas são obrigadas a viver com o cadáver. A sua carne, que raspa contra os arames da gaiola, causa feridas abertas. Os seus pulmões, que nada mais respiram, são danificados pelo amónio que, consequentemente, se vai espalhando nas cada vez mais sujas e abarrotadas gaiolas.

As gaiolas foram projectadas para roubar da jovem galinha os seus preciosos ovos, que rolam do seu corpo quente para um cocho e transportados para processamento. Durante um ano, sensivelmente, as galinhas continuam a pôr ovos que desaparecem imediatamente assim que são postos, frustrando todos os seus instintos naturais. Assim que este ciclo começa a diminuir, a comida em frente às suas jaulas também diminui. Durante uma a três semanas essas galinhas passam fome, ao qual os criadores chamam de “muda forçada”, e vivem entre e em cima de companheiras enclausuradas que estão mortas ou moribundas. As sobreviventes, quando entram num novo ciclo de postura, têm a sua comida restaurada. Mais uma vez, as aves colocam ovos diariamente que lhes são retirados. A elas nunca lhes é permitido incubar, nutrir as suas crias, criar relacionamentos com os seus filhos ou compartilhar a sua companhia numa comunidade livre de galos e galinhas.

Fortuitamente, o ciclo de postura reduz outra vez e, embora naturalmente elas sejam capazes de iniciar outro ciclo, a indústria não deseja continuar a despender recursos com elas quando começam a apresentar dificuldades ou demasiadas diminuições, até porque os seus corpos podem ser vendidos. São retiradas abruptamente das suas gaiolas, comumente puxadas por uma asa ou uma pata, pela cabeça ou pela cauda, o que pode causar fracturas ou deslocações ósseas e, ou são trituradas (vivas) e vendidas como fertilizante, soterradas (muito provavelmente vivas) ou transportadas num camião para o matadouro. Se enviadas para abate, serão penduradas de cabeça para baixo, com as pernas presas em algemas ou ganchos. É dessa forma que são levadas até à área da matança, onde alguém cortará as suas gargantas. Algumas, mesmo com as gargantas rasgadas, chegam vivas até ao tanque de água a ferver, no qual acabarão, então, por hediondamente sucumbir.

Uma galinha na indústria de ovos sofre toda essa crueldade simplesmente por ter nascido com órgãos reprodutivos femininos, numa sociedade — a nossa sociedade — em que “A” se sente no direito de manipular e explorar os seus corpos e os seus sistemas reprodutores para os seus próprios fins. Assim como homens sexistas acreditam que têm o direito de controlar e explorar mulheres e meninas, os humanos especistas acreditam que têm direito de controlar e explorar animais “de criação”, invadindo vaginas e preenchendo úteros, reivindicando (e explorando) a prole, privando os indivíduos da sua liberdade e, em última análise, tomando as suas vidas.

Opressão Compartilhada, Libertação Compartilhada

As ecofeministas reconheceram causas comuns de discriminação, tais como o dualismo e a hierarquização, levando a sistemas abrangentes de opressão. Discerniram que as mulheres, a Natureza e os animais são equitativamente desvalorizados em relação a quem está na categoria “A” e que são igualmente controlados e explorados pelos da categoria em questão. Repararam que as fêmeas, independentemente de serem humanas ou não-humanas, são igualmente desdenhadas em relação aos seus opressores e frequentemente associadas à categoria de indivíduos “Não A”, sendo vituperadas de forma semelhante pelos indivíduos da categoria “A” por conta dos seus corpos femininos e da sua respectiva anatomia reprodutiva.

Ao desenterrar estes paralelos, as ecofeministas chegaram à conclusão de que não é apropriado lutar pela libertação de apenas um grupo oprimido e ignorar os restantes que são relegados à categoria “Não A” e, portanto, sistematicamente oprimidos e explorados por indivíduos da categoria “A”. Para o ecofeminismo, que reconhece a interligação das opressões várias, libertar apenas um grupo oprimido é, além de enviesada, uma tarefa vazia e uma resposta egoísta. À luz dos sistemas de opressão, expostos pelas ecofeministas, o trabalho em mãos é, claramente, desarraigar causas comuns e desmantelar esses sistemas opressores que estão profundamente enraizados e generalizados. (...)

Resumo

As mulheres, a Natureza e os animais não-humanos padecem de similar discriminação, sendo controlados e explorados num mundo onde há muito se assumiu que é adequado que as mulheres sirvam aos homens, que os humanos explorem, controlem e manipulem o mundo natural e que os humanos explorem, controlem e manipulem os animais não-humanos. Mais notavelmente, as mulheres e os animais “de criação” são manipulados e explorados por causa da sua biologia feminina (...). As ecofeministas inferem que qualquer tentativa de libertar apenas aqueles que se parecem connosco — da nossa espécie — não é apenas egoísta como pode não ter sucesso: as mulheres não serão e não podem ser libertadas até que sistemas abrangentes de opressão e exploração sejam desmantelados, incluindo, além do sexismo, o antropocentrismo, o especismo, entre outros. Por esse motivo, muitas ecofeministas adoptaram uma alimentação vegetal, recusando a apoiar as indústrias da carne, do leite e dos ovos, e aliaram-se a ambientalistas e defensores dos animais com a intenção de ajudar a acabar com a opressão e a exploração em todas as suas formas insidiosas.

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(1) Nota adicional da tradutora: Muitos filósofos, ao longo dos séculos, promoveram e enrijeceram este dualismo, associando o elemento racional ao masculino e o elemento emocional ao feminino. Veja-se, por exemplo, Espinosa no seu Tractatus Theologico-Politicus, ao argumentar que as mulheres são racionalmente mais fracas do que os homens e que, por isso, não se devem envolver nas questões políticas. Também afirmou, na mesma obra, que “A lei contra a matança dos animais é baseada mais na superstição vazia e numa compaixão feminina do que propriamente na razão” (E4p37s1).
(2) Adaptação da tradução.
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(4) Nota pessoal da tradutora: A autora não está, com esta inferência, a criticar as mulheres que decidiram, livremente, ficar em casa e a tomar conta dos filhos. A crítica deve-se, sim, ao que infelizmente acontece num contexto geral, em que as mulheres continuam a ser incentivadas, pressionadas e até mesmo coagidas a essas actividades mesmo contra a sua vontade. É uma situação bastante recorrente e que perpetua a discriminação violenta de muitas meninas e mulheres, que permanecem sem o direito de terem autonomia sobre a suas próprias vidas e de poderem possuir escolhas pessoais.
(5) Mais uma vez, a autora não está a atacar quem opta por este tipo de casamento. O alerta é para a ainda utilização do casamento como ferramenta de subserviência feminina, algo que se estendeu milenarmente na nossa sociedade e que continua enraizado em várias civilizações e tradições familiares.
(6) Considero importante frisar que a autora não está a comparar as mulheres, vítimas do tráfico humano e sexual, com as fêmeas não-humanas que são exploradas para consumo. A intenção é apresentar pontos comuns, fomentadores das respectivas opressões, e que acabam por interligar a discriminação de ambos os grupos.

Aceder ao artigo original e integral aqui.
Tradução para português europeu de Raposa Herbívora
A tradução não obedece ao novo acordo ortográfico.

Fotografias: Anna Shvets, CottonBro Studio
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18/02/2026

Hitler era vegetariano?


Um dos comentários mais direccionados para atacar o veganismo é o de que Hitler era vegetariano. Geralmente, quem aplica esta proposição tem como intenção classificar a defesa dos animais como incongruente, já que Hitler não os comia e foi um indivíduo indiscutivelmente abominável. Todavia, usar Hitler como exemplo moral carece completamente de sentido, pelas razões que todos nós conhecemos. Ainda assim, muitos insistem em aproveitar-se do nome dele para justificar o consumo de animais.

Esta afirmação tem dois problemas que a derrubam automaticamente: um é de cariz lógico e o outro é de cariz histórico. O problema de cariz lógico deve-se por tal afirmação ser um raciocínio falaz. Na verdade, a imagem de Hitler é tão usada para contra-argumentar qualquer coisa que até tem direito à sua própria falácia, denominada reductio ad hitlerum e que possui esta estrutura:

Se Hitler apoiava/gostava de X, então X é maligno.

Uma falácia é um raciocínio errado que aparenta ser verdadeiro. Na retórica é um argumento logicamente inconsistente, inválido e sem fundamento. Neste caso, por tratar-se de um caso pessoal e particular que é usado para atacar um tema geral, é mais do que óbvia a sua falha.
Vamos supor que alguém que odeia crianças decide defender o seu ponto de vista com o seguinte:

Hitler gostava de crianças. Então, as crianças não podem ser boas.

Ou

Hitler gostava de crianças. Então, quem gosta de crianças não pode ser bom.

Não faz muito sentido, pois não? Então, porque no caso do vegetarianismo já faz sentido para muitos, ao ponto de continuarem a aplicar esta falácia como arremesso argumentativo?

Quanto ao problema histórico, existem factos que refutam o vegetarianismo de Hitler. Ele adoptou este tipo de dieta ocasionalmente, o que não faz dele, ou alguém com as mesmas oscilações alimentares, vegetariano. Além disso, é mais do que comum ser-se vegetariano exclusivamente por questões de saúde e não pelos animais. No caso de Hitler, uma dieta vegetal foi-lhe imposta por causa dos seus vários problemas de saúde, embora ele não tenha obedecido às recomendações médicas.

Alguns escritores têm citado evidências de que Hitler tenha sido vegetariano durante parte da sua vida. Janet Barkas, no livro The Vegetable Passion, e Colin Spencer, no livro The Heretics Feast, apoiam essa ideia mas ela não é compartilhada por quem pesquisou detalhadamente sobre o assunto. Segue-se um trecho de uma revisão do livro de Colin Spencer feita pelo professor Rynn Berry, especialista em história do vegetarianismo:

“Em Heretic's Feast, Colin Spencer dá crédito ao mito de que Adolf Hitler era um vegetariano. Ele faz referência ao suposto vegetarianismo de Hitler não mais do que quatro vezes, devotando uma longa secção de cinco páginas a esse assunto no capítulo 12. Ao mesmo tempo que é verdade que os médicos de Hitler colocaram-no sob uma dieta vegetariana para curá-lo da flatulência e de problemas estomacais crónicos, os seus biógrafos, tais como Albert Speer, Robert Payne, John Toland, e outros, têm atestado a preferência de Hitler pelas salsichas de presunto e outras carnes defumadas. Até mesmo Spencer diz que Hitler foi um vegetariano apenas a partir de 1931: «Seria verdadeiro dizer que desde 1931 ele preferiu uma dieta vegetariana, mas em algumas ocasiões desviou-se dela.»

Ele cometeu suicídio com 56 anos em 1945; isso teria resultado em 14 anos de vegetarianismo, mas temos um testemunho contrário dado pela sua cozinheira, Dione Lucas, que era directamente responsável pela cozinha de Hitler em Hamburgo durante o final da década de 1930. No seu livro Gourmet Cooking School Cookbook ela deixou registado que o prato favorito de Hitler era squab recheado (cria de pombo domesticado e de carne escura):
«Eu não pretendo diminuir o seu apetite pelo squab recheado, mas você pode interessar-se em saber que este era um prato muito pedido pelo Sr. Hitler, que jantava no hotel frequentemente.»”

Hitler não era vegetariano e muito menos defendia os direitos dos animais, mas Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda, distorceu totalmente esse facto para criar nas pessoas a ideia de que o Führer era um homem bom: as revistas pró-nazis, como a Neugeist/Die Weise Fahne, gritavam no papel que Hitler era vegetariano “por amor aos animais” e como este era acerrimamente contra qualquer tortura contra animais como no caso da vivisecção. A condição delicada da saúde do ditador, que era constantemente trapaceada pelo mesmo, foi metamorfoseada para uma suposta preocupação com os animais não-humanos e como isso o tornava num indivíduo bom. Esta notícia manipulada conseguiu o seu objectivo: chamar a maior atenção possível em torno de Hitler e transmitir uma aura quase beatificada que conseguisse abafar as barbaridades apoiadas pelo nazismo.
E, em parte, resultou.


***

Referências:

Dinshah, J. (1974, January). Book nook. {A review of Speer, A. (1970). Inside the 3rd Reich (Por dentro do Terceiro Reich)} Ahimsa, p. 11. [Disponível na American Vegan Society, P.O. Box H, Malaga, NJ 08328, USA]

Meyer, R. (1985). Was Hitler a vegetarian? Vegetarian Voice, 12 (2), p. 6. [Disponível na North American Vegetarian Society, P.O. Box 72, Dolgeville, NY 13329]

O mito de que Hitler era vegetariano

Hitler e Goebbels não eram vegetarianos e a favor dos direitos dos animais?

www.ivu.org/history/europe20a/hitler.html


#PunchANazi
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03/02/2026

Tabela de vitaminas e minerais de origem vegetal



Cada vez mais estudos médico-científicos comprovam que a alimentação vegetal equilibrada é uma das mais eficazes para prevenir inúmeras doenças. Muitas pessoas já me disseram que este tipo de alimentação não é saudável porque não possui todas as vitaminas e minerais necessários, pelo que dediquei-me a fazer uma investigação e a criar uma tabela onde estes podem ser encontrados no universo vegetal. Decidi repetir alimentos para mostrar que a riqueza nutricional a nível vegetal não é um mito, ao ponto de um único alimento possuir várias vitaminas e minerais.

O objectivo desta tabela é mostrar que podemos ter uma alimentação isenta de produtos de origem animal sem precisarmos de nos preocupar com estes nutrientes. A mesma não substitui uma consulta de nutrição, tendo unicamente um propósito informativo.


VER E DESCARREGAR A TABELA
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15/01/2026

Biblioteca da Raposinha: “A Menina dos Caracóis”


É com muita alegria que partilho convosco a Biblioteca da Raposinha, a nova rubrica do blogue: neste espaço, iremos explorar o maravilhoso mundo dos livros infantis que promovem a consciência sobre os direitos dos animais.

Para começar, não poderia ser outro livro que o d'A Menina dos Caracóis da Tânia Bailão Lopes: já referi este livro aqui e aqui, pelo que achei pertinente incluí-lo nesta rubrica para apresentá-lo através do olhar de uma criança pequena. Ao longo da história, uma menina, por gostar tanto de animais, tenta levar os bichos do campo para a cidade: será que teve sucesso na sua missão?

Com uma narrativa fluida e rimada, a Tânia passa a imprescindível mensagem de que a liberdade dos animais é mais importante do que a vontade de os manter perto de nós enclausurados – mensagem essa que a leitora criança, sem precisar de muitas explicações, compreendeu logo, o que, a meu ver, fortalece a perspectiva de que os mais pequenos são naturalmente bondosos e empáticos para com os animais. No livro, ela aponta constantemente para os animais que estão presos e que isso os deixa tristes – e os animais não merecem ficar tristes, não é verdade?



As ilustrações são coloridas mas com um traço suave, o que torna a obra cativante e delicada. É um dos livros preferidos da minha raposinha e não poderia deixar de o voltar a recomendar, de tão bonito e especial que ele é. Está à venda na Wook, em várias livrarias, como a Bertrand, e também pode ser adquirido directamente com a autora, bastando entrar em contacto com ela.

***

Sobre a autora: Tânia Bailão Lopes é mestre em Psicologia Clínica e licenciada em Serviço Social. Em 2016 abraçou totalmente o seu amor pela pintura e passou a dedicar-se exclusivamente à criação artística, à escrita e à ilustração. Ilustradora de mais de 80 livros, o seu trabalho já lhe valeu variadas premiações nas áreas de Pintura, Literatura e Ilustração Infantil. Desenvolve projectos juntamente com as escolas, que visam a promoção da literatura e da criatividade nas crianças, sendo que os seus livros Piu e o Planeta e Maria Morte integram o Plano Nacional de Leitura.
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19/12/2025

Passando para dar sinal de vida


Parece que quanto mais digo que me vou concentrar no blogue, menos tempo tenho para nele me focar. Não posso afirmar que me sinto mal por isso, visto que esse menos tempo se deve ao que mais adoro fazer: maternar. E como tenho aprendido tanto nesta fase da minha vida ♡ Planeio, assim que a mente tiver uma nesga para respirar, partilhar convosco a beleza da candura infantil em relação aos animais. Posso dizer-vos, com antecedência, que as crianças têm muito para nos ensinar nesse quesito – e que orgulho tenho em afirmar que, sim, estou eu a aprender mais com ela do que ela comigo. Mas isso ficará para outro texto.

Como já devem saber, quase três anos depois regressei ao Instagram: a vontade de divulgar sobre antiespecismo além-blogue motivou a tomada dessa resolução, sendo que consegui a proeza de já estar sem paciência para essa rede. Tudo me parece apressado, descartável e pouco genuíno. Sinto saudades de quando o mesmo era um álbum de fotografias gigante: estático, harmonioso e silencioso.

Ademais, com a cacofonia a ser priorizada, o género de conteúdo que partilho (ética animal) e o modo como o partilho (minimalista e em texto) acaba por ser penalizado e, consequentemente, pouco alcance conquistar. Somando isso à censura que a Meta está a cometer — restringindo e até desactivando contas dedicadas a temas sociais e educativos — o panorama actual, para quem deseja escrever e partilhar sobre tais temas, não é o melhor.

É indiscutível que as redes sociais formam o epicentro do mundo digital; todavia, é frustrante permanecer num espaço que, com todas estas invisibilizações supracitadas, dá a entender que não somos verdadeiramente bem-vindas. Cheguei a cogitar em fazer vídeos, formato que tanto desaprecio, o que por si só revela a raiva que o Instagram me estava a dar. Estava, porque, depois desta hesitação, decidi que nunca aceitarei que uma plataforma dite como deverei tecer o meu trabalho. Preferir fotografias e textos não tem nada de errado: errado é estruturar todo um algoritmo que se recusa a valorizar todo o tipo de conteúdo, focando-se unicamente naquele que suscita emoções intensas, mas efémeras. Cada vídeo curto, cada rage bait e cada polémica acorrenta-nos e oferece-nos uma falsa dopamina a conta-gotas, mantendo-nos num ciclo de desejo contínuo que nunca é apaziguado. No final, fica a superestimulação e a sensação de vazio. E, num mundo que está a ruir, com o ódio e a violência a ganhar cada vez mais força, não encontro sentido algum em cair nesse ciclo e nesse scroll.

Manterei o meu perfil activo mas não deambularei muito por lá, até porque assim, e tendo em conta os poucos momentos livres que tenho, consigo dar mais atenção ao blogue. Não estar a publicar não é sinónimo de não estar empenhada nele: de momento tenho uma tradução  — de um excerto de uma obra de Tom Regan  — para finalizar, uma revisão de outra tradução para polir,  receitas por testar e marcas não cruelty-free para denunciar, além de uma rubrica nova. A fadiga do dia-a-dia não permite mais, nem melhor, mas aos poucos tudo começa a ganhar contorno e estou muito ansiosa para tudo vos mostrar ♡

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15/10/2025

Rascunhos Antiespecistas | Quando a linguagem se torna cruel: a proibição do “burguer vegetal”


No dia 8 de Outubro, os eurodeputados discutiram uma proposta que, entre outros aspectos, requeria a proibição de termos como burger, salsicha e escalope para produtos de origem vegetal. Por outras palavras, tais produtos não podem ser mais denominados e rotulados com tais termos. A proposição é a seguinte:
Emenda 113
Proposta de regulamento
Artigo 1.º – n.º 1 – ponto 8 f) (novo)
Regulamento (UE) n.º 1308/2013
Anexo VIII – parte II A (nova)

No Anexo VIII, é acrescentada a seguinte parte:

Parte II A
Carne, produtos de carne e preparações de carne

Para efeitos da presente parte, entende-se por carne as partes comestíveis dos animais referidos nos pontos 1.2 a 1.8 do Anexo I do Regulamento (CE) n.º 853/2004, incluindo o sangue. Os termos e denominações relacionados com carne, abrangidos pelo artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 1169/2011 e actualmente utilizados para carne e cortes de carne, devem ser reservados exclusivamente para as partes comestíveis desses animais. (...)
As denominações abrangidas pelo artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 1169/2011 que são actualmente utilizadas para produtos e preparações de carne devem ser reservadas exclusivamente a produtos que contenham carne. Essas denominações incluem, por exemplo: bife, escalope, salsicha, hambúrguer (...) Os produtos e cortes de aves definidos no Regulamento (UE) n.º 543/2008, que estabelece as regras de execução do Regulamento (UE) n.º 1234/2007 do Conselho no que respeita às normas de comercialização da carne de aves de capoeira, devem ser reservados exclusivamente às partes comestíveis dos animais e aos produtos que contenham carne de aves. As denominações acima mencionadas não devem ser utilizadas para qualquer outro produto que não os referidos e excluem os produtos de cultura celular.
O fundamento apresentado foi que a utilização das palavras supracitadas para definir preparações à base de plantas não é transparente e pode induzir o consumidor a erro. Na verdade, a intenção é clara: defender os interesses da pecuária, o que implica defender uma visão que privilegia a carne de animais. A votação — de um parlamento agora mais distribuído à direita (Alô, veganos que separam veganismo de política? Este texto também é para vocês) — foi favorável à proposta. É particularmente estranho a União Europeia proteger uma das indústrias comprovadamente mais poluidoras, ao ponto de aprovar esta mesquinhez, e ao mesmo tempo bater o peito e garantir que está a trabalhar muito em prol do ambiente e da sustentabilidade. Pessoalmente não compreendo como podemos correlacionar ambas de forma coerente, visto não ser possível haver justiça climática com exploração animal.

Enquanto à superfície esta proibição aparenta ser um mero disparate e um gasto de recursos políticos (e é-o também, atenção), o seu âmago esconde alguns alicerces da exploração animal: a perpetuação e normalização do especismo simbólico e do especismo psicológico.

Assim como outras formas de opressão, o especismo — que é a discriminação com base na espécie — é repartido em várias categorias. De facto, categorizar é uma das bases da discriminação, visto a mesma necessitar de uma visão dualista, algo que é explicado por Carol J. Adams: em The Pornography of Meat, Adams refere que existe a categoria “A”, culturalmente classificada como superior, racional e a que mantém a ordem – e, por isso, tem o privilégio de explorar, a seu bel-prazer, a categoria “Não A”, que é culturalmente entendida como inferior, emocional e instável, pelo que, além de precisar de ser subjugada, precisa de aceitar essa subjugação. Veja-se que Adams define a categoria considerada inferior como “Não A” em vez de “B”: tal deve-se por, no raciocínio hierárquico construído e imposto por “A, “Não A” ser totalmente despojada das qualidades e capacidades que qualificam o primeiro como sumamente superior. “Não A”, além de inferior, não tem autonomia e é vista como uma extensão imperfeita, dependente de “A”, que necessita de ser vergada e submeter-se às vontades de “A”. No caso da discriminação especista, “A” são os animais humanos e “Não A” são os animais não-humanos.  E, para manter este fosso segregador, diversos estilos de discriminação são congeminados.

O especismo simbólico refere-se à forma como a linguagem, a cultura e os símbolos reforçam a ideia da superioridade humana em relação aos animais. Já o especismo psicológico actua na mente colectiva ao reforçar o hábito de associar “comida de verdade” à carne animal, enquanto despreza o vegetal e o reduz a “imitação”, “substituto” e “artificial”. Os animais tornam-se, assim, imperceptíveis enquanto seres sencientes e reduzidos a mercadoria.
Fica, assim, evidente que esta proibição não é só uma questão de semântica: é uma tentativa de preservar a percepção cultural que temos em relação à carne e aos próprios animais. É mais uma das milhares de rodas que movimentam a engrenagem do especismo, sendo que esta roda, recentemente inserida pela União Europeia, recorre à linguagem veladamente para fortalecer, ainda mais, o conceito de que certos animais são alimento – e que os seus pedaços formam o substancial e inevitável protagonista do nosso prato. As suas contrapartes vegetais são, assim, ridicularizadas e reduzidas aos rótulos acima mencionados.

Esta interdição também mostra aquilo que o especismo é: cruel, hegemónico e dissimulado. Cruel porque, juntamente com o capitalismo, depende do sofrimento e da matança de animais para prosperar. Não foi por acaso que, sem surpresas, o sector pecuário regozijou-se com esta decisão de proibir os termos para opções vegetais;
Hegemónico porque não admite que a divergência ganhe força, por mais que essa força seja uma humilde gota num imenso oceano de vilanias – e é aqui que entra a pressão da indústria da carne, incluindo tornar termos gerais exclusivamente seus;
Dissimulado porque, ao mesmo tempo que argumenta pela proibição desses termos “para não enganar os consumidores”, despersonaliza os animais de tal modo que os respectivos retalhos em nada se assemelham a eles. Um hambúrguer não se parece com uma vaca. Uma salsicha não se parece com um porco. Porque se esforçam tanto para tornar os animais referentes ausentes dos seus próprios corpos? Porque é que os animais são obliterados ao ponto dos seus pedaços nos fazer esquecer que antes, em vida, existiu um indivíduo completo, complexo e consciente?

Um pormenor presente na emenda e que achei interessante foi a definição oficial apresentada para “carne”: partes comestíveis de animais. Foi a partir dessa premissa que o argumento de exclusividade das palavras hambúrguer, salsicha, etc., foi desenvolvido, visto que carne, de acordo com a dita, é unicamente de animais – sendo assim, obviamente que faz sentido as definições supratranscritas só poderem ser aplicadas àquilo que for de origem animal.
Achei interessante porque, etimologicamente, a palavra “carne” deriva do latim caro, carnis, que significa “substância do corpo”. No entanto, não era especificamente sobre substância animal e referia-se a qualquer parte mole do corpo independentemente da sua origem. Carne de coco, carne de caju e carne de melancia são alguns exemplos: tais expressões existiam (e ainda existem!) e eram consideradas correctas e normais. Em suma, originalmente, carne designava a parte comestível e macia de algo. Mais tarde, com o aumento do consumo de animais e o domínio da pecuária, o termo foi apropriado cultural e economicamente para significar, exclusivamente, o tecido muscular de animais. Como podemos ver, rebaptizar e expropriar palavras não é uma novidade da engrenagem especista.

Quanto aos termos que fomentaram todo este debate, são designações para formatos de alimentos e como estes foram confeccionados: “hambúrguer” é um preparado arredondado, feito com um ou mais ingredientes principais, que foram picados, temperados e aglomerados; “salsicha” é um enchido que, apesar de comummente ser de carne de animais, também pode ser feito com vegetais: há registos culinários medievais de salsicha de arroz e lentilhas, por exemplo.

Questões etimológicas e históricas à parte, outro factor que esta proibição criou é que um hambúrguer, uma salsicha e um escalope, ao só poderem ser designados como tal se forem de origem animal, passam também a carregar, exclusivamente, o que vem juntamente com a carne mas que nos é invisível: a dor, a tortura e a morte. Usemos as armas do especismo contra ele próprio: denunciemos o real significado do que está por detrás daquilo que se consome.

No fundo, esta proibição revela o medo de um sistema que teme qualquer questionamento ou crítica ao monopólio da carne – e, paradoxalmente, ao mostrar esse medo, oferece-nos a chance de ver as coisas com mais clareza, como o mundo vegetal não necessitar das designações que o status quo, no alto do seu preconceito, lhes nega constantemente. Concordo que devamos resistir e exigir o direito de usar essas palavras — afinal, não é por ser isento de origem animal que deve ser silenciado —, mas, ao também revelarmos que não precisamos delas para legitimar o que é vegetal, estamos a desmantelar esta lógica de subordinação, que ridiculariza o vegetal ao acusá-lo de copiar o animal através desses termos para se viabilizar. Estamos, de alguma forma, a libertar a alimentação à base de plantas da dependência do discurso dominante. Como escreveu Ruan Félix, um cogumelo não precisa de ser chamado de bife ou de bacon para brilhar – só precisa de ser chamado pelo que é: um cogumelo. Um simples, carnudo (ups, espero que a UE não me excomungue) e apetitoso cogumelo.

No fim, o que está em jogo não são somente palavras, até porque a verdadeira transformação não está apenas em nomes ou rótulos: está em reconhecer a manipulação e a má-fé por detrás deste jogo, de escancarar as rodas desta engrenagem e, numa contracorrente desobediente, escolher o que é vivo, sem violência, sem domínio e sem medo. Está em semear e cultivar a nossa própria lógica. Uma que floresça sem sangue e sem morte. E com essa lógica seguimos, seja a informar, a criar ou a cozinhar. Um prato vegetal de cada vez.


Imagem: Roman Odintsov
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18/09/2025

Panquecas para quem não as sabe fazer



J'accuse... moi 😬 No que toca a panquecas sempre fui a maior nabiça hortaliça: queimava-as, deixava-as cruas, deixava-as pesadas, colavam na frigideira, na crepeira, em todo o lado. Sou péssima a seguir regras de culinária mas, neste caso, cumpria à risca com os ingredientes, as medidas e o modo de preparação, tudo muito direitinho, para no fim a panqueca sair toda torta 🌚 Não creio que haja alguém igual ou pior do que eu em preparar panquecas, pelo que esta receita vai ser, sem sombra de dúvida, infalível para qualquer pessoa que experimentar fazê-la. Seja um ás ou um noob, o sucesso é garantido!

Só precisam de:

1 cup de farinha de trigo extra fina

1 cup de leite de soja (utilizo o da Alpro com sabor a baunilha para adoçar automaticamente)

1 colher de sopa de vinagre de maçã

1 colher de chá de fermento químico

½ colher de chá de bicarbonato de sódio

1⁄4 colher de chá de sal

½ colher de sopa de óleo vegetal

Segredo número um: talhar o leite de soja, para as panquecas ficarem mais macias e menos densas. Se quiserem ser chiques podem chamar a esse processo de 'confeccionar o buttermilk vegetal': integrem o vinagre no leite e deixem repousar cinco minutos.
Enquanto isso, misturem, numa tigela à parte, os ingredientes secos — farinha, fermento, bicarbonato e sal.
Combinem o leite talhado e o óleo aos ingredientes secos e misturem delicadamente só até incorporar. Não batam demais e não se preocupem se a massa ficar com alguns grumos.
Segredo número dois: permitam que a massa descanse cinco a dez minutos antes de a cozinharem: isso resulta em panquecas mais altas e fofas.
Na crepeira, ou numa frigideira antiaderente, em lume médio-baixo e previamente aquecida, coloquem 1⁄4 cup por panqueca. Cozinhem até surgir bolhas na superfície, virem e deixem cozinhar mais dois ou três minutos.

E pronto, panquecas fofas garantidas — mesmo para quem, como eu, sempre se baralhou com elas ♡

Extras que funcionam lindamente na massa:

Framboesas frescas
Morangos picados
Mirtilos
Raspas de limão
Pepitas de chocolate (as da Vahiné são isentas de substâncias animais)

Simples, com frutas, manteiga de amendoim, xarope de agave, chocolate... dêem asas à imaginação (e à gulodice, muahaha). Sirvam preferencialmente quentinhas, mas frias também ficam boas ♡
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15/07/2025

Bolinhas de grão fáceis de fazer



Ultimamente a cozinha tem sido um espaço terapêutico: a modorra e a desmotivação têm-me fustigado a mente impiedosamente, pelo que preferi dar uma pausa no conteúdo mais intelectual e dedicar-me um pouco a ter a barriga em beira de fogão. O blogue não vai virar site de receitas mas, como referi aqui, compreendi que até é pertinente mostrar víveres simples, acessíveis e plenos de sabor. A luta também se faz no prato, pelo que a comida é um activismo – e se for antiespecista, melhor. É o que se deseja.

Estava a matutar numa ideia para o almoço da criança que, além de versátil, fosse minimalista, saborosa e saudável. De almôndegas passei para falafel e do falafel para umas bolinhas de grão-de-bico feitas no forno, não fritas. São insanamente deliciosas e insanamente fáceis de se fazer.

Mais uma vez é uma receita de olhómetro, mas nada temam: entrem no maravilhoso mundo da culinária intuitiva com estas bolinhas de grão espectaculares.

Só precisam de:

Pouco mais de 1 cup (cerca de 170-180 g) de grão-de-bico cozido

½ (40 g) cup de aveia instantânea

1 cenoura pequena ralada (nas bolinhas da fotografia esqueci-me de adicionar a cenoura 🌚 também ficam boas mas a cenoura dá uma textura e cor mais interessantes)

Azeite (fiz um pequeno splash, mas deve ser sensivelmente 1 colher de sopa cheia)

Molho de soja (outro splash, provavelmente 2 colheres de sopa) ou sal

Ervas secas a gosto (numas coloquei orégãos, nestas pus limão e tomilho. Usem as que quiserem, experimentem, arrisquem)

Pré-aqueçam o forno a 180°C.

Numa taça, esmaguem bem o grão-de-bico com um garfo. Adicionem a aveia instantânea e envolvam bem.

Juntem a cenoura ralada, o azeite, o molho de soja e as ervas. Misturem com as mãos até obter uma massa moldável. Se estiver seca coloquem um pouco de água; caso tenha ficado demasiado pastosa acrescentem alguma aveia instantânea.

Moldem bolinhas pequenas e repartam-nas num tabuleiro forrado com papel vegetal. Levem ao forno durante 15 a 20 minutos.

Estas bolinhas ficam óptimas quentes ou frias, o que as torna perfeitas para marmitas. Para as acompanhar fiz um molho de iogurte absurdamente simples: como a criança não vai muito à bola com alho em pó e com ervas que fiquem visíveis, limitei-me a misturar umas gotas de limão e de molho de soja num iogurte de soja natural estilo skyr. Por aqui foram um sucesso (milagre, farta de selectividade alimentar já ando eu 😑).

Para as conservar:

Retirá-las do tabuleiro quente e distribuí-las numa superfície com papel toalha por baixo (isso vai ajudar a eliminar alguma humidade e gordura enquanto arrefecem). Quando estiverem frias, guardá-las num recipiente hermético, idealmente forrado com papel toalha, e guardar no frigorífico até dois dias.
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22/06/2025

Bolo de morango (feioso mas saboroso)



Quando o blogue nasceu não tinha quaisquer intenções de partilhar receitas: além de tantas pessoas já publicarem comidas tão bonitas e tão boas, não faço propriamente pratos esteticamente cativantes: faço refeições simples, como o típico arroz com feijão que não enche os olhos mas o estômago. Mas aos poucos fui sentindo que, visto comer ser uma forma de activismo e também um acto político – principalmente quando o movimento se quer antispecista – até faz sentido uma comum mortal, com zero aptidão em técnica culinária, mostrar os seus esquissos gastronómicos e assim espelhar uma das realidades além-Instagram: comida sem filtros, acessível, fácil de confeccionar e que, apesar de ser feia que dói, nela residir uma panóplia de aprazíveis sabores. Então decidi perder a vergonha e apresentar este bolo que, apesar de ainda ter o papel vegetal por baixo e a cobertura esparramada à toa, é tão delicioso que merece o seu lugar nesta mui vasta blogosfera.

Esta receita dá para um bolo pequeno e rende seis fatias.

Ingredientes:

2 copos (250 g) de farinha de trigo

2 colheres de chá rasas (8 g) de fermento químico (se quiserem, podem substituí-lo por 6 g de fermento em pó + 2 g de bicarbonato de sódio)

¼ colher de chá (1 g) de sal fino

½ copo (120 ml) de óleo vegetal

¾ copo (150 g) de açúcar mascavado

1 ½ colher de chá (7,5 g) de pasta de baunilha (utilizo da Vahiné e não quero outra coisa. Prefiram pasta em vez de aroma, por a primeira ter verdadeiramente baunilha e isso influenciar totalmente o sabor)

½ copo (120 ml) de leite vegetal

1 colher de sopa (15 ml) de sumo de limão (para um toque mais citrino dupliquem a quantidade)

½ copo (120 g) de compota de morango sem açúcar

Morangos médios picados (costumo usar uns dez)

Para a cobertura:

Natas vegetais de soja para bater, como as Whipping Soya da Alpro

Gotas de limão

Pasta de baunilha

O papel vegetal diz olá 😬

Pré-aqueçam o forno a 170°C e forrem uma forma pequena (com 16 centímetros de diâmetro, por exemplo) com papel vegetal. Untem ou pulverizem as laterais com óleo.

Misturem os ingredientes secos: numa taça peneirem a farinha, o fermento químico e o sal.

Tratem dos ingredientes líquidos: noutro recipiente, e com uma vara de arames, misturem o óleo, o açúcar, a pasta de baunilha, o leite vegetal e o sumo de limão. Mexam bem e devagar, para que a massa incorpore ar e fique fofinha.

Envolvam a compota e os morangos picados no preparado líquido.

Adicionem gradualmente os ingredientes secos aos líquidos, mexendo delicadamente até ficar homogéneo. Como os morangos picados ficam presos na vara de arames podem finalizar com uma espátula mas sem bater depressa para que o bolo não fique excessivamente denso.

A massa deve estar com alguma constância e um aspecto acetinado. Caso escorra demasiado adicionem um bocadinho de farinha de trigo; se estiver demasiado firme complementem com um fio de leite vegetal. O ponto ideal é a massa deslizar devagar quando vertida para a forma.

Levem ao forno por 40 a 45 minutos ou testem com um palito até ele sair limpo. Evitem abrir a porta do forno o máximo possível para diminuir o risco do bolo colapsar.

Deixem o bolo arrefecer antes de o desenformar. Enquanto isso, preparem a cobertura: batam as natas de soja com uma varinha de arames eléctrica ou com uma batedeira, acrescentando gotas de limão e pasta de baunilha. Também podem colocar xarope de tâmaras no lugar da baunilha.

Quando o bolo já estiver frio distribuam a cobertura e decorem com morangos frescos. Levem ao frigorífico por algumas horas (idealmente de um dia para o outro) para a cobertura firmar.
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07/03/2025

“Não cheguei ao topo da cadeia alimentar para comer alface”


O ano é 2025 e ainda ouvimos as mesmas justificações falaciosas e forçadas de há 20 anos ou até mais. Justificações para o injustificável, que é transformar um ser complexo, com sensações e emoções, num mero retalho despersonificado e que, aos nossos olhos, nos deixa bem longe do animal que outrora foi, tornando-o invisível. Uma descaracterização hedionda e tortuosa, transformando grotescamente um indivíduo numa mera comoditização. Que, um dia, estes argumentos, ainda lançados em loop infinito, diminuam até atingirem aquilo que verdadeiramente são – o ridículo. Que, um dia, precisar de contra-argumentar exaustivamente também diminua até deixar de ser necessário: será sinal de que a libertação animal está, finalmente, cada vez mais perto de ser conquistada. Até lá, continuemos a mostrar que todas as bases que sustentam estes hábitos especistas não são mais do que puramente infundados.

“Os nossos antepassados não aprenderam a fazer fogo para comer carne cozida e evoluir até onde estamos hoje para eu comer mato e começar o retrocesso.”

Os nossos antepassados são precisamente isso: antepassados. Os nossos antepassados viviam em constante modo de sobrevivência. Também não tinham os recursos e conhecimentos que temos actualmente, pelo que não existe lógica neste argumento ad antiquitatem. Nós não vivemos como eles viviam: então, para quê mencioná-los?
Os nossos antepassados descobriram o fogo e, agora, podemos usar esse fogo para cozinhar alimentos que não implicaram exploração e morte desnecessárias.

“Nós somos superiores aos animais.”

Ao longo dos séculos, o uso e abuso das diferenças (físicas, biológicas, entre outras) foram um entrave para a evolução civilizacional. Os esclavagistas defendiam que se explorassem negros referindo como estes eram menos inteligentes; os homens maltratavam as mulheres por considerarem-nas mais fracas fisicamente e intelectualmente; povos indígenas foram massacrados pelas mesmas razões, bem como crianças foram continuamente negligenciadas por serem mais vulneráveis do que os adultos. Se ainda hoje esse tipo de discriminações acontece, levando a acções violentas e criminosas, é por muitos insistirem que essas diferenças encontram-se acima de qualquer condição moral que garanta os plenos direitos a todo e qualquer indivíduo. Não passa de puro egoísmo que visa, exclusivamente, a protecção dos interesses pessoais de alguns em detrimento dos outros.

Essa desconsideração que leva o ser humano a classificar-se superior encontra-se também, e em larga escala, no modo como continuamos a tratar os animais não-humanos. Não é a inteligência, a força física, a capacidade moral, entre outros factores desse género, que definem a defesa da equidade. Se assim o fosse, um porco merecia ter mais direitos do que uma criança de três anos já que é mais inteligente. Se assim o fosse, indivíduos num estado avançado de demência não teriam direitos, já que perderam a sua capacidade moral.
Não são as nossas aptidões que nos tornam superiores aos animais não-humanos e que permitem que os exploremos para o nosso benefício. Os animais, assim como nós, sofrem — e, assim como nós, têm o interesse de não sofrer.

Mas os leões também matam animais para comer.

Estou perdida: primeiro nós podemos comer animais porque somos mais inteligentes do que eles, e agora podemos comer animais porque outros animais também o fazem? Afinal, em que ficamos?
Só o facto de não sermos leões é suficiente para esta comparação não ter sequer cabimento. Os leões não criam animais em massa: não os inseminam artificialmente, nem os manipulam geneticamente. Não matam mais de um milhar de animais por segundo e não os retalham em pedaços para serem dispostos em prateleiras comerciais. Eles, e outros animais carnívoros, necessitam de comer animais ao contrário de nós. Para eles é uma questão de sobrevivência, não de escolha.
Se temos competências racionais que nos separam da vontade superficial instintiva, e se temos também princípios morais que nos leva a questionar como devemos tratar os outros, porque não abrangemos essa capacidade e esses princípios em coisas tão simples como a alimentação?

Os nossos antepassados caçavam. Nós somos caçadores por natureza.

E pelos vistos os supermercados, com os cadáveres previamente preparados e embalados, substituíram a savana de outros tempos.
O ser humano foi caçador-colector há milhares de anos e caçava por sobrevivência e necessidade. Com o tempo evoluiu, sedentarizou-se, formou-se civilizacionalmente, começou a cultivar os seus próprios alimentos, adquiriu novos hábitos, novos pensamentos e novas preocupações sociais, políticas, religiosas, interpessoais, intrapessoais e morais. Nós somos fruto de uma evolução a todos os níveis e, actualmente, vivemos numa época em que a senciência animal é um facto e não uma suposição. Um caçador-colector sabia lá que os animais sofriam – provavelmente nem sequer tinha uma designação para classificar os animais. Para além disso, eles não conheciam e não tinham à sua disposição os milhares de produtos de origem vegetal que hoje temos. Simplesmente não faz sentido nenhum insistir nos costumes passados quando o presente é totalmente diferente.

Tu não és perfeitinha, sabes? Quando andas pela rua pisas e matas formigas, por isso só estás a perder o teu tempo.

Exigir perfeição a quem é imperfeito mas tenta fazer o seu melhor para provocar o mínimo de mal possível aos outros é brutalmente desonesto.
O facto de existirmos implica, obviamente, a morte de animais; mas, ao passo que tal não nos impede de ser contra as touradas ou contra os testes em animais, também não nos impede de deixar os animais fora do prato. Não é por não conseguirmos salvar uns que devemos ignorar aqueles que podemos ajudar. Assim como todas as filosofias, lutas e princípios de vida, o antiespecismo não é e não pode ser purista: no entanto, isso não é uma obstrução para a sua prática.

O ser humano evoluiu quando começou a comer carne, pelo que a evolução estagnará se deixarmos de a consumir.

O Robson Fernando de Souza, autor do Veganagente, tem uma resposta tão perfeita que não resisti em transcrevê-la aqui (se ainda não conhecem o site aproveitem para dar uma vista de olhos, é bastante informativo):
“Este argumento adopta uma visão que alterna uma abordagem darwiniana da evolução com um ultrapassado olhar lamarckista. Em relação ao passado, ele pode até ter algum sentido, se forem ignorados os questionamentos existentes sobre o passado alimentar distante do ser humano. Mas erra ao dizer que o vegetarianismo compromete a evolução humana, uma vez que a sedentarização e modernização das sociedades humanas tornou a nossa espécie livre das pressões selectivas naturais que outrora nos teriam requerido uma alimentação omnívora. Os humanos das sociedades modernas (...) já não precisam de caçar, nem mesmo de matar qualquer animal com fins de consumo alimentar. 

Há uma alegação semelhante paralela, de que o ser humano precisou de carne para aumentar o seu volume cerebral e, por isso, o vegetarianismo ameaça causar um retrocesso. Mas ela tem uma essência basicamente lamarckista, baseada na transferência hereditária não genética de mudanças corporais e já refutada pela teoria darwiniana e pela genética mendeliana, ao crer que o cérebro aumentará à medida que as pessoas continuem a comer carne (...).”


Não cheguei ao topo da cadeia alimentar para comer alface.

De todos os animais, somos os únicos que utilizamos um sistema artificial para provocar uma criação daqueles que matamos para comer. Isso não faz de nós predadores por natureza, contrariamente aos animais que caçam. Para além disso, considerar correcto e natural explorar e/ou mesmo matar os mais fracos é igualmente utilizado como argumento por aqueles que perpetuam crimes contra o seu próprio semelhante. Se o senso comum é peremptório ao afirmar que não temos o direito de dominar os outros, só por esses outros serem mais frágeis, então também não temos o direito de dominar os animais não-humanos.

E se parares numa ilha deserta e só estiver lá uma galinha?

– Sempre tenho companhia;
– Cuido da galinha, chamo-a de Mimi e vamos viver grandes aventuras;
– Como raio a galinha foi parar a uma ilha deserta?
– E porque raio irei parar a uma ilha deserta?

Se todos virassem vegetarianos, os animais utilizados para consumo deixariam de ser úteis e extinguir-se-iam.
Este é um dos raciocínios que mais me confunde, tanto por carecer de lógica como por existir outro totalmente oposto: de que, se pararmos de comer animais, estes serão em demasia e tomarão conta de tudo. Só a disparidade destes dois raciocínios mostra a falácia presente em ambos.

“Temos de perceber que a produção de produtos de origem animal assenta numa base de oferta e procura; isso significa que, quando vamos a um supermercado e compramos determinados produtos, estamos a exigir que estes continuem a ser fornecidos.
Os fazendeiros não criarão animais que sabem que não conseguirão vender, simplesmente por não ser viável economicamente. Se aliarmos isso com o facto de que o mundo não se tornará vegano de um dia para a noite, o processo será gradual durante um longo período de tempo, o que significa que quantas mais pessoas se tornarem veganas, cada vez menos animais serão criados para a produção de derivados de animais. Assim, num cenário em que todas as pessoas são veganas, não haverá uma situação em que tenhamos biliões de animais vivos a andar por aí, em que ou os tenhamos de libertar na Natureza ou que os tenhamos de matar, porque o número de animais que estão a ser criados diminuirá de acordo com a proporção de pessoas veganas.
Quanto ao outro argumento, de que se os animais não forem criados para consumo acabarão extintos, podemos vê-lo desta forma: se não criássemos estes animais eles não existiriam de qualquer das maneiras, visto que eles são fruto de uma selecção e mutação genética por nós criadas. Por causa dessas mutações, dificilmente esses animais conseguiriam sobreviver sozinhos na Natureza, pelo que precisam dos humanos para cuidar deles, algo que os santuários já fazem.
Além de tudo isso, ao erradicarmos a pecuária estamos a permitir que os habitats naturais (os que foram destruídos por causa dessa indústria) ressurgem, o que também permite que a vida selvagem e a biodiversidade natural floresçam.” 
Ademais, afirmar a “utilidade” que os animais têm para o humano é uma objectificação clara dos mesmos. Acabamos por esquecer que possuem um propósito na vida e consideramos correcto explorá-los para nosso benefício.
Argumentar que as vacas, os porcos e as galinhas vão extinguir-se se pararmos de comê-los leva a recordar o que os apoiantes da tauromaquia ameaçam constantemente: que o fim das touradas levará ao desaparecimento do touro bravo (e sabemos que isso não é verdade).

A minha comida caga na tua.
Esta é já um clássico: nem pode ser considerada um argumento, mas precisava mesmo de a incluir aqui.  Considerem-na um bónus na categoria de tesourinhos deprimentes.
As vacas, os porcos e até mesmo os peixes ingerem os seus próprios dejectos. Nas pecuárias, a higiene é tão nula que os animais acabam por não ter outra opção senão comer o que sujaram com as suas fezes. Os seus insumos também não escapam incólumes: por exemplo, um ovo é poroso, pelo que fica facilmente contaminado com matéria fecal, e o leite de vaca é uma miscelânea de fezes, sangue e células somáticas que a pasteurização não consegue eliminar por completo. Mas sempre é mais fácil cuspir uma frase sem sentido e em tom de deboche triunfante do que pensar um pouco nesses pormenores demasiado óbvios 🙃



Imagem: Pexels
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07/01/2025

Pão de ‘queijo’ e um pedido de desculpa pela minha ausência

Pois é, o interlúdio metamorfoseou para uma ausência. Não que me tenha esquecido do blogue — pelo contrário, pensei inúmeras vezes nele, nos temas que pretendo escrever e nos textos que quero partilhar — mas o tempo insiste em ser inexistente, além da saúde mental permanecer demasiado fragilizada para dar asas a exercícios intelectuais. Tenho um quintilião de livros sobre ética animal para estudar, de modo a apresentar as minhas considerações por aqui, mas nem uma frase consigo apreender sequer. É como se o cansaço fosse uma nimbo-estrato de ferro, bloqueando a minha mente de capacidades básicas como ler e escrever. E, a cada dia que passa ,é como se essa nuvem se enrolasse mais, e mais, e mais, transformando-se num traiçoeiro novelo espinhoso e emaranhado.

E, se de um lado o cansaço é um enorme condicionante, no outro está o pessimismo e a desesperança, filhos das inúmeras tragédias que, impotentes, actualmente assistimos e da desconfortável impressão de que estamos embriagados na apatia e na intolerância. Cada vez mais sinto que o altruísmo e a compaixão estão a desvanecer perigosamente, o que me deixa a pensar se ainda é pertinente semear gentileza numa batalha que parece estar cada vez mais perdida. Antes conseguia sonhar, mesmo estando o mundo doente, mas tudo isso findou. O niilismo só não se assenhoreia de mim porque o coração, apesar de trucidado, todos os dias assiste como o ser humano é bom por natureza e que, precisamente por isso, vale a pena continuar a resistir. A libertação animal parece-me cada vez mais longínqua, tendo em conta como nos temos aprisionado uns aos outros com os grilhões da ganância e do ódio, mas a luta tem de prosseguir, mesmo que seja a minoria a abraçá-la. Esta e outras mais, pela liberdade de todas e de todos, tenha pele, pêlo, penas, escamas ou simples casca.

Finalizado este desabafo, acrescento que continuo sem saber quando voltarei a estar mais activa por estes lados: no entanto, garanto que tanto o blogue como a causa não estão olvidados e que pretendo, assim que me sentir melhor, retornar com consistência. Também tenho intenção de criar uma nova rubrica, enquanto me encontro incapaz de desenvolver conteúdo para os Rascunhos Antiespecistas, com dicas de leituras voltadas para os mais pequenos. Até lá, permanecerei um pouco mais no casulo que teci para me recuperar e deixo-vos com uma espécie de receita de uma espécie de pão de ‘queijo’ (também chamado de pão de beijo ou de pão sem queijo, sendo que o chamo de bolinhas de tofu). Não sei se é propriamente correcto designá-la de receita por ter sido feita a olho, mas é tão saborosa que tinha de partilhar.


Vão precisar de:

Tofu firme

Azeite

Sal fino

Levedura nutricional

Polvilho doce e polvilho azedo

Pré-aqueçam o forno a 180°C.

Esmaguem o tofu até ele ficar o mais despedaçado possível. Acrescentem sal e levedura nutricional a gosto (eu coloco muita levedura, fica espectacular) e azeite o suficiente para obter uma mistura levemente hidratada mas não oleosa e nem demasiado seca. Envolvam tudo muito bem, aproveitando para moer ainda mais o tofu.

Aqui é a parte em que a intuição trabalha com a precaução: coloquem, aos poucos, os polvilhos, um de cada vez. Eu coloco um pouco mais de polvilho doce do que azedo por gostar das bolinhas mais macias, mas se preferem uma capa mais crocante invertam e adicionem um pouco mais de polvilho azedo do que doce. Misturem até obter uma consistência firme mas não dura. O preparado também não pode ficar com uma textura farinhenta: deve estar húmido e sem colar nas mãos limpas e secas.

O preparado necessitará de ficar, sensivelmente, com uma consistência similar a esta. Aqui fiz cerca de 700 gramas de tofu, o que rendeu 22 bolinhas (teria dado mais se uma certa mini madame não tivesse assaltado a tigela continuamente 🌚).

Moldem em bolinhas e distribuam no tabuleiro do forno forrado com papel vegetal, deixando assar por 20 minutos.

Retirem do forno e deixem arrefecer por alguns minutos: quentinhas são deliciosas, mas também são boas frias. Comam tudo e não deixem nada 😊


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