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Parte da resistência ao antiespecismo não nasce da nutrição, mas de doxas culturais profundamente estabelecidas sobre identidade e género. Uma delas é a conexão entre carne e masculinidade.
Como referi aqui, a soja tem sido amplamente atacada. Além da crescente tendência pró-carne, este ataque cerrado está, também, conectado com o surgimento de um padrão de hipermasculinidade, fruto da manosfera (comunidade que, além de promover misoginia e violência contra as mulheres, é também violenta com os próprios homens), que estabeleceu que certos alimentos devem ser totalmente evitados por serem “femininos”. Produtos à base de soja são alguns deles.
Essa ideia não é propriamente de agora: Carol J. Adams dissecou-a historicamente, socialmente e filosoficamente, há quase 40 anos, mostrando que o paradigma da carne, como alimento essencialmente masculino e associado à virilidade nasceu há mais de 200 anos, de mãos dadas com a consolidação do sistema patriarcal. Outrora, a carne representava o status económico da pessoa: a partir do século XIX passou a ser como que uma calculadora de masculinidade para os homens.
Para acompanhar o perambular do tempo, a narrativa modernizou-se e agora vende-se através de propagandas de churrasco, hambúrgueres gigantes e dietas excessivas em proteínas. A soja, por ser uma proteína vegetal, tem a sua versatilidade arrasada e rejeitada. A disseminação de que produz/imita/aumenta estrogénio no nosso corpo também é bastante aplicada para assustar os homens e relegá-la para comida de mulher.
Tudo isto atingiu proporções tão espantosas que levou a que toda esta questão da carne, da soja e da masculinidade voltasse a ser tema de estudos psicológicos e sociais. As descobertas e interligações desses estudos estão a ser, por falta de palavra melhor, fascinantes:
A rejeição da soja como espelho da masculinidade frágil: por ser rotulada como feminina, os rapazes e os homens recusam-se a consumi-la, principalmente à frente dos seus pares. Um estudo da University of Bath demonstrou que, quando a masculinidade de um homem é colocada em causa, uma das respostas imediatas é rejeitar opções vegetarianas e escolher pratos com carne vermelha;
A preferência pela carne como ferramenta performativa: o seu consumo exagerado é uma forma de deixar claro o estatuto do homem enquanto macho alfa (seja lá o que isso for). Num estudo australiano, homens que se autoidentificavam como “mais masculinos” mostraram menos intenção de reduzir o consumo de carne. Já um inquérito, neste caso norte-americano, teve 53% dos homens a considerar uma dieta carnívora como “masculina”, 49% a classificar a carne como “masculina” e 35% a associar produtos à base de soja ao “feminino”.
O poder da falsa ciência e as suas consequências: neste caso, os homens evitam soja por receio dos fitoestrogénios poderem afectar as suas hormonas. Todavia, são inúmeras as evidências médico-científicas que refutam essa premissa.
A rejeição da soja por preconceito eurocêntrico e colonial: a manosfera, à boleia da extrema-direita, recuperou discursos discriminatórios e racializados que já circulavam no século XIX, quando os impérios britânico e norte-americano associavam dietas maioritariamente vegetais dos povos asiáticos à fragilidade e à feminilidade, em contraste com a suposta virilidade ocidental ligada ao consumo de carne. Os povos asiáticos eram dóceis por comerem arroz; já os ocidentais eram fortes e conquistadores por comerem carne.
A título de curiosidade, houve uma mentalidade similar no século XVI com a colonização dos países sul-americanos por parte dos espanhóis e portugueses. Os primeiros demonizavam o milho; os segundos, a mandioca. Estes e outros alimentos eram vistos como “comida de selvagens”, ao passo que pedaços de porco, vaca e aves eram “comida de gente civilizada”.
A título de curiosidade, houve uma mentalidade similar no século XVI com a colonização dos países sul-americanos por parte dos espanhóis e portugueses. Os primeiros demonizavam o milho; os segundos, a mandioca. Estes e outros alimentos eram vistos como “comida de selvagens”, ao passo que pedaços de porco, vaca e aves eram “comida de gente civilizada”.
Carne = virilidade: a generificação alimentar e o surgimento do “soy boy”
Como mencionei, logo no início do artigo, a manosfera não só é violenta com as mulheres: também o é com os próprios homens, incluindo os que estão dentro dela. É um núcleo que se alimenta das inseguranças dos rapazes e dos homens, exagerando-as e transformando-as num problema gigante, encaminhando estrategicamente a culpa para as mulheres. Em vez de acolherem o jovem, dizem-lhe que está a falhar enquanto homem. O processo de radicalização começou.
Por esse motivo, é raro a manosfera conseguir aliciar homens que se sentem seguros em relação a si próprios (importante salientar que egocentrismo e complexo de superioridade, mesmo parecendo, não constituem autoconfiança), pelo que a táctica aplicada é investir contra a fundação dessa segurança: assim surgiu o soy boy, termo que recorre à soja para pejorar homens que rejeitam a masculinidade artificializada.
De acordo com a manosfera, o soy boy é um rapaz ou um homem fraco, submisso e traidor da masculinidade. Rapazes e homens que são incluídos nesse insulto, regra geral, fazem coisas como respeitar as mulheres, ter empatia, praticar exercício ou desporto por razões de saúde e de bem-estar (e não para parecer um fisiculturista), preferir o diálogo ao confronto directo, ler e jogar. Em suma, rapazes e homens perfeitamente normais e que estão confortáveis com os seus gostos, os seus valores e preferem lidar com as suas vulnerabilidades de uma forma mais saudável.
A alimentação, claro, está incluída nesta categorização: veganos, automaticamente, são soy boys. Homens que não são veganos mas que têm uma dieta diversificada e optam pela opção vegetariana do restaurante, também são soy boys. O que está no prato transformou-se tanto numa arma de arremesso como num escudo de defesa: no primeiro, procura-se diminuir a masculinidade de um homem, ridicularizando-o por não comer a quantidade de carne vermelha que “deveria comer”. No segundo, procura-se cimentar essa masculinidade, preservando a autoimagem, através do consumo exacerbado dessa carne.

As raízes da relação entre consumo de carne e masculinidade são aproveitadas para fazer pressão social e psicológica através de publicidade. Da esquerda para a direita, terminando em baixo: Capa da revista Muscle & Fitness, 2009; Capa de um livro da Esquire, 2011; Anúncio de uma marca de cerveja neozelandesa, 2011.
Esta ligação entre a virilidade e o consumo de carne, que a manosfera hoje explora e desenvolve hiperbolicamente, possui, como indiquei inicialmente, raízes histórico-sociais. Uma dessas raízes é, sabemos agora, uma falácia: o mito do homem-caçador. Por muito tempo acreditou-se que, nas comunidades caçadoras-recolectoras, o homem caçava e a mulher recolectava, pré-estabelecendo papéis de género. Todavia, descobriu-se que tais papéis não existiam e que tanto os homens como as mulheres praticavam as duas actividades. Também se descobriu que, quando os dois caçavam, em detrimento do homem caçar sozinho, havia mais alimento para a comunidade, fundamentando a sua sobrevivência com maior eficácia. No entanto, o mito acabou por se consolidar e tornar-se mais relevante do que os factos.
Esta ligação entre a virilidade e o consumo de carne, que a manosfera hoje explora e desenvolve hiperbolicamente, possui, como indiquei inicialmente, raízes histórico-sociais. Uma dessas raízes é, sabemos agora, uma falácia: o mito do homem-caçador. Por muito tempo acreditou-se que, nas comunidades caçadoras-recolectoras, o homem caçava e a mulher recolectava, pré-estabelecendo papéis de género. Todavia, descobriu-se que tais papéis não existiam e que tanto os homens como as mulheres praticavam as duas actividades. Também se descobriu que, quando os dois caçavam, em detrimento do homem caçar sozinho, havia mais alimento para a comunidade, fundamentando a sua sobrevivência com maior eficácia. No entanto, o mito acabou por se consolidar e tornar-se mais relevante do que os factos.
Por muitos anos, a carne era uma divisória alimentar entre classes: os mais economicamente favorecidos ingeriam-na em abundância, fossem homens ou mulheres, enquanto os menos economicamente favorecidos comiam-na com penúria. A carne, por isso, era vista como um alimento de luxo e ostentação (as famosas tartes com 24 melros, exclusivas das cortes reais, eram uma forma de mostrar isso), enquanto os cereais, as frutas e os vegetais eram tidos como incompletos e pobres – comida de camponês.
Foi por volta de 1800, com o advento da Revolução Industrial, que a associação entre virilidade e consumo de carne se firmou. O operário-máquina necessitava de carne para ficar forte e fazer bem o seu trabalho, o que incentivou à distribuição desigual dos alimentos dentro do próprio lar: enquanto os homens ficavam com os pedaços de animais e com uma refeição mais pronunciada em quantidade, as mulheres e as crianças praticamente ficavam com os restos: batatas, vegetais, pão e chá. A carne era oferecida quase exclusivamente ao homem para que ele permanecesse forte, algo imprescindível num trabalho fisicamente exigente e perigoso.
Carol J. Adams, em A Política Sexual da Carne, oferece alguns exemplos e relatos desse tempo:
Quando a pobreza forçava uma distribuição conscienciosa da carne, quem a recebia eram os homens. Muitas mulheres enfatizavam que tinham guardado a carne para o marido. Explicavam assim as conexões entre o consumo de carne e o papel masculino: “Guardo-a para ele; ele tem de comer carne.” (...) As mulheres comiam carne uma vez por semana com os filhos, enquanto o marido consumia carne e bacon “quase diariamente”.
Hoje sabemos que a força física não depende do consumo de carne e que dietas vegetarianas bem planeadas conseguem sustentar desempenho físico e massa muscular. No entanto, a crença de que a carne é imprescindível para obter essa força, bem como para provar masculinidade e virilidade, está bastante enraizada, fortalecida pelo preconceito, desinformação e pseudociência.
“A soja faz crescer mamas nos homens”
Quem nunca ouviu ou leu essa frase? Até poderia ser o mantra da soja se fosse verdadeiro, de tantas vezes que é pronunciada. Ademais, só nos homens? A sério?
Enquanto rumino, inconformada, tamanha injustiça, deixo para vocês o que os especialistas dizem sobre a soja:
Sandra Silva, nutricionista, explica que “as isoflavonas são consideradas fitoestrogénios e têm uma acção semelhante à dos nossos estrogénios endógenos”, conseguindo ligar-se aos seus receptores. Tais propriedades fazem com que:
Quando os níveis de estrogénio estão baixos (por exemplo, menopausa) – as isoflavonas podem activar ligeiramente o receptor, produzindo um efeito semelhante ao estrogénio, mas muitíssimo mais fraco;
Quando os níveis de estrogénio estão altos – as isoflavonas competem pelo receptor, fazendo com que minimize a sua acção – ou seja, têm um efeito antiestrogénico, igualmente fraco.
Mas, e nos homens?
Mesmo sendo, pelo senso comum, uma hormona feminina, o estrogénio é essencial nos homens, estando ligado à saúde óssea, líbido, função eréctil, cérebro, metabolismo e eixo hormonal. As isoflavonas agem da mesma forma, mas com um detalhe relevante: o efeito é praticamente nulo. Por esse motivo, a evidência clínica disponível não revela associação consistente que possa assinalar a soja como potenciadora ou desencadeadora de um desequilíbrio hormonal que provocará diminuição da testosterona ou seios pronunciados nos homens.
Na verdade, a soja é um alimento nutricionalmente denso. Tem proteína completa, gorduras insaturadas, hidratos de carbono, fibra, magnésio, potássio, ferro, fósforo, folato e vitamina K. Vários estudos e meta-análises apontam que:
Pode ajudar a diminuir o risco de doença cardiovascular, por reduzir moderadamente os níveis de LDL (colesterol mau);
Em caso de diabetes tipo 2, contribui para a melhoria ligeira da sensibilidade à insulina;
Em mulheres pós-menopausa, pode atenuar a perda de densidade mineral óssea;
Por fim, contrariamente ao que se pensa, a soja não aumenta o risco de cancro. De facto, alguns estudos conectam o seu consumo à diminuição desse risco em alguns tipos de cancro, como o gastrointestinal, da próstata, do colon, do endométrio e da mama.
Outro pormenor igualmente interessante: o leite de vaca contém estrogénios verdadeiros, que são mais potentes do que os fitoestrogénios presentes na soja. Todavia, em termos de saúde humana, a evidência actual não mostra efeitos hormonais clinicamente relevantes do consumo normal de leite de vaca. Sendo assim, porque nos afligimos tanto com o leite de soja, cujas isoflavonas são muitíssimo mais fracas do que os estrogénios do leite de mamífera não-humana?
Ironicamente, alguns adeptos da dieta carnívora — bastante defendida pela manosfera — incluem todas as substâncias provenientes de animais na sua alimentação, incluindo leite de vaca (os mais estritos cingem-se a carne vermelha, água e sal), ao mesmo tempo que fogem do leite de soja. Pelos vistos, os critérios usados para justificar tal dieta são ideológicos e não bioquímicos, o que nos leva, novamente, à narrativa do antepassado caçador, à normalização do especismo, à dominância e violência contra os animais como parte, não só do antropocentrismo, mas também do próprio androcentrismo, à carne como completa, vital e masculina e ao vegetal como incompleto, passivo e feminino.
Embora estas interpretações não expliquem todas as escolhas alimentares, ajudam a compreender por que razão certos receios em relação à soja persistem, apesar das evidências não os sustentarem.
***
Recursos utilizados:
A Política Sexual da Carne: Uma Teoria Feminista-Vegetariana — Carol J. Adams
Masculinity Matters for Meat Consumption: An Examination of Self-Rated Gender Typicality, Meat Consumption, and Veg*nism in Australian Men and Women — Samantha K. Stanley, Cameron Day & Patricia M. Brown
New Poll: More Than Half of Men Think Meat Is ‘Masculine’ — Physicians Committee for Responsible Medicine
The Myth of Man the Hunter: Women’s contribution to the hunt across ethnographic contexts — A Anderson, S Chilczuk, K Nelson, R Ruther, C Wall-Scheffler
The Myth of Man the Hunter: Women’s contribution to the hunt across ethnographic contexts — A Anderson, S Chilczuk, K Nelson, R Ruther, C Wall-Scheffler
Soja: Evidência, Mitos e Controvérsias — Sandra Silva
Soya products and serum lipids: a meta-analysis of randomised controlled trials — Cambridge University Press
Effects of soy consumption on metabolic parameters in patients with metabolic syndrome: A systematic review and meta-analysis — N Mohammadifard, F Sajjadi, F Haghighatdoost
The Role of Soy Isoflavones in the Prevention of Bone Loss in Postmenopausal Women: A Systematic Review with Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials — A Barańska, W Kanadys, M Bogdan, E Stępień, B Barczyński, A Kłak, A Augustynowicz, M Szajnik, U Religioni
Neither soy nor isoflavone intake affects male reproductive hormones: An expanded and updated meta-analysis of clinical studies — K E Reed, J Camargo, J Hamilton-Reeves, M Kurzer, M Messina
The associations of soya intakes with non-communicable diseases: a scoping review of meta-analyses — Cynthia Sau Chun Yip , Yuk Cheung Yip, Wendy Chan
Imagem: Like Meat
Imagem: Like Meat
publicado em

Ultimamente, a soja tem sido alvo do nosso cepticismo, que vai desde simples dúvidas até à sua aversão. Tal aversão está a ser motivada por uma moda alimentar, que, apesar de recente, rapidamente se espalhou pelas redes sociais: a dieta carnívora, também chamada de dieta da selva.
A ancestralidade é o argumento (ou deverei dizer falácia?) principal. Afirmam que os nossos primeiros antepassados viveram unicamente à base da caça e que a evolução humana descarrilou com a introdução da agricultura. Da crítica contundente contra as plantas, a soja é uma das mais severamente atacadas, tendo-se tornado como que um símbolo de tudo o que deve ser evitado, daí estar a ser vista com desconfiança, desprezo e repulsa.
As tendências, principalmente alimentares, são cíclicas: só esse facto deveria ser o suficiente para não deixarmos que as mesmas substituam o nosso pensamento crítico. No entanto, é o que está a acontecer, daí não ser surpreendente a facilidade com a qual se está a distorcer tanto a soja. Sobre as suas propriedades nutricionais e fisiológicas — bem como outras questões relacionadas com o consumo hiperbólico de carne — isso ficará para outro artigo. Hoje, prefiro pegar noutro contexto que, apesar de não ser tão utilizado como o da saúde para difamar o coitado do tofu, também tem estado em voga: o ambiental.
No meio de tantas justificações para o consumo de carne, uma delas é a desflorestação causada pela soja e como esta, portanto, é insustentável e rouba o habitat natural de muitas espécies ameaçadas: como é que vão explicar isso, veganos?
Bem, vamos lá, então, explicar: sim, a produção de soja é uma das maiores causadoras de desflorestação, mas com um detalhe fundamental: a larga maioria não é para consumo humano directo.
Desmatamento da Amazónia: quem está a destruir a floresta?
De acordo com a Our World In Data, a criação de gado, sob a forma de pastagens, compõe 80% da desflorestação amazónica. A soja vem a seguir, mas com uma diferença avassaladora: 5 a 10% (esta variação deve-se pelos tipos de estudos e se os efeitos indirectos foram neles contabilizados).
Uma nuance importante é que, apesar do impacto considerável, a maior parte da soja é usada para alimentar animais – ou seja, para além dos 80% de desflorestação causada directamente pela criação de gado, a pecuária também provoca desflorestação indirecta através do cultivo de soja.

Não é de admirar, portanto, que a produção de soja acompanhe, precisamente, o aumento do consumo de animais. Em 2023, cerca de 318 milhões de toneladas (t) de soja foram processadas e distribuídas para ração animal, óleo vegetal e biocombustíveis, ao passo que somente 14 milhões de t foram usadas para alimentação humana directa. Essa soja chegou a ser ultrapassada pela quantidade directamente usada para alimentar os animais – 35 milhões de t.
Ao todo:
Dentro dos 19% para consumo humano, só 7% é para os alimentos à base de soja, como tofu, tempeh, bebida de soja e edamame.
Carne ou tofu: qual exige mais área?

Quanto mais terra um alimento exige para ser produzido, maior tende a ser a pressão sobre os ecossistemas, os habitats naturais e a respectiva vida selvagem.
Para 1 kg de:
• Cordeiro e borrego – usam-se 369.81 m² de terra;
• Carne bovina – 326.21 m²;
• Queijo – 87.79 m²;
• Carne suína – 17.36 m²;
• Carne de aves – 12.22 m².
Em contrapartida, 1 kg de tofu precisa de 3.52 m². Outros vegetais e frutas também usam pouquíssima terra.
Isso significa que:
Produzir 1 kg de carne bovina necessita de quase 100 vezes mais terra do que 1 kg de tofu; queijo, 25 vezes mais; carne suína, 5 vezes mais; carne de aves, 3,5 vezes mais.
Somando esta exigência de terra com o facto de cerca de 77% da soja produzida ser usada para alimentar animais explorados para consumo humano, fica inevitável concluir que a maior responsável pela desflorestação global, no seu todo, é a indústria pecuária.
Tentando fazer uma imagem mental deste uso de terra por kg:
• Carne bovina – 26 lugares de estacionamento;
• Queijo – 7 lugares de estacionamento;
• Tofu – 1/4 de um lugar de estacionamento.
Enquanto isso, se o mundo adoptasse uma dieta de base vegetal, reduziríamos o uso global de terras agrícolas de 4,1 mil milhões para 1 mil milhão de hectares – o equivalente a uma diminuição de 75%.
Com o uso global dessas terras mitigado conseguir-se-ia reduzir a desflorestação, libertando áreas actualmente utilizadas para pecuária e ração, criando-se, deste modo, espaço para a recuperação de habitats naturais. A vida selvagem, seriamente ameaçada, gradualmente refloresceria.
Com o uso global dessas terras mitigado conseguir-se-ia reduzir a desflorestação, libertando áreas actualmente utilizadas para pecuária e ração, criando-se, deste modo, espaço para a recuperação de habitats naturais. A vida selvagem, seriamente ameaçada, gradualmente refloresceria.
Além de menos terras, com a redução ou eliminação do consumo de animais e dos seus insumos também se conseguiria alimentar mais pessoas. A título de exemplo, se quiséssemos produzir alimento numa área do mesmo tamanho de um campo de futebol, obteríamos:
• 22 kg de carne bovina = ~140 a 150 refeições;
• 81 kg de queijo = ~540 refeições;
• 420 kg de carne suína = ~2,800 refeições;
• 2,000 kg de tofu = ~13,000 refeições.
Os vários estudos sobre este tema são peremptórios: o consumo directo de plantas — como a soja — é mais eficiente a nível de água, uso de terra, produção calórica e produção proteica.
Agricultural Production — Our World In Data
FAQs on the environmental impacts of food — Our World In Data
If the world adopted a plant-based diet, we would reduce global agricultural land use from 4 to 1 billion hectares — Our World In Data
The opportunity cost of animal based diets exceeds all food losses — A Shepon, G Eshel, E Noor, R Milo
Os vários estudos sobre este tema são peremptórios: o consumo directo de plantas — como a soja — é mais eficiente a nível de água, uso de terra, produção calórica e produção proteica.
Posto isto, vale salientar que qualquer tipo de alimentação, obviamente, vai causar impacto ambiental. Esta discussão não é sobre quem é mais ou menos perfeito, ou quem é mais ou menos coerente nos seus valores pessoais: é sobre como se pode reduzir, dentro das nossas possibilidades, a escala desse impacto.
Recursos utilizados:
Drivers of Deforestation: The world loses 5 million hectares of forest to deforestation each year. What activities are driving this? — Our World In Data
Causes of Deforestation of the Brazilian Amazon — Sérgio Margulis
Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia — O Almeida, S Ávila, S Rivero e W Oliveira
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Recursos utilizados:
Drivers of Deforestation: The world loses 5 million hectares of forest to deforestation each year. What activities are driving this? — Our World In Data
Causes of Deforestation of the Brazilian Amazon — Sérgio Margulis
Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia — O Almeida, S Ávila, S Rivero e W Oliveira
Agricultural Production — Our World In Data
FAQs on the environmental impacts of food — Our World In Data
If the world adopted a plant-based diet, we would reduce global agricultural land use from 4 to 1 billion hectares — Our World In Data
The opportunity cost of animal based diets exceeds all food losses — A Shepon, G Eshel, E Noor, R Milo
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Cada vez mais estudos médico-científicos comprovam que a alimentação vegetal equilibrada é uma das mais eficazes para prevenir inúmeras doenças. Muitas pessoas já me disseram que este tipo de alimentação não é saudável porque não possui todas as vitaminas e minerais necessários, pelo que dediquei-me a fazer uma investigação e a criar uma tabela onde estes podem ser encontrados no universo vegetal. Decidi repetir alimentos para mostrar que a riqueza nutricional a nível vegetal não é um mito, ao ponto de um único alimento possuir várias vitaminas e minerais.
O objectivo desta tabela é mostrar que podemos ter uma alimentação isenta de produtos de origem animal sem precisarmos de nos preocupar com estes nutrientes. A mesma não substitui uma consulta de nutrição, tendo unicamente um propósito informativo.
publicado em
15/10/2025
Rascunhos Antiespecistas | Quando a linguagem se torna cruel: a proibição do “burguer vegetal”

No dia 8 de Outubro, os eurodeputados discutiram uma proposta que, entre outros aspectos, requeria a proibição de termos como burger, salsicha e escalope para produtos de origem vegetal. Por outras palavras, tais produtos não podem ser mais denominados e rotulados com tais termos. A proposição é a seguinte:
Emenda 113Proposta de regulamentoArtigo 1.º – n.º 1 – ponto 8 f) (novo)Regulamento (UE) n.º 1308/2013Anexo VIII – parte II A (nova)No Anexo VIII, é acrescentada a seguinte parte:Parte II ACarne, produtos de carne e preparações de carnePara efeitos da presente parte, entende-se por carne as partes comestíveis dos animais referidos nos pontos 1.2 a 1.8 do Anexo I do Regulamento (CE) n.º 853/2004, incluindo o sangue. Os termos e denominações relacionados com carne, abrangidos pelo artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 1169/2011 e actualmente utilizados para carne e cortes de carne, devem ser reservados exclusivamente para as partes comestíveis desses animais. (...)As denominações abrangidas pelo artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 1169/2011 que são actualmente utilizadas para produtos e preparações de carne devem ser reservadas exclusivamente a produtos que contenham carne. Essas denominações incluem, por exemplo: bife, escalope, salsicha, hambúrguer (...) Os produtos e cortes de aves definidos no Regulamento (UE) n.º 543/2008, que estabelece as regras de execução do Regulamento (UE) n.º 1234/2007 do Conselho no que respeita às normas de comercialização da carne de aves de capoeira, devem ser reservados exclusivamente às partes comestíveis dos animais e aos produtos que contenham carne de aves. As denominações acima mencionadas não devem ser utilizadas para qualquer outro produto que não os referidos e excluem os produtos de cultura celular.
O fundamento apresentado foi que a utilização das palavras supracitadas para definir preparações à base de plantas não é transparente e pode induzir o consumidor a erro. Na verdade, a intenção é clara: defender os interesses da pecuária, o que implica defender uma visão que privilegia a carne de animais. A votação — de um parlamento agora mais distribuído à direita (Alô, veganos que separam veganismo de política? Este texto também é para vocês) — foi favorável à proposta. É particularmente estranho a União Europeia proteger uma das indústrias comprovadamente mais poluidoras, ao ponto de aprovar esta mesquinhez, e ao mesmo tempo bater o peito e garantir que está a trabalhar muito em prol do ambiente e da sustentabilidade. Pessoalmente não compreendo como podemos correlacionar ambas de forma coerente, visto não ser possível haver justiça climática com exploração animal.
Enquanto à superfície esta proibição aparenta ser um mero disparate e um gasto de recursos políticos (e é-o também, atenção), o seu âmago esconde alguns alicerces da exploração animal: a perpetuação e normalização do especismo simbólico e do especismo psicológico.
Enquanto à superfície esta proibição aparenta ser um mero disparate e um gasto de recursos políticos (e é-o também, atenção), o seu âmago esconde alguns alicerces da exploração animal: a perpetuação e normalização do especismo simbólico e do especismo psicológico.
Assim como outras formas de opressão, o especismo — que é a discriminação com base na espécie — é repartido em várias categorias. De facto, categorizar é uma das bases da discriminação, visto a mesma necessitar de uma visão dualista, algo que é explicado por Carol J. Adams: em The Pornography of Meat, Adams refere que existe a categoria “A”, culturalmente classificada como superior, racional e a que mantém a ordem – e, por isso, tem o privilégio de explorar, a seu bel-prazer, a categoria “Não A”, que é culturalmente entendida como inferior, emocional e instável, pelo que, além de precisar de ser subjugada, precisa de aceitar essa subjugação. Veja-se que Adams define a categoria considerada inferior como “Não A” em vez de “B”: tal deve-se por, no raciocínio hierárquico construído e imposto por “A, “Não A” ser totalmente despojada das qualidades e capacidades que qualificam o primeiro como sumamente superior. “Não A”, além de inferior, não tem autonomia e é vista como uma extensão imperfeita, dependente de “A”, que necessita de ser vergada e submeter-se às vontades de “A”. No caso da discriminação especista, “A” são os animais humanos e “Não A” são os animais não-humanos. E, para manter este fosso segregador, diversos estilos de discriminação são congeminados.
O especismo simbólico refere-se à forma como a linguagem, a cultura e os símbolos reforçam a ideia da superioridade humana em relação aos animais. Já o especismo psicológico actua na mente colectiva ao reforçar o hábito de associar “comida de verdade” à carne animal, enquanto despreza o vegetal e o reduz a “imitação”, “substituto” e “artificial”. Os animais tornam-se, assim, imperceptíveis enquanto seres sencientes e reduzidos a mercadoria.
Fica, assim, evidente que esta proibição não é só uma questão de semântica: é uma tentativa de preservar a percepção cultural que temos em relação à carne e aos próprios animais. É mais uma das milhares de rodas que movimentam a engrenagem do especismo, sendo que esta roda, recentemente inserida pela União Europeia, recorre à linguagem veladamente para fortalecer, ainda mais, o conceito de que certos animais são alimento – e que os seus pedaços formam o substancial e inevitável protagonista do nosso prato. As suas contrapartes vegetais são, assim, ridicularizadas e reduzidas aos rótulos acima mencionados.
Esta interdição também mostra aquilo que o especismo é: cruel, hegemónico e dissimulado. Cruel porque, juntamente com o capitalismo, depende do sofrimento e da matança de animais para prosperar. Não foi por acaso que, sem surpresas, o sector pecuário regozijou-se com esta decisão de proibir os termos para opções vegetais;
Hegemónico porque não admite que a divergência ganhe força, por mais que essa força seja uma humilde gota num imenso oceano de vilanias – e é aqui que entra a pressão da indústria da carne, incluindo tornar termos gerais exclusivamente seus;
Dissimulado porque, ao mesmo tempo que argumenta pela proibição desses termos “para não enganar os consumidores”, despersonaliza os animais de tal modo que os respectivos retalhos em nada se assemelham a eles. Um hambúrguer não se parece com uma vaca. Uma salsicha não se parece com um porco. Porque se esforçam tanto para tornar os animais referentes ausentes dos seus próprios corpos? Porque é que os animais são obliterados ao ponto dos seus pedaços nos fazer esquecer que antes, em vida, existiu um indivíduo completo, complexo e consciente?
Um pormenor presente na emenda e que achei interessante foi a definição oficial apresentada para “carne”: partes comestíveis de animais. Foi a partir dessa premissa que o argumento de exclusividade das palavras hambúrguer, salsicha, etc., foi desenvolvido, visto que carne, de acordo com a dita, é unicamente de animais – sendo assim, obviamente que faz sentido as definições supratranscritas só poderem ser aplicadas àquilo que for de origem animal.
Um pormenor presente na emenda e que achei interessante foi a definição oficial apresentada para “carne”: partes comestíveis de animais. Foi a partir dessa premissa que o argumento de exclusividade das palavras hambúrguer, salsicha, etc., foi desenvolvido, visto que carne, de acordo com a dita, é unicamente de animais – sendo assim, obviamente que faz sentido as definições supratranscritas só poderem ser aplicadas àquilo que for de origem animal.
Achei interessante porque, etimologicamente, a palavra “carne” deriva do latim caro, carnis, que significa “substância do corpo”. No entanto, não era especificamente sobre substância animal e referia-se a qualquer parte mole do corpo independentemente da sua origem. Carne de coco, carne de caju e carne de melancia são alguns exemplos: tais expressões existiam (e ainda existem!) e eram consideradas correctas e normais. Em suma, originalmente, carne designava a parte comestível e macia de algo. Mais tarde, com o aumento do consumo de animais e o domínio da pecuária, o termo foi apropriado cultural e economicamente para significar, exclusivamente, o tecido muscular de animais. Como podemos ver, rebaptizar e expropriar palavras não é uma novidade da engrenagem especista.
Quanto aos termos que fomentaram todo este debate, são designações para formatos de alimentos e como estes foram confeccionados: “hambúrguer” é um preparado arredondado, feito com um ou mais ingredientes principais, que foram picados, temperados e aglomerados; “salsicha” é um enchido que, apesar de comummente ser de carne de animais, também pode ser feito com vegetais: há registos culinários medievais de salsicha de arroz e lentilhas, por exemplo.
Questões etimológicas e históricas à parte, outro factor que esta proibição criou é que um hambúrguer, uma salsicha e um escalope, ao só poderem ser designados como tal se forem de origem animal, passam também a carregar, exclusivamente, o que vem juntamente com a carne mas que nos é invisível: a dor, a tortura e a morte. Usemos as armas do especismo contra ele próprio: denunciemos o real significado do que está por detrás daquilo que se consome.
No fundo, esta proibição revela o medo de um sistema que teme qualquer questionamento ou crítica ao monopólio da carne – e, paradoxalmente, ao mostrar esse medo, oferece-nos a chance de ver as coisas com mais clareza, como o mundo vegetal não necessitar das designações que o status quo, no alto do seu preconceito, lhes nega constantemente. Concordo que devamos resistir e exigir o direito de usar essas palavras — afinal, não é por ser isento de origem animal que deve ser silenciado —, mas, ao também revelarmos que não precisamos delas para legitimar o que é vegetal, estamos a desmantelar esta lógica de subordinação, que ridiculariza o vegetal ao acusá-lo de copiar o animal através desses termos para se viabilizar. Estamos, de alguma forma, a libertar a alimentação à base de plantas da dependência do discurso dominante. Como escreveu Ruan Félix, um cogumelo não precisa de ser chamado de bife ou de bacon para brilhar – só precisa de ser chamado pelo que é: um cogumelo. Um simples, carnudo (ups, espero que a UE não me excomungue) e apetitoso cogumelo.
No fundo, esta proibição revela o medo de um sistema que teme qualquer questionamento ou crítica ao monopólio da carne – e, paradoxalmente, ao mostrar esse medo, oferece-nos a chance de ver as coisas com mais clareza, como o mundo vegetal não necessitar das designações que o status quo, no alto do seu preconceito, lhes nega constantemente. Concordo que devamos resistir e exigir o direito de usar essas palavras — afinal, não é por ser isento de origem animal que deve ser silenciado —, mas, ao também revelarmos que não precisamos delas para legitimar o que é vegetal, estamos a desmantelar esta lógica de subordinação, que ridiculariza o vegetal ao acusá-lo de copiar o animal através desses termos para se viabilizar. Estamos, de alguma forma, a libertar a alimentação à base de plantas da dependência do discurso dominante. Como escreveu Ruan Félix, um cogumelo não precisa de ser chamado de bife ou de bacon para brilhar – só precisa de ser chamado pelo que é: um cogumelo. Um simples, carnudo (ups, espero que a UE não me excomungue) e apetitoso cogumelo.
No fim, o que está em jogo não são somente palavras, até porque a verdadeira transformação não está apenas em nomes ou rótulos: está em reconhecer a manipulação e a má-fé por detrás deste jogo, de escancarar as rodas desta engrenagem e, numa contracorrente desobediente, escolher o que é vivo, sem violência, sem domínio e sem medo. Está em semear e cultivar a nossa própria lógica. Uma que floresça sem sangue e sem morte. E com essa lógica seguimos, seja a informar, a criar ou a cozinhar. Um prato vegetal de cada vez.
Imagem: Roman Odintsov
Imagem: Roman Odintsov
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Quando parei de comer animais aconteceu um fenómeno para lá de espectacular: de repente, quase toda a gente virou nutricionista do dia para a noite. O mais engraçado é que antes, quando tinha quebras de tensão e gripe com frequência, ninguém me dizia nada porque eu comia carne. Agora, que já não sei mais o que é ter quebras de tensão e muito raramente me constipo, todos têm alguma coisa a dizer relativamente à minha alimentação e como estou a fazer tanto mal à minha saúde.
Ouvi tantas vezes que a alimentação vegetariana não é saudável que já perdi a conta: aqui, exponho as inferências que consegui lembrar. Todas as respostas têm como base estudos credenciados e o conhecimento de nutricionistas e médicos.
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Apesar de estar associada aos produtos de origem animal, a lisina também está presente nas plantas.
Enquanto na maioria das hortaliças encontra-se em pequenas quantidades, outros alimentos são uma fonte mais rica e, por isso, devem ser acrescentados na alimentação. Os adolescentes e adultos devem ingerir 40 mg de lisina por quilo de peso corporal: por exemplo, como peso 50 quilos preciso de 2000 mg diários de lisina.
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Vou começar este texto contando o que sucedeu quando resolvi parar de comer animais. Tomei a decisão aos dezoito anos quando encontrei, por acaso, imagens e vídeos da realidade que os matadouros e as pecuárias procuram ocultar: a gritaria misturada com a quantidade absurda de sangue espalhada por todo o lado foi como um clique na parte do meu cérebro que esteve adormecida durante todo aquele tempo perante o óbvio. Só consegui pensar como é incrível o que os costumes familiares, as raízes tradicionais e a manipulação dos anúncios alimentícios conseguiam fazer num indivíduo: uma lavagem cerebral, de tal modo abrupta, que nem paramos para questionar sobre quem estamos a comer. Fiquei horrorizada com a cumplicidade que estava a ter para com este sector — porque quem compra para consumir está a pagar para matar — e deliberei a interrupção imediata do consumo de carne.
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Apesar dos estudos médico-científicos corroborarem que uma alimentação vegetal é perfeitamente exequível para bebés e crianças, a maioria dos pediatras continua a rejeitar tais evidências: enquanto alguns não sabem como orientar as famílias para este tipo de alimentação, outros praticam terrorismo sem qualquer fundamento (e que deve ser denunciado, já agora). Por isso é que aplaudo sempre que alguém publica informação sobre este assunto, por ser mais uma ponte para ajudar mães, pais e cuidadores que sejam vegetarianos e/ou queiram oferecer uma alimentação sem substâncias de origem animal aos mais pequenos.
A Sandra Gomes Silva, nutricionista e autora do livro O Vegetariano — leitura igualmente imprescindível — lançou este ebook totalmente dedicado a uma das fases de desenvolvimento mais importantes dos bebés: a introdução alimentar. São 63 páginas nas quais ela explica o que é a diversificação alimentar, quando começar, o que oferecer e não oferecer ao bebé, como oferecer de forma segura, os vários tipos de introdução alimentar, nutrientes-chave e muito mais. Além disso, inclui uma sugestão de ementa semanal e uma lista de compras.
O ebook está à venda aqui e encontra-se com 10% de desconto até ao final deste mês. Aproveitem ♥
Também encontram mais conteúdo sobre alimentação vegetal infantil, totalmente gratuito, na biblioteca do blogue. Notem que estes materiais são somente um guia geral e não substituem acompanhamento médico particular.
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Muitas pessoas acusam a alimentação vegetal de ser bastante dispendiosa, o que não a torna acessível para todos e, consequentemente, elitista. Esse pensamento formou o estereótipo do veganismo ser coisa de brancos ricos e que só é praticável para a camada social privilegiada, deixando as mais humildes de fora. Cada vez mais se fala disso como um facto indestrutível, mas será mesmo verdade?
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Desconstruir pré-conceitos sobre a alimentação vegetariana, principalmente quando nos referimos a grupos específicos, nunca é demais: mesmo com o aumento dos estudos médico-científicos e da informação relativamente a este tipo de dieta ser segura para toda a gente, o paradigma social insiste em apontar para o sentido contrário.
Por isso, quanto mais fontes seguras e sólidas forem criadas melhor, pelo que não podia deixar de mostrar este maravilhoso trabalho da Márcia Gonçalves: nutricionista, juntou-se à Associação Vegetariana Portuguesa e criou um guia sobre alimentação totalmente vegetal para grávidas, bebés e crianças. São 61 páginas com informações, esclarecimentos e sugestões para o período gestacional, lactação e infância até ao primeiro ano, assim como tabelas nutricionais, receitas, planos para a diversificação alimentar, uma lista de profissionais especializados e muito mais. Um ebook essencial para todas as famílias, especialmente para as que pretendem mudar para uma alimentação mais compassiva ♡
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Quantos produtos não possuem colagénio na composição e que prometem fortalecer o cabelo, deixar as unhas mais bonitas ou melhorar o aspecto da pele? Desde comprimidos à tradicional gelatina, passando por champôs e cremes, o colagénio é obtido industrialmente a partir dos ossos e da cartilagem dos bovinos.
Muitas bloggers e influenciadoras indicam o colagénio como um ingrediente essencial, mas será ele verdadeiramente vital para conseguirmos uns cabelos, unhas e pele bonitos ou não passará de um esquema patriarcal, aliado à indústria da beleza, para pressionar as mulheres a gastar dinheiro em cosméticos que prometem o inalcançável que lhes é imposto?
“Dizer que é necessário ingerir colagénio para ter colagénio no corpo é tão absurdo quanto dizer que precisamos de ingerir fígado para termos fígado, ou cérebro para termos cérebro.”
— Dr. Eric Slywitch, médico especializado em nutrologia
O colagénio é a proteína estrutural principal que proporciona sustentação às células, mantendo-as unidas em diversos tipos de órgãos e tecidos como pele, ossos, cartilagens, ligamentos, tendões e artérias. O colagénio é composto por aminoácidos — glicina, prolina e lisina — e por mais dois aminoácidos derivados da prolina e da lisina através de processos enzimáticos e que são dependentes da vitamina C – a hidroxiprolina e a hidroxilisina. O nosso organismo é capaz de sintetizar o colagénio a partir desses aminoácidos presentes nos alimentos, pelo que a chave para uma pele, cabelo, ossos e unhas saudáveis é uma alimentação equilibrada que inclua vitamina C e esses aminoácidos – e isso é possível com alimentos vegetais. Eis alguns que devem ser tomados em conta:
É importante frisar que o consumo de colagénio já pré-formado (ou seja, aquele que é tomado em pó, cápsulas, etc.) é ineficiente, visto que este é hidrolisado nos aminoácidos para ser ressintetizado pelo organismo.
“O colagénio dá elasticidade à pele e a sua produção pelo corpo reduz com os anos. Mas passar cremes não aumenta o colagénio da pele. A proteína é grande demais para entrar na célula e fica espalhada do lado de fora. Se ingerido, o colagénio é desmontado pela digestão e não chega à pele. Ingerir colagénio só deixará a pessoa com rugas e mais pobre.”
— Alicia Kowaltowski, professora de Bioquímica do Instituto de Química da USP
— Natália Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência
“(...) O colagénio ingerido por meio das carnes não se transforma em colagénio no nosso corpo. Para produzir colagénio, o nosso organismo precisa de quebrar a proteína ingerida e, utilizando os seus aminoácidos, montar o próprio colagénio, que será inserido em regiões específicas do corpo (...). A gelatina, além de ser um composto derivado de animais (...) não é uma fonte rica em proteínas e colagénio, como muitos acreditam. (...)Quando se trata de metabolismo, há uma regra que diz que é melhor remover a agressão e optimizar a protecção. E, sobre esse tema, há dois aspectos importantes a serem considerados:
• Quanto mais antioxidantes a dieta contém, menos colagénio é destruído. O reino vegetal contém 64 vezes mais antioxidantes do que o animal, então adoptar uma alimentação vegetariana baseada em produtos naturais e integrais traz vantagens para a estrutura da pele.
• Níveis elevados de cortisol (uma das hormonas produzidas em situação de stress) causam destruição de colagénio. Assim, menos stress significa maior preservação.”
— Dr. Eric Slywitch in Virei Vegetariano, e Agora?
O colagénio é só mais uma das milhares substâncias de origem animal que utilizamos habitualmente sem pensarmos um pouco sobre a sua origem. Assim como os restantes subprodutos ligados à pecuária, é conseguido a partir da exploração exaustiva dos animais, que não são poupados por uma indústria que não olha a meios para lucrar maximamente com eles.
Uma alternativa para quem gosta de gelatina é o ágar-ágar, extraído das algas marinhas e dez vezes mais consistente, o que o torna mais rentável.
É possível sermos saudáveis por dentro e por fora sem usarmos quaisquer produtos e subprodutos de origem animal: prefiram alternativas vegetais mais naturais e rejeitem a crueldade.
Imagem: Pinterest
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Nota importante: A endometriose continua a ser uma doença pouco discutida a nível médico e também nutricional, pelo que encontrei várias disparidades entre alimentos e suplementos recomendados e não recomendados. Para não me arriscar a transmitir dados errados, publiquei somente os que reuniram mais consenso. Vale também referir que este artigo é meramente informativo, não substituindo uma orientação médica especializada.
Apesar de ser cada vez mais falada, a endometriose continua a ser uma doença silenciosa e silenciada. Para além de não se saber ainda as suas causas, também não há cura. Afecta 10% das mulheres em idade fértil e é constantemente confundida com dismenorreia, já que o seu principal sintoma é a dor. Também há casos em que as mulheres são assintomáticas e não fazem ideia de que sofrem de endometriose, apesar de ser menos comum.
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