
Nota do blogue: Ao percepcionarem sobre certos pontos similares que conduzem à opressão de grupos diferentes, algumas filósofas aprofundaram os seus pensares e investigações e criaram uma vertente feminista que começou a ser difundida e discutida nos anos 70: o Ecofeminismo. Mesmo sendo relativamente recente, foi e é amplamente explicado e defendido por várias feministas de vários países: Ivone Gebara (Brasil), Mariama Sonko (Senegal), Samantha Hargreaves (África do Sul), Françoise d'Eaubonne (França), Alicia Puleo (Espanha), Vandana Shiva (Índia) e Lisa Kemmerer (EUA), autora do artigo traduzido nesta publicação, são algumas dessas mulheres.
Resumidamente, o ecofeminismo é um movimento que correlaciona o feminismo com outras lutas anti-opressão, como o ambientalismo e o especismo, também se estendendo nos direitos de outras minorias e com um olho crítico no sistema capitalista. Por outras palavras, é uma esfera filosófica que advoga a conexão entre lutas libertárias, visto as discriminações (contra mulheres, o ambiente, os animais, etc.) apresentarem simetrias nas suas posturas e perpetuações. Este ensaio de Lisa Kemmerer ajuda a entender o ponto de vista deste posicionamento feminista, além de apresentar algumas dessas simetrias.
Sobre a autora: Lisa Kemmerer é uma filósofa e activista norte-americana reconhecida pelo seu trabalho em Ética Animal e Justiça Interseccional. Bacharel em Estudos Internacionais, Mestre em Teologia e Doutora em Filosofia, é fundadora da Tapestry, uma organização sem fins lucrativos dedicada à educação e ao estudo sobre as várias estruturas opressoras e como estas estão conectadas. As suas dezenas de artigos e livros abordam, precisamente, esse tema através do ecofeminismo, ética alimentar e a consonância entre religião e direitos dos animais.
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Ecofeminismo, Mulheres, Ambiente, Animais
Lisa Kemmerer | DEP. Deportate, Esuli, Profughe, No. 23/2013
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Sistemas de Opressão
Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.
Dualismo
O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)
Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.
Dualismo
O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)
De maneira semelhante, a “natureza” é distinguida da civilização, da cultura e dos seres humanos. A Natureza é aquilo que é não é afectado pela Humanidade, e ser humano é ser civilizado e culto: isso é ainda mais evidenciado na nossa tendência dualista de encarar os humanos como separados e distintos de todos os outros animais. O dualismo também divide a mente do corpo e a razão da emoção(1), tratando cada uma como distinta e separada. Estas categorias supostamente exclusivas de masculino/feminino, natureza/cultura e humano/animal, não reflectem adequadamente a complexidade do mundo em que vivemos e nos encontramos. (...)
Hierarquia
O pensamento dualista é corriqueiro no mundo ocidental, bem como em muitas outras civilizações. Através do dualismo, homens, seres humanos, civilização, cultura, mente e o pensamento racional são concebidos como detentores de um conjunto particular de estimadas características, compactando mulheres, animais não-humanos, natureza selvagem, corpos, o mundo material, emoções e intuição numa categoria à parte e considerada inferior. Em Pornography of Meat, a ecofeminista Carol J. Adams usa os termos “A” e “Não A” para descrever esta categorização dualística. Feministas e ecofeministas notaram que o dualismo não é apenas uma divisão de indivíduos e outros elementos em categorias separadas, mas também em categorias iguais. Qualquer elemento e qualquer pessoa inserida na categoria “Não A” é encarada como mutuamente interligada e abaixo de tudo o que compõe a categoria “A”.
A língua portuguesa(2) corrobora este raciocínio: termos depreciativos, utilizados para referir mulheres, são aplicados para referir animais não-humanos, como “vaca”, “galinha” e “porca”. Em comparação, os homens possuem poucas referências relacionadas a animais, sendo que parte das mesmas têm um cunho positivo, como “garanhão” – um forte e viril animal de grande beleza. Em contraste, adjectivos pejorativos, cuja utilização é mal-intencionada e com maldade, são frequentemente reservados para mulheres. Além disso, as mulheres também são visualmente conectadas com animais não-humanos, corpos (em oposição às mentes) e à Natureza, quando retratadas como objectos sexuais ou hipersexualizadas, desde sereias a coelhinhas [da Playboy]. Já os animais, especialmente os explorados como mercadoria, são definidos com traços físicos distintamente femininos, como olhos grandes, pestanas longas e corpos curvilíneos, como poderosamente demonstrado em The Pornography of Meat.
Opressão
Através do dualismo e da hierarquização, indivíduos, atributos e objectos físicos são separados em dois grupos. Um grupo, “A”, tem precedência sobre o outro, “Não A”: tal resulta numa hierarquia que favorece os que se encontram na categoria “A”, levando-os a ganhar poder e controlo sobre aqueles que estão na categoria “Não A”. Esse poder e controlo estão espelhados no sexismo, no antropocentrismo e no especismo. O sexismo oprime as mulheres por elas serem, simplesmente, mulheres – não porque elas são inerentemente indignas ou inferiores, mas simplesmente porque não nasceram com genitália externa e saliente. É evidente que a natureza dos órgãos genitais não é uma diferença moral relevante, ao ponto dos homens receberem privilégios e oportunidades que são negados a quem não nasceu com genitália externa e saliente.
Similarmente, o pensamento antropocêntrico tende a assumir que todos os elementos humanos — cultura, civilizações e os próprios humanos — devem ter poder e precedência sobre todos os elementos não-humanos – o mundo natural e tudo o que nele habita. Novamente, não há diferença moral relevante entre todas as coisas humanas e todas as coisas não-humanas, de modo que o primeiro tenha maior estima ou receba mais poder e privilégio sobre o segundo. Todavia, todas as coisas humanas recebem essa estima e esse poder em relação a todas as coisas naturais e não-humanas e, como resultado, foi concluído como certo e apropriado que a Natureza seja vista como um recurso para uso humano, a qual os humanos exploram, controlam e manipulam para os seus fins pessoais(3). E, frisando, não ser humano não constitui uma distinção moralmente relevante, o que não justifica a exploração, controlo e manipulação dos animais pelos humanos. Ainda assim, aos humanos foi concedida esta vantagem, que perpetua a exploração e manipulação dos animais por e para os seres humanos.
Apesar da falta de qualquer distinção moral e relevante entre homens e não-homens, entre seres humanos, as suas civilizações e o resto da Natureza, e entre os seres humanos e o restante mundo animal, homens e humanos ocupam lugares de privilégio e poder, controlando e manipulando os outros e o mundo ao seu redor. Eis a definição de sexismo, antropocentrismo e especismo: todos os seres e outros elementos que foram agrupados, em conjunto, na categoria “Não A” — mulheres, Natureza e animais não-humanos — são injustamente discriminados e oprimidos por, em nome e em relação aos que se inserem na categoria “A”.
Tal situação justifica o controlo de “A”: quem está na categoria “A” é avaliado como alguém que pode e deve estar no comando, de modo a obter vantagens e servir-se de quem está em “Não A”, o que normaliza ser sexista, antropocêntrico e especista. Por exemplo, as mulheres, ao serem assinaladas como estando mais preocupadas com aspectos materiais (como o corpo) do que com as questões da mente, e sendo julgadas como mais propensas à emoção do que à razão, faz sentido que os homens sejam mais incentivados à educação e formação, bem como terem mais possibilidades de emprego. Assim, também faz sentido as mulheres serem empurradas para o cuidado do lar, para o trabalho doméstico e para a reprodução(4). Se as mulheres são menos cultas e menos civilizadas, é pertinente os homens controlarem as suas vidas. E, da mesma maneira, se as vacas e as galinhas carecem de razão e cultura, pelo que são mais corpo do que mente, também elas podem ser controladas por quem está na categoria “A” e usadas para propósitos “superiores” pela referida.
Através deste processo, “Não A” é visto como/torna-se dependente de “A”. As mulheres são vistas como/tornam-se dependentes dos homens para protecção e apoio financeiro; a Natureza é vista como/torna-se dependente do ser humano para cultivar e administrar áreas selvagens indomadas (distribuição da vida selvagem, inundações e incêndios florestais, por exemplo) e, supostamente, para proteger a Natureza da obliteração; e os animais não-humanos são vistos como/tornam-se dependentes do ser humano em aspectos como “gerir” (como na gestão da vida selvagem), cuidar e fornecer sustento e assistência médica (animais domésticos, etc.). E, em troca de protecção, gerenciamento e disposição, espera-se que aqueles que estão na categoria “Não A” atendam às suas necessidades – como cozinhar, limpar e proporcionar satisfação sexual, oferecer produção e pasto, e fornecer leite, ovos e carne, por exemplo. As mulheres, a Natureza e os animais são igualmente classificados como inferiores, dependentes e, por isso, devidamente controlados e explorados.
Na verdade, por os indivíduos “Não A” serem avaliados como dependentes e irracionais [definições essas criadas pelo grupo que os discrimina, explora e oprime], muitos dos que se encontram na categoria “A” sentem-se no direito de controlar quem está em “Não A” com violência. Sentem, consciente ou inconscientemente, que uma camada de força, cultura e de razão são transferidas para os que estão na categoria “Não A”, daí as mulheres, a Natureza e os animais deverem ser subservientes, de variadas maneiras, à categoria “A”.
Acontece que, mesmo quando “A” não fornece nada [de positivo] para “Não A”, os indivíduos de “A” mantêm uma posição de poder e de controlo sobre “Não A”. Recentemente [e ainda presente em algumas civilizações e culturas], era impossível uma mulher acusar o marido de violação; violentar a Terra continua a ser legal; o abuso de animais, só agora, está a começar a ser reconhecido e tratado como um crime grave (mas, regra geral, tal acontece quando os infractores são visados como perigosos para os seus semelhantes). Assim, não é surpreendente que a violência doméstica, o assédio, a violação em encontros amorosos, a violência contra animais e o abuso permaneçam teimosamente (e irritantemente) tão comuns.

Mulheres e Animais – Corpos Para Exploração
Por partilharem semelhanças entre si, do que com uma árvore ou um riacho, os paralelos da opressão são particularmente marcantes no que diz respeito às mulheres e aos animais não-humanos. Os detentores de poder (“A”) tendem a controlar e a explorar os corpos femininos, especialmente a sua biologia reprodutiva – seja mulher humana ou fêmea animal. A autoridade do marido sobre a esposa, e a incapacidade histórica de acusá-lo de violação ou de reivindicar os seus filhos contra a vontade deste, é um dos inúmeros exemplos do controlo de “A” sobre “Não A”. As mulheres e as crianças são, há muito, tratadas como propriedade exclusiva dos maridos – é a sua mulher e, portanto, a sua vagina para aceder, o seu útero para preencher, os seus filhos para continuarem com o seu nome, a sua linhagem, o seu trabalho e a sua propriedade.
Da mesma forma, os praticantes da denominada “criação animal” também compreendem o gado, os porcos e os perus como a sua propriedade pessoal – a sua vaca e a sua porca e, portanto, as suas vaginas para aceder, os seus úteros para preencher e os seus filhos para serem explorados para ganhos pessoais.
Assim como os seres humanos que criam animais para essa finalidade, que mantêm esses indivíduos em situação de dependência forçada, utilizando os seus corpos físicos para atingir os seus próprios fins, engravidando as fêmeas e reivindicando os seus descendentes, os homens, tradicionalmente, mantinham as esposas em posição de dependência forçada e usavam os seus corpos físicos para os seus próprios fins, engravidando-as e reivindicando os seus descendentes. Lamentavelmente, ainda são muitos os que ainda o fazem.
Embora o casamento tradicional(5) denuncie amplamente o controlo de “A” sobre “Não A”, o tráfico sexual é outro exemplo adequado deste fenómeno. As mulheres apanhadas na rede do tráfico sexual são vítimas que têm os seus corpos vistos como uma mercadoria que pode ser explorada lucrativamente por e para aqueles da categoria “A”. Essas vítimas são zurzidas por terem corpos femininos, órgãos genitais femininos e por serem indivíduos “Não A”. Por serem “Não A”, são vistas pelos indivíduos “A” como controláveis e exploráveis, em que outros indivíduos “A” as comprarão e, portanto, “possuem” parte do indivíduo “Não A”.
Normalmente, essa “propriedade” é comprada para o propósito explícito de “A” ter acesso ao corpo feminino para prazer sexual e, também, para trabalho doméstico. Outros indivíduos “Não A”, vulgo, animais não-humanos, também são adquiridos para os seus corpos e o seu trabalho serem explorados por pessoas da categoria “A” que desejam conquistar objectivos pessoais, nomeadamente o lucro. Assim como as pessoas que são capturadas pela indústria do tráfico sexual, os animais “de criação” são explorados especificamente por causa da sua biologia feminina. Vacas, porcas, peruas e galinhas são, adicionalmente, exploradas pelo seu leite materno, ovos e para reprodução.
Vacas na Indústria dos Lacticínios
Os “seios” (tetas, glândulas mamárias, úberes) e o leite materno das vacas são comoditizados, explorados e controlados, para fins lucrativos, por aqueles que possuem e administram fazendas e indústrias leiteiras. Os mamíferos só amamentam após o parto, pelo que os produtores recorrem a um método denominado rape rack para inseminar artificialmente vacas: consiste em inserir a mão e o braço nas suas vaginas e aspergir o esperma de um bovino através de um dispositivo próprio, para assim engravidar as vacas à força. Quando o bezerro nasce, o fazendeiro retira-o imediatamente da mãe, apesar do desespero das vacas, das suas tentativas em defender as suas crias e do seu lamento contínuo pela perda dos seus recém-nascidos. Dependendo do sexo, o bezerro ou é vendido para ser carne de vitela (machos) ou para ser criado e engravidado à força como a sua mãe (fêmeas), bem como ordenhado para a produção de produtos lácteos. Privada do seu rebento, uma vaca muge desesperadamente durante dias a fio, enquanto as máquinas estão ocupadas a bombear o leite que seria para o seu filho e que será vendido como iogurte, gelado, queijo e leite.
Tal como acontece com as mulheres e jovens apanhadas nas indústrias da violência sexual(6), o stress e a miséria que as vacas experimentam nas fazendas leiteiras têm o seu preço. Estes animais, embora possam viver naturalmente até aos 25 anos, nesta indústria começam a ser um “gasto” depois de cinco ou seis anos de gravidezes, partos, separações forçadas e ordenha perpétua. Nessa fase, são encaminhadas para o abate. Como os seus corpos foram brutalmente fustigados, frequentemente chegam ao matadouro incapazes de andar ou ficar de pé, sendo por isso drogadas ou empurradas para fora dos camiões de transporte. As vacas sofrem na indústria do leite por serem fêmeas — e porque amamentam quando dão à luz — e porque os produtores de leite sentem-se no direito de manipular e explorar a biologia feminina para ganho pessoal. Esses produtores lucram com as secreções mamárias das vacas, com a sua prole e, eventualmente, com o seu corpo quando ela é vendida para a produção de hambúrgueres.
Galinhas na Indústria de Ovos
Assim como as vacas, as galinhas são exploradas precisamente pela sua biologia feminina, já que os seus corpos produzem ovos. Quando as galinhas atingem maturidade sexual suficiente para nidificar, põem ovos até definirem uma ninhada e aí passam pela incubação até os ovos eclodirem. Obviamente, não é nada disso que acontece com as galinhas na indústria de ovos. Nesse negócio, os ovos são incubados num ambiente isolado, longe da mãe galinha: em vez de nascer no escuro, sob a penugem quente e ao som do cacarejo da sua mãe, o pintainho nasce numa superfície dura sob uma luz néon brilhante e silenciosa. As crias passarão o resto das suas vidas num ambiente artificial, sem ar fresco ou luz natural, em confinamento caótico com muitas outras galinhas. (...)
O pintainho recém-nascido é movido ao longo de uma esteira rolante: nessa etapa, os machos são retirados e descartados. Algumas indústrias empilham-nos em sacos de plástico fechados, para que sufoquem até à morte, enquanto outras os atiram para um moedor (vivos). Tal ocorre por os galos não terem utilidade para a indústria dos ovos.
Os pintainhos fêmeas, sem dúvida, ouvem os pios gritantes e desesperados dos seus irmãos enquanto continuam a descer pela esteira rolante, onde são agarradas e empurradas para uma máquina munida de uma lâmina que lhes corta uma parte significativa dos seus bicos. Daí em diante, serão incapazes de se alimentar naturalmente ou de alisar as suas penas adequadamente. Esse processo, o debeaking [debicagem], é extremamente doloroso mas estabelecido como vital para que as galinhas, num ambiente tão lotado e miserável, não se biquem umas nas outras, talvez até à morte.
Se sobreviver à remoção do bico, o pintainho fêmea será transferido para um barracão gigantesco com milhares de outros pintainhos fêmeas, onde irá crescer durante cinco meses. Caso sobreviver [a taxa de mortalidade é elevadíssima], a agora galinha será enviada para as gaiolas em bateria, do tamanho de um micro-ondas, geralmente com outras cinco galinhas. Aí, ela permanecerá, de pé, sobre uma superfície de arames, num espaço que chega a ter mais de 100 mil aves nas mesmas condições. As gaiolas estão dispostas em longas fileiras e empilhadas, o que faz com que as fezes das galinhas que estão por cima acabem por cair nas que estão por baixo. Com o tempo, os seus corpos ficam imundos e as penas quebradiças, de tão sujas.
Muitas vezes, uma companheira de jaula morre e as outras galinhas são obrigadas a viver com o cadáver. A sua carne, que raspa contra os arames da gaiola, causa feridas abertas. Os seus pulmões, que nada mais respiram, são danificados pelo amónio que, consequentemente, se vai espalhando nas cada vez mais sujas e abarrotadas gaiolas.
As gaiolas foram projectadas para roubar da jovem galinha os seus preciosos ovos, que rolam do seu corpo quente para um cocho e transportados para processamento. Durante um ano, sensivelmente, as galinhas continuam a pôr ovos que desaparecem imediatamente assim que são postos, frustrando todos os seus instintos naturais. Assim que este ciclo começa a diminuir, a comida em frente às suas jaulas também diminui. Durante uma a três semanas essas galinhas passam fome, ao qual os criadores chamam de “muda forçada”, e vivem entre e em cima de companheiras enclausuradas que estão mortas ou moribundas. As sobreviventes, quando entram num novo ciclo de postura, têm a sua comida restaurada. Mais uma vez, as aves colocam ovos diariamente que lhes são retirados. A elas nunca lhes é permitido incubar, nutrir as suas crias, criar relacionamentos com os seus filhos ou compartilhar a sua companhia numa comunidade livre de galos e galinhas.
Fortuitamente, o ciclo de postura reduz outra vez e, embora naturalmente elas sejam capazes de iniciar outro ciclo, a indústria não deseja continuar a despender recursos com elas quando começam a apresentar dificuldades ou demasiadas diminuições, até porque os seus corpos podem ser vendidos. São retiradas abruptamente das suas gaiolas, comumente puxadas por uma asa ou uma pata, pela cabeça ou pela cauda, o que pode causar fracturas ou deslocações ósseas e, ou são trituradas (vivas) e vendidas como fertilizante, soterradas (muito provavelmente vivas) ou transportadas num camião para o matadouro. Se enviadas para abate, serão penduradas de cabeça para baixo, com as pernas presas em algemas ou ganchos. É dessa forma que são levadas até à área da matança, onde alguém cortará as suas gargantas. Algumas, mesmo com as gargantas rasgadas, chegam vivas até ao tanque de água a ferver, no qual acabarão, então, por hediondamente sucumbir.
Uma galinha na indústria de ovos sofre toda essa crueldade simplesmente por ter nascido com órgãos reprodutivos femininos, numa sociedade — a nossa sociedade — em que “A” se sente no direito de manipular e explorar os seus corpos e os seus sistemas reprodutores para os seus próprios fins. Assim como homens sexistas acreditam que têm o direito de controlar e explorar mulheres e meninas, os humanos especistas acreditam que têm direito de controlar e explorar animais “de criação”, invadindo vaginas e preenchendo úteros, reivindicando (e explorando) a prole, privando os indivíduos da sua liberdade e, em última análise, tomando as suas vidas.
Opressão Compartilhada, Libertação Compartilhada
As ecofeministas reconheceram causas comuns de discriminação, tais como o dualismo e a hierarquização, levando a sistemas abrangentes de opressão. Discerniram que as mulheres, a Natureza e os animais são equitativamente desvalorizados em relação a quem está na categoria “A” e que são igualmente controlados e explorados pelos da categoria em questão. Repararam que as fêmeas, independentemente de serem humanas ou não-humanas, são igualmente desdenhadas em relação aos seus opressores e frequentemente associadas à categoria de indivíduos “Não A”, sendo vituperadas de forma semelhante pelos indivíduos da categoria “A” por conta dos seus corpos femininos e da sua respectiva anatomia reprodutiva.
Ao desenterrar estes paralelos, as ecofeministas chegaram à conclusão de que não é apropriado lutar pela libertação de apenas um grupo oprimido e ignorar os restantes que são relegados à categoria “Não A” e, portanto, sistematicamente oprimidos e explorados por indivíduos da categoria “A”. Para o ecofeminismo, que reconhece a interligação das opressões várias, libertar apenas um grupo oprimido é, além de enviesada, uma tarefa vazia e uma resposta egoísta. À luz dos sistemas de opressão, expostos pelas ecofeministas, o trabalho em mãos é, claramente, desarraigar causas comuns e desmantelar esses sistemas opressores que estão profundamente enraizados e generalizados. (...)
Resumo
As mulheres, a Natureza e os animais não-humanos padecem de similar discriminação, sendo controlados e explorados num mundo onde há muito se assumiu que é adequado que as mulheres sirvam aos homens, que os humanos explorem, controlem e manipulem o mundo natural e que os humanos explorem, controlem e manipulem os animais não-humanos. Mais notavelmente, as mulheres e os animais “de criação” são manipulados e explorados por causa da sua biologia feminina (...). As ecofeministas inferem que qualquer tentativa de libertar apenas aqueles que se parecem connosco — da nossa espécie — não é apenas egoísta como pode não ter sucesso: as mulheres não serão e não podem ser libertadas até que sistemas abrangentes de opressão e exploração sejam desmantelados, incluindo, além do sexismo, o antropocentrismo, o especismo, entre outros. Por esse motivo, muitas ecofeministas adoptaram uma alimentação vegetal, recusando a apoiar as indústrias da carne, do leite e dos ovos, e aliaram-se a ambientalistas e defensores dos animais com a intenção de ajudar a acabar com a opressão e a exploração em todas as suas formas insidiosas.
(1) Nota adicional da tradutora: Muitos filósofos, ao longo dos séculos, promoveram e enrijeceram este dualismo, associando o elemento racional ao masculino e o elemento emocional ao feminino. Veja-se, por exemplo, Espinosa no seu Tractatus Theologico-Politicus, ao argumentar que as mulheres são racionalmente mais fracas do que os homens e que, por isso, não se devem envolver nas questões políticas. Também afirmou, na mesma obra, que “A lei contra a matança dos animais é baseada mais na superstição vazia e numa compaixão feminina do que propriamente na razão” (E4p37s1).
(2) Adaptação da tradução.
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(4) Nota pessoal da tradutora: A autora não está, com esta inferência, a criticar as mulheres que decidiram, livremente, ficar em casa e a tomar conta dos filhos. A crítica deve-se, sim, ao que infelizmente acontece num contexto geral, em que as mulheres continuam a ser incentivadas, pressionadas e até mesmo coagidas a essas actividades mesmo contra a sua vontade. É uma situação bastante recorrente e que perpetua a discriminação violenta de muitas meninas e mulheres, que permanecem sem o direito de terem autonomia sobre a suas próprias vidas e de poderem possuir escolhas pessoais.
(5) Mais uma vez, a autora não está a atacar quem opta por este tipo de casamento. O alerta é para a ainda utilização do casamento como ferramenta de subserviência feminina, algo que se estendeu milenarmente na nossa sociedade e que continua enraizado em várias civilizações e tradições familiares.
(6) Considero importante frisar que a autora não está a comparar as mulheres, vítimas do tráfico humano e sexual, com as fêmeas não-humanas que são exploradas para consumo. A intenção é apresentar pontos comuns, fomentadores das respectivas opressões, e que acabam por interligar a discriminação de ambos os grupos.
Aceder ao artigo original e integral aqui.
Tradução para português europeu de Raposa Herbívora
Um dos comentários mais direccionados para atacar o veganismo é o de que Hitler era vegetariano. Geralmente, quem aplica esta proposição tem como intenção classificar a defesa dos animais como incongruente, já que Hitler não os comia e foi um indivíduo indiscutivelmente abominável. Todavia, usar Hitler como exemplo moral carece completamente de sentido, pelas razões que todos nós conhecemos. Ainda assim, muitos insistem em aproveitar-se do nome dele para justificar o consumo de animais.
Esta afirmação tem dois problemas que a derrubam automaticamente: um é de cariz lógico e o outro é de cariz histórico. O problema de cariz lógico deve-se por tal afirmação ser um raciocínio falaz. Na verdade, a imagem de Hitler é tão usada para contra-argumentar qualquer coisa que até tem direito à sua própria falácia, denominada reductio ad hitlerum e que possui esta estrutura:
Esta afirmação tem dois problemas que a derrubam automaticamente: um é de cariz lógico e o outro é de cariz histórico. O problema de cariz lógico deve-se por tal afirmação ser um raciocínio falaz. Na verdade, a imagem de Hitler é tão usada para contra-argumentar qualquer coisa que até tem direito à sua própria falácia, denominada reductio ad hitlerum e que possui esta estrutura:
Se Hitler apoiava/gostava de X, então X é maligno.
Uma falácia é um raciocínio errado que aparenta ser verdadeiro. Na retórica é um argumento logicamente inconsistente, inválido e sem fundamento. Neste caso, por tratar-se de um caso pessoal e particular que é usado para atacar um tema geral, é mais do que óbvia a sua falha.
Vamos supor que alguém que odeia crianças decide defender o seu ponto de vista com o seguinte:
Hitler gostava de crianças. Então, as crianças não podem ser boas.
Ou
Hitler gostava de crianças. Então, quem gosta de crianças não pode ser bom.
Não faz muito sentido, pois não? Então, porque no caso do vegetarianismo já faz sentido para muitos, ao ponto de continuarem a aplicar esta falácia como arremesso argumentativo?
Quanto ao problema histórico, existem factos que refutam o vegetarianismo de Hitler. Ele adoptou este tipo de dieta ocasionalmente, o que não faz dele, ou alguém com as mesmas oscilações alimentares, vegetariano. Além disso, é mais do que comum ser-se vegetariano exclusivamente por questões de saúde e não pelos animais. No caso de Hitler, uma dieta vegetal foi-lhe imposta por causa dos seus vários problemas de saúde, embora ele não tenha obedecido às recomendações médicas.
Alguns escritores têm citado evidências de que Hitler tenha sido vegetariano durante parte da sua vida. Janet Barkas, no livro The Vegetable Passion, e Colin Spencer, no livro The Heretics Feast, apoiam essa ideia mas ela não é compartilhada por quem pesquisou detalhadamente sobre o assunto.
Segue-se um trecho de uma revisão do livro de Colin Spencer feita pelo professor Rynn Berry, especialista em história do vegetarianismo:
“Em Heretic's Feast, Colin Spencer dá crédito ao mito de que Adolf Hitler era um vegetariano. Ele faz referência ao suposto vegetarianismo de Hitler não mais do que quatro vezes, devotando uma longa secção de cinco páginas a esse assunto no capítulo 12. Ao mesmo tempo que é verdade que os médicos de Hitler colocaram-no sob uma dieta vegetariana para curá-lo da flatulência e de problemas estomacais crónicos, os seus biógrafos, tais como Albert Speer, Robert Payne, John Toland, e outros, têm atestado a preferência de Hitler pelas salsichas de presunto e outras carnes defumadas. Até mesmo Spencer diz que Hitler foi um vegetariano apenas a partir de 1931: «Seria verdadeiro dizer que desde 1931 ele preferiu uma dieta vegetariana, mas em algumas ocasiões desviou-se dela.»Ele cometeu suicídio com 56 anos em 1945; isso teria resultado em 14 anos de vegetarianismo, mas temos um testemunho contrário dado pela sua cozinheira, Dione Lucas, que era directamente responsável pela cozinha de Hitler em Hamburgo durante o final da década de 1930. No seu livro Gourmet Cooking School Cookbook ela deixou registado que o prato favorito de Hitler era squab recheado (cria de pombo domesticado e de carne escura):«Eu não pretendo diminuir o seu apetite pelo squab recheado, mas você pode interessar-se em saber que este era um prato muito pedido pelo Sr. Hitler, que jantava no hotel frequentemente.»”
Hitler não era vegetariano e muito menos defendia os direitos dos animais, mas Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda, distorceu totalmente esse facto para criar nas pessoas a ideia de que o Führer era um homem bom: as revistas pró-nazis, como a Neugeist/Die Weise Fahne, gritavam no papel que Hitler era vegetariano “por amor aos animais” e como este era acerrimamente contra qualquer tortura contra animais como no caso da vivisecção. A condição delicada da saúde do ditador, que era constantemente trapaceada pelo mesmo, foi metamorfoseada para uma suposta preocupação com os animais não-humanos e como isso o tornava num indivíduo bom. Esta notícia manipulada conseguiu o seu objectivo: chamar a maior atenção possível em torno de Hitler e transmitir uma aura quase beatificada que conseguisse abafar as barbaridades apoiadas pelo nazismo.
E, em parte, resultou.
E, em parte, resultou.
***
Referências:
Dinshah, J. (1974, January). Book nook. {A review of Speer, A. (1970). Inside the 3rd Reich (Por dentro do Terceiro Reich)} Ahimsa, p. 11. [Disponível na American Vegan Society, P.O. Box H, Malaga, NJ 08328, USA]
Meyer, R. (1985). Was Hitler a vegetarian? Vegetarian Voice, 12 (2), p. 6. [Disponível na North American Vegetarian Society, P.O. Box 72, Dolgeville, NY 13329]
O mito de que Hitler era vegetariano
Hitler e Goebbels não eram vegetarianos e a favor dos direitos dos animais?
publicado em

Cada vez mais estudos médico-científicos comprovam que a alimentação vegetal equilibrada é uma das mais eficazes para prevenir inúmeras doenças. Muitas pessoas já me disseram que este tipo de alimentação não é saudável porque não possui todas as vitaminas e minerais necessários, pelo que dediquei-me a fazer uma investigação e a criar uma tabela onde estes podem ser encontrados no universo vegetal. Decidi repetir alimentos para mostrar que a riqueza nutricional a nível vegetal não é um mito, ao ponto de um único alimento possuir várias vitaminas e minerais.
O objectivo desta tabela é mostrar que podemos ter uma alimentação isenta de produtos de origem animal sem precisarmos de nos preocupar com estes nutrientes. A mesma não substitui uma consulta de nutrição, tendo unicamente um propósito informativo.
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É com muita alegria que partilho convosco a Biblioteca da Raposinha, a nova rubrica do blogue: neste espaço, iremos explorar o maravilhoso mundo dos livros infantis que promovem a consciência sobre os direitos dos animais.
Para começar, não poderia ser outro livro que o d'A Menina dos Caracóis da Tânia Bailão Lopes: já referi este livro aqui e aqui, pelo que achei pertinente incluí-lo nesta rubrica para apresentá-lo através do olhar de uma criança pequena. Ao longo da história, uma menina, por gostar tanto de animais, tenta levar os bichos do campo para a cidade: será que teve sucesso na sua missão?
Com uma narrativa fluida e rimada, a Tânia passa a imprescindível mensagem de que a liberdade dos animais é mais importante do que a vontade de os manter perto de nós enclausurados – mensagem essa que a leitora criança, sem precisar de muitas explicações, compreendeu logo, o que, a meu ver, fortalece a perspectiva de que os mais pequenos são naturalmente bondosos e empáticos para com os animais. No livro, ela aponta constantemente para os animais que estão presos e que isso os deixa tristes – e os animais não merecem ficar tristes, não é verdade?
As ilustrações são coloridas mas com um traço suave, o que torna a obra cativante e delicada. É um dos livros preferidos da minha raposinha e não poderia deixar de o voltar a recomendar, de tão bonito e especial que ele é. Está à venda na Wook, em várias livrarias, como a Bertrand, e também pode ser adquirido directamente com a autora, bastando entrar em contacto com ela.
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Sobre a autora: Tânia Bailão Lopes é mestre em Psicologia Clínica e licenciada em Serviço Social. Em 2016 abraçou totalmente o seu amor pela pintura e passou a dedicar-se exclusivamente à criação artística, à escrita e à ilustração. Ilustradora de mais de 80 livros, o seu trabalho já lhe valeu variadas premiações nas áreas de Pintura, Literatura e Ilustração Infantil. Desenvolve projectos juntamente com as escolas, que visam a promoção da literatura e da criatividade nas crianças, sendo que os seus livros Piu e o Planeta e Maria Morte integram o Plano Nacional de Leitura.
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Parece que quanto mais digo que me vou concentrar no blogue, menos tempo tenho para nele me focar. Não posso afirmar que me sinto mal por isso, visto que esse menos tempo se deve ao que mais adoro fazer: maternar. E como tenho aprendido tanto nesta fase da minha vida ♡ Planeio, assim que a mente tiver uma nesga para respirar, partilhar convosco a beleza da candura infantil em relação aos animais. Posso dizer-vos, com antecedência, que as crianças têm muito para nos ensinar nesse quesito – e que orgulho tenho em afirmar que, sim, estou eu a aprender mais com ela do que ela comigo. Mas isso ficará para outro texto.
Como já devem saber, quase três anos depois regressei ao Instagram: a vontade de divulgar sobre antiespecismo além-blogue motivou a tomada dessa resolução, sendo que consegui a proeza de já estar sem paciência para essa rede. Tudo me parece apressado, descartável e pouco genuíno. Sinto saudades de quando o mesmo era um álbum de fotografias gigante: estático, harmonioso e silencioso.
Ademais, com a cacofonia a ser priorizada, o género de conteúdo que partilho (ética animal) e o modo como o partilho (minimalista e em texto) acaba por ser penalizado e, consequentemente, pouco alcance conquistar. Somando isso à censura que a Meta está a cometer — restringindo e até desactivando contas dedicadas a temas sociais e educativos — o panorama actual, para quem deseja escrever e partilhar sobre tais temas, não é o melhor.
É indiscutível que as redes sociais formam o epicentro do mundo digital; todavia, é frustrante permanecer num espaço que, com todas estas invisibilizações supracitadas, dá a entender que não somos verdadeiramente bem-vindas. Cheguei a cogitar em fazer vídeos, formato que tanto desaprecio, o que por si só revela a raiva que o Instagram me estava a dar. Estava, porque, depois desta hesitação, decidi que nunca aceitarei que uma plataforma dite como deverei tecer o meu trabalho. Preferir fotografias e textos não tem nada de errado: errado é estruturar todo um algoritmo que se recusa a valorizar todo o tipo de conteúdo, focando-se unicamente naquele que suscita emoções intensas, mas efémeras. Cada vídeo curto, cada rage bait e cada polémica acorrenta-nos e oferece-nos uma falsa dopamina a conta-gotas, mantendo-nos num ciclo de desejo contínuo que nunca é apaziguado. No final, fica a superestimulação e a sensação de vazio. E, num mundo que está a ruir, com o ódio e a violência a ganhar cada vez mais força, não encontro sentido algum em cair nesse ciclo e nesse scroll.
Manterei o meu perfil activo mas não deambularei muito por lá, até porque assim, e tendo em conta os poucos momentos livres que tenho, consigo dar mais atenção ao blogue. Não estar a publicar não é sinónimo de não estar empenhada nele: de momento tenho uma tradução — de um excerto de uma obra de Tom Regan — para finalizar, uma revisão de outra tradução para polir, receitas por testar e marcas não cruelty-free para denunciar, além de uma rubrica nova. A fadiga do dia-a-dia não permite mais, nem melhor, mas aos poucos tudo começa a ganhar contorno e estou muito ansiosa para tudo vos mostrar ♡
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