Pages

  • Antiespecismo 101
  • Cruelty-Free Q&A
  • Links úteis
  • Ebooks
  • Sobre

Social Icons

Raposa Herbívora | Libertação animal, na teoria e na prática
BIBLIOTECA VIRTUAL
RASCUNHOS ANTIESPECISTAS
DENUNCIAR MAUS-TRATOS
DOCUMENTÁRIOS

08/08/2026

Biblioteca da Raposinha: “O Protesto”



No meio de tanta azáfama — que, mesmo sabendo que faço imensas coisas, continuo a sentir que nada faço — acabei por semiabandonar esta rubrica, involuntariamente. Preciso urgentemente de parar de criar rubricas quando não consigo ter tempo para elas 🌚 Ainda para mais quando esta tem tanta ternura, típica de tudo aquilo que é infantil. É a mistura perfeita daquilo que mais me define — ser mãe, ser antiespecista e ser obcecada por livros —, pelo que continuar com ela faz todo o sentido, mesmo que demore sete meses a renová-la, como neste caso.

Descobri este livro quando a criança andava numas actividades de escola-floresta, há uns dois anos, e não sei dizer quem ele mais cativou: se a mim, se a ela. A identidade visual minimalista, as poucas palavras mas que tanto dizem, a importância da mensagem... sabia que precisava de arranjar um exemplar para termos em casa.

Assim o foi e rapidamente tornou-se num dos seus livros preferidos. Ela já tem vários livros relacionados com a natureza e os animais, mas este destaca-se por um simples motivo: a paleta de cores. Geralmente, os livros infantis são visualmente ruidosos. Este só recorre a quatro tons, cinco se contarmos com o branco, o que acaba por ter duas vantagens: como contrasta com o livro padrão, chama automaticamente a atenção; e, ao permitir que haja muito espaço para o branco, ajuda a que a criança fique mais atenta à mensagem no lugar de se perder no meio de tanta cor e de tantos elementos.



“Tudo começou quando um pássaro deixou de cantar”

Os animais deixaram de se ouvir. Desde a cidade à floresta, da chita à libelinha, nenhum som é produzido. Além deste pacto silencioso, os animais deixam de fazer o que quer que seja: os selvagens recolhem-se e deixam de ser vistos e os domesticados (incluindo à força, como os elefantes nos circos), recusam-se a executar as suas tarefas. As únicas pessoas que compreendem este protesto são as crianças, que a eles se juntam, deixando de ir à escola e de brincar.

Um silêncio colectivo que grita contra a poluição e a destruição ambiental causadas pelo ser humano.


Sobre a autora: Eduarda Lima é licenciada em Arquitectura e mestre em Motion Graphics (design de movimento). É ilustradora, animadora, designer freelancer e autora de livros infantis, sendo o seu trabalho composto, principalmente, por ilustração e animação 2D e que abrange uma grande variedade de projectos: curtas-metragens, videoclipes, anúncios televisivos, animação de logótipos, tipografia animação de ficção, entre outros. No PIM (Mostra de Ilustração Para Imaginar o Mundo) de 2024, participou com um cartaz pela liberdade do povo palestiniano.
O seu primeiro livro para crianças, O Protesto, publicado em Maio de 2020 pela Orfeu Negro, conquistou o Prémio Nacional de Ilustração 2021, na categoria de menção especial, o Prémio Big Aquisição 2021, na Bienal de Ilustração de Guimarães e foi laureado como um dos melhores livros originais ilustrados pela Image Of The Book em 2020.
publicado em
biblioteca da raposinha leituras
partilhar
ler mais

14/07/2026

Maternidade vegana com a Lívia Brito 💚 Coxinhas da Lívia



No meio do caos que as redes sociais se tornaram, ainda há coisas bonitas a acontecer por lá. Uma delas foi, precisamente, ter conhecido a Lívia e o seu projecto de cozinha brasileira e sem crueldade. Se são da área de Lisboa e nunca provaram as suas coxinhas, as suas bolinhas de queijo, os seus rissóis, o seu bolo com cobertura de chocolate branco, precisam de mudar isso rapidamente. Cada dentada sabe a conforto, a amor, e leva-nos a uma viagem para o outro lado do Atlântico. A Lívia, só por ser mulher emigrante, com o seu negócio próprio, já é uma força da natureza. E, assim, quando ela também abraçou o infinito projecto que é a maternidade, sabia que tinha de falar com ela para participar nesta rubrica – e as suas palavras não podiam ser mais cândidas e inspiradoras ♡

Fala um bocadinho de ti e do teu projecto.

Meu nome é Lívia, tenho 41 anos e vivo em Lisboa desde 2016. Sou mãe da Maria Helena, que está com 15 meses e também sou mãe do meu projecto de comida vegana.
A Coxinhas da Lívia começou em 2017 como algo provisório até que eu me estabilizasse financeiramente em Portugal. Vida de imigrante é sempre uma montanha russa até que se possa viver e trabalhar noutro país. Mal sabia eu que esse projecto ganharia a forma que tem hoje, passando a ser o meu principal trabalho. Produzimos salgados, doces e bolos veganos, sendo as coxinhas o nosso principal produto. Digo nosso, pois, somos uma empresa familiar.

Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?

Conheci o termo “vegetarianismo” por volta dos 20 anos, através da minha irmã mais nova: ela precisou fazer um trabalho de escola e escolheu abordar o tema. Desde então ela se tornou vegetariana e eu me tornei junto com ela como uma forma de incentivá-la: ao fim e ao cabo foi ela quem me incentivou. Entretanto, eu não tinha uma alimentação balanceada e acabei por abandonar, voltando a ser anos depois, por volta dos 27 anos. Fiz a transição para o veganismo em 2016 junto com a minha mudança para Portugal e, nesta altura, com muito mais compreensão sobre a minha escolha. O motivo principal foi a questão ética.

Como foi a tua alimentação durante a gravidez? Que cuidados tiveste?

Não muito diferente da alimentação antes da gravidez. Apenas ajustei quantidades conforme a gravidez foi avançando. Os únicos cuidados que tive foi de não comer vegetais crus, pois, não sou imune à toxoplasmose. No mais, mantive uma dieta bastante equilibrada, rica em proteínas vegetais (leguminosas, tofu, tempeh etc.), legumes e carboidratos. Durante toda a gravidez tive apoio de uma nutricionista para ter certeza que comia as quantidades certas para o desenvolvimento da minha bebé.

A maternidade aprofundou o teu olhar em relação ao modo como tratamos os animais?

Certo que não precisei de me tornar mãe para ter esse olhar sobre como é horrendo a forma como a indústria nos faz crer que produzir e matar um animal é importante para a sobrevivência humana. Contudo, a maternidade trouxe muito mais empatia para com as fêmeas não-humanas que são criadas para gerar bebés – contra a sua vontade – para que esses bebés sejam retirados delas mal nascem e irem parar numa embalagem de supermercado. Nada é mais duro para uma mãe do que ter seus filhos retirados à força!

Arte de Angelina Bambina

A teu ver, quais são os maiores preconceitos e desinformações em relação à alimentação vegetal infantil?

“Com essa alimentação ela não vai se desenvolver” ou “Não podes forçar a tua alimentação à tua filha” – escutei esta última e ainda nem grávida estava, de uma médica.
Há ainda muitos preconceitos sobre a alimentação vegetal infantil, sem dúvida, bem como desinformação – mas creio que estes dois comentários resumem bastante o que ainda se ouve quando se fala em crianças veganas. Mesmo a questão da suplementação — que crianças omnívoras também precisam — “não precisaria suplementar se comesse carne”. Na maioria das vezes aceno e sigo a vida, noutras é preciso fazer com que compreendam; poderá apenas ser falta de informação mesmo, e educar é a melhor via.

Está cada vez mais difícil conseguir gerir o tempo para cozinhar e fazer refeições que nutrem. Que conselhos dás para quem tem bebés e crianças e queira fugir de refeições industrializadas o mais possível?

Congelar! Não há nada mais reconfortante para uma mãe num dia corrido do que ter refeições prontas no congelador. Basta uma hora num dia da semana para conseguir preparar refeições variadas e congelar ou então guardar em pequenas marmitas para a semana ou dias seguintes. É o que faço aqui em casa, desde opção de pequeno-almoço e lanche, até mesmo almoço e jantar. Tento ter sempre uma sopa congelada e isso faz uma enorme diferença no dia-a-dia! Ainda esses dias estava a pensar sobre isso enquanto lhe preparava um lanche: “Seria mais fácil um industrializado, mas será que quero isso para a minha filha?”. Fazer tudo toma tempo mas acabo sempre por preparar o lanche para os próximos dias. Isso quer dizer que nunca vou lhe dar industrializados? Não, sei que vai acontecer, mas será sempre a excepção e não a regra.

Como ensinar o respeito pelos animais a crianças muito pequenas, como a tua?

Crianças pequenas aprendem observando, por isso a forma como o adulto trata um animal comunica muito para os pequenos olhos observadores. Temos dois gatos em casa e lhe ensinamos desde cedo que os gatos precisam de carinho e beijinhos. Se vamos em alguma quinta pedagógica ou santuário fazemos o mesmo. Ela tem muita curiosidade e fica muito contente em ver os animais e aos poucos vamos lhe dizendo — ainda que pouco entenda — que os animais são nossos amigos. E nas leituras de livros também, que não controlamos, às vezes pode ter uma situação que não concordamos e vamos lhe explicando a nossa forma de ver o mundo e os animais. Para uma bebé de 15 meses nada faz muito sentido ainda, mas o nosso exemplo vai indicar o entendimento dela no futuro.

Partilha uma das receitas predilectas da Maria Helena.

Panquecas! Um dos seus lanches preferidos.


Ingredientes:

2 colheres de sopa cheias de farinha de aveia
1 colher de sobremesa de linhaça moída
1/2 colher de café de fermento
1/2 banana madura amassada ou maçã ralada
Pitada de canela (opcional)
1/2 chávena de água, leite materno, fórmula ou bebida vegetal

Modo de preparação:

Misturar os secos, adicionar a fruta escolhida e o líquido. Misturar tudo ligeiramente até ficar homogéneo, não mexer ou bater demasiado, o suficiente para deixar uma massa nem muito líquida nem muito densa/espessa.
Aquecer uma frigideira untada levemente com azeite e com a ajuda de uma colher de sopa colocar pequenos discos de panquecas na frigideira. Dourar dos dois lados, e está feito. Servir com fruta e uma manteiga de oleaginosas!

Obrigada pelo espaço e por falarmos de um tema tão importante para o futuro das nossas filhas! ■
publicado em
gravidez & crianças maternidade vegana
partilhar
ler mais

30/06/2026

Quando Se Quer Cuidar E O Trabalho É Ferir: O Custo Humano da Experimentação Animal

Há uns bons anos, ouvi uma estudante a falar sobre certas tarefas que andava a fazer com roedores. Ao mesmo tempo que falava dos animais com carinho, referindo-se a eles como  “ratinhos fofinhos”, a naturalidade com a qual ela debitava as experiências que estava a realizar neles deixou-me bastante perplexa. Irritei-me visceralmente e, no fundo do meu âmago, vociferei silenciosamente a incongruência de tal discurso. Rotulei a rapariga como hipócrita, que via os “ratinhos fofinhos” como objectos e que, na verdade, não se importava com eles para nada. Nessa altura, também eu frequentava a faculdade e encontrava-me na fase de estar desmesuradamente furiosa para com práticas especistas, de tal modo que nem questionava as complexas e dissimuladas teias desta engenhosa e manipuladora estrutura.

Foi após ter lido o Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas, de Melanie Joy, que compreendi a crueldade que estas áreas, que exploram animais, perfilam no seu todo: os humanos que nelas participam – como mão-de-obra –  também são impiedosamente atingidos. Têm o coração e a mente desfragmentados à força, dando lugar à rotinização e normalização de práticas hediondas. É uma anestesia obrigatória para conseguirem continuar com o seu trabalho, sob o argumento de que o mesmo é necessário e inevitável — e, ao passo que a Melanie Joy se refere, no livro, aos funcionários de matadouros, o mesmo fez-me recordar desta estudante e dos juízos de valor que decidi ter sobre ela, sem sequer a conhecer, naquele dia. E foi aí que percebi que estas pessoas – as que trabalham nos matadouros, nos laboratórios de investigação científica, etc. – não são monstros. Poderia ser qualquer um de nós – poderia ser eu – no lugar delas. O que mudou não foi o que penso — foi para quem olho.

Por isso, quando descobri a Madeline Krasno, uma antiga trabalhadora-estudante de um laboratório de experimentação animal, percebi que necessitava de partilhar o testemunho dela. Espero, com o mesmo, conseguir apresentar a necessidade de humanizarmos quem depressa resolvemos desumanizar, de forma a que o caminho pela libertação – humana e animal – fique um pouco mais desimpedido — pois, como conseguir trilhar esse caminho quando calamos, à força do nosso preconceito, quem também faz parte dele?

Actualmente a Madeline dedica-se à Justify, uma plataforma que visa unir estudantes e trabalhadores das várias áreas que recorrem à utilização de animais para investigação, com a intenção de denunciar as atrocidades cometidas pelas mesmas — tanto com os animais como com os próprios humanos. Em suma, a organização pretende mostrar, a quem está de fora, que estas pessoas são vítimas – e não cúmplices, como acreditamos – deste sistema.


— Fala um pouco de ti. Quem é a Madeline Krasno?

Desde que me lembro, sempre adorei crianças e animais, e grande parte da minha vida foi passada em funções de cuidado  — tanto de várias espécies [animais] como de crianças, desde a primeira infância até ao ensino secundário. Tenho um mestrado em Educação Humanitária pela Universidade de Valparaiso e licenciaturas em Zoologia e Desenvolvimento Infantil pela Universidade de Wisconsin–Madison.

O meu percurso profissional abrange cuidados com animais, reabilitação de vida selvagem, educação em santuários de animais e desenvolvimento de currículos para aprendentes desde a infância até ao ensino universitário.

Partilho a minha casa com o grande amor da minha vida, Millie Jane, uma cadela cruzada de pastor alemão, bem como com uma enérgica gata bicolor chamada Celia, um divertido gato malhado laranja chamado Calvin, e dois ratos de laboratório reformados, baptizados com nomes de macacos que cuidei no laboratório de primatas: Cheerio e Norm.

Como uma das três cofundadoras da Justify, sinto uma profunda gratidão por poder dedicar a maior parte do meu tempo a construir a organização de que eu própria precisava quando saí do laboratório de primatas pela última vez, em 2013.

— Qual era a tua função no laboratório de animais e que tipo de tarefas desempenhavas?

Como uma estudante universitária inspirada por Jane Goodall, acreditava que trabalhar num laboratório de primatas apoiaria o meu percurso na conservação dos mesmos. Assim, tornei-me cuidadora-estudante de mais de 500 macacos no University of Wisconsin–Madison’s Harlow Primate Lab(1). O meu trabalho incluía alimentar os animais, preparar enriquecimento ambiental, lavar as bandejas sob as gaiolas e as salas dos animais, preparar e administrar medicação (tanto por via oral como por injecção), cuidar de recém-nascidos rejeitados, tratar de grandes quantidades de loiça, reabastecer equipamentos de proteção individual, entre muitos outros afazeres.

Para muitos funcionários de laboratório, testemunhar o que acontece diariamente nesses espaços é extremamente árduo, sobretudo porque grande parte dessas experiências acaba por tornar-se rotineira com o passar do tempo. O cérebro humano adapta-se, para poder lidar com a situação, pelo que práticas que inicialmente seriam chocantes acabam muitas vezes por ser normalizadas, simplesmente para se conseguir continuar a trabalhar.

Tinha 20 anos quando um macaco-rhesus recém-nascido teve uma convulsão e morreu nos meus braços. No dia anterior, tinha chegado ao trabalho e descoberto outro recém-nascido rejeitado, sem vida, numa incubadora. Num único fim-de-semana, coloquei os corpos desses dois recém-nascidos em sacos de risco biológico e levei-os para um congelador. Não foi a primeira vez e não seria a última.

Quando um colega e eu fomos encarregues de retirar um bebé morto dos braços da mãe, em que esta se recusava a largá-lo, fiquei impressionada com a aparente compreensão por parte dela. Dentro de uma gaiola de transporte, alinhada de forma segura a um sistema de contenção sobre uma mesa, ela agarrava-se firmemente ao seu bebé.
Abrimos a porta da caixa de transporte e oferecemos-lhe um marshmallow. Ela avançou, pegou no doce e recuou para dentro da gaiola, ainda com o bebé nos braços. Tentámos novamente. Comeu o marshmallow e recuou, continuando a segurar o seu filho. Uma terceira vez, o mesmo aconteceu.
Mas, à quarta tentativa, a mãe avançou e, em vez de pegar no marshmallow, pousou suavemente o corpo do seu bebé, encostando os lábios à testa da cria antes de recuar para a gaiola — desta vez sem o marshmallow e sem o bebé.
Não tive qualquer dúvida de que a mãe deixou o seu bebé porque percebeu a inutilidade de resistir ao que representávamos. Submeteu-se por resignação, não porque estivesse preparada.

Mais uma vez, coloquei um macaco recém-nascido num saco de risco biológico e num congelador.

Ao cogitar sobre este e tantos outros momentos, posso dizer com toda a certeza que, quando aceitei tornar-me cuidadora de macacos, não era este tipo de trabalho que imaginava.

— Quando começaste a sentir hesitação, ou um conflito ético, em relação ao que ali se passava, e como reagiram os teus supervisores quando decidiste sair?

Senti desconforto quase imediatamente, mas convenci-me de que ter sucesso nesta função e obter uma boa carta de recomendação era fundamental se quisesse seguir os passos da Jane Goodall. Como tantas outras pessoas com quem falei desde então, disse a mim própria que, pelo menos, poderia tentar tornar a vida dos animais menos penosa.

Também tinha a convicção de que, se saísse, alguém menos compassivo ocuparia o meu lugar. Isso fez com que fosse mais difícil me afastar, mesmo quando as coisas não pareciam ser correctas.

Quando saí do laboratório ao fim de dois anos, ofereceram-me uma moldura com uma colagem de fotografias de macacos do laboratório, a agradecer-me em nome de “todos os meus amigos” do Harlow Primate Lab. A minha passagem terminou porque estava a concluir o curso, não porque me tivesse despedido. Tanto quanto sei, o meu supervisor e os meus colegas não ficaram com quaisquer ressentimentos. Eu tinha sempre demasiado receio de expressar o que sentia. Para eles, saí bem.

Só que, na verdade, eu estava tudo menos bem. Esta experiência mudou-me profundamente: levou-me a um nível de conflito emocional e ético para o qual não estava preparada e, mais tarde, a um diagnóstico de perturbação de stress pós-traumático. Durante muito tempo, tive dificuldade em assimilar tudo isso.

Hoje, o que experienciei está no centro de quem sou e do trabalho que desenvolvo como cofundadora e diretora executiva da Justify — apoiando outras pessoas que estiveram dentro deste sistema e ajudando a criar espaço para conversas mais honestas e humanas sobre o que realmente significa fazer parte dele.

— Porque é que a tua universidade tentou censurar-te e impedir-te de falar publicamente sobre o que acontece no laboratório de animais?

Não consigo responder com exactidão sobre as suas motivações, mas aquilo que observámos — e que os tribunais acabaram por reconhecer — foi que a universidade e o NIH (National Institutes of Health) estavam a limitar determinados pontos de vista nas suas plataformas públicas, sobretudo quando se tratava de críticas à investigação com animais.

Como antiga aluna e ex-funcionária da Universidade de Wisconsin–Madison, quis informar melhor os estudantes e os apoiantes da universidade sobre os danos que ocorrem nos laboratórios de primatas no campus. Comecei então a comentar nas suas publicações, nas redes sociais, o que levou à minha censura.

Depois da UW–Madison ter parado de me censurar, na sequência da apresentação do meu processo judicial por liberdade de expressão contra a instituição, reparei que alguns dos meus comentários permaneciam invisíveis para o público. Através de um pedido ao abrigo da FOIA (Freedom of Information Act), descobrimos que as páginas de Instagram e Facebook da universidade utilizavam listas de palavras bloqueadas compostas quase exclusivamente por termos associados à investigação com animais, como “macacos” e “testes”. Estas listas podiam ser alteradas a qualquer momento, tornando praticamente impossível um diálogo público construtivo sobre a investigação com animais realizada no campus.

Outro pedido ao abrigo da FOIA(2) revelou que o NIH(3), o principal financiador da investigação com animais nos Estados Unidos, também bloqueava palavras-chave nas suas páginas de redes sociais. As palavras na sua lista incluíam “macaco”, “chimpanzé”, “testes” e “cruel”. Assim, avançámos também com uma acção judicial por violação da liberdade de expressão contra essa entidade.

Em ambos os casos, o bloqueio de palavras-chave não era apenas uma questão de gestão de conteúdos: era censura. Ao filtrar precisamente as palavras que descrevem o que acontece dentro dos laboratórios, a UW–Madison e o NIH protegiam-se do escrutínio e silenciavam vozes críticas. O que estava em causa não era apenas a minha capacidade de comentar online — era o direito constitucional do público de questionar como são utilizados os impostos nos Estados Unidos para financiar a investigação com animais.

Ganhar estes processos significou poder falar honestamente sobre a minha experiência sem receio de ser silenciada ou sofrer retaliações. Durante muito tempo, senti que as próprias instituições de que fiz parte controlavam a narrativa, mesmo quando eu apenas tentava partilhar aquilo que vivi e o que os animais passavam e passam. Isso ajudou-me a sentir que estava, de certa forma, a compensar o prejuízo do qual fui cúmplice sem nunca ter pretendido sê-lo.

E ganhar estes processos também confirmou o quão estas conversas são importantes, que as pessoas dentro do sistema têm o direito de ser ouvidas e que a transparência é essencial se queremos que a ciência evolua. Contribuiu também, mesmo que modestamente, para alterar o equilíbrio de poder em direcção a uma maior abertura e responsabilização. E tenho orgulho disso.


— Como te sentes hoje em relação ao que viveste e testemunhaste no laboratório?

Sinto inúmeras coisas, mas sobretudo tristeza, arrependimento, clareza e uma compreensão mais profunda daquilo pelo que passei. Fui diagnosticada com perturbação de stress pós-traumático como resultado do meu tempo no laboratório e, com o passar do tempo, reconheci também que a chamada “lesão moral” foi central nessa experiência. Tal discernimento ajudou-me a perceber por que motivo tudo aquilo permaneceu comigo da maneira que permaneceu.

Desenvolvi também muita compaixão por mim própria e por outras pessoas que estiveram em quadros muito semelhantes. Não é que eu tenha seguido em frente, de todo, mas é algo que aprendi a carregar de um jeito que informa o trabalho que faço hoje. Tenho a certeza de que serei sempre assombrada pelos rostos dos macacos… pelos seus sons e pelos seus gritos.

— O que é a Justify?

A Justify é uma organização sem fins lucrativos criada para apoiar pessoas que trabalharam, ou trabalham actualmente, em laboratórios com animais e para defender uma ciência sem sofrimento humano e animal. O nosso foco incide num pormenor que é muitas vezes ignorado: o custo humano da investigação com animais. Isso abrange o impacto emocional, o conflito ético e, para muitos, a experiência de lesão moral que pode surgir ao cuidar de animais enquanto se participa também no seu sofrimento.

O que distingue a Justify é o facto de ser liderada por pessoas que trabalharam dentro da investigação com animais, pelo que o nosso entendimento é vivido e não meramente teórico. Conhecemos a realidade de cuidar de animais enquanto se faz parte de uma estrutura que os prejudica, a pressão para permanecermos calados e o receio de ser mal interpretado ou rotulado como “anti-ciência”. Vivemos na pele o impacto emocional e psicológico contínuos.

Este espaço gera confiança junto de trabalhadores de laboratório, que muitas vezes estão a falar sobre estes assuntos pela primeira vez e isso permite-nos trazer nuances de um tema demasiado polarizado. Como conhecemos a cultura a partir de dentro, conseguimos dialogar com cientistas, instituições e defensores sem recorrer à culpabilização ou à demonização de indivíduos: tal perspectiva é fulcral para criar um diálogo sem barreiras e tecer uma mudança sistémica que, em última análise, reduz o sofrimento tanto de pessoas como de animais.

Trabalhamos em três áreas principais: apoio, partilha de histórias e mudança sistémica. Oferecemos espaços privados, onde trabalhadores de laboratório podem conectar-se e processar as suas experiências. Disponibilizamos recursos para orientar as pessoas, para que compreendam o que estão a sentir, quer ainda estejam nesse trabalho, quer já o tenham deixado. Também damos visibilidade a testemunhos em primeira mão, trazendo à luz o que normalmente permanece oculto, e participamos em conversas mais amplas sobre como fazer avançar a ciência de forma a reduzir o impacto negativo, tanto para animais humanos como não-humanos.

Embora seja uma organização ainda embrionária, as maiores conquistas da Justify têm sido dar visibilidade, legitimidade e estrutura a uma questão que esteve escondida durante demasiado tempo: o custo humano da investigação com animais. Criámos a primeira organização dedicada, liderada por antigos trabalhadores de laboratório, a apoiar outros que enfrentam lesão moral, trauma e isolamento resultantes deste género de trabalho.

Construímos uma rede de trabalhadores antigos e actuais de laboratório, criamos recursos e espaços privados de apoio, organizamos eventos públicos de sensibilização, amplificamos histórias na primeira pessoa e começamos a mudar o debate em torno da investigação com animais, incluindo tanto os animais afetados como as pessoas chamadas a participar nesse processo.

Mostramos que esta não é uma experiência isolada: é urgente descortinar isso, sendo que a Justify está a tornar-se o lugar a que as pessoas recorrem quando estão prontas para questionar, processar, curar ou abandonar o sistema.

— Olhando para trás, o que te dá esperança e o que gostarias que mais pessoas compreendessem sobre a experimentação animal?

Gostaria que as pessoas compreendessem que muitos de nós entramos na investigação animal com boas intenções, não com intenções maliciosas.
Queremos contribuir para o avanço da saúde humana, preocupamo-nos com os animais e procuramos fazer algo com significado. E, ao mesmo tempo, pessoas bem-intencionadas podem fazer parte de sistemas que provocam estragos — e estive incluída neles.

Uma das coisas mais difíceis de aceitar foi perceber que o facto de me preocupar não impedia o sofrimento e, de certa forma, até fazia com que sair [deste trabalho] se tornasse ainda mais complicado. Preocupava-me com quem ocuparia o meu lugar e dizia a mim mesma que, pelo menos, podia tentar tornar a vida dos macacos menos dolorosa.

A indústria da investigação com animais tende a encaminhar pessoas jovens e impressionáveis para este meio, sobretudo estudantes e doutorandos, antes deles entenderem plenamente o que tal trabalho implica ou como pode afectá-los psicologicamente.

Existe uma cultura do silêncio e do secretismo, pelo que muitas pessoas têm receio de falar. Temem represálias, perder o emprego, prejudicar a carreira ou, em alguns casos, até colocar em risco o seu estatuto de visto.
Esse medo silencia imensa gente. Quando as pessoas dentro do sistema são depois rotuladas de “monstros”, isso pode empurrá-las ainda mais para o isolamento e tornar ainda mais difícil procurar apoio ou falar com honestidade sobre as suas experiências — permitindo, no fim de contas, que o sofrimento, tanto humano como animal, continue. Se queremos quebrar esse silêncio precisamos de ponderar, de forma mais crítica, sobre como as narrativas polarizadas, de “nós contra eles”, acabam por calar precisamente as vozes que mais precisamos de ouvir.

Existe também a crença generalizada de que a investigação com animais, por ser regulamentada, significa que eles são bem tratados. Na verdade, essas regulamentações estabelecem comumente padrões mínimos e não condições que evitem o sofrimento. Muitos procedimentos que causam dor, angústia, isolamento e morte precoce são legais e rotineiros, desde que sejam considerados cientificamente justificados.

Assim, quando se diz que os animais são “bem tratados”, isso significa muitas vezes, apenas, que as práticas cumprem as normas, não que sejam verdadeiramente humanas.
E, mesmo quando as pessoas nos laboratórios se preocupam profundamente, estão a operar dentro de um sistema onde o dano é normalizado e difícil de contestar.

É uma realidade complexa, mas se há algo que espero que as pessoas retirem disto é o seguinte: passamos demasiado tempo a fazer suposições uns sobre os outros e muito pouco tempo a fazer perguntas com compaixão e a escutar genuinamente.

A indústria da experimentação animal é poderosa, bem financiada e, em grande medida, escondida do escrutínio público.
Mas o que me dá esperança é o facto do silêncio estar, aos poucos, a quebrar-se. Quando comecei a partilhar a minha história, há anos, sentia-me muito sozinha. Mas, quanto mais falava, mais ouvia outras pessoas – estudantes, técnicos de cuidados animais, investigadores – que também tinham enfrentado o peso moral e psicológico do trabalho de laboratório. Essas vozes, outrora isoladas, estão agora a encontrar-se e a unir-se através da Justify. A mudança não acontece de um dia para o outro, mas a história mostra-nos que sistemas profundamente enraizados mudam quando a verdade e as experiências vividas vêm à superfície. Cada vez que um trabalhador de laboratório fala, cada vez que o público toma consciência do que está oculto, as fissuras deste sistema abrem-se um pouco mais.

— Queres deixar uma mensagem para estudantes e investigadores que trabalham em laboratórios com animais, bem como para activistas pelos direitos dos animais?

Aos estudantes e investigadores que trabalham em laboratórios com animais: se estão a sentir conflito ou se algo não vos parece certo, não estão sozinhos. Muitos de nós entrámos nesta área porque nos preocupamos profundamente com os animais e queremos contribuir para algo que tenha significado. Essa tensão que podem estar a sentir merece espaço e atenção, não ser ignorada. Não precisam de desligar essa parte de vocês para pertencerem ao mundo da ciência.

E aos activistas pelos direitos dos animais: pediria apenas que se lembrem da humanidade das pessoas que estão dentro destas estruturas. Muitas delas estão a lutar mais do que possam imaginar e, quando a conversa se centra na culpa ou em rotular estas pessoas como “más”, isso pode empurrá-las ainda mais para o silêncio e afastá-las do apoio e das conversas honestas que podem conduzir à mudança.

Se queremos progresso — para os animais, para as pessoas e para a ciência — precisamos de mais curiosidade, mais compaixão e mais disponibilidade para nos ouvirmos uns aos outros, especialmente quando é desconfortável. ■

Se és (ex-)estudante, (ex-)trabalhador/a ou (ex-)investigador/a de um laboratório que utiliza animais, podes partilhar a tua história em Justify Global: Share Your Story.

Notas:
(1) Harlow Primate Lab – Laboratório de investigação com primatas da Universidade de Wisconsin-Madison, focado em estudos com macacos em contexto experimental.
(2) FOIA (Freedom of Information Act) – Lei dos EUA que permite ao público solicitar acesso a documentos e informações de entidades governamentais.
(3) NIH (National Institutes of Health) – Instituto Nacional de Saúde dos EUA, sendo a principal agência federal de financiamento da investigação biomédica.
partilhar
ler mais

28/05/2026

“O teu tofu está a destruir a Amazónia”


Ultimamente, a soja tem sido alvo do nosso cepticismo, que vai desde simples dúvidas até à sua aversão. Tal aversão está a ser motivada por uma moda alimentar, que, apesar de recente, rapidamente se espalhou pelas redes sociais: a dieta carnívora, também chamada de dieta da selva.

A ancestralidade é o argumento (ou deverei dizer falácia?) principal. Afirmam que os nossos primeiros antepassados viveram unicamente à base da caça e que a evolução humana descarrilou com a introdução da agricultura. Da crítica contundente contra as plantas, a soja é uma das mais severamente atacadas, tendo-se tornado como que um símbolo de tudo o que deve ser evitado, daí estar a ser vista com desconfiança, desprezo e repulsa.

As tendências, principalmente alimentares, são cíclicas: só esse facto deveria ser o suficiente para não deixarmos que as mesmas substituam o nosso pensamento crítico. No entanto, é o que está a acontecer, daí não ser surpreendente a facilidade com a qual se está a distorcer tanto a soja. Sobre as suas propriedades nutricionais e fisiológicas — bem como outras questões relacionadas com o consumo hiperbólico de carne — isso ficará para outro artigo. Hoje, prefiro pegar noutro contexto que, apesar de não ser tão utilizado como o da saúde para difamar o coitado do tofu, também tem estado em voga: o ambiental.

No meio de tantas justificações para o consumo de carne, uma delas é a desflorestação causada pela soja e como esta, portanto, é insustentável e rouba o habitat natural de muitas espécies ameaçadas: como é que vão explicar isso, veganos?

Bem, vamos lá, então, explicar: sim, a produção de soja é uma das maiores causadoras de desflorestação, mas com um detalhe fundamental: a larga maioria não é para consumo humano directo.

Desmatamento da Amazónia: quem está a destruir a floresta?

De acordo com a Our World In Data, a criação de gado, sob a forma de pastagens, compõe 80% da desflorestação amazónica. A soja vem a seguir, mas com uma diferença avassaladora: 5 a 10% (esta variação deve-se pelos tipos de estudos e se os efeitos indirectos foram neles contabilizados).

Uma nuance importante é que, apesar do impacto considerável, a maior parte da soja é usada para alimentar animais – ou seja, para além dos 80% de desflorestação causada directamente pela criação de gado, a pecuária também provoca desflorestação indirecta através do cultivo de soja.



Não é de admirar, portanto, que a produção de soja acompanhe, precisamente, o aumento do consumo de animais. Em 2023, cerca de 318 milhões de toneladas (t) de soja foram processadas e distribuídas para ração animal, óleo vegetal e biocombustíveis, ao passo que somente 14 milhões de t foram usadas para alimentação humana directa. Essa soja chegou a ser ultrapassada pela quantidade directamente usada para alimentar os animais – 35 milhões de t.

Ao todo:

• 77% da soja é usada para alimentar os animais que são explorados e mortos para consumo humano;
• 19% é usada para consumo humano directo e indirecto (e aqui o óleo vegetal, presente em ultraprocessados, snacks, confeitaria, etc., está incluído);
• 4% é usada para produtos industriais.

Dentro dos 19% para consumo humano, só 7% é para os alimentos à base de soja, como tofu, tempeh, bebida de soja e edamame.

Carne ou tofu: qual exige mais área?


Quanto mais terra um alimento exige para ser produzido, maior tende a ser a pressão sobre os ecossistemas, os habitats naturais e a respectiva vida selvagem.

Para 1 kg de:

• Cordeiro e borrego – usam-se 369.81 m² de terra;
• Carne bovina – 326.21 m²;
• Queijo – 87.79 m²;
• Carne suína – 17.36 m²;
• Carne de aves – 12.22 m².

Em contrapartida, 1 kg de tofu precisa de 3.52 m². Outros vegetais e frutas também usam pouquíssima terra.

Isso significa que:

Produzir 1 kg de carne bovina necessita de quase 100 vezes mais terra do que 1 kg de tofu; queijo, 25 vezes mais; carne suína, 5 vezes mais; carne de aves, 3,5 vezes mais.

Somando esta exigência de terra com o facto de cerca de 77% da soja produzida ser usada para alimentar animais explorados para consumo humano, fica inevitável concluir que a maior responsável pela desflorestação global, no seu todo, é a indústria pecuária.

Tentando fazer uma imagem mental deste uso de terra por kg:

• Carne bovina – 26 lugares de estacionamento;
• Queijo – 7 lugares de estacionamento;
• Tofu – 1/4 de um lugar de estacionamento.

Enquanto isso, se o mundo adoptasse uma dieta de base vegetal, reduziríamos o uso global de terras agrícolas de 4,1 mil milhões para 1 mil milhão de hectares – o equivalente a uma diminuição de 75%.
Com o uso global dessas terras mitigado conseguir-se-ia reduzir a desflorestação, libertando áreas actualmente utilizadas para pecuária e ração, criando-se, deste modo, espaço para a recuperação de habitats naturais. A vida selvagem, seriamente ameaçada, gradualmente refloresceria.

Além de menos terras, com a redução ou eliminação do consumo de animais e dos seus insumos também se conseguiria alimentar mais pessoas. A título de exemplo, se quiséssemos produzir alimento numa área do mesmo tamanho de um campo de futebol, obteríamos:

• 22 kg de carne bovina = ~140 a 150 refeições;
• 81 kg de queijo =  ~540 refeições;
• 420 kg de carne suína = ~2,800 refeições;
• 2,000 kg de tofu = ~13,000 refeições.

Os vários estudos sobre este tema são peremptórios: o consumo directo de plantas — como a soja — é mais eficiente a nível de água, uso de terra, produção calórica e produção proteica.

Posto isto, vale salientar que qualquer tipo de alimentação, obviamente, vai causar impacto ambiental. Esta discussão não é sobre quem é mais ou menos perfeito, ou quem é mais ou menos coerente nos seus valores pessoais: é sobre como se pode reduzir, dentro das nossas possibilidades, a escala desse impacto.

***

Recursos utilizados:

Drivers of Deforestation: The world loses 5 million hectares of forest to deforestation each year. What activities are driving this? — Our World In Data

Causes of Deforestation of the Brazilian Amazon — Sérgio Margulis

Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia — O Almeida, S Ávila, S Rivero e W Oliveira

Agricultural Production — Our World In Data

FAQs on the environmental impacts of food — Our World In Data

If the world adopted a plant-based diet, we would reduce global agricultural land use from 4 to 1 billion hectares — Our World In Data

The opportunity cost of animal based diets exceeds all food losses — A Shepon, G Eshel, E Noor, R Milo
publicado em
alimentação sustentabilidade
partilhar
ler mais

14/04/2026

Bolo de laranja e um desabafo



Há uns dias, olhei para a pilha de livros de ética animal que tenho para ler há uma eternidade. Primeiro senti um peso oco, daqueles que esmurram o estômago, por me ter apercebido que nem sequer tenho conseguido pegar pelo menos num para começar a estudar. O maternar intenso, juntamente com o assoberbamento emocional causado pelas hediondezes mundanas, empurrou-me silenciosamente para uma desconfortável inércia da qual estou incapaz de sair. Antes, conseguia ainda encontrar algum optimismo no meio da violência e do ódio: conseguia ainda acreditar na mudança. Mas, com tudo o que se tem passado ultimamente, desde massacres de povos inteiros ao retrocesso de direitos humanos básicos, essa centelha de esperança apagou-se brutalmente do meu coração, o que o levou a encolher-se sobre si próprio e a virar pedra para conseguir aguentar toda esta insanidade.

Se antes a excessiva sensibilidade era um problema, agora é a falta dela. O vazio que muitas vezes me acomete, perante tudo o que se passa, esgota-me a força, a vontade e a força de vontade. Faz com que eu sinta que tudo é em vão.

Chegou a um ponto em que o vazio, pessimismo e sensação de inutilidade, juntos, enrolavam-se e empurravam-me para um reino distorcido no qual tudo ficava embaciado na minha cabeça, sem capaz de construir o mínimo discernimento. A mente estava demasiado amorfa. Pelo que coloquei a mão no coração, apesar da muralha rochosa, e aceitei que desistir não é um sinal de fraqueza. Na verdade, perante a pressão social que constantemente nos grita que produtividade é sinónimo de utilidade — além de termos de fingir que o mundo não está a ruir e que tudo está normal —, desistir é uma forma de sobrevivência. E, neste momento, para conseguir sobreviver, preciso de rejeitar essa romantização da produtividade ao máximo e de abrir mão de algumas coisas, como simples leituras e escritas. Às vezes, deixarmo-nos levar pela corrente é melhor do que nadarmos contra ela. Vou deixar fluir, tentar parar de me sentir mal por não estar a ler e a escrever para o blogue, e continuar focada no que tem sido um refúgio e um exercício de abstracção: cozinhar. Posso não trazer um texto filosófico mas trago uma receita doce para estes tempos que têm sido tão amargos, sendo este bolo um dos preferidos daqui de casa e muito fácil de fazer.

Só precisam de:

1 cup de sumo de laranja natural (duas laranjas grandes)

Raspa de 1 ou 2 laranjas

½ cup de óleo de girassol

¾ cup de leite de soja (ou outro que combine bem, como de aveia)

2 cups de farinha de trigo super fina

1 cup de açúcar mascavado

1⁄4 cup de amido de milho

1 colher de sopa de fermento químico

½ colher de chá de bicarbonato de sódio

1 pitada de sal

Pré-aquecer o forno a 180ºC, com calor em cima e em baixo, sem ventilação.
Numa taça, misturar os ingredientes líquidos: sumo de laranja, óleo e leite de soja, juntamente com as raspas de laranja.
Noutra taça, colocar os ingredientes secos: farinha, açúcar, amido de milho, fermento, bicarbonato e sal.
Adicionar os ingredientes líquidos aos secos gradualmente, mexendo com uma espátula o suficiente para que a massa fique homogénea. Não mexer depressa, nem demais.
Verter numa forma para bolos — previamente forrada e untada, se necessário — e levar ao forno durante 45 minutos ou até o palito sair limpo.

A calda é simples: creme de cacau e avelãs, do estilo Valsoia, cacau em pó 100% e água quente. Misturar nas quantidades desejadas, tanto para consistência (mais creme para efeito ganache, mais água e cacau para efeito calda) como para sabor (mais creme para ser mais doce, mais cacau para ser mais amargo). Espalhar no topo do bolo ainda morno, previamente furado com um garfo para extra humidade.
publicado em
receitas
partilhar
ler mais
anteriores
Subscrever: Mensagens (Atom)

em destaque

Protectores solares cruelty-free
Esqueçam as prateleiras de supermercado repletas de marcas testadas em animais e aproveitem o sol sem crueldade: na imagem abaixo encon...

pesquisar

arquivo

mais lidas

  • Carta aberta de um activista aos turistas que passeiam em elefantes
    “ Queridos Turistas, Os elefantes não vos querem nas suas costas. Eles querem estar na selva, a derrubar árvores e a brincar nos r...
  • 13 marcas que pensamos ser cruelty-free, mas que não são
    O termo cruelty-free aplica-se a produtos que não foram testados em animais, sendo que só pode ser considerada totalmente livre de test...
  • 10 marcas que pensamos ser cruelty-free, mas que não são (pt. 2)
    O termo cruelty-free aplica-se a produtos que não foram testados em animais, sendo que só pode ser considerada totalmente livre de te...

categorias

alimentação antiespecismo biblioteca da raposinha ciência & senciência cosmética e higiene cães & gatos documentários gravidez & crianças leituras rascunhos antiespecistas receitas sustentabilidade vestuário vida selvagem

EMOÇÕES NOS ANIMAIS: UM ENSAIO CIENTÍFICO

EMOÇÕES NOS ANIMAIS: UM ENSAIO CIENTÍFICO

RECURSOS SOBRE GRAVIDEZ, BEBÉS E CRIANÇAS VEGANAS

RECURSOS SOBRE GRAVIDEZ, BEBÉS E CRIANÇAS VEGANAS

PRODUTOS CRUELTY-FREE MENCIONADOS NO BLOGUE

PRODUTOS CRUELTY-FREE MENCIONADOS NO BLOGUE
© Raposa Herbívora | Libertação animal, na teoria e na prática.
Criado por SoulMuse.