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Nota do blogue: Ao percepcionarem sobre certos pontos similares que conduzem à opressão de grupos diferentes, algumas filósofas aprofundaram os seus pensares e investigações e criaram uma vertente feminista que começou a ser difundida e discutida nos anos 70: o Ecofeminismo. Mesmo sendo relativamente recente, foi e é amplamente explicado e defendido por várias feministas de vários países: Ivone Gebara (Brasil), Mariama Sonko (Senegal), Samantha Hargreaves (África do Sul), Françoise d'Eaubonne (França), Alicia Puleo (Espanha), Vandana Shiva (Índia) e Lisa Kemmerer (EUA), autora do artigo traduzido nesta publicação, são algumas dessas mulheres.
Resumidamente, o ecofeminismo é um movimento que correlaciona o feminismo com outras lutas anti-opressão, como o ambientalismo e o especismo, também se estendendo nos direitos de outras minorias e com um olho crítico no sistema capitalista. Por outras palavras, é uma esfera filosófica que advoga a conexão entre lutas libertárias, visto as discriminações (contra mulheres, o ambiente, os animais, etc.) apresentarem simetrias nas suas posturas e perpetuações. Este ensaio de Lisa Kemmerer ajuda a entender o ponto de vista deste posicionamento feminista, além de apresentar algumas dessas simetrias.
Sobre a autora: Lisa Kemmerer é uma filósofa e activista norte-americana reconhecida pelo seu trabalho em Ética Animal e Justiça Interseccional. Bacharel em Estudos Internacionais, Mestre em Teologia e Doutora em Filosofia, é fundadora da Tapestry, uma organização sem fins lucrativos dedicada à educação e ao estudo sobre as várias estruturas opressoras e como estas estão conectadas. As suas dezenas de artigos e livros abordam, precisamente, esse tema através do ecofeminismo, ética alimentar e a consonância entre religião e direitos dos animais.
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Ecofeminismo, Mulheres, Ambiente, Animais
Lisa Kemmerer | DEP. Deportate, Esuli, Profughe, No. 23/2013
Tempo de leitura: aprox. 20 minutos | Descarregar o PDF
Sistemas de Opressão
Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.
Dualismo
O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)
Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.
Dualismo
O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)
De maneira semelhante, a “natureza” é distinguida da civilização, da cultura e dos seres humanos. A Natureza é aquilo que é não é afectado pela Humanidade, e ser humano é ser civilizado e culto: isso é ainda mais evidenciado na nossa tendência dualista de encarar os humanos como separados e distintos de todos os outros animais. O dualismo também divide a mente do corpo e a razão da emoção(1), tratando cada uma como distinta e separada. Estas categorias supostamente exclusivas de masculino/feminino, natureza/cultura e humano/animal, não reflectem adequadamente a complexidade do mundo em que vivemos e nos encontramos. (...)
Hierarquia
O pensamento dualista é corriqueiro no mundo ocidental, bem como em muitas outras civilizações. Através do dualismo, homens, seres humanos, civilização, cultura, mente e o pensamento racional são concebidos como detentores de um conjunto particular de estimadas características, compactando mulheres, animais não-humanos, natureza selvagem, corpos, o mundo material, emoções e intuição numa categoria à parte e considerada inferior. Em Pornography of Meat, a ecofeminista Carol J. Adams usa os termos “A” e “Não A” para descrever esta categorização dualística. Feministas e ecofeministas notaram que o dualismo não é apenas uma divisão de indivíduos e outros elementos em categorias separadas, mas também em categorias iguais. Qualquer elemento e qualquer pessoa inserida na categoria “Não A” é encarada como mutuamente interligada e abaixo de tudo o que compõe a categoria “A”.
A língua portuguesa(2) corrobora este raciocínio: termos depreciativos, utilizados para referir mulheres, são aplicados para referir animais não-humanos, como “vaca”, “galinha” e “porca”. Em comparação, os homens possuem poucas referências relacionadas a animais, sendo que parte das mesmas têm um cunho positivo, como “garanhão” – um forte e viril animal de grande beleza. Em contraste, adjectivos pejorativos, cuja utilização é mal-intencionada e com maldade, são frequentemente reservados para mulheres. Além disso, as mulheres também são visualmente conectadas com animais não-humanos, corpos (em oposição às mentes) e à Natureza, quando retratadas como objectos sexuais ou hipersexualizadas, desde sereias a coelhinhas [da Playboy]. Já os animais, especialmente os explorados como mercadoria, são definidos com traços físicos distintamente femininos, como olhos grandes, pestanas longas e corpos curvilíneos, como poderosamente demonstrado em The Pornography of Meat.
Opressão
Através do dualismo e da hierarquização, indivíduos, atributos e objectos físicos são separados em dois grupos. Um grupo, “A”, tem precedência sobre o outro, “Não A”: tal resulta numa hierarquia que favorece os que se encontram na categoria “A”, levando-os a ganhar poder e controlo sobre aqueles que estão na categoria “Não A”. Esse poder e controlo estão espelhados no sexismo, no antropocentrismo e no especismo. O sexismo oprime as mulheres por elas serem, simplesmente, mulheres – não porque elas são inerentemente indignas ou inferiores, mas simplesmente porque não nasceram com genitália externa e saliente. É evidente que a natureza dos órgãos genitais não é uma diferença moral relevante, ao ponto dos homens receberem privilégios e oportunidades que são negados a quem não nasceu com genitália externa e saliente.
Similarmente, o pensamento antropocêntrico tende a assumir que todos os elementos humanos — cultura, civilizações e os próprios humanos — devem ter poder e precedência sobre todos os elementos não-humanos – o mundo natural e tudo o que nele habita. Novamente, não há diferença moral relevante entre todas as coisas humanas e todas as coisas não-humanas, de modo que o primeiro tenha maior estima ou receba mais poder e privilégio sobre o segundo. Todavia, todas as coisas humanas recebem essa estima e esse poder em relação a todas as coisas naturais e não-humanas e, como resultado, foi concluído como certo e apropriado que a Natureza seja vista como um recurso para uso humano, a qual os humanos exploram, controlam e manipulam para os seus fins pessoais(3). E, frisando, não ser humano não constitui uma distinção moralmente relevante, o que não justifica a exploração, controlo e manipulação dos animais pelos humanos. Ainda assim, aos humanos foi concedida esta vantagem, que perpetua a exploração e manipulação dos animais por e para os seres humanos.
Apesar da falta de qualquer distinção moral e relevante entre homens e não-homens, entre seres humanos, as suas civilizações e o resto da Natureza, e entre os seres humanos e o restante mundo animal, homens e humanos ocupam lugares de privilégio e poder, controlando e manipulando os outros e o mundo ao seu redor. Eis a definição de sexismo, antropocentrismo e especismo: todos os seres e outros elementos que foram agrupados, em conjunto, na categoria “Não A” — mulheres, Natureza e animais não-humanos — são injustamente discriminados e oprimidos por, em nome e em relação aos que se inserem na categoria “A”.
Tal situação justifica o controlo de “A”: quem está na categoria “A” é avaliado como alguém que pode e deve estar no comando, de modo a obter vantagens e servir-se de quem está em “Não A”, o que normaliza ser sexista, antropocêntrico e especista. Por exemplo, as mulheres, ao serem assinaladas como estando mais preocupadas com aspectos materiais (como o corpo) do que com as questões da mente, e sendo julgadas como mais propensas à emoção do que à razão, faz sentido que os homens sejam mais incentivados à educação e formação, bem como terem mais possibilidades de emprego. Assim, também faz sentido as mulheres serem empurradas para o cuidado do lar, para o trabalho doméstico e para a reprodução(4). Se as mulheres são menos cultas e menos civilizadas, é pertinente os homens controlarem as suas vidas. E, da mesma maneira, se as vacas e as galinhas carecem de razão e cultura, pelo que são mais corpo do que mente, também elas podem ser controladas por quem está na categoria “A” e usadas para propósitos “superiores” pela referida.
Através deste processo, “Não A” é visto como/torna-se dependente de “A”. As mulheres são vistas como/tornam-se dependentes dos homens para protecção e apoio financeiro; a Natureza é vista como/torna-se dependente do ser humano para cultivar e administrar áreas selvagens indomadas (distribuição da vida selvagem, inundações e incêndios florestais, por exemplo) e, supostamente, para proteger a Natureza da obliteração; e os animais não-humanos são vistos como/tornam-se dependentes do ser humano em aspectos como “gerir” (como na gestão da vida selvagem), cuidar e fornecer sustento e assistência médica (animais domésticos, etc.). E, em troca de protecção, gerenciamento e disposição, espera-se que aqueles que estão na categoria “Não A” atendam às suas necessidades – como cozinhar, limpar e proporcionar satisfação sexual, oferecer produção e pasto, e fornecer leite, ovos e carne, por exemplo. As mulheres, a Natureza e os animais são igualmente classificados como inferiores, dependentes e, por isso, devidamente controlados e explorados.
Na verdade, por os indivíduos “Não A” serem avaliados como dependentes e irracionais [definições essas criadas pelo grupo que os discrimina, explora e oprime], muitos dos que se encontram na categoria “A” sentem-se no direito de controlar quem está em “Não A” com violência. Sentem, consciente ou inconscientemente, que uma camada de força, cultura e de razão são transferidas para os que estão na categoria “Não A”, daí as mulheres, a Natureza e os animais deverem ser subservientes, de variadas maneiras, à categoria “A”.
Acontece que, mesmo quando “A” não fornece nada [de positivo] para “Não A”, os indivíduos de “A” mantêm uma posição de poder e de controlo sobre “Não A”. Recentemente [e ainda presente em algumas civilizações e culturas], era impossível uma mulher acusar o marido de violação; violentar a Terra continua a ser legal; o abuso de animais, só agora, está a começar a ser reconhecido e tratado como um crime grave (mas, regra geral, tal acontece quando os infractores são visados como perigosos para os seus semelhantes). Assim, não é surpreendente que a violência doméstica, o assédio, a violação em encontros amorosos, a violência contra animais e o abuso permaneçam teimosamente (e irritantemente) tão comuns.

Mulheres e Animais – Corpos Para Exploração
Por partilharem semelhanças entre si, do que com uma árvore ou um riacho, os paralelos da opressão são particularmente marcantes no que diz respeito às mulheres e aos animais não-humanos. Os detentores de poder (“A”) tendem a controlar e a explorar os corpos femininos, especialmente a sua biologia reprodutiva – seja mulher humana ou fêmea animal. A autoridade do marido sobre a esposa, e a incapacidade histórica de acusá-lo de violação ou de reivindicar os seus filhos contra a vontade deste, é um dos inúmeros exemplos do controlo de “A” sobre “Não A”. As mulheres e as crianças são, há muito, tratadas como propriedade exclusiva dos maridos – é a sua mulher e, portanto, a sua vagina para aceder, o seu útero para preencher, os seus filhos para continuarem com o seu nome, a sua linhagem, o seu trabalho e a sua propriedade.
Da mesma forma, os praticantes da denominada “criação animal” também compreendem o gado, os porcos e os perus como a sua propriedade pessoal – a sua vaca e a sua porca e, portanto, as suas vaginas para aceder, os seus úteros para preencher e os seus filhos para serem explorados para ganhos pessoais.
Assim como os seres humanos que criam animais para essa finalidade, que mantêm esses indivíduos em situação de dependência forçada, utilizando os seus corpos físicos para atingir os seus próprios fins, engravidando as fêmeas e reivindicando os seus descendentes, os homens, tradicionalmente, mantinham as esposas em posição de dependência forçada e usavam os seus corpos físicos para os seus próprios fins, engravidando-as e reivindicando os seus descendentes. Lamentavelmente, ainda são muitos os que ainda o fazem.
Embora o casamento tradicional(5) denuncie amplamente o controlo de “A” sobre “Não A”, o tráfico sexual é outro exemplo adequado deste fenómeno. As mulheres apanhadas na rede do tráfico sexual são vítimas que têm os seus corpos vistos como uma mercadoria que pode ser explorada lucrativamente por e para aqueles da categoria “A”. Essas vítimas são zurzidas por terem corpos femininos, órgãos genitais femininos e por serem indivíduos “Não A”. Por serem “Não A”, são vistas pelos indivíduos “A” como controláveis e exploráveis, em que outros indivíduos “A” as comprarão e, portanto, “possuem” parte do indivíduo “Não A”.
Normalmente, essa “propriedade” é comprada para o propósito explícito de “A” ter acesso ao corpo feminino para prazer sexual e, também, para trabalho doméstico. Outros indivíduos “Não A”, vulgo, animais não-humanos, também são adquiridos para os seus corpos e o seu trabalho serem explorados por pessoas da categoria “A” que desejam conquistar objectivos pessoais, nomeadamente o lucro. Assim como as pessoas que são capturadas pela indústria do tráfico sexual, os animais “de criação” são explorados especificamente por causa da sua biologia feminina. Vacas, porcas, peruas e galinhas são, adicionalmente, exploradas pelo seu leite materno, ovos e para reprodução.
Vacas na Indústria dos Lacticínios
Os “seios” (tetas, glândulas mamárias, úberes) e o leite materno das vacas são comoditizados, explorados e controlados, para fins lucrativos, por aqueles que possuem e administram fazendas e indústrias leiteiras. Os mamíferos só amamentam após o parto, pelo que os produtores recorrem a um método denominado rape rack para inseminar artificialmente vacas: consiste em inserir a mão e o braço nas suas vaginas e aspergir o esperma de um bovino através de um dispositivo próprio, para assim engravidar as vacas à força. Quando o bezerro nasce, o fazendeiro retira-o imediatamente da mãe, apesar do desespero das vacas, das suas tentativas em defender as suas crias e do seu lamento contínuo pela perda dos seus recém-nascidos. Dependendo do sexo, o bezerro ou é vendido para ser carne de vitela (machos) ou para ser criado e engravidado à força como a sua mãe (fêmeas), bem como ordenhado para a produção de produtos lácteos. Privada do seu rebento, uma vaca muge desesperadamente durante dias a fio, enquanto as máquinas estão ocupadas a bombear o leite que seria para o seu filho e que será vendido como iogurte, gelado, queijo e leite.
Tal como acontece com as mulheres e jovens apanhadas nas indústrias da violência sexual(6), o stress e a miséria que as vacas experimentam nas fazendas leiteiras têm o seu preço. Estes animais, embora possam viver naturalmente até aos 25 anos, nesta indústria começam a ser um “gasto” depois de cinco ou seis anos de gravidezes, partos, separações forçadas e ordenha perpétua. Nessa fase, são encaminhadas para o abate. Como os seus corpos foram brutalmente fustigados, frequentemente chegam ao matadouro incapazes de andar ou ficar de pé, sendo por isso drogadas ou empurradas para fora dos camiões de transporte. As vacas sofrem na indústria do leite por serem fêmeas — e porque amamentam quando dão à luz — e porque os produtores de leite sentem-se no direito de manipular e explorar a biologia feminina para ganho pessoal. Esses produtores lucram com as secreções mamárias das vacas, com a sua prole e, eventualmente, com o seu corpo quando ela é vendida para a produção de hambúrgueres.
Galinhas na Indústria de Ovos
Assim como as vacas, as galinhas são exploradas precisamente pela sua biologia feminina, já que os seus corpos produzem ovos. Quando as galinhas atingem maturidade sexual suficiente para nidificar, põem ovos até definirem uma ninhada e aí passam pela incubação até os ovos eclodirem. Obviamente, não é nada disso que acontece com as galinhas na indústria de ovos. Nesse negócio, os ovos são incubados num ambiente isolado, longe da mãe galinha: em vez de nascer no escuro, sob a penugem quente e ao som do cacarejo da sua mãe, o pintainho nasce numa superfície dura sob uma luz néon brilhante e silenciosa. As crias passarão o resto das suas vidas num ambiente artificial, sem ar fresco ou luz natural, em confinamento caótico com muitas outras galinhas. (...)
O pintainho recém-nascido é movido ao longo de uma esteira rolante: nessa etapa, os machos são retirados e descartados. Algumas indústrias empilham-nos em sacos de plástico fechados, para que sufoquem até à morte, enquanto outras os atiram para um moedor (vivos). Tal ocorre por os galos não terem utilidade para a indústria dos ovos.
Os pintainhos fêmeas, sem dúvida, ouvem os pios gritantes e desesperados dos seus irmãos enquanto continuam a descer pela esteira rolante, onde são agarradas e empurradas para uma máquina munida de uma lâmina que lhes corta uma parte significativa dos seus bicos. Daí em diante, serão incapazes de se alimentar naturalmente ou de alisar as suas penas adequadamente. Esse processo, o debeaking [debicagem], é extremamente doloroso mas estabelecido como vital para que as galinhas, num ambiente tão lotado e miserável, não se biquem umas nas outras, talvez até à morte.
Se sobreviver à remoção do bico, o pintainho fêmea será transferido para um barracão gigantesco com milhares de outros pintainhos fêmeas, onde irá crescer durante cinco meses. Caso sobreviver [a taxa de mortalidade é elevadíssima], a agora galinha será enviada para as gaiolas em bateria, do tamanho de um micro-ondas, geralmente com outras cinco galinhas. Aí, ela permanecerá, de pé, sobre uma superfície de arames, num espaço que chega a ter mais de 100 mil aves nas mesmas condições. As gaiolas estão dispostas em longas fileiras e empilhadas, o que faz com que as fezes das galinhas que estão por cima acabem por cair nas que estão por baixo. Com o tempo, os seus corpos ficam imundos e as penas quebradiças, de tão sujas.
Muitas vezes, uma companheira de jaula morre e as outras galinhas são obrigadas a viver com o cadáver. A sua carne, que raspa contra os arames da gaiola, causa feridas abertas. Os seus pulmões, que nada mais respiram, são danificados pelo amónio que, consequentemente, se vai espalhando nas cada vez mais sujas e abarrotadas gaiolas.
As gaiolas foram projectadas para roubar da jovem galinha os seus preciosos ovos, que rolam do seu corpo quente para um cocho e transportados para processamento. Durante um ano, sensivelmente, as galinhas continuam a pôr ovos que desaparecem imediatamente assim que são postos, frustrando todos os seus instintos naturais. Assim que este ciclo começa a diminuir, a comida em frente às suas jaulas também diminui. Durante uma a três semanas essas galinhas passam fome, ao qual os criadores chamam de “muda forçada”, e vivem entre e em cima de companheiras enclausuradas que estão mortas ou moribundas. As sobreviventes, quando entram num novo ciclo de postura, têm a sua comida restaurada. Mais uma vez, as aves colocam ovos diariamente que lhes são retirados. A elas nunca lhes é permitido incubar, nutrir as suas crias, criar relacionamentos com os seus filhos ou compartilhar a sua companhia numa comunidade livre de galos e galinhas.
Fortuitamente, o ciclo de postura reduz outra vez e, embora naturalmente elas sejam capazes de iniciar outro ciclo, a indústria não deseja continuar a despender recursos com elas quando começam a apresentar dificuldades ou demasiadas diminuições, até porque os seus corpos podem ser vendidos. São retiradas abruptamente das suas gaiolas, comumente puxadas por uma asa ou uma pata, pela cabeça ou pela cauda, o que pode causar fracturas ou deslocações ósseas e, ou são trituradas (vivas) e vendidas como fertilizante, soterradas (muito provavelmente vivas) ou transportadas num camião para o matadouro. Se enviadas para abate, serão penduradas de cabeça para baixo, com as pernas presas em algemas ou ganchos. É dessa forma que são levadas até à área da matança, onde alguém cortará as suas gargantas. Algumas, mesmo com as gargantas rasgadas, chegam vivas até ao tanque de água a ferver, no qual acabarão, então, por hediondamente sucumbir.
Uma galinha na indústria de ovos sofre toda essa crueldade simplesmente por ter nascido com órgãos reprodutivos femininos, numa sociedade — a nossa sociedade — em que “A” se sente no direito de manipular e explorar os seus corpos e os seus sistemas reprodutores para os seus próprios fins. Assim como homens sexistas acreditam que têm o direito de controlar e explorar mulheres e meninas, os humanos especistas acreditam que têm direito de controlar e explorar animais “de criação”, invadindo vaginas e preenchendo úteros, reivindicando (e explorando) a prole, privando os indivíduos da sua liberdade e, em última análise, tomando as suas vidas.
Opressão Compartilhada, Libertação Compartilhada
As ecofeministas reconheceram causas comuns de discriminação, tais como o dualismo e a hierarquização, levando a sistemas abrangentes de opressão. Discerniram que as mulheres, a Natureza e os animais são equitativamente desvalorizados em relação a quem está na categoria “A” e que são igualmente controlados e explorados pelos da categoria em questão. Repararam que as fêmeas, independentemente de serem humanas ou não-humanas, são igualmente desdenhadas em relação aos seus opressores e frequentemente associadas à categoria de indivíduos “Não A”, sendo vituperadas de forma semelhante pelos indivíduos da categoria “A” por conta dos seus corpos femininos e da sua respectiva anatomia reprodutiva.
Ao desenterrar estes paralelos, as ecofeministas chegaram à conclusão de que não é apropriado lutar pela libertação de apenas um grupo oprimido e ignorar os restantes que são relegados à categoria “Não A” e, portanto, sistematicamente oprimidos e explorados por indivíduos da categoria “A”. Para o ecofeminismo, que reconhece a interligação das opressões várias, libertar apenas um grupo oprimido é, além de enviesada, uma tarefa vazia e uma resposta egoísta. À luz dos sistemas de opressão, expostos pelas ecofeministas, o trabalho em mãos é, claramente, desarraigar causas comuns e desmantelar esses sistemas opressores que estão profundamente enraizados e generalizados. (...)
Resumo
As mulheres, a Natureza e os animais não-humanos padecem de similar discriminação, sendo controlados e explorados num mundo onde há muito se assumiu que é adequado que as mulheres sirvam aos homens, que os humanos explorem, controlem e manipulem o mundo natural e que os humanos explorem, controlem e manipulem os animais não-humanos. Mais notavelmente, as mulheres e os animais “de criação” são manipulados e explorados por causa da sua biologia feminina (...). As ecofeministas inferem que qualquer tentativa de libertar apenas aqueles que se parecem connosco — da nossa espécie — não é apenas egoísta como pode não ter sucesso: as mulheres não serão e não podem ser libertadas até que sistemas abrangentes de opressão e exploração sejam desmantelados, incluindo, além do sexismo, o antropocentrismo, o especismo, entre outros. Por esse motivo, muitas ecofeministas adoptaram uma alimentação vegetal, recusando a apoiar as indústrias da carne, do leite e dos ovos, e aliaram-se a ambientalistas e defensores dos animais com a intenção de ajudar a acabar com a opressão e a exploração em todas as suas formas insidiosas.
(1) Nota adicional da tradutora: Muitos filósofos, ao longo dos séculos, promoveram e enrijeceram este dualismo, associando o elemento racional ao masculino e o elemento emocional ao feminino. Veja-se, por exemplo, Espinosa no seu Tractatus Theologico-Politicus, ao argumentar que as mulheres são racionalmente mais fracas do que os homens e que, por isso, não se devem envolver nas questões políticas. Também afirmou, na mesma obra, que “A lei contra a matança dos animais é baseada mais na superstição vazia e numa compaixão feminina do que propriamente na razão” (E4p37s1).
(2) Adaptação da tradução.
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(4) Nota pessoal da tradutora: A autora não está, com esta inferência, a criticar as mulheres que decidiram, livremente, ficar em casa e a tomar conta dos filhos. A crítica deve-se, sim, ao que infelizmente acontece num contexto geral, em que as mulheres continuam a ser incentivadas, pressionadas e até mesmo coagidas a essas actividades mesmo contra a sua vontade. É uma situação bastante recorrente e que perpetua a discriminação violenta de muitas meninas e mulheres, que permanecem sem o direito de terem autonomia sobre a suas próprias vidas e de poderem possuir escolhas pessoais.
(5) Mais uma vez, a autora não está a atacar quem opta por este tipo de casamento. O alerta é para a ainda utilização do casamento como ferramenta de subserviência feminina, algo que se estendeu milenarmente na nossa sociedade e que continua enraizado em várias civilizações e tradições familiares.
(6) Considero importante frisar que a autora não está a comparar as mulheres, vítimas do tráfico humano e sexual, com as fêmeas não-humanas que são exploradas para consumo. A intenção é apresentar pontos comuns, fomentadores das respectivas opressões, e que acabam por interligar a discriminação de ambos os grupos.
Aceder ao artigo original e integral aqui.
Tradução para português europeu de Raposa Herbívora
Um dos comentários mais direccionados para atacar o veganismo é o de que Hitler era vegetariano. Geralmente, quem aplica esta proposição tem como intenção classificar a defesa dos animais como incongruente, já que Hitler não os comia e foi um indivíduo indiscutivelmente abominável. Todavia, usar Hitler como exemplo moral carece completamente de sentido, pelas razões que todos nós conhecemos. Ainda assim, muitos insistem em aproveitar-se do nome dele para justificar o consumo de animais.
Esta afirmação tem dois problemas que a derrubam automaticamente: um é de cariz lógico e o outro é de cariz histórico. O problema de cariz lógico deve-se por tal afirmação ser um raciocínio falaz. Na verdade, a imagem de Hitler é tão usada para contra-argumentar qualquer coisa que até tem direito à sua própria falácia, denominada reductio ad hitlerum e que possui esta estrutura:
Esta afirmação tem dois problemas que a derrubam automaticamente: um é de cariz lógico e o outro é de cariz histórico. O problema de cariz lógico deve-se por tal afirmação ser um raciocínio falaz. Na verdade, a imagem de Hitler é tão usada para contra-argumentar qualquer coisa que até tem direito à sua própria falácia, denominada reductio ad hitlerum e que possui esta estrutura:
Se Hitler apoiava/gostava de X, então X é maligno.
Uma falácia é um raciocínio errado que aparenta ser verdadeiro. Na retórica é um argumento logicamente inconsistente, inválido e sem fundamento. Neste caso, por tratar-se de um caso pessoal e particular que é usado para atacar um tema geral, é mais do que óbvia a sua falha.
Vamos supor que alguém que odeia crianças decide defender o seu ponto de vista com o seguinte:
Hitler gostava de crianças. Então, as crianças não podem ser boas.
Ou
Hitler gostava de crianças. Então, quem gosta de crianças não pode ser bom.
Não faz muito sentido, pois não? Então, porque no caso do vegetarianismo já faz sentido para muitos, ao ponto de continuarem a aplicar esta falácia como arremesso argumentativo?
Quanto ao problema histórico, existem factos que refutam o vegetarianismo de Hitler. Ele adoptou este tipo de dieta ocasionalmente, o que não faz dele, ou alguém com as mesmas oscilações alimentares, vegetariano. Além disso, é mais do que comum ser-se vegetariano exclusivamente por questões de saúde e não pelos animais. No caso de Hitler, uma dieta vegetal foi-lhe imposta por causa dos seus vários problemas de saúde, embora ele não tenha obedecido às recomendações médicas.
Alguns escritores têm citado evidências de que Hitler tenha sido vegetariano durante parte da sua vida. Janet Barkas, no livro The Vegetable Passion, e Colin Spencer, no livro The Heretics Feast, apoiam essa ideia mas ela não é compartilhada por quem pesquisou detalhadamente sobre o assunto.
Segue-se um trecho de uma revisão do livro de Colin Spencer feita pelo professor Rynn Berry, especialista em história do vegetarianismo:
“Em Heretic's Feast, Colin Spencer dá crédito ao mito de que Adolf Hitler era um vegetariano. Ele faz referência ao suposto vegetarianismo de Hitler não mais do que quatro vezes, devotando uma longa secção de cinco páginas a esse assunto no capítulo 12. Ao mesmo tempo que é verdade que os médicos de Hitler colocaram-no sob uma dieta vegetariana para curá-lo da flatulência e de problemas estomacais crónicos, os seus biógrafos, tais como Albert Speer, Robert Payne, John Toland, e outros, têm atestado a preferência de Hitler pelas salsichas de presunto e outras carnes defumadas. Até mesmo Spencer diz que Hitler foi um vegetariano apenas a partir de 1931: «Seria verdadeiro dizer que desde 1931 ele preferiu uma dieta vegetariana, mas em algumas ocasiões desviou-se dela.»Ele cometeu suicídio com 56 anos em 1945; isso teria resultado em 14 anos de vegetarianismo, mas temos um testemunho contrário dado pela sua cozinheira, Dione Lucas, que era directamente responsável pela cozinha de Hitler em Hamburgo durante o final da década de 1930. No seu livro Gourmet Cooking School Cookbook ela deixou registado que o prato favorito de Hitler era squab recheado (cria de pombo domesticado e de carne escura):«Eu não pretendo diminuir o seu apetite pelo squab recheado, mas você pode interessar-se em saber que este era um prato muito pedido pelo Sr. Hitler, que jantava no hotel frequentemente.»”
Hitler não era vegetariano e muito menos defendia os direitos dos animais, mas Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda, distorceu totalmente esse facto para criar nas pessoas a ideia de que o Führer era um homem bom: as revistas pró-nazis, como a Neugeist/Die Weise Fahne, gritavam no papel que Hitler era vegetariano “por amor aos animais” e como este era acerrimamente contra qualquer tortura contra animais como no caso da vivisecção. A condição delicada da saúde do ditador, que era constantemente trapaceada pelo mesmo, foi metamorfoseada para uma suposta preocupação com os animais não-humanos e como isso o tornava num indivíduo bom. Esta notícia manipulada conseguiu o seu objectivo: chamar a maior atenção possível em torno de Hitler e transmitir uma aura quase beatificada que conseguisse abafar as barbaridades apoiadas pelo nazismo.
E, em parte, resultou.
E, em parte, resultou.
***
Referências:
Dinshah, J. (1974, January). Book nook. {A review of Speer, A. (1970). Inside the 3rd Reich (Por dentro do Terceiro Reich)} Ahimsa, p. 11. [Disponível na American Vegan Society, P.O. Box H, Malaga, NJ 08328, USA]
Meyer, R. (1985). Was Hitler a vegetarian? Vegetarian Voice, 12 (2), p. 6. [Disponível na North American Vegetarian Society, P.O. Box 72, Dolgeville, NY 13329]
O mito de que Hitler era vegetariano
Hitler e Goebbels não eram vegetarianos e a favor dos direitos dos animais?
publicado em
15/10/2025
Rascunhos Antiespecistas | Quando a linguagem se torna cruel: a proibição do “burguer vegetal”

No dia 8 de Outubro, os eurodeputados discutiram uma proposta que, entre outros aspectos, requeria a proibição de termos como burger, salsicha e escalope para produtos de origem vegetal. Por outras palavras, tais produtos não podem ser mais denominados e rotulados com tais termos. A proposição é a seguinte:
Emenda 113Proposta de regulamentoArtigo 1.º – n.º 1 – ponto 8 f) (novo)Regulamento (UE) n.º 1308/2013Anexo VIII – parte II A (nova)No Anexo VIII, é acrescentada a seguinte parte:Parte II ACarne, produtos de carne e preparações de carnePara efeitos da presente parte, entende-se por carne as partes comestíveis dos animais referidos nos pontos 1.2 a 1.8 do Anexo I do Regulamento (CE) n.º 853/2004, incluindo o sangue. Os termos e denominações relacionados com carne, abrangidos pelo artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 1169/2011 e actualmente utilizados para carne e cortes de carne, devem ser reservados exclusivamente para as partes comestíveis desses animais. (...)As denominações abrangidas pelo artigo 17.º do Regulamento (UE) n.º 1169/2011 que são actualmente utilizadas para produtos e preparações de carne devem ser reservadas exclusivamente a produtos que contenham carne. Essas denominações incluem, por exemplo: bife, escalope, salsicha, hambúrguer (...) Os produtos e cortes de aves definidos no Regulamento (UE) n.º 543/2008, que estabelece as regras de execução do Regulamento (UE) n.º 1234/2007 do Conselho no que respeita às normas de comercialização da carne de aves de capoeira, devem ser reservados exclusivamente às partes comestíveis dos animais e aos produtos que contenham carne de aves. As denominações acima mencionadas não devem ser utilizadas para qualquer outro produto que não os referidos e excluem os produtos de cultura celular.
O fundamento apresentado foi que a utilização das palavras supracitadas para definir preparações à base de plantas não é transparente e pode induzir o consumidor a erro. Na verdade, a intenção é clara: defender os interesses da pecuária, o que implica defender uma visão que privilegia a carne de animais. A votação — de um parlamento agora mais distribuído à direita (Alô, veganos que separam veganismo de política? Este texto também é para vocês) — foi favorável à proposta. É particularmente estranho a União Europeia proteger uma das indústrias comprovadamente mais poluidoras, ao ponto de aprovar esta mesquinhez, e ao mesmo tempo bater o peito e garantir que está a trabalhar muito em prol do ambiente e da sustentabilidade. Pessoalmente não compreendo como podemos correlacionar ambas de forma coerente, visto não ser possível haver justiça climática com exploração animal.
Enquanto à superfície esta proibição aparenta ser um mero disparate e um gasto de recursos políticos (e é-o também, atenção), o seu âmago esconde alguns alicerces da exploração animal: a perpetuação e normalização do especismo simbólico e do especismo psicológico.
Enquanto à superfície esta proibição aparenta ser um mero disparate e um gasto de recursos políticos (e é-o também, atenção), o seu âmago esconde alguns alicerces da exploração animal: a perpetuação e normalização do especismo simbólico e do especismo psicológico.
Assim como outras formas de opressão, o especismo — que é a discriminação com base na espécie — é repartido em várias categorias. De facto, categorizar é uma das bases da discriminação, visto a mesma necessitar de uma visão dualista, algo que é explicado por Carol J. Adams: em The Pornography of Meat, Adams refere que existe a categoria “A”, culturalmente classificada como superior, racional e a que mantém a ordem – e, por isso, tem o privilégio de explorar, a seu bel-prazer, a categoria “Não A”, que é culturalmente entendida como inferior, emocional e instável, pelo que, além de precisar de ser subjugada, precisa de aceitar essa subjugação. Veja-se que Adams define a categoria considerada inferior como “Não A” em vez de “B”: tal deve-se por, no raciocínio hierárquico construído e imposto por “A, “Não A” ser totalmente despojada das qualidades e capacidades que qualificam o primeiro como sumamente superior. “Não A”, além de inferior, não tem autonomia e é vista como uma extensão imperfeita, dependente de “A”, que necessita de ser vergada e submeter-se às vontades de “A”. No caso da discriminação especista, “A” são os animais humanos e “Não A” são os animais não-humanos. E, para manter este fosso segregador, diversos estilos de discriminação são congeminados.
O especismo simbólico refere-se à forma como a linguagem, a cultura e os símbolos reforçam a ideia da superioridade humana em relação aos animais. Já o especismo psicológico actua na mente colectiva ao reforçar o hábito de associar “comida de verdade” à carne animal, enquanto despreza o vegetal e o reduz a “imitação”, “substituto” e “artificial”. Os animais tornam-se, assim, imperceptíveis enquanto seres sencientes e reduzidos a mercadoria.
Fica, assim, evidente que esta proibição não é só uma questão de semântica: é uma tentativa de preservar a percepção cultural que temos em relação à carne e aos próprios animais. É mais uma das milhares de rodas que movimentam a engrenagem do especismo, sendo que esta roda, recentemente inserida pela União Europeia, recorre à linguagem veladamente para fortalecer, ainda mais, o conceito de que certos animais são alimento – e que os seus pedaços formam o substancial e inevitável protagonista do nosso prato. As suas contrapartes vegetais são, assim, ridicularizadas e reduzidas aos rótulos acima mencionados.
Esta interdição também mostra aquilo que o especismo é: cruel, hegemónico e dissimulado. Cruel porque, juntamente com o capitalismo, depende do sofrimento e da matança de animais para prosperar. Não foi por acaso que, sem surpresas, o sector pecuário regozijou-se com esta decisão de proibir os termos para opções vegetais;
Hegemónico porque não admite que a divergência ganhe força, por mais que essa força seja uma humilde gota num imenso oceano de vilanias – e é aqui que entra a pressão da indústria da carne, incluindo tornar termos gerais exclusivamente seus;
Dissimulado porque, ao mesmo tempo que argumenta pela proibição desses termos “para não enganar os consumidores”, despersonaliza os animais de tal modo que os respectivos retalhos em nada se assemelham a eles. Um hambúrguer não se parece com uma vaca. Uma salsicha não se parece com um porco. Porque se esforçam tanto para tornar os animais referentes ausentes dos seus próprios corpos? Porque é que os animais são obliterados ao ponto dos seus pedaços nos fazer esquecer que antes, em vida, existiu um indivíduo completo, complexo e consciente?
Um pormenor presente na emenda e que achei interessante foi a definição oficial apresentada para “carne”: partes comestíveis de animais. Foi a partir dessa premissa que o argumento de exclusividade das palavras hambúrguer, salsicha, etc., foi desenvolvido, visto que carne, de acordo com a dita, é unicamente de animais – sendo assim, obviamente que faz sentido as definições supratranscritas só poderem ser aplicadas àquilo que for de origem animal.
Um pormenor presente na emenda e que achei interessante foi a definição oficial apresentada para “carne”: partes comestíveis de animais. Foi a partir dessa premissa que o argumento de exclusividade das palavras hambúrguer, salsicha, etc., foi desenvolvido, visto que carne, de acordo com a dita, é unicamente de animais – sendo assim, obviamente que faz sentido as definições supratranscritas só poderem ser aplicadas àquilo que for de origem animal.
Achei interessante porque, etimologicamente, a palavra “carne” deriva do latim caro, carnis, que significa “substância do corpo”. No entanto, não era especificamente sobre substância animal e referia-se a qualquer parte mole do corpo independentemente da sua origem. Carne de coco, carne de caju e carne de melancia são alguns exemplos: tais expressões existiam (e ainda existem!) e eram consideradas correctas e normais. Em suma, originalmente, carne designava a parte comestível e macia de algo. Mais tarde, com o aumento do consumo de animais e o domínio da pecuária, o termo foi apropriado cultural e economicamente para significar, exclusivamente, o tecido muscular de animais. Como podemos ver, rebaptizar e expropriar palavras não é uma novidade da engrenagem especista.
Quanto aos termos que fomentaram todo este debate, são designações para formatos de alimentos e como estes foram confeccionados: “hambúrguer” é um preparado arredondado, feito com um ou mais ingredientes principais, que foram picados, temperados e aglomerados; “salsicha” é um enchido que, apesar de comummente ser de carne de animais, também pode ser feito com vegetais: há registos culinários medievais de salsicha de arroz e lentilhas, por exemplo.
Questões etimológicas e históricas à parte, outro factor que esta proibição criou é que um hambúrguer, uma salsicha e um escalope, ao só poderem ser designados como tal se forem de origem animal, passam também a carregar, exclusivamente, o que vem juntamente com a carne mas que nos é invisível: a dor, a tortura e a morte. Usemos as armas do especismo contra ele próprio: denunciemos o real significado do que está por detrás daquilo que se consome.
No fundo, esta proibição revela o medo de um sistema que teme qualquer questionamento ou crítica ao monopólio da carne – e, paradoxalmente, ao mostrar esse medo, oferece-nos a chance de ver as coisas com mais clareza, como o mundo vegetal não necessitar das designações que o status quo, no alto do seu preconceito, lhes nega constantemente. Concordo que devamos resistir e exigir o direito de usar essas palavras — afinal, não é por ser isento de origem animal que deve ser silenciado —, mas, ao também revelarmos que não precisamos delas para legitimar o que é vegetal, estamos a desmantelar esta lógica de subordinação, que ridiculariza o vegetal ao acusá-lo de copiar o animal através desses termos para se viabilizar. Estamos, de alguma forma, a libertar a alimentação à base de plantas da dependência do discurso dominante. Como escreveu Ruan Félix, um cogumelo não precisa de ser chamado de bife ou de bacon para brilhar – só precisa de ser chamado pelo que é: um cogumelo. Um simples, carnudo (ups, espero que a UE não me excomungue) e apetitoso cogumelo.
No fundo, esta proibição revela o medo de um sistema que teme qualquer questionamento ou crítica ao monopólio da carne – e, paradoxalmente, ao mostrar esse medo, oferece-nos a chance de ver as coisas com mais clareza, como o mundo vegetal não necessitar das designações que o status quo, no alto do seu preconceito, lhes nega constantemente. Concordo que devamos resistir e exigir o direito de usar essas palavras — afinal, não é por ser isento de origem animal que deve ser silenciado —, mas, ao também revelarmos que não precisamos delas para legitimar o que é vegetal, estamos a desmantelar esta lógica de subordinação, que ridiculariza o vegetal ao acusá-lo de copiar o animal através desses termos para se viabilizar. Estamos, de alguma forma, a libertar a alimentação à base de plantas da dependência do discurso dominante. Como escreveu Ruan Félix, um cogumelo não precisa de ser chamado de bife ou de bacon para brilhar – só precisa de ser chamado pelo que é: um cogumelo. Um simples, carnudo (ups, espero que a UE não me excomungue) e apetitoso cogumelo.
No fim, o que está em jogo não são somente palavras, até porque a verdadeira transformação não está apenas em nomes ou rótulos: está em reconhecer a manipulação e a má-fé por detrás deste jogo, de escancarar as rodas desta engrenagem e, numa contracorrente desobediente, escolher o que é vivo, sem violência, sem domínio e sem medo. Está em semear e cultivar a nossa própria lógica. Uma que floresça sem sangue e sem morte. E com essa lógica seguimos, seja a informar, a criar ou a cozinhar. Um prato vegetal de cada vez.
Imagem: Roman Odintsov
Imagem: Roman Odintsov
publicado em
O ano é 2025 e ainda ouvimos as mesmas justificações falaciosas e forçadas de há 20 anos ou até mais. Justificações para o injustificável, que é transformar um ser complexo, com sensações e emoções, num mero retalho despersonificado e que, aos nossos olhos, nos deixa bem longe do animal que outrora foi, tornando-o invisível. Uma descaracterização hedionda e tortuosa, transformando grotescamente um indivíduo numa mera comoditização. Que, um dia, estes argumentos, ainda lançados em loop infinito, diminuam até atingirem aquilo que verdadeiramente são – o ridículo. Que, um dia, precisar de contra-argumentar exaustivamente também diminua até deixar de ser necessário: será sinal de que a libertação animal está, finalmente, cada vez mais perto de ser conquistada. Até lá, continuemos a mostrar que todas as bases que sustentam estes hábitos especistas não são mais do que puramente infundados.
“Os nossos antepassados não aprenderam a fazer fogo para comer carne cozida e evoluir até onde estamos hoje para eu comer mato e começar o retrocesso.”
Os nossos antepassados descobriram o fogo e, agora, podemos usar esse fogo para cozinhar alimentos que não implicaram exploração e morte desnecessárias.
“Nós somos superiores aos animais.”
Ao longo dos séculos, o uso e abuso das diferenças (físicas, biológicas, entre outras) foram um entrave para a evolução civilizacional. Os esclavagistas defendiam que se explorassem negros referindo como estes eram menos inteligentes; os homens maltratavam as mulheres por considerarem-nas mais fracas fisicamente e intelectualmente; povos indígenas foram massacrados pelas mesmas razões, bem como crianças foram continuamente negligenciadas por serem mais vulneráveis do que os adultos. Se ainda hoje esse tipo de discriminações acontece, levando a acções violentas e criminosas, é por muitos insistirem que essas diferenças encontram-se acima de qualquer condição moral que garanta os plenos direitos a todo e qualquer indivíduo. Não passa de puro egoísmo que visa, exclusivamente, a protecção dos interesses pessoais de alguns em detrimento dos outros.
Essa desconsideração que leva o ser humano a classificar-se superior encontra-se também, e em larga escala, no modo como continuamos a tratar os animais não-humanos. Não é a inteligência, a força física, a capacidade moral, entre outros factores desse género, que definem a defesa da equidade. Se assim o fosse, um porco merecia ter mais direitos do que uma criança de três anos já que é mais inteligente. Se assim o fosse, indivíduos num estado avançado de demência não teriam direitos, já que perderam a sua capacidade moral.
Não são as nossas aptidões que nos tornam superiores aos animais não-humanos e que permitem que os exploremos para o nosso benefício. Os animais, assim como nós, sofrem — e, assim como nós, têm o interesse de não sofrer.
Mas os leões também matam animais para comer.
Estou perdida: primeiro nós podemos comer animais porque somos mais inteligentes do que eles, e agora podemos comer animais porque outros animais também o fazem? Afinal, em que ficamos?
Só o facto de não sermos leões é suficiente para esta comparação não ter sequer cabimento. Os leões não criam animais em massa: não os inseminam artificialmente, nem os manipulam geneticamente. Não matam mais de um milhar de animais por segundo e não os retalham em pedaços para serem dispostos em prateleiras comerciais. Eles, e outros animais carnívoros, necessitam de comer animais ao contrário de nós. Para eles é uma questão de sobrevivência, não de escolha.
Só o facto de não sermos leões é suficiente para esta comparação não ter sequer cabimento. Os leões não criam animais em massa: não os inseminam artificialmente, nem os manipulam geneticamente. Não matam mais de um milhar de animais por segundo e não os retalham em pedaços para serem dispostos em prateleiras comerciais. Eles, e outros animais carnívoros, necessitam de comer animais ao contrário de nós. Para eles é uma questão de sobrevivência, não de escolha.
Se temos competências racionais que nos separam da vontade superficial instintiva, e se temos também princípios morais que nos leva a questionar como devemos tratar os outros, porque não abrangemos essa capacidade e esses princípios em coisas tão simples como a alimentação?
E pelos vistos os supermercados, com os cadáveres previamente preparados e embalados, substituíram a savana de outros tempos.
Os nossos antepassados caçavam. Nós somos caçadores por natureza.
O ser humano foi caçador-colector há milhares de anos e caçava por sobrevivência e necessidade. Com o tempo evoluiu, sedentarizou-se, formou-se civilizacionalmente, começou a cultivar os seus próprios alimentos, adquiriu novos hábitos, novos pensamentos e novas preocupações sociais, políticas, religiosas, interpessoais, intrapessoais e morais. Nós somos fruto de uma evolução a todos os níveis e, actualmente, vivemos numa época em que a senciência animal é um facto e não uma suposição. Um caçador-colector sabia lá que os animais sofriam – provavelmente nem sequer tinha uma designação para classificar os animais. Para além disso, eles não conheciam e não tinham à sua disposição os milhares de produtos de origem vegetal que hoje temos. Simplesmente não faz sentido nenhum insistir nos costumes passados quando o presente é totalmente diferente.
Tu não és perfeitinha, sabes? Quando andas pela rua pisas e matas formigas, por isso só estás a perder o teu tempo.
O ser humano evoluiu quando começou a comer carne, pelo que a evolução estagnará se deixarmos de a consumir.
“Este argumento adopta uma visão que alterna uma abordagem darwiniana da evolução com um ultrapassado olhar lamarckista. Em relação ao passado, ele pode até ter algum sentido, se forem ignorados os questionamentos existentes sobre o passado alimentar distante do ser humano. Mas erra ao dizer que o vegetarianismo compromete a evolução humana, uma vez que a sedentarização e modernização das sociedades humanas tornou a nossa espécie livre das pressões selectivas naturais que outrora nos teriam requerido uma alimentação omnívora. Os humanos das sociedades modernas (...) já não precisam de caçar, nem mesmo de matar qualquer animal com fins de consumo alimentar.
Há uma alegação semelhante paralela, de que o ser humano precisou de carne para aumentar o seu volume cerebral e, por isso, o vegetarianismo ameaça causar um retrocesso. Mas ela tem uma essência basicamente lamarckista, baseada na transferência hereditária não genética de mudanças corporais e já refutada pela teoria darwiniana e pela genética mendeliana, ao crer que o cérebro aumentará à medida que as pessoas continuem a comer carne (...).”
Não cheguei ao topo da cadeia alimentar para comer alface.
E se parares numa ilha deserta e só estiver lá uma galinha?
– Sempre tenho companhia;
– Cuido da galinha, chamo-a de Mimi e vamos viver grandes aventuras;
– Como raio a galinha foi parar a uma ilha deserta?
– E porque raio irei parar a uma ilha deserta?
Se todos virassem vegetarianos, os animais utilizados para consumo deixariam de ser úteis e extinguir-se-iam.
Este é um dos raciocínios que mais me confunde, tanto por carecer de lógica como por existir outro totalmente oposto: de que, se pararmos de comer animais, estes serão em demasia e tomarão conta de tudo. Só a disparidade destes dois raciocínios mostra a falácia presente em ambos.
“Temos de perceber que a produção de produtos de origem animal assenta numa base de oferta e procura; isso significa que, quando vamos a um supermercado e compramos determinados produtos, estamos a exigir que estes continuem a ser fornecidos.Ademais, afirmar a “utilidade” que os animais têm para o humano é uma objectificação clara dos mesmos. Acabamos por esquecer que possuem um propósito na vida e consideramos correcto explorá-los para nosso benefício.
Os fazendeiros não criarão animais que sabem que não conseguirão vender, simplesmente por não ser viável economicamente. Se aliarmos isso com o facto de que o mundo não se tornará vegano de um dia para a noite, o processo será gradual durante um longo período de tempo, o que significa que quantas mais pessoas se tornarem veganas, cada vez menos animais serão criados para a produção de derivados de animais. Assim, num cenário em que todas as pessoas são veganas, não haverá uma situação em que tenhamos biliões de animais vivos a andar por aí, em que ou os tenhamos de libertar na Natureza ou que os tenhamos de matar, porque o número de animais que estão a ser criados diminuirá de acordo com a proporção de pessoas veganas.
Quanto ao outro argumento, de que se os animais não forem criados para consumo acabarão extintos, podemos vê-lo desta forma: se não criássemos estes animais eles não existiriam de qualquer das maneiras, visto que eles são fruto de uma selecção e mutação genética por nós criadas. Por causa dessas mutações, dificilmente esses animais conseguiriam sobreviver sozinhos na Natureza, pelo que precisam dos humanos para cuidar deles, algo que os santuários já fazem.
Além de tudo isso, ao erradicarmos a pecuária estamos a permitir que os habitats naturais (os que foram destruídos por causa dessa indústria) ressurgem, o que também permite que a vida selvagem e a biodiversidade natural floresçam.”
Argumentar que as vacas, os porcos e as galinhas vão extinguir-se se pararmos de comê-los leva a recordar o que os apoiantes da tauromaquia ameaçam constantemente: que o fim das touradas levará ao desaparecimento do touro bravo (e sabemos que isso não é verdade).
A minha comida caga na tua.
Esta é já um clássico: nem pode ser considerada um argumento, mas precisava mesmo de a incluir aqui. Considerem-na um bónus na categoria de tesourinhos deprimentes.
As vacas, os porcos e até mesmo os peixes ingerem
os seus próprios dejectos. Nas pecuárias, a higiene é tão nula que os animais acabam por não ter outra opção senão comer o que sujaram com as suas fezes. Os seus insumos também não escapam incólumes: por exemplo, um ovo é poroso, pelo que fica
facilmente contaminado com matéria fecal, e o leite de vaca é uma
miscelânea de fezes, sangue e células somáticas que a pasteurização não consegue eliminar por completo. Mas sempre é mais fácil cuspir uma frase sem sentido e em tom de deboche triunfante do que pensar um pouco nesses pormenores demasiado óbvios 🙃
Imagem: Pexels
Quando parei de comer animais aconteceu um fenómeno para lá de espectacular: de repente, quase toda a gente virou nutricionista do dia para a noite. O mais engraçado é que antes, quando tinha quebras de tensão e gripe com frequência, ninguém me dizia nada porque eu comia carne. Agora, que já não sei mais o que é ter quebras de tensão e muito raramente me constipo, todos têm alguma coisa a dizer relativamente à minha alimentação e como estou a fazer tanto mal à minha saúde.
Ouvi tantas vezes que a alimentação vegetariana não é saudável que já perdi a conta: aqui, exponho as inferências que consegui lembrar. Todas as respostas têm como base estudos credenciados e o conhecimento de nutricionistas e médicos.
publicado em

Finalmente: três quartos de século depois de ter anunciado, consegui iniciar esta rubrica! Já há algum tempo que pretendia partilhar por aqui textos mais teóricos relacionados com direitos dos animais, mas é conteúdo que exige duas coisas que, neste momento, não tenho: cabeça e tempo. Ainda assim, estava a custar-me imenso não avançar com ela, pelo que pensei em, pelo menos, traduzir algum estudo relacionado com a senciência dos animais – um tema que considero de suma importância divulgar e desenvolver para uma compreensão mais aprofundada sobre estes nossos irmãos tão maltratados por nós.
Então recordei-me de um artigo que li, há alguns anos, sobre as investigações de Jonathan Balcombe sobre os peixes, as quais ele reuniu num livro: encontrei a obra em inglês e já a adquiri para, futuramente, escrever aqui os meus pareceres sobre.
Já escrevi um artigo extenso sobre a senciência dos peixes, no qual juntei diversos estudos científicos: no entanto, por serem dos animais mais discriminados por nós nunca é demais sabermos mais sobre eles.
Sobre o autor: Jonathan Balcombe é um etólogo inglês. O seu trabalho está distribuído em mais de 60 artigos científicos e em seis livros, todos eles relacionados com a senciência e o comportamento animal. É editor associado da revista Animal Sentience, da Humane Society Institute for Science and Policy, e dá palestras sobre comportamento animal e a relação que temos com os mesmos.
Este texto é uma tradução de uma entrevista para a NPR.
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Os Peixes Também têm Sentimentos: A Vida Intíma dos Nossos Primos Subaquáticos
Jonathan Balcombe | NPR • Junho de 2016
Quando pensamos em peixe, provavelmente é na hora do jantar. Já Jonathan Balcombe, por outro lado, dedica-se a investigar sobre a vida emocional dos peixes. Balcombe, que actua como director da [revista] Animal Sentience da Humane Society Institute for Science and Policy, declarou a Terry Gross, da Fresh Air, que os humanos estão mais perto do que nunca de entender os peixes. “Graças aos avanços na etologia, sociobiologia, neurobiologia e ecologia, podemos agora compreender melhor como é o mundo para os peixes”, diz Balcombe.
No seu novo livro, What A Fish Knows: The Inner Lives Of Our Underwater Cousins, Balcombe apresenta evidências de que os peixes têm uma consciência — ou “senciência” — que lhes permite sentir dor, reconhecer humanos individuais e ter memória. Ele argumenta que os humanos deviam avaliar as implicações morais em relação a como capturamos e exploramos os peixes. “Nós matamos entre 150 milhões e mais de 2 biliões de peixes por ano – e a forma como morrem (na pesca comercial) é, de facto, bastante sombria”, alerta. “São inúmeras as mudanças que se fazem necessárias para se reflectir numa melhoria na nossa relação com os peixes”.
Sobre como podemos saber se os peixes estão a sentir dor
O estudo mais primoroso sobre a dor em peixes que já vi foi feito há alguns anos por uma bióloga chamada Lynne Sneddon, no Reino Unido. Ela recorreu a peixes-zebra, que são comumente usados em pesquisas. E o que eles [grupo de estudo] fizeram foi colocar um cardume de peixes-zebra — não me lembro de quantos, talvez uns trinta — num tanque complexo que tinha dois espaços. Um dos espaços estava ornamentado, com pedras e vegetação: já o outro era árido. Provavelmente já adivinhaste em qual espaço os peixes passaram todo o tempo – no ornamentado. Os peixes apreciam lugares para se esconder e também de um ambiente estimulador.
Depois, injectaram nos peixes uma de duas substâncias. Uma delas foi uma solução ácida, conhecida por ser cáustica e presumivelmente dolorosa para os peixes, caso eles sintam dor. A outra, administrada em metade dos peixes, que foram seleccionados aleatoriamente, era soro fisiológico. Os peixes foram observados, para ver como se comportavam, e todos continuaram a nadar na parte do tanque mais ornamentado. Então, foi dissolvida uma solução analgésica no espaço vazio – e eis que alguns peixes começaram a migrar e a nadar para ficar naquela área totalmente indesejável, tendo sido apenas aqueles que foram injectados com o ácido e não os que foram injectados com a solução salina. Penso que seja uma demonstração bastante convincente da dor nos peixes.

O que significa senciência animal
A senciência é como a gravidez: estás grávida ou não; és senciente ou não. E se um animal é senciente, o que é indicador de algum tipo de consciência, com particularidade na capacidade de sentir dor e, ainda diria, por extensão, de sentir prazer, então, para mim, isso figura que o animal tem tracção moral, ou deveria ter tracção moral – grosso modo, que o animal merece a consideração dos outros. Porque aquele animal pode ter um dia bom e um dia ruim e podem acontecer coisas boas ou ruins com ele. E isso, como eu disse, é a base da ética.
Sobre alguns peixes de recife que parecem reconhecer mergulhadores individuais
Houve um novo estudo que mostrou o reconhecimento individual de rostos humanos por peixes; sendo assim, é altamente provável que reconheçam mergulhadores individuais. Eles aparecem [para os mergulhadores] para serem acariciados; quase parecem cães. Não sei se eles rolam para que a barriga seja acariciada, embora alguns tubarões entrem num aparente estado de euforia quando têm a barriga esfregada.
Sobre com os peixes usam uma “linha lateral” para sentir a pressão da água e navegar à noite
[Os peixes] têm alguns outros sentidos muito interessantes e que valem a pena mencionar. Um deles é a sensação de pressão ou movimento da água graças a uma linha lateral. Estamos agora a falar de peixes ósseos, não de tubarões ou raias; são os peixes ósseos que possuem essa linha. Podemos notar uma fileira escura de escamas ao longo da linha central de um peixe ósseo, e essa é, na verdade, uma sombra projectada por essas escamas específicas. Há uma depressão em cada uma dessas escamas, e nessa depressão existem pequenas câmaras em forma de copo, que contêm gel e pequenos pêlos que projectam e detectam mudanças de pressão. É muito útil para navegar à noite, para evitar coisas perigosas em condições de visão limitada, entre outras situações do género.
Sobre os sentidos eléctricos que alguns peixes possuem
Alguns peixes, incluindo tubarões e acho que também as raias, são electrorreceptivos, ou seja, podem detectar sinais eléctricos de outros organismos. Também há peixes electroprodutores: os peixes-faca da América do Sul e os peixes-elefante são ambos produtores de electricidade. São providos de EODs, que são descargas eléctricas de órgãos, e usam-nos como sinais de comunicação – e o modo como o fazem é impressionante: por exemplo, eles mudam a própria frequência se nadarem perto de outro peixe com frequência semelhante, para não se atrapalharem e se confundirem. Eles também mostram deferência desligando os seus EODs quando passam por um detentor de território – até porque não é boa ideia irritá-lo, pelo que provavelmente é melhor ficar “em silêncio” durante esse momento.
As percepções e habilidades sensoriais dos peixes são fruto de mais de 400 milhões de anos de evolução, pelo que não é propriamente surpreendente que eles tenham formas fascinantes de sentir os seus ambientes.

Sobre os peixes recorrerem a flatulência como meio de comunicação
Há um exemplo realmente curioso que envolve arenques e que não resisto em citar. Acho que se inventasses uma frase que melhor captasse isso, uma frase delicada, comunicação flatulenta talvez fosse o termo apropriado. Eles [os arenques] vivem em cardumes enormes e emitem gases do ânus em grande número, o que emite um som. E eles parecem usar isso como um dispositivo de comunicação – talvez para sinalizar aos outros que é hora de subir ou descer da coluna de água, por ser aquela altura do dia em que os predadores aparecem mais.
Sobre o comércio de peixes e a popularidade do cirurgião-patela, o peixe apresentado em Finding Dory
Alguns dos métodos de captura [destes peixes] são hediondos: envenenamento por cianeto, que mata muitos dos peixes visados, bem como aqueles que não são alvo, além de ocasionalmente serem utilizados dispositivos explosivos. E depois temos as vicissitudes do transporte, onde são levados através dos continentes e a taxa de mortalidade é bastante elevada.
A Dory [do filme da Pixar] é um cirurgião-patela: como o filme vai chamar muita atenção para esta esta espécie, é certo que a mesma será popular no comércio de peixes [para aquários]. Infelizmente, os cirurgiões-patela, ao serem capturados na natureza, estão sujeitos a alguns males dessa indústria. Precisamente por isso, estamos a fazer uma campanha activa na tentativa de desencorajar as pessoas de comprarem esses peixes: quando compras um produto estás a dizer ao fabricante para continuar a vendê-lo e nós não queremos que isso aconteça. ■
Imagens: Pexels e Google
Jonathan Balcombe | NPR • Junho de 2016
Quando pensamos em peixe, provavelmente é na hora do jantar. Já Jonathan Balcombe, por outro lado, dedica-se a investigar sobre a vida emocional dos peixes. Balcombe, que actua como director da [revista] Animal Sentience da Humane Society Institute for Science and Policy, declarou a Terry Gross, da Fresh Air, que os humanos estão mais perto do que nunca de entender os peixes. “Graças aos avanços na etologia, sociobiologia, neurobiologia e ecologia, podemos agora compreender melhor como é o mundo para os peixes”, diz Balcombe.
No seu novo livro, What A Fish Knows: The Inner Lives Of Our Underwater Cousins, Balcombe apresenta evidências de que os peixes têm uma consciência — ou “senciência” — que lhes permite sentir dor, reconhecer humanos individuais e ter memória. Ele argumenta que os humanos deviam avaliar as implicações morais em relação a como capturamos e exploramos os peixes. “Nós matamos entre 150 milhões e mais de 2 biliões de peixes por ano – e a forma como morrem (na pesca comercial) é, de facto, bastante sombria”, alerta. “São inúmeras as mudanças que se fazem necessárias para se reflectir numa melhoria na nossa relação com os peixes”.
Destaques da entrevista
Sobre como podemos saber se os peixes estão a sentir dor
O estudo mais primoroso sobre a dor em peixes que já vi foi feito há alguns anos por uma bióloga chamada Lynne Sneddon, no Reino Unido. Ela recorreu a peixes-zebra, que são comumente usados em pesquisas. E o que eles [grupo de estudo] fizeram foi colocar um cardume de peixes-zebra — não me lembro de quantos, talvez uns trinta — num tanque complexo que tinha dois espaços. Um dos espaços estava ornamentado, com pedras e vegetação: já o outro era árido. Provavelmente já adivinhaste em qual espaço os peixes passaram todo o tempo – no ornamentado. Os peixes apreciam lugares para se esconder e também de um ambiente estimulador.
Depois, injectaram nos peixes uma de duas substâncias. Uma delas foi uma solução ácida, conhecida por ser cáustica e presumivelmente dolorosa para os peixes, caso eles sintam dor. A outra, administrada em metade dos peixes, que foram seleccionados aleatoriamente, era soro fisiológico. Os peixes foram observados, para ver como se comportavam, e todos continuaram a nadar na parte do tanque mais ornamentado. Então, foi dissolvida uma solução analgésica no espaço vazio – e eis que alguns peixes começaram a migrar e a nadar para ficar naquela área totalmente indesejável, tendo sido apenas aqueles que foram injectados com o ácido e não os que foram injectados com a solução salina. Penso que seja uma demonstração bastante convincente da dor nos peixes.

A senciência é como a gravidez: estás grávida ou não; és senciente ou não. E se um animal é senciente, o que é indicador de algum tipo de consciência, com particularidade na capacidade de sentir dor e, ainda diria, por extensão, de sentir prazer, então, para mim, isso figura que o animal tem tracção moral, ou deveria ter tracção moral – grosso modo, que o animal merece a consideração dos outros. Porque aquele animal pode ter um dia bom e um dia ruim e podem acontecer coisas boas ou ruins com ele. E isso, como eu disse, é a base da ética.
Sobre alguns peixes de recife que parecem reconhecer mergulhadores individuais
Houve um novo estudo que mostrou o reconhecimento individual de rostos humanos por peixes; sendo assim, é altamente provável que reconheçam mergulhadores individuais. Eles aparecem [para os mergulhadores] para serem acariciados; quase parecem cães. Não sei se eles rolam para que a barriga seja acariciada, embora alguns tubarões entrem num aparente estado de euforia quando têm a barriga esfregada.
Sobre com os peixes usam uma “linha lateral” para sentir a pressão da água e navegar à noite
[Os peixes] têm alguns outros sentidos muito interessantes e que valem a pena mencionar. Um deles é a sensação de pressão ou movimento da água graças a uma linha lateral. Estamos agora a falar de peixes ósseos, não de tubarões ou raias; são os peixes ósseos que possuem essa linha. Podemos notar uma fileira escura de escamas ao longo da linha central de um peixe ósseo, e essa é, na verdade, uma sombra projectada por essas escamas específicas. Há uma depressão em cada uma dessas escamas, e nessa depressão existem pequenas câmaras em forma de copo, que contêm gel e pequenos pêlos que projectam e detectam mudanças de pressão. É muito útil para navegar à noite, para evitar coisas perigosas em condições de visão limitada, entre outras situações do género.
Sobre os sentidos eléctricos que alguns peixes possuem
Alguns peixes, incluindo tubarões e acho que também as raias, são electrorreceptivos, ou seja, podem detectar sinais eléctricos de outros organismos. Também há peixes electroprodutores: os peixes-faca da América do Sul e os peixes-elefante são ambos produtores de electricidade. São providos de EODs, que são descargas eléctricas de órgãos, e usam-nos como sinais de comunicação – e o modo como o fazem é impressionante: por exemplo, eles mudam a própria frequência se nadarem perto de outro peixe com frequência semelhante, para não se atrapalharem e se confundirem. Eles também mostram deferência desligando os seus EODs quando passam por um detentor de território – até porque não é boa ideia irritá-lo, pelo que provavelmente é melhor ficar “em silêncio” durante esse momento.
As percepções e habilidades sensoriais dos peixes são fruto de mais de 400 milhões de anos de evolução, pelo que não é propriamente surpreendente que eles tenham formas fascinantes de sentir os seus ambientes.

Há um exemplo realmente curioso que envolve arenques e que não resisto em citar. Acho que se inventasses uma frase que melhor captasse isso, uma frase delicada, comunicação flatulenta talvez fosse o termo apropriado. Eles [os arenques] vivem em cardumes enormes e emitem gases do ânus em grande número, o que emite um som. E eles parecem usar isso como um dispositivo de comunicação – talvez para sinalizar aos outros que é hora de subir ou descer da coluna de água, por ser aquela altura do dia em que os predadores aparecem mais.
Sobre o comércio de peixes e a popularidade do cirurgião-patela, o peixe apresentado em Finding Dory
Alguns dos métodos de captura [destes peixes] são hediondos: envenenamento por cianeto, que mata muitos dos peixes visados, bem como aqueles que não são alvo, além de ocasionalmente serem utilizados dispositivos explosivos. E depois temos as vicissitudes do transporte, onde são levados através dos continentes e a taxa de mortalidade é bastante elevada.
A Dory [do filme da Pixar] é um cirurgião-patela: como o filme vai chamar muita atenção para esta esta espécie, é certo que a mesma será popular no comércio de peixes [para aquários]. Infelizmente, os cirurgiões-patela, ao serem capturados na natureza, estão sujeitos a alguns males dessa indústria. Precisamente por isso, estamos a fazer uma campanha activa na tentativa de desencorajar as pessoas de comprarem esses peixes: quando compras um produto estás a dizer ao fabricante para continuar a vendê-lo e nós não queremos que isso aconteça. ■
Imagens: Pexels e Google
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Por mais que tentemos desligar os movimentos sociais uns das outros, a verdade é que estes permanecem interligados. Negá-lo só ajuda a fortalecer ainda mais os problemas que procuramos resolver e as opressões que sonhamos em dissolver. E o veganismo não é excepção.
A importância de encarar o veganismo como luta política no colectivo — fugindo da imagem que ergue maioritariamente, como um estilo de vida e mero consumo individual — é fulcral para conseguirmos as tão desejadas jaulas vazias. Para isso, tal óptica requer compreender como as discriminações se comunicam – mostrando, assim, que sem libertação humana não poderá haver libertação animal.
The Smell Of Money abre uma janela para visualizarmos um pouco esse vínculo – neste caso, entre o especismo e o racismo, no qual a natureza também é afectada. O documentário denuncia os impactos sofridos pelos habitantes de Duplin, na Carolina do Norte, EUA, causados pela Smithfield, uma das maiores exploradoras de porcos. Os moradores são predominantemente negros e, apesar da batalha judicial que decorre há décadas, a empresa continua a escudar-se com a indiferença e parca influência política, visto a Carolina do Norte permitir que pecuárias descartem os dejectos dos animais borrifando-os pelo ar com recurso a máquinas. As consequências são terríveis: restrição de ar puro e pouco acesso a água limpa, bem como os excrementos revestem constantemente as paredes exteriores das casas.
Entre 2018 e 2019, um dos juízes que tratou deste processo referiu que, se fossem mansões de ricos e políticos, no lugar de pessoas pobres, a celeuma teria sido imediatamente resolvida com o cessar da empresa pecuária. A sua declaração, brutalmente crua mas necessária, escancara como o sistema ignora descaradamente indivíduos de certas classes e etnias, bem como não olha a meios para transformar animais em lucro.
Kate Mara, uma das produtoras do documentário, declarou: “Esperamos que o filme enfureça as pessoas pelo flagrante desrespeito da pecuária pelo bem-estar animal, ambiental e pelas comunidades carentes, nas quais a indústria instala-se e destrói vidas. Não podemos continuar com o nosso actual sistema alimentar e ignorar o racismo ambiental que assola estas comunidades.”
O documentário está actualmente a ser exibido em alguns cinemas estadunidenses e, de acordo com o site oficial, ficará brevemente disponível em streaming. Vejam o trailer abaixo:

Nota do blogue: em 2021 fiz um pequeno artigo sobre a ineficácia do colagénio enquanto produto ingerido ou aplicado. Não me debrucei tanto sobre a crueldade animal, visto acreditar não ser necessário fazê-lo quando já a expus por diversas vezes noutros textos.
Há uns dias, deparei-me com esta reportagem sobre a conexão sórdida entre o colagénio e a desflorestação da Amazónia, bem como a violência cometida contra as comunidades indígenas que tanto lutam para a proteger. No nosso dia-a-dia, mesmo não vendo, mesmo não sabendo, produtos aparentemente inofensivos escondem uma teia hedionda de atrocidades. Atrocidades contra animais, contra a natureza, contra os próprios humanos. Atrocidades que, camufladas por um véu entorpecedor, unem-se num abraço grotesco carregado de dor, sangue e lágrimas.
Por esse motivo decidi pegar nesta investigação e traduzi-la. Porque precisamos de ver.
Precisamos de saber.
Precisamos de mudar.
***
O mau cheiro chega antes dos camiões, que estão carregados com peles que foram arrancadas de carcaças de gado dias atrás. As moscas estão por toda a parte.
Os camiões vão para Amparo, uma pequena cidade industrial do estado de São Paulo, sudeste do Brasil. Aí, a Rousselot, uma empresa que pertence à texana Darling Ingredients, extrai o colagénio – um ingrediente presente em suplementos de saúde e que está no centro de uma mania global de bem-estar.
Mas, enquanto os consumidores mais entusiasmados do colagénio afirmam que essa proteína pode melhorar cabelo, pele, unhas e articulações, por retardar o processo de envelhecimento, a mesma tem um efeito questionável na saúde do planeta. O colagénio pode ser extraído da pele dos peixes, porcos e gado, mas por detrás da popular variedade “bovina”, em particular, existe uma indústria sombria que impulsiona a destruição de florestas tropicais e alimenta a violência e os abusos dos direitos humanos na Amazónia brasileira.
Uma investigação da Bureau of Investigative Journalism, The Guardian, ITV e O Joio e O Trigo, descobriu que [a criação de] dezenas de milhares de bovinos criados em fazendas, que estão a destruir as florestas tropicais, foram processados em matadouros ligados a cadeias internacionais de fornecimento de colagénio.
Parte desse colagénio leva-nos à Vital Proteins, propriedade da Nestlé e grande produtora de suplementos do supracitado. A Vital Proteins é vendida à escala mundial – incluindo online na Amazon, nas lojas Walmart nos EUA, na Holland & Barrett e na Boots no Reino Unido e na Costco em ambos os países.
A investigação – a primeira a correlacionar o colagénio de origem bovina com a perda de florestas tropicais e a violência contra os povos indígenas – encontrou, pelo menos, 2,600 quilómetros quadrados de desmatamento ligados às cadeias de suprimentos de duas operações de colagénio no Brasil, ambas relacionadas com a Darling: a Rousselot e a Gelnex, adquiridas pela Darling por 1,2 mil milhões de dólares americanos. Não está claro o quanto desse desmatamento, que foi calculado pelo Center for Climate Crime Analysis, está ligado à Vital Proteins.
Especialistas encaram a preservação da Amazónia como a chave para enfrentar as mudanças climáticas. Da mesma forma, defendem os direitos dos seus povos indígenas, amplamente reconhecidos como os melhores guardiões da floresta. Quase metade das áreas mais bem preservadas da floresta tropical está dentro dos territórios destes povos.
Como resposta aos seus consumidores, depois que o TBIJ abordou os revendedores para fazerem comentários sobre tal, a Vital Proteins declarou que “acabaria com o fornecimento da região amazónica imediatamente”.
A Darling Ingredients disse ao TBIJ que a empresa e a sua subsidiária, Rousselot, monitorizam os seus fornecedores e excluem aqueles que não atendem aos seus critérios de fornecimento responsável. Um porta-voz acrescentou que as empresas “desempenham um papel crucial” na “recolha e reaproveitamento de subprodutos animais que, de outra forma, seriam descartados”. Ele alegou que não poderia comentar sobre a Gelnex, já que a sua aquisição, em Outubro de 2022, ainda não foi formalizada.
A Holland & Barrett referiu que está comprometida com o fornecimento responsável, para garantir que as cadeias de suprimentos não contribuam para o desmatamento. A empresa acrescentou que sobrelevou estas alegações com a Vital Proteins e que levará em consideração uma acção correctiva caso novas violações de política sejam encontradas.
Um porta-voz da Boots disse: “Estamos em contacto com os nossos fornecedores para ter garantias sobre o fornecimento do colagénio”.
A Costco frisou que levou as alegações a sério e entrou com contacto com os seus fornecedores. A Walmart e a Amazon recusaram-se a comentar.
O mito do subproduto
O colagénio bovino é um dos chamados subprodutos da pecuária, o que no Brasil corresponde a 80% de toda a perda da floresta amazónica.
Todavia, subproduto é um termo enganoso, de acordo com a Environmental Investigation Agency, um grupo de defesa ambiental com sede em Londres. “Não chamaria nenhum deles de subprodutos. As margens para a indústria da carne são bastante estreitas, pelo que todas as partes vendáveis do animal são incorporadas ao modelo de negócios”, disse Rick Jacobsen, gerente da política de comoditizações da EIA.
Os produtos sem carne [com outras substâncias de origem animal] correspondem a pouco menos da metade do peso de uma vaca abatida e podem gerar até um quarto da renda dos frigoríficos, de acordo com as estimativas da Bain & Company, um grupo de pesquisa de mercado. De longe, os subprodutos mais valiosos são as peles do gado usadas para fazer couro e colagénio.
Estima-se que a indústria do colagénio, como um todo, tenha o valor de 4 mil milhões de dólares [americanos] por ano.
Ao contrário da carne bovina, soja, óleo de palma e outras comoditizações alimentares importantes, o colagénio não é coberto pela futura legislação de devida diligência na União Europeia e no Reino Unido, projectada para combater o desmatamento. As empresas de colagénio, portanto, não têm obrigação de rastrear os seus próprios impactos ambientais.
“É importante assegurar que esse tipo de regulamentação abranja todos os principais produtos que possam estar ligados ao desmatamento”, asseverou Jacobsen.
A maior parte da desflorestação causada pela pecuária pode ser atribuída a fornecedores indirectos das empresas, segundo Ricardo Negrini, promotor federal do estado do Pará, Brasil, que supervisiona os compromissos climáticos dos processadores de carne bovina. O gado é frequentemente transferido de fazenda para fazenda, passando por diversos estágios de criação, pelo que uma vaca nascida em terras desmatadas pode ser engordada para abate numa fazenda de terminação “limpa”. Contudo, Negrini disse que, actualmente, todos os frigoríficos têm capacidade de rastrear o gado que compram.

Legislação para combater o desmatamento ligado à pecuária não leva em consideração o colagénio
Com o aumento das vendas de carne bovina, couro e colagénio, mais e mais florestas foram derrubadas e substituídas por pastagens nos últimos anos, com terras muitas vezes confiscadas ilegalmente. A virtual impunidade para a grilagem de terras durante o governo Bolsonaro também alimentou ataques a comunidades tradicionais. Em 2021, no terceiro ano da sua presidência, ocorreram 305 invasões contra terras indígenas. Foi três vezes mais do que os números relatados, em 2018, pelo Conselho Indigenista Missionário da Igreja Católica.
“Não há expansão da pecuária na Amazónia sem violência”, disse Bruno Malheiro, geógrafo e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.
“Não há expansão da pecuária na Amazónia sem violência”, disse Bruno Malheiro, geógrafo e professor da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará.
A uma curta distância do escritório de Malheiro em Marabá, município com o terceiro maior rebanho bovino do Brasil, a paisagem é aplainada por pastagens. Camiões transportam gado constantemente para os inúmeros matadouros da região.
No município vizinho de Bom Jesus do Tocantins, uma placa verde pontilhada de balas fica ao lado da estrada que leva ao território indígena Mãe Maria. Vista de cima, esta terra, lar do povo Gavião, é uma parcela verde-escura de floresta tropical debruçada numa colcha de retalhos de fazendas.
Para Kátia Silene Akrãtikatêjê, a primeira mulher líder do povo Gavião, é como viver numa ilha. O seu povo sente-se “cercado, sufocado”, disse ela ao TBIJ. A reserva Mãe Maria é o único território em centenas de quilómetros que ainda se assemelha à imponente floresta amazónica.
Malheiro chama-lhe de “um processo de confinamento territorial”. Para os Gavião, a manutenção da mata onde caçam, pescam, cultivam e recolhem sementes vem com ameaças, tentativas de invasão e incêndio criminoso.
Em Setembro do ano passado, uma vila inteira foi incendiada: uma escola, dezenas de casas e um pedaço de floresta foram reduzidos a cinzas. O incêndio não foi acidental, abonam eles, e a comunidade continua a viver com medo.
“[Os fazendeiros] destroem o que é deles e invadem o que é nosso. Não entendo porque destroem tudo”, indagou a líder indígena.
De acordo com José Batista Afonso, advogado e defensor dos direitos fundiários, trabalhador na Comissão Pastoral da Terra em Marabá, a região oferece um vislumbre de como seria toda a Amazónia caso a pecuária continuasse a se expandir sem controlo.
Cadeias obscuras de suprimentos
Cadeias obscuras de suprimentos
As cadeias de abastecimento de colagénio bovino são altamente intrincadas, com inúmeros intermediários envolvidos na aquisição e no processamento.
O colagénio Peptan da Rousselot é a marca líder mundial e exporta o referido para os EUA e Europa, onde possui várias fábricas.
A Rousselot obtém peles de vaca da BluBrasil, um curtume localizado dentro de um complexo em Bataguassu, Mato Grosso do Sul. Tal complexo é da propriedade da Marfrig, uma das três grandes empresas de carne bovina do Brasil. Fornecedores de gado da Marfrig têm sido ligados à destruição de florestas tropicais e a invasões territoriais do povo indígena Guarani Kaoiwá.
Em 2021, a usina comprou animais da fazenda Campanário, uma grande propriedade que viola o território Guarani Kaoiwá em Laguna Carapã, também no Mato Grosso do Sul. A área é conhecida pelo seu elevado índice de violência contra indígenas. A Marfrig contou ao Bureau que apenas uma pequena parte da propriedade está em cima da terra ancestral, que a empresa afirma não ser totalmente reconhecida como território indígena. O proprietário da fazenda Campanário não respondeu ao pedido do Bureau para comentar. A BluBrasil também não.
Um relatório da Greenpeace de 2021 também descobriu que a mesma fábrica da Marfrig estava ligada à destruição do Pantanal, outro bioma brasileiro e berço da biodiversidade.
A Marfrig confirmou que o fornecedor em questão estava registado como fornecedor indirecto, mas afiançou que o mesmo se encontrava em conformidade com as suas políticas na época. A empresa acrescentou que a monitorização de fornecedores indirectos é “um dos maiores desafios da cadeia pecuária brasileira”, mas que trabalha “incansavelmente para mitigar qualquer vínculo entre o desmatamento ilegal e outras irregularidades na sua cadeia produtiva, tanto na Amazónia quanto nos demais biomas”.
A Gelnex, por sua vez, vende colagénio para produtos de saúde, ingredientes alimentícios, entre outros items, globalmente. Obtém peles de gado da Durlicouros, um fabricante de couro brasileiro que as limpa e descarna após o abate. Nesta fase, as peles cruas são tratadas para evitar o apodrecimento antes que as camadas de pele sejam divididas em cadeias separadas de produção de couro e colagénio.

Lote de gado num matadouro da Minerva, em Araguaína. Centenas de bovinos abatidos aqui são criados em fazendas que invadem a Mãe Maria e outras terras indígenas.
A Durlicouros obtém as suas peles de gado abatido nos matadouros da JBS e da Minerva, de acordo com várias entrevistas efectuadas a camionistas e outras fontes locais. Centenas desse gado são criadas em fazendas que invadem a Mãe Maria e outras terras indígenas.
Num contacto recente com os investidores, o CEO da Darling Ingredients, Randall C. Stuewe, afirmou que a aquisição da Gelnex aumentaria enormemente a produção de colagénio da empresa.
A Gelnex declarou ao TBIJ: “Todas as matérias-primas utilizadas pela empresa são provenientes de fornecedores aprovados, devidamente registados perante os órgãos reguladores aplicáveis e legalmente autorizados a operar de acordo com as leis vigentes”.
O curtume DurliCouros informou que “atende aos mais rígidos padrões de sustentabilidade nacionais e internacionais”. Tanto a Durlicouros como a BluBrasil receberam a classificação ouro da Leather Working Group (LWG), associação do sector que avalia a sustentabilidade dos membros. A LWG disse ao Bureau que este é um “tópico complexo” e que trabalhará por um padrão “100% de desmatamento e conversão livre até 2030 ou antes”.
A JBS referiu que, embora existisse desmatamento em algumas das fazendas identificadas, as suas compras eram “totalmente compatíveis” com os seus protocolos de aquisição e monitorização, além de que outras aderiram aos seus padrões.
O terceiro maior frigorífico brasileiro, o Minerva, frisou que trabalha para garantir que o gado adquirido não seja proveniente de propriedades com áreas ilegalmente desflorestadas, adicionando que vigia “100% dos fornecedores directos”.
A Nestlé disse que as alegações levantadas não correspondem ao seu compromisso com o fornecimento responsável e contactou o seu fornecedor para o assunto ser investigado. Também anunciou que está a tomar medidas para garantir que os seus produtos sejam livres de desmatamento até 2025.
***
Uma versão desta investigação também surgiu no UOL.
Imagem principal: Kátia Silene Akrãtikatêjê, líder do povo Gavião
Repórteres: Elisângela Mendonça, Andrew Wasley e Fábio Zuker
Colaborador: Centro de Análise de Crimes Climáticos
Filmagem e fotografia: Cícero Pedrosa Neto
Produtora de vídeo e produtora de impacto: Grace Murray
Editor de vídeo: Oliver Kemp
Animação: Jules Bartl
Editor de ambiente: Robert Soutar
Editor global: James Ball
Editor: Meirion Jones
Produção: Frankie Goodway
Verificador de factos: Alice Milliken`
Esta história foi produzida com o apoio da Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center. O nosso projeto Food and Farming é parcialmente financiado pela Quadrature Climate Foundation e parcialmente pela Hollick Family Foundation. Nenhum dos nossos financiadores tem qualquer influência sobre as nossas decisões ou resultados editoriais.
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