18/02/2026

Hitler era vegetariano?


Um dos comentários mais direccionados para atacar o veganismo é o de que Hitler era vegetariano. Geralmente, quem aplica esta proposição tem como intenção classificar a defesa dos animais como incongruente, já que Hitler não os comia e foi um indivíduo indiscutivelmente abominável. Todavia, usar Hitler como exemplo moral carece completamente de sentido, pelas razões que todos nós conhecemos. Ainda assim, muitos insistem em aproveitar-se do nome dele para justificar o consumo de animais.

Esta afirmação tem dois problemas que a derrubam automaticamente: um é de cariz lógico e o outro é de cariz histórico. O problema de cariz lógico deve-se por tal afirmação ser um raciocínio falaz. Na verdade, a imagem de Hitler é tão usada para contra-argumentar qualquer coisa que até tem direito à sua própria falácia, denominada reductio ad hitlerum e que possui esta estrutura:

Se Hitler apoiava/gostava de X, então X é maligno.

Uma falácia é um raciocínio errado que aparenta ser verdadeiro. Na retórica é um argumento logicamente inconsistente, inválido e sem fundamento. Neste caso, por tratar-se de um caso pessoal e particular que é usado para atacar um tema geral, é mais do que óbvia a sua falha.
Vamos supor que alguém que odeia crianças decide defender o seu ponto de vista com o seguinte:

Hitler gostava de crianças. Então, as crianças não podem ser boas.

Ou

Hitler gostava de crianças. Então, quem gosta de crianças não pode ser bom.

Não faz muito sentido, pois não? Então, porque no caso do vegetarianismo já faz sentido para muitos, ao ponto de continuarem a aplicar esta falácia como arremesso argumentativo?

Quanto ao problema histórico, existem factos que refutam o vegetarianismo de Hitler. Ele adoptou este tipo de dieta ocasionalmente, o que não faz dele, ou alguém com as mesmas oscilações alimentares, vegetariano. Além disso, é mais do que comum ser-se vegetariano exclusivamente por questões de saúde e não pelos animais. No caso de Hitler, uma dieta vegetal foi-lhe imposta por causa dos seus vários problemas de saúde, embora ele não tenha obedecido às recomendações médicas.

Alguns escritores têm citado evidências de que Hitler tenha sido vegetariano durante parte da sua vida. Janet Barkas, no livro The Vegetable Passion, e Colin Spencer, no livro The Heretics Feast, apoiam essa ideia mas ela não é compartilhada por quem pesquisou detalhadamente sobre o assunto. Segue-se um trecho de uma revisão do livro de Colin Spencer feita pelo professor Rynn Berry, especialista em história do vegetarianismo:

Em Heretic's Feast, Colin Spencer dá crédito ao mito de que Adolf Hitler era um vegetariano. Ele faz referência ao suposto vegetarianismo de Hitler não mais do que quatro vezes, devotando uma longa secção de cinco páginas a esse assunto no capítulo 12. Ao mesmo tempo que é verdade que os médicos de Hitler colocaram-no sob uma dieta vegetariana para curá-lo da flatulência e de problemas estomacais crónicos, os seus biógrafos, tais como Albert Speer, Robert Payne, John Toland, e outros, têm atestado a preferência de Hitler pelas salsichas de presunto e outras carnes defumadas. Até mesmo Spencer diz que Hitler foi um vegetariano apenas a partir de 1931: «Seria verdadeiro dizer que desde 1931 ele preferiu uma dieta vegetariana, mas em algumas ocasiões desviou-se dela.»

Ele cometeu suicídio com 56 anos em 1945; isso teria resultado em 14 anos de vegetarianismo, mas temos um testemunho contrário dado pela sua cozinheira, Dione Lucas, que era directamente responsável pela cozinha de Hitler em Hamburgo durante o final da década de 1930. No seu livro Gourmet Cooking School Cookbook ela deixou registado que o prato favorito de Hitler era squab recheado (cria de pombo domesticado e de carne escura):
«Eu não pretendo diminuir o seu apetite pelo squab recheado, mas você pode interessar-se em saber que este era um prato muito pedido pelo Sr. Hitler, que jantava no hotel frequentemente.»

Hitler não era vegetariano e muito menos defendia os direitos dos animais, mas Joseph Goebbels, o Ministro da Propaganda, distorceu totalmente esse facto para criar nas pessoas a ideia de que o Führer era um homem bom: as revistas pró-nazis, como a Neugeist/Die Weise Fahne, gritavam no papel que Hitler era vegetariano por amor aos animais e como este era acerrimamente contra qualquer tortura contra animais como no caso da vivisecção. A condição delicada da saúde do ditador, que era constantemente trapaceada pelo mesmo, foi metamorfoseada para uma suposta preocupação com os animais não-humanos e como isso o tornava num indivíduo bom. Esta notícia manipulada conseguiu o seu objectivo: chamar a maior atenção possível em torno de Hitler e transmitir uma aura quase beatificada que conseguisse abafar as barbaridades apoiadas pelo nazismo.
E, em parte, resultou.


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Referências:

Dinshah, J. (1974, January). Book nook. {A review of Speer, A. (1970). Inside the 3rd Reich (Por dentro do Terceiro Reich)} Ahimsa, p. 11. [Disponível na American Vegan Society, P.O. Box H, Malaga, NJ 08328, USA]

Meyer, R. (1985). Was Hitler a vegetarian? Vegetarian Voice, 12 (2), p. 6. [Disponível na North American Vegetarian Society, P.O. Box 72, Dolgeville, NY 13329]

O mito de que Hitler era vegetariano

Hitler e Goebbels não eram vegetarianos e a favor dos direitos dos animais?