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O algoritmo do Instagram, quando quer, entrega bom conteúdo e, consequentemente, pessoas com conteúdo. Coisa rara na feira das vaidades digital que as redes sociais se tornaram. Foi assim que descobri a Hanna, através de uma carta que ela criou sobre a indústria dos lacticínios. As suas partilhas mostram alguém que não tem medo algum de mergulhar de cabeça e nadar contra a corrente, seja sobre os animais, seja sobre a visão paradigmática da maternidade. O seu testemunho é, a meu ver, um dos mais crus desta rubrica, no qual ela fala, principalmente, sobre como o veganismo inclui respeitar a empatia que as crianças sentem pelos animais e como faz dele, portanto, algo natural do ser humano e não uma imposição. Palavras que, mais do que merecem ser lidas, merecem ser absorvidas.
Fala um bocadinho de ti.
Sou originalmente da Bielorrússia e vivo actualmente nos Países Baixos. A minha formação profissional é em Design UX, sendo que hoje a minha vida é dedicada a ser mãe a tempo inteiro da minha filha de 3 anos e activista pelos direitos dos animais. Recentemente, o meu activismo também tomou um rumo criativo: escrevo livros infantis centrados no veganismo e no respeito pelos animais, e o meu primeiro livro está, neste momento, a ser ilustrado.
Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?
Tornei-me vegana há menos de um ano, embora tenha sido vegetariana durante os sete anos anteriores. Durante muito tempo, estive profundamente condicionada pela ideia de que o veganismo fazia mal à saúde. Tornar-me mãe mudou isso: levou-me a questionar as coisas de forma mais crítica, a procurar efectivamente por investigação científica e, finalmente, compreendi que a narrativa antivegana não passa de uma mentira.
Quando finalmente abri os olhos para a realidade da exploração animal, reconhecendo que os animais são indivíduos sencientes, que não nos pertencem, simplesmente não consegui voltar a fechar os olhos.
Aproveitando para partilhar sobre outras culturas, como é ser mãe e vegana nos Países Baixos?
É um país de grandes contrastes: por um lado, os Países Baixos têm opções veganas fantásticas, comunidades muito boas e inúmeras oportunidades para fazer activismo. Por outro, é um país fortemente agrícola, onde os lacticínios — especialmente o queijo — comportam um papel enorme na cultura alimentar. Além disso, há uma kinderboerderij (quinta pedagógica com animais) em praticamente todos os bairros.
É um desafio constante tentar navegar neste ambiente. Como a minha filha não frequenta uma creche, ainda não teve de enfrentar directamente o conflito diário entre os valores da nossa família e a forma como o resto do mundo, maioritariamente, funciona. Mas, à medida que vai crescendo, começa a reparar nessas contradições. E responder às suas perguntas sobre as mesmas já se tornou uma base integrante do nosso quotidiano.
Adoptaste uma alimentação totalmente vegetal há menos de um ano. Como foi essa mudança, tanto para ti como para a tua criança?
A transição foi incrivelmente tranquila para todos nós: as únicas coisas que nos separavam de uma alimentação de base vegetal eram o queijo, os ovos e o mel. Fizemos a mudança passo a passo, trocando esses alimentos que consumíamos por alternativas de origem vegetal.
Para a minha filha, a única mudança verdadeiramente perceptível foi os ovos. Limitámo-nos a contar-lhe a verdade sobre aquilo pelo qual as galinhas são forçadas a passar para que um ovo chegue ao nosso prato. Ela aceitou, fez várias perguntas muito ponderadas e, passado algum tempo, começou até a sugerir que abordássemos as pessoas que estavam a comprar ovos no supermercado, para lhes contarmos aquilo que sabemos.
Para mim e para o meu marido, a mudança foi igualmente simples e transformou totalmente, para melhor, a forma como comemos. Comprei alguns livros de culinária vegetal e cozinhar tornou-se num verdadeiro passatempo para mim. Nunca comemos de forma tão variada e deliciosa como até agora.

arte de Julianna Bíbor
Tornares-te mãe mudou a forma como encaras o veganismo ou a tua relação com os animais?
Mudou absolutamente tudo para mim. Tornar-me mãe alterou totalmente a minha perspectiva.
Nunca apoiamos jardins zoológicos ou outras formas de entretenimento baseadas no confinamento e na exploração animal. Sempre adorei cães e fiz voluntariado, mas estava convencida de que as galinhas punham ovos e as vacas davam leite porque é assim que a natureza determinou que as coisas fossem.
Mas, certo dia, enquanto estava a cozinhar um ovo para o pequeno-almoço, a minha filha questionou-me do que era ele feito. Foi a partir daí que comecei a aprofundar estas questões e descobri o horror absoluto daquilo que realmente acontece. Viver, na primeira pessoa, a profundidade e a força do vínculo entre uma mãe e o seu filho fez-me sentir fisicamente doente perante a ideia de que existem indústrias que literalmente lucram com a destruição de famílias.
Escreveste uma carta sobre a indústria do lacticínios. Consideras que o veganismo também é uma questão feminista?
Sem dúvida. A indústria dos lacticínios, tal como o resto da pecuária, assenta inteiramente na exploração do sistema reprodutivo feminino e na ruptura sistemática da ligação entre mães e filhos.
Acredito plenamente que não podemos defender genuinamente os valores feministas e a autonomia corporal enquanto financiamos a reprodução forçada e a exploração dos corpos femininos de outras espécies.
Em criança, testemunhaste situações de crueldade extrema contra animais e foste ensinada a vê-las como “a ordem natural das coisas”. Que impacto teve essa dicotomia em ti?
Quando os adultos que amamos e em quem confiamos nos dizem que a violência é “a maneira como o mundo funciona”, tal cria uma dissonância cognitiva profunda e dolorosa.
Hoje percebo, racionalmente, que, enquanto criança, tinha pouquíssimo poder para resistir ou defender o meu ponto de vista perante os adultos que me rodeavam. No entanto, sinceramente, ainda me custa perdoar a minha versão mais jovem por não ter estabelecido essa conexão mais cedo.
Reconectar-me, enquanto adulta, com essa empatia que fora reprimida foi um processo muito pesado. Fez-me ver até que ponto todos nós somos abissalmente condicionados pela sociedade, e essa percepção tornou-se a minha principal motivação para quebrar, com a minha própria filha, este ciclo de crueldade normalizada.
Como é criar uma criança antiespecista num mundo especista? Quais os desafios?
Criar uma criança antiespecista num mundo especista é, indubitavelmente, um desafio constante. As pessoas à nossa volta conseguem ser incrivelmente críticas – mas continuo a tentar encontrar maneiras de desconstruir esses estereótipos e mostrar-lhes que não “comemos só erva”.
Há, sem dúvida, momentos em que me sinto tão sobrecarregada que sinto que a única solução é cortar relações com pessoas não-veganas, mas percebo que isso não é uma opção.
Com a minha criança, abordo as conversas sobre os animais com absoluta honestidade, procurando encontrar palavras adequadas à sua idade.
Dói todas as vezes, porque sou em quem está, aos poucos, a desconstruir aquela versão perfeita e intocada do mundo em que ela entrou – um mundo onde as mães e os filhos ficam sempre juntos e ninguém magoa deliberadamente outro ser.
Gostarias de deixar alguma mensagem para as mães e os pais, em geral?
A minha principal mensagem é esta: se criam o vosso filho como vegano estão a dar-lhe uma escolha, e não a fazer essa escolha por ele.
É frequente ouvir que os parentes veganos privam os filhos de alguma coisa ou escolhem por eles. Todavia, banalizar a exploração e alimentar as crianças com pedaços de corpos e secreções de animais, antes de elas sequer compreenderem o que são, é que constitui a verdadeira imposição de uma escolha.
Um dia, os vossos filhos poderão sentir-se gratos por terem crescido fora desse padrão de violência, conservando a sua empatia natural intacta. ■
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No meio do caos que as redes sociais se tornaram, ainda há coisas bonitas a acontecer por lá. Uma delas foi, precisamente, ter conhecido a Lívia e o seu projecto de cozinha brasileira e sem crueldade. Se são da área de Lisboa e nunca provaram as suas coxinhas, as suas bolinhas de queijo, os seus rissóis, o seu bolo com cobertura de chocolate branco, precisam de mudar isso rapidamente. Cada dentada sabe a conforto, a amor, e leva-nos a uma viagem para o outro lado do Atlântico. A Lívia, só por ser mulher emigrante, com o seu negócio próprio, já é uma força da natureza. E, assim, quando ela também abraçou o infinito projecto que é a maternidade, sabia que tinha de falar com ela para participar nesta rubrica – e as suas palavras não podiam ser mais cândidas e inspiradoras ♡
Fala um bocadinho de ti e do teu projecto.
Fala um bocadinho de ti e do teu projecto.
Meu nome é Lívia, tenho 41 anos e vivo em Lisboa desde 2016. Sou mãe da Maria Helena, que está com 15 meses e também sou mãe do meu projecto de comida vegana.
A Coxinhas da Lívia começou em 2017 como algo provisório até que eu me estabilizasse financeiramente em Portugal. Vida de imigrante é sempre uma montanha russa até que se possa viver e trabalhar noutro país. Mal sabia eu que esse projecto ganharia a forma que tem hoje, passando a ser o meu principal trabalho. Produzimos salgados, doces e bolos veganos, sendo as coxinhas o nosso principal produto. Digo nosso, pois, somos uma empresa familiar.
Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?
Conheci o termo “vegetarianismo” por volta dos 20 anos, através da minha irmã mais nova: ela precisou fazer um trabalho de escola e escolheu abordar o tema. Desde então ela se tornou vegetariana e eu me tornei junto com ela como uma forma de incentivá-la: ao fim e ao cabo foi ela quem me incentivou. Entretanto, eu não tinha uma alimentação balanceada e acabei por abandonar, voltando a ser anos depois, por volta dos 27 anos. Fiz a transição para o veganismo em 2016 junto com a minha mudança para Portugal e, nesta altura, com muito mais compreensão sobre a minha escolha. O motivo principal foi a questão ética.
Como foi a tua alimentação durante a gravidez? Que cuidados tiveste?
Não muito diferente da alimentação antes da gravidez. Apenas ajustei quantidades conforme a gravidez foi avançando. Os únicos cuidados que tive foi de não comer vegetais crus, pois, não sou imune à toxoplasmose. No mais, mantive uma dieta bastante equilibrada, rica em proteínas vegetais (leguminosas, tofu, tempeh etc.), legumes e carboidratos. Durante toda a gravidez tive apoio de uma nutricionista para ter certeza que comia as quantidades certas para o desenvolvimento da minha bebé.
A maternidade aprofundou o teu olhar em relação ao modo como tratamos os animais?
Certo que não precisei de me tornar mãe para ter esse olhar sobre como é horrendo a forma como a indústria nos faz crer que produzir e matar um animal é importante para a sobrevivência humana. Contudo, a maternidade trouxe muito mais empatia para com as fêmeas não-humanas que são criadas para gerar bebés – contra a sua vontade – para que esses bebés sejam retirados delas mal nascem e irem parar numa embalagem de supermercado. Nada é mais duro para uma mãe do que ter seus filhos retirados à força!

Arte de Angelina Bambina
A teu ver, quais são os maiores preconceitos e desinformações em relação à alimentação vegetal infantil?
“Com essa alimentação ela não vai se desenvolver” ou “Não podes forçar a tua alimentação à tua filha” – escutei esta última e ainda nem grávida estava, de uma médica.
Há ainda muitos preconceitos sobre a alimentação vegetal infantil, sem dúvida, bem como desinformação – mas creio que estes dois comentários resumem bastante o que ainda se ouve quando se fala em crianças veganas. Mesmo a questão da suplementação — que crianças omnívoras também precisam — “não precisaria suplementar se comesse carne”. Na maioria das vezes aceno e sigo a vida, noutras é preciso fazer com que compreendam; poderá apenas ser falta de informação mesmo, e educar é a melhor via.
Está cada vez mais difícil conseguir gerir o tempo para cozinhar e fazer refeições que nutrem. Que conselhos dás para quem tem bebés e crianças e queira fugir de refeições industrializadas o mais possível?
Congelar! Não há nada mais reconfortante para uma mãe num dia corrido do que ter refeições prontas no congelador. Basta uma hora num dia da semana para conseguir preparar refeições variadas e congelar ou então guardar em pequenas marmitas para a semana ou dias seguintes. É o que faço aqui em casa, desde opção de pequeno-almoço e lanche, até mesmo almoço e jantar. Tento ter sempre uma sopa congelada e isso faz uma enorme diferença no dia-a-dia! Ainda esses dias estava a pensar sobre isso enquanto lhe preparava um lanche: “Seria mais fácil um industrializado, mas será que quero isso para a minha filha?”. Fazer tudo toma tempo mas acabo sempre por preparar o lanche para os próximos dias. Isso quer dizer que nunca vou lhe dar industrializados? Não, sei que vai acontecer, mas será sempre a excepção e não a regra.
Como ensinar o respeito pelos animais a crianças muito pequenas, como a tua?
Crianças pequenas aprendem observando, por isso a forma como o adulto trata um animal comunica muito para os pequenos olhos observadores. Temos dois gatos em casa e lhe ensinamos desde cedo que os gatos precisam de carinho e beijinhos. Se vamos em alguma quinta pedagógica ou santuário fazemos o mesmo. Ela tem muita curiosidade e fica muito contente em ver os animais e aos poucos vamos lhe dizendo — ainda que pouco entenda — que os animais são nossos amigos. E nas leituras de livros também, que não controlamos, às vezes pode ter uma situação que não concordamos e vamos lhe explicando a nossa forma de ver o mundo e os animais. Para uma bebé de 15 meses nada faz muito sentido ainda, mas o nosso exemplo vai indicar o entendimento dela no futuro.
Partilha uma das receitas predilectas da Maria Helena.
Panquecas! Um dos seus lanches preferidos.

Ingredientes:
2 colheres de sopa cheias de farinha de aveia
1 colher de sobremesa de linhaça moída
1/2 colher de café de fermento
1/2 banana madura amassada ou maçã ralada
Pitada de canela (opcional)
1/2 chávena de água, leite materno, fórmula ou bebida vegetal
Modo de preparação:
Misturar os secos, adicionar a fruta escolhida e o líquido. Misturar tudo ligeiramente até ficar homogéneo, não mexer ou bater demasiado, o suficiente para deixar uma massa nem muito líquida nem muito densa/espessa.
Aquecer uma frigideira untada levemente com azeite e com a ajuda de uma colher de sopa colocar pequenos discos de panquecas na frigideira. Dourar dos dois lados, e está feito.
Servir com fruta e uma manteiga de oleaginosas!
Obrigada pelo espaço e por falarmos de um tema tão importante para o futuro das nossas filhas! ■
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É com muita alegria que partilho convosco a Biblioteca da Raposinha, a nova rubrica do blogue: neste espaço, iremos explorar o maravilhoso mundo dos livros infantis que promovem a consciência sobre os direitos dos animais.
Para começar, não poderia ser outro livro que o d'A Menina dos Caracóis da Tânia Bailão Lopes: já referi este livro aqui e aqui, pelo que achei pertinente incluí-lo nesta rubrica para apresentá-lo através do olhar de uma criança pequena. Ao longo da história, uma menina, por gostar tanto de animais, tenta levar os bichos do campo para a cidade: será que teve sucesso na sua missão?
Com uma narrativa fluida e rimada, a Tânia passa a imprescindível mensagem de que a liberdade dos animais é mais importante do que a vontade de os manter perto de nós enclausurados – mensagem essa que a leitora criança, sem precisar de muitas explicações, compreendeu logo, o que, a meu ver, fortalece a perspectiva de que os mais pequenos são naturalmente bondosos e empáticos para com os animais. No livro, ela aponta constantemente para os animais que estão presos e que isso os deixa tristes – e os animais não merecem ficar tristes, não é verdade?
As ilustrações são coloridas mas com um traço suave, o que torna a obra cativante e delicada. É um dos livros preferidos da minha raposinha e não poderia deixar de o voltar a recomendar, de tão bonito e especial que ele é. Está à venda na Wook, em várias livrarias, como a Bertrand, e também pode ser adquirido directamente com a autora, bastando entrar em contacto com ela.
***
Sobre a autora: Tânia Bailão Lopes é mestre em Psicologia Clínica e licenciada em Serviço Social. Em 2016 abraçou totalmente o seu amor pela pintura e passou a dedicar-se exclusivamente à criação artística, à escrita e à ilustração. Ilustradora de mais de 80 livros, o seu trabalho já lhe valeu variadas premiações nas áreas de Pintura, Literatura e Ilustração Infantil. Desenvolve projectos juntamente com as escolas, que visam a promoção da literatura e da criatividade nas crianças, sendo que os seus livros Piu e o Planeta e Maria Morte integram o Plano Nacional de Leitura.
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Se tivesse de escolher uma palavra para definir a Saponina seria cuidado: desde os ingredientes à estética minimalista e delicada, é impossível não reparar na dedicação que a Liliana tem, com gosto genuíno, no seu trabalho. Recordo-me quando conheci a Saponina há uns bons anos: na altura, a Liliana ainda só fazia velas perfumadas, saquinhos terapêuticos (com arroz e lavanda que, quando aquecidos ou arrefecidos, ajudam nas dores de cabeça, menstruais, etc.) e pouco mais. De longe fui acompanhando o crescimento do seu catálogo que, agora, conta com uma quantidade generosa de cosméticos, incluindo uma linha para bebés – que descobri, precisamente, por andar à procura de produtos para a minha bebé que fossem mais ecológicos. E que descoberta feliz esta ♡
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Bárbara. Uma força da natureza. Livro aberto, coração resiliente. Mãe fera, mãe colo. Que se abre, inteira e infinita, num abraço que carrega três amores. Alma livre, inspiradora, por remar contra a maré das tradições que continuam a legitimar violências várias – desde o pequeno animal humano ao animal não-humano maior. Obviamente que ela não podia ficar de fora desta rubrica — caso contrário ficaria uma sensação de algo incompleto — e, assim como eu, espero que adorem cada palavra que ela aqui partilhou ♥
Fala um bocadinho de ti.
Chamo-me Bárbara, sou mulher fascinada pela vida, mãe maravilhada de 3 filhos veganos (11, 5 e 3 anos) e namorada apaixonada pelo homem que caminha a meu lado. Sou, enfim, uma mulher rendida aos sentimentos incríveis que se experimentam no turbilhão duma família recheada.
Sou licenciada em Psicologia, mas actualmente prefiro mergulhar nos assuntos da saúde física, especialmente na sua associação com a alimentação e o estilo de vida. Sou autora dos livros Lexy, o menino vegano e Onde está a proteína? e descobri uma paixão pelo desporto aos 43 anos: a musculação. A vida é cheia de descobertas boas.
Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?
Tornei-me vegana em 2009. Já tinha deixado de comer animais em 1999 depois de ter visto um documentário sobre a exploração de animais em diversas áreas. Aquilo abanou o meu mundo: chorei durante semanas sempre que me lembrava, como pude eu estar adormecida tanto tempo?
Mas, de 99 a 2009, embora tivesse longos períodos como vegana, acabava por ceder às tentações do queijo: na altura não existiam queijos veganos, senão teria sido muito mais rápido. Se compararmos as opções veganas de hoje com as que existiam naquela década, é absurdo. Quando me tornei ovolactovegetariana só existia soja desidratada e uns burgers que sabiam muito mal, hahaha. Eu sabia que animais não comeria mais mas o queijo foi realmente difícil; está provado que ele é, de facto, aditivo. Mas consegui, hoje sinto zero falta.
Como foi a tua alimentação durante as tuas gravidezes? Que cuidados tiveste?
Tive mais cuidados a nível de suplementação: reforcei iodo, B12, vitamina D3, K2, os ómegas. Tentava ser constante, pois, sabia que era importante ter bons valores, tanto para a gravidez como depois para amamentar (ainda amamento em tandem os dois mais novos). Também reforcei alimentos ricos em ferro, especialmente no segundo trimestre. Durante a gravidez e o aleitamento ingiro também mais calorias do que fora desse período, claro, tendo cuidado para ingerir alimentos variados, como vegetais, frutas, sementes, frutos secos, cereais, dando preferência aos que não têm glúten, super alimentos, etc.

Arte de Catie Atkinson
Como é a alimentação em casa? Quais são as refeições preferidas dos teus filhos?
É uma alimentação variada, tentando que seja a maioria do tempo bem saudável, mas também com alguns ‘pecados’ veganos de vez em quando. Não deixamos de comer as nossas pizzas, bolos, gelados! A preferida do Lexy é lasanha caseira, a do Leonardo são couves, grelos, brócolos, ele delira com isso a qualquer hora do dia. O mais novo gosta muito de batidos com frutas, mas também adora uma coisa um pouco menos saudável mas que tenho de esconder no frigorífico para ele não estar sempre a pedir: vuna (aquela imitação de atum).
Como mãe de três crianças, como lidas com o especismo do dia-a-dia? E como é que as tuas crianças reagem a ele?
Já são tantos anos disto, que honestamente quase já não é assunto. Mas já foi. Na primeira gravidez tive de ouvir coisas como “Estás a por a vida do teu bebé em risco com essa alimentação” e depois dele nascer, “Não vais ter leite nenhum”.
Mas sabes, quando aos 6 meses fui à pesagem e o médico disse “Ele está mesmo gordinho e saudável, andas-lhe a dar papas, não?” e eu respondi “Não, é mesmo só o meu leite”, ele mudou a sua perspectiva sobre esta alimentação, dizendo coisas como “Eu nunca vi um leite tão nutritivo como o teu, de facto a alimentação vegana tem tudo”. Não foram necessárias discussões: eles foram o exemplo vivo de que é possível ter uma gravidez saudável, filhos saudáveis e amamentação prolongada com uma alimentação plant based.
O teu filho mais velho foi a tua inspiração principal para o teu livro infantil “Lexy, o Menino Vegano”. Quando decidiste escrever o livro, qual foi o teu principal objectivo? Irás escrever mais livros infantis sobre veganismo futuramente?
A ideia para o livro começou em 2015; lancei o livro em 2016. O meu filho estava a crescer e não havia um só livro em português sobre veganismo na altura para lhe mostrar: encomendei um livro dos Estados Unidos mas ele era focado no mal estar dos animais. Eu queria falar do assunto duma forma leve, divertida, uma personagem com quem ele se identificasse, pois era o único vegano na sua escola. E na verdade foi um grande sucesso por isso, porque muitas famílias não veganas viram no livro Lexy, o menino vegano uma ferramenta boa para apresentar o assunto aos filhos. Também nas escolas foi e ainda é muitas vezes debatido com as crianças. Fiz algumas apresentações em escolas e todas foram de muito sucesso.
E sim, estou a escrever um novo livro infantil no momento que espero lançar ainda este ano!!
Partilhas conteúdo sobre maternidade. Achas que as mães estão apagadas dentro do movimento vegano? O que podemos e dever fazer para as mães terem mais voz e espaço no veganismo?
É assim, como eu sigo várias mães veganas, não vejo esse apagamento que referes, mas talvez sim, talvez fosse importante mais mães falarem da sua maternidade vegana para desfazer tantos medos e mitos que ainda existem. Devíamos ver mais entrevistas, mais debates, mais páginas voltadas para a maternidade vegana, para que se banalize o assunto, já que é uma forma de alimentação e de vida cada vez mais comum.

Arte de Katie M. Berggren
Também partilhas sobre criação com apego e a importância de respeitar as crianças, ambas um pouco distantes da educação infantil padrão. A teu ver, já há alguma mudança geral nesse aspecto ou ainda muita resistência? Como podemos mostrar às pessoas adultas que a criação com apego não é ‘estragar’ as crianças e sim um passo fundamental para quebrar um ciclo de violência infantil que se perpetua há gerações?
Sem dúvida que existem mudanças, mas ainda há muito terreno para andar. Infelizmente não à velocidade ideal, mas estamos melhor do que estávamos na minha infância ou na tua, com certeza. Ainda vemos que sempre que alguém lança uma conversa sobre colo, sono acompanhado, amamentação, há resistência, há sempre alguém que fala na independência dos pequenos e no excesso de mimo. Tão longe da verdade, pois o apego leva à segurança e futura independência. Ou, sempre que alguém fala contra as palmadas há muita discussão, acredito que por muita culpa materna/paterna, pois é mais fácil esconder numa desculpa do que admitir erros e agir. Todos cometemos erros. Eu cometi imensos, mas o importante é a consciência imediata desses erros, o desejo de mudar e a acção para mudar.
Não aceito o conformismo, não aceito que simplesmente desistamos de ser melhores para os nossos filhos. Haverá luta mais importante de que esta? Do que fazermos o melhor para criarmos crianças felizes, seguras, protegidas, acarinhadas, respeitadas, que se tornarão um dia líderes, médicos, activistas, professores? Não me parece que haja algo mais importante para o futuro do que isto. Oferecer amor para ver amor no mundo.
Por fim, queres deixar uma mensagem para mães que são criticadas e/ou desincentivadas por serem veganas e criarem as suas crianças de acordo com os seus valores?
O meu conselho é: estejam informadas e seguras das vossas opções. Quando estão seguras, essas críticas e tentativas de desmotivação não têm impacto em vocês. Eu, por mais que tenha ouvido todo o tipo de presságio sobre a gravidez, amamentação, crescimento dos meus filhos, mantive-me firme, pois sabia que estava a trilhar o nosso melhor caminho. Sabia que aquelas vozes que me tentavam melindrar nasciam da ignorância sobre este assunto. Porque deveria eu ficar medrosa ou recuar, quando sabia que quem me alertava não tinha qualquer conhecimento sobre este assunto em concreto? Estudem, leiam muito sobre alimentação (sempre, toda a vida, há sempre muito a aprender!), sigam mães veganas, fortaleçam os vossos passos, para que a vossa voz grite sempre mais alto do que todas as outras. ■
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Apesar dos estudos médico-científicos corroborarem que uma alimentação vegetal é perfeitamente exequível para bebés e crianças, a maioria dos pediatras continua a rejeitar tais evidências: enquanto alguns não sabem como orientar as famílias para este tipo de alimentação, outros praticam terrorismo sem qualquer fundamento (e que deve ser denunciado, já agora). Por isso é que aplaudo sempre que alguém publica informação sobre este assunto, por ser mais uma ponte para ajudar mães, pais e cuidadores que sejam vegetarianos e/ou queiram oferecer uma alimentação sem substâncias de origem animal aos mais pequenos.
A Sandra Gomes Silva, nutricionista e autora do livro O Vegetariano — leitura igualmente imprescindível — lançou este ebook totalmente dedicado a uma das fases de desenvolvimento mais importantes dos bebés: a introdução alimentar. São 63 páginas nas quais ela explica o que é a diversificação alimentar, quando começar, o que oferecer e não oferecer ao bebé, como oferecer de forma segura, os vários tipos de introdução alimentar, nutrientes-chave e muito mais. Além disso, inclui uma sugestão de ementa semanal e uma lista de compras.
O ebook está à venda aqui e encontra-se com 10% de desconto até ao final deste mês. Aproveitem ♥
Também encontram mais conteúdo sobre alimentação vegetal infantil, totalmente gratuito, na biblioteca do blogue. Notem que estes materiais são somente um guia geral e não substituem acompanhamento médico particular.
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Desconstruir pré-conceitos sobre a alimentação vegetariana, principalmente quando nos referimos a grupos específicos, nunca é demais: mesmo com o aumento dos estudos médico-científicos e da informação relativamente a este tipo de dieta ser segura para toda a gente, o paradigma social insiste em apontar para o sentido contrário.
Por isso, quanto mais fontes seguras e sólidas forem criadas melhor, pelo que não podia deixar de mostrar este maravilhoso trabalho da Márcia Gonçalves: nutricionista, juntou-se à Associação Vegetariana Portuguesa e criou um guia sobre alimentação totalmente vegetal para grávidas, bebés e crianças. São 61 páginas com informações, esclarecimentos e sugestões para o período gestacional, lactação e infância até ao primeiro ano, assim como tabelas nutricionais, receitas, planos para a diversificação alimentar, uma lista de profissionais especializados e muito mais. Um ebook essencial para todas as famílias, especialmente para as que pretendem mudar para uma alimentação mais compassiva ♡
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Uma das coisas que mais adoro nesta rubrica é a possibilidade que me dá de conhecer mulheres fantásticas: a Ana Laura é uma delas. Mãe e activista vegana e feminista, a Ana luta por uma maior visibilidade das mães e crianças em ambas as militâncias, que, infelizmente, continuam a ignorar bastante a existência delas. Defende que conflitos comuns, como familiares e escolas não aceitarem ou não respeitarem a educação e a alimentação que os pais dão à sua criança, devam ser vistos como um problema colectivo e não individual. Aliás, foi precisamente quando se começou a ver essa pauta como um problema colectivo que em Portugal, finalmente, passou a ser lei que todas as cantinas públicas incluíssem uma opção totalmente vegetal (se bem que ainda há muito trabalho a fazer).
Além de pertinente e necessário, o seu posicionamento levanta muitas bandeiras que tanto o veganismo como o feminismo devem enxergar e acolher, pelo que não podia ficar de fora desta entrevista, juntamente com as suas experiências e vivências enquanto mãe. Acredito que as suas palavras encorajadoras inspirarão várias mulheres e mães a encontrarem a sua voz e a não ficarem (mais) caladas.
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A natureza humana é compassiva e as crianças são prova disso. Quando deixamos que uma criança seja ela própria, muito dificilmente quererá maltratar e, muito menos, matar um animal. Quando lhes perguntamos se os animais — sejam cães, porcos, peixes — são amigos ou comida, é certo que vão responder que são amigos. E, no entanto, acusamos as mães e os pais de forçar um “estilo de vida” nos seus filhos quando a alimentação é coerente com aquilo que as crianças acreditam e defendem.
A Luna é filha da Sarah e mostrou desde cedo, por vontade própria, que não quer fazer mal aos animais e que, por isso, não os quer comer. Ambas são incríveis e inspiradoras, pelo que era inevitável pedir à Sarah para que partilhasse o seu testemunho e as suas experiências, de modo a desmantelar um pouco mais a ideia tendenciosa de que as crianças não podem ter uma alimentação sem crueldade.
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É com muita alegria que vos trago a Claiti Cortes, a primeira mãe do Brasil que participa nesta rubrica. Na sua conta de Instagram, o Imagina Vegan, ela publica refeições saborosas, nutritivas e baratas para toda a família, inclusive para a sua pequena Antonela, que fez dois anos há pouco tempo. Através dessas partilhas pretende mostrar como o veganismo pode ser acessível para todos, bem como a importância de o popularizar para que não seja visto como um mero nicho de consumo. Para quem pensa que uma alimentação totalmente vegetal é dispendiosa, exige demasiado tempo e não é saudável para bebés e crianças, esta entrevista vai com certeza desconstruir essa ideia e esclarecer algumas dúvidas. Fiquem por aqui e leiam as palavras da Claiti ♥
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13/05/2020
Maternidade vegana com a Marta Neves 💙 “Sempre achei que não fazia sentido gostar de animais e matá-los para os comer”
A Marta é uma leitora do blogue que, com todo o carinho, aceitou participar nesta rubrica e, assim, contribuir para a desconstrução do pré-conceito socialmente estabelecido em relação ao veganismo na maternidade. Nesta entrevista, ela partilha connosco a sua experiência em amamentar prolongadamente e como é criar uma criança pequena num ambiente fortemente tauromáquico.
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Têm dúvidas sobre alimentação vegetariana infantil? Então, espreitem (e partilhem!) este guia.
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