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Parte da resistência ao antiespecismo não nasce da nutrição, mas de doxas culturais profundamente estabelecidas sobre identidade e género. Uma delas é a conexão entre carne e masculinidade.
Como referi aqui, a soja tem sido amplamente atacada. Além da crescente tendência pró-carne, este ataque cerrado está, também, conectado com o surgimento de um padrão de hipermasculinidade, fruto da manosfera (comunidade que, além de promover misoginia e violência contra as mulheres, é também violenta com os próprios homens), que estabeleceu que certos alimentos devem ser totalmente evitados por serem “femininos”. Produtos à base de soja são alguns deles.
Essa ideia não é propriamente de agora: Carol J. Adams dissecou-a historicamente, socialmente e filosoficamente, há quase 40 anos, mostrando que o paradigma da carne, como alimento essencialmente masculino e associado à virilidade nasceu há mais de 200 anos, de mãos dadas com a consolidação do sistema patriarcal. Outrora, a carne representava o status económico da pessoa: a partir do século XIX passou a ser como que uma calculadora de masculinidade para os homens.
Para acompanhar o perambular do tempo, a narrativa modernizou-se e agora vende-se através de propagandas de churrasco, hambúrgueres gigantes e dietas excessivas em proteínas. A soja, por ser uma proteína vegetal, tem a sua versatilidade arrasada e rejeitada. A disseminação de que produz/imita/aumenta estrogénio no nosso corpo também é bastante aplicada para assustar os homens e relegá-la para comida de mulher.
Tudo isto atingiu proporções tão espantosas que levou a que toda esta questão da carne, da soja e da masculinidade voltasse a ser tema de estudos psicológicos e sociais. As descobertas e interligações desses estudos estão a ser, por falta de palavra melhor, fascinantes:
A rejeição da soja como espelho da masculinidade frágil: por ser rotulada como feminina, os rapazes e os homens recusam-se a consumi-la, principalmente à frente dos seus pares. Um estudo da University of Bath demonstrou que, quando a masculinidade de um homem é colocada em causa, uma das respostas imediatas é rejeitar opções vegetarianas e escolher pratos com carne vermelha;
A preferência pela carne como ferramenta performativa: o seu consumo exagerado é uma forma de deixar claro o estatuto do homem enquanto macho alfa (seja lá o que isso for). Num estudo australiano, homens que se autoidentificavam como “mais masculinos” mostraram menos intenção de reduzir o consumo de carne. Já um inquérito, neste caso norte-americano, teve 53% dos homens a considerar uma dieta carnívora como “masculina”, 49% a classificar a carne como “masculina” e 35% a associar produtos à base de soja ao “feminino”.
O poder da falsa ciência e as suas consequências: neste caso, os homens evitam soja por receio dos fitoestrogénios poderem afectar as suas hormonas. Todavia, são inúmeras as evidências médico-científicas que refutam essa premissa.
A rejeição da soja por preconceito eurocêntrico e colonial: a manosfera, à boleia da extrema-direita, recuperou discursos discriminatórios e racializados que já circulavam no século XIX, quando os impérios britânico e norte-americano associavam dietas maioritariamente vegetais dos povos asiáticos à fragilidade e à feminilidade, em contraste com a suposta virilidade ocidental ligada ao consumo de carne. Os povos asiáticos eram dóceis por comerem arroz; já os ocidentais eram fortes e conquistadores por comerem carne.
A título de curiosidade, houve uma mentalidade similar no século XVI com a colonização dos países sul-americanos por parte dos espanhóis e portugueses. Os primeiros demonizavam o milho; os segundos, a mandioca. Estes e outros alimentos eram vistos como “comida de selvagens”, ao passo que pedaços de porco, vaca e aves eram “comida de gente civilizada”.
A título de curiosidade, houve uma mentalidade similar no século XVI com a colonização dos países sul-americanos por parte dos espanhóis e portugueses. Os primeiros demonizavam o milho; os segundos, a mandioca. Estes e outros alimentos eram vistos como “comida de selvagens”, ao passo que pedaços de porco, vaca e aves eram “comida de gente civilizada”.
Carne = virilidade: a generificação alimentar e o surgimento do “soy boy”
Como mencionei, logo no início do artigo, a manosfera não só é violenta com as mulheres: também o é com os próprios homens, incluindo os que estão dentro dela. É um núcleo que se alimenta das inseguranças dos rapazes e dos homens, exagerando-as e transformando-as num problema gigante, encaminhando estrategicamente a culpa para as mulheres. Em vez de acolherem o jovem, dizem-lhe que está a falhar enquanto homem. O processo de radicalização começou.
Por esse motivo, é raro a manosfera conseguir aliciar homens que se sentem seguros em relação a si próprios (importante salientar que egocentrismo e complexo de superioridade, mesmo parecendo, não constituem autoconfiança), pelo que a táctica aplicada é investir contra a fundação dessa segurança: assim surgiu o soy boy, termo que recorre à soja para pejorar homens que rejeitam a masculinidade artificializada.
De acordo com a manosfera, o soy boy é um rapaz ou um homem fraco, submisso e traidor da masculinidade. Rapazes e homens que são incluídos nesse insulto, regra geral, fazem coisas como respeitar as mulheres, ter empatia, praticar exercício ou desporto por razões de saúde e de bem-estar (e não para parecer um fisiculturista), preferir o diálogo ao confronto directo, ler e jogar. Em suma, rapazes e homens perfeitamente normais e que estão confortáveis com os seus gostos, os seus valores e preferem lidar com as suas vulnerabilidades de uma forma mais saudável.
A alimentação, claro, está incluída nesta categorização: veganos, automaticamente, são soy boys. Homens que não são veganos mas que têm uma dieta diversificada e optam pela opção vegetariana do restaurante, também são soy boys. O que está no prato transformou-se tanto numa arma de arremesso como num escudo de defesa: no primeiro, procura-se diminuir a masculinidade de um homem, ridicularizando-o por não comer a quantidade de carne vermelha que “deveria comer”. No segundo, procura-se cimentar essa masculinidade, preservando a autoimagem, através do consumo exacerbado dessa carne.

As raízes da relação entre consumo de carne e masculinidade são aproveitadas para fazer pressão social e psicológica através de publicidade. Da esquerda para a direita, terminando em baixo: Capa da revista Muscle & Fitness, 2009; Capa de um livro da Esquire, 2011; Anúncio de uma marca de cerveja neozelandesa, 2011.
Esta ligação entre a virilidade e o consumo de carne, que a manosfera hoje explora e desenvolve hiperbolicamente, possui, como indiquei inicialmente, raízes histórico-sociais. Uma dessas raízes é, sabemos agora, uma falácia: o mito do homem-caçador. Por muito tempo acreditou-se que, nas comunidades caçadoras-recolectoras, o homem caçava e a mulher recolectava, pré-estabelecendo papéis de género. Todavia, descobriu-se que tais papéis não existiam e que tanto os homens como as mulheres praticavam as duas actividades. Também se descobriu que, quando os dois caçavam, em detrimento do homem caçar sozinho, havia mais alimento para a comunidade, fundamentando a sua sobrevivência com maior eficácia. No entanto, o mito acabou por se consolidar e tornar-se mais relevante do que os factos.
Esta ligação entre a virilidade e o consumo de carne, que a manosfera hoje explora e desenvolve hiperbolicamente, possui, como indiquei inicialmente, raízes histórico-sociais. Uma dessas raízes é, sabemos agora, uma falácia: o mito do homem-caçador. Por muito tempo acreditou-se que, nas comunidades caçadoras-recolectoras, o homem caçava e a mulher recolectava, pré-estabelecendo papéis de género. Todavia, descobriu-se que tais papéis não existiam e que tanto os homens como as mulheres praticavam as duas actividades. Também se descobriu que, quando os dois caçavam, em detrimento do homem caçar sozinho, havia mais alimento para a comunidade, fundamentando a sua sobrevivência com maior eficácia. No entanto, o mito acabou por se consolidar e tornar-se mais relevante do que os factos.
Por muitos anos, a carne era uma divisória alimentar entre classes: os mais economicamente favorecidos ingeriam-na em abundância, fossem homens ou mulheres, enquanto os menos economicamente favorecidos comiam-na com penúria. A carne, por isso, era vista como um alimento de luxo e ostentação (as famosas tartes com 24 melros, exclusivas das cortes reais, eram uma forma de mostrar isso), enquanto os cereais, as frutas e os vegetais eram tidos como incompletos e pobres – comida de camponês.
Foi por volta de 1800, com o advento da Revolução Industrial, que a associação entre virilidade e consumo de carne se firmou. O operário-máquina necessitava de carne para ficar forte e fazer bem o seu trabalho, o que incentivou à distribuição desigual dos alimentos dentro do próprio lar: enquanto os homens ficavam com os pedaços de animais e com uma refeição mais pronunciada em quantidade, as mulheres e as crianças praticamente ficavam com os restos: batatas, vegetais, pão e chá. A carne era oferecida quase exclusivamente ao homem para que ele permanecesse forte, algo imprescindível num trabalho fisicamente exigente e perigoso.
Carol J. Adams, em A Política Sexual da Carne, oferece alguns exemplos e relatos desse tempo:
Quando a pobreza forçava uma distribuição conscienciosa da carne, quem a recebia eram os homens. Muitas mulheres enfatizavam que tinham guardado a carne para o marido. Explicavam assim as conexões entre o consumo de carne e o papel masculino: “Guardo-a para ele; ele tem de comer carne.” (...) As mulheres comiam carne uma vez por semana com os filhos, enquanto o marido consumia carne e bacon “quase diariamente”.
Hoje sabemos que a força física não depende do consumo de carne e que dietas vegetarianas bem planeadas conseguem sustentar desempenho físico e massa muscular. No entanto, a crença de que a carne é imprescindível para obter essa força, bem como para provar masculinidade e virilidade, está bastante enraizada, fortalecida pelo preconceito, desinformação e pseudociência.
“A soja faz crescer mamas nos homens”
Quem nunca ouviu ou leu essa frase? Até poderia ser o mantra da soja se fosse verdadeiro, de tantas vezes que é pronunciada. Ademais, só nos homens? A sério?
Enquanto rumino, inconformada, tamanha injustiça, deixo para vocês o que os especialistas dizem sobre a soja:
Sandra Silva, nutricionista, explica que “as isoflavonas são consideradas fitoestrogénios e têm uma acção semelhante à dos nossos estrogénios endógenos”, conseguindo ligar-se aos seus receptores. Tais propriedades fazem com que:
Quando os níveis de estrogénio estão baixos (por exemplo, menopausa) – as isoflavonas podem activar ligeiramente o receptor, produzindo um efeito semelhante ao estrogénio, mas muitíssimo mais fraco;
Quando os níveis de estrogénio estão altos – as isoflavonas competem pelo receptor, fazendo com que minimize a sua acção – ou seja, têm um efeito antiestrogénico, igualmente fraco.
Mas, e nos homens?
Mesmo sendo, pelo senso comum, uma hormona feminina, o estrogénio é essencial nos homens, estando ligado à saúde óssea, líbido, função eréctil, cérebro, metabolismo e eixo hormonal. As isoflavonas agem da mesma forma, mas com um detalhe relevante: o efeito é praticamente nulo. Por esse motivo, a evidência clínica disponível não revela associação consistente que possa assinalar a soja como potenciadora ou desencadeadora de um desequilíbrio hormonal que provocará diminuição da testosterona ou seios pronunciados nos homens.
Na verdade, a soja é um alimento nutricionalmente denso. Tem proteína completa, gorduras insaturadas, hidratos de carbono, fibra, magnésio, potássio, ferro, fósforo, folato e vitamina K. Vários estudos e meta-análises apontam que:
Pode ajudar a diminuir o risco de doença cardiovascular, por reduzir moderadamente os níveis de LDL (colesterol mau);
Em caso de diabetes tipo 2, contribui para a melhoria ligeira da sensibilidade à insulina;
Em mulheres pós-menopausa, pode atenuar a perda de densidade mineral óssea;
Por fim, contrariamente ao que se pensa, a soja não aumenta o risco de cancro. De facto, alguns estudos conectam o seu consumo à diminuição desse risco em alguns tipos de cancro, como o gastrointestinal, da próstata, do colon, do endométrio e da mama.
Outro pormenor igualmente interessante: o leite de vaca contém estrogénios verdadeiros, que são mais potentes do que os fitoestrogénios presentes na soja. Todavia, em termos de saúde humana, a evidência actual não mostra efeitos hormonais clinicamente relevantes do consumo normal de leite de vaca. Sendo assim, porque nos afligimos tanto com o leite de soja, cujas isoflavonas são muitíssimo mais fracas do que os estrogénios do leite de mamífera não-humana?
Ironicamente, alguns adeptos da dieta carnívora — bastante defendida pela manosfera — incluem todas as substâncias provenientes de animais na sua alimentação, incluindo leite de vaca (os mais estritos cingem-se a carne vermelha, água e sal), ao mesmo tempo que fogem do leite de soja. Pelos vistos, os critérios usados para justificar tal dieta são ideológicos e não bioquímicos, o que nos leva, novamente, à narrativa do antepassado caçador, à normalização do especismo, à dominância e violência contra os animais como parte, não só do antropocentrismo, mas também do próprio androcentrismo, à carne como completa, vital e masculina e ao vegetal como incompleto, passivo e feminino.
Embora estas interpretações não expliquem todas as escolhas alimentares, ajudam a compreender por que razão certos receios em relação à soja persistem, apesar das evidências não os sustentarem.
***
Recursos utilizados:
A Política Sexual da Carne: Uma Teoria Feminista-Vegetariana — Carol J. Adams
Masculinity Matters for Meat Consumption: An Examination of Self-Rated Gender Typicality, Meat Consumption, and Veg*nism in Australian Men and Women — Samantha K. Stanley, Cameron Day & Patricia M. Brown
New Poll: More Than Half of Men Think Meat Is ‘Masculine’ — Physicians Committee for Responsible Medicine
The Myth of Man the Hunter: Women’s contribution to the hunt across ethnographic contexts — A Anderson, S Chilczuk, K Nelson, R Ruther, C Wall-Scheffler
The Myth of Man the Hunter: Women’s contribution to the hunt across ethnographic contexts — A Anderson, S Chilczuk, K Nelson, R Ruther, C Wall-Scheffler
Soja: Evidência, Mitos e Controvérsias — Sandra Silva
Soya products and serum lipids: a meta-analysis of randomised controlled trials — Cambridge University Press
Effects of soy consumption on metabolic parameters in patients with metabolic syndrome: A systematic review and meta-analysis — N Mohammadifard, F Sajjadi, F Haghighatdoost
The Role of Soy Isoflavones in the Prevention of Bone Loss in Postmenopausal Women: A Systematic Review with Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials — A Barańska, W Kanadys, M Bogdan, E Stępień, B Barczyński, A Kłak, A Augustynowicz, M Szajnik, U Religioni
Neither soy nor isoflavone intake affects male reproductive hormones: An expanded and updated meta-analysis of clinical studies — K E Reed, J Camargo, J Hamilton-Reeves, M Kurzer, M Messina
The associations of soya intakes with non-communicable diseases: a scoping review of meta-analyses — Cynthia Sau Chun Yip , Yuk Cheung Yip, Wendy Chan
Imagem: Like Meat
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Nota do blogue: Ao percepcionarem sobre certos pontos similares que conduzem à opressão de grupos diferentes, algumas filósofas aprofundaram os seus pensares e investigações e criaram uma vertente feminista que começou a ser difundida e discutida nos anos 70: o Ecofeminismo. Mesmo sendo relativamente recente, foi e é amplamente explicado e defendido por várias feministas de vários países: Ivone Gebara (Brasil), Mariama Sonko (Senegal), Samantha Hargreaves (África do Sul), Françoise d'Eaubonne (França), Alicia Puleo (Espanha), Vandana Shiva (Índia) e Lisa Kemmerer (EUA), autora do artigo traduzido nesta publicação, são algumas dessas mulheres.
Resumidamente, o ecofeminismo é um movimento que correlaciona o feminismo com outras lutas anti-opressão, como o ambientalismo e o especismo, também se estendendo nos direitos de outras minorias e com um olho crítico no sistema capitalista. Por outras palavras, é uma esfera filosófica que advoga a conexão entre lutas libertárias, visto as discriminações (contra mulheres, o ambiente, os animais, etc.) apresentarem simetrias nas suas posturas e perpetuações. Este ensaio de Lisa Kemmerer ajuda a entender o ponto de vista deste posicionamento feminista, além de apresentar algumas dessas simetrias.
Sobre a autora: Lisa Kemmerer é uma filósofa e activista norte-americana reconhecida pelo seu trabalho em Ética Animal e Justiça Interseccional. Bacharel em Estudos Internacionais, Mestre em Teologia e Doutora em Filosofia, é fundadora da Tapestry, uma organização sem fins lucrativos dedicada à educação e ao estudo sobre as várias estruturas opressoras e como estas estão conectadas. As suas dezenas de artigos e livros abordam, precisamente, esse tema através do ecofeminismo, ética alimentar e a consonância entre religião e direitos dos animais.
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Ecofeminismo, Mulheres, Ambiente, Animais
Lisa Kemmerer | DEP. Deportate, Esuli, Profughe, No. 23/2013
Tempo de leitura: aprox. 20 minutos | Descarregar o PDF
Sistemas de Opressão
Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.
Dualismo
O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)
Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.
Dualismo
O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)
De maneira semelhante, a “natureza” é distinguida da civilização, da cultura e dos seres humanos. A Natureza é aquilo que é não é afectado pela Humanidade, e ser humano é ser civilizado e culto: isso é ainda mais evidenciado na nossa tendência dualista de encarar os humanos como separados e distintos de todos os outros animais. O dualismo também divide a mente do corpo e a razão da emoção(1), tratando cada uma como distinta e separada. Estas categorias supostamente exclusivas de masculino/feminino, natureza/cultura e humano/animal, não reflectem adequadamente a complexidade do mundo em que vivemos e nos encontramos. (...)
Hierarquia
O pensamento dualista é corriqueiro no mundo ocidental, bem como em muitas outras civilizações. Através do dualismo, homens, seres humanos, civilização, cultura, mente e o pensamento racional são concebidos como detentores de um conjunto particular de estimadas características, compactando mulheres, animais não-humanos, natureza selvagem, corpos, o mundo material, emoções e intuição numa categoria à parte e considerada inferior. Em Pornography of Meat, a ecofeminista Carol J. Adams usa os termos “A” e “Não A” para descrever esta categorização dualística. Feministas e ecofeministas notaram que o dualismo não é apenas uma divisão de indivíduos e outros elementos em categorias separadas, mas também em categorias iguais. Qualquer elemento e qualquer pessoa inserida na categoria “Não A” é encarada como mutuamente interligada e abaixo de tudo o que compõe a categoria “A”.
A língua portuguesa(2) corrobora este raciocínio: termos depreciativos, utilizados para referir mulheres, são aplicados para referir animais não-humanos, como “vaca”, “galinha” e “porca”. Em comparação, os homens possuem poucas referências relacionadas a animais, sendo que parte das mesmas têm um cunho positivo, como “garanhão” – um forte e viril animal de grande beleza. Em contraste, adjectivos pejorativos, cuja utilização é mal-intencionada e com maldade, são frequentemente reservados para mulheres. Além disso, as mulheres também são visualmente conectadas com animais não-humanos, corpos (em oposição às mentes) e à Natureza, quando retratadas como objectos sexuais ou hipersexualizadas, desde sereias a coelhinhas [da Playboy]. Já os animais, especialmente os explorados como mercadoria, são definidos com traços físicos distintamente femininos, como olhos grandes, pestanas longas e corpos curvilíneos, como poderosamente demonstrado em The Pornography of Meat.
Opressão
Através do dualismo e da hierarquização, indivíduos, atributos e objectos físicos são separados em dois grupos. Um grupo, “A”, tem precedência sobre o outro, “Não A”: tal resulta numa hierarquia que favorece os que se encontram na categoria “A”, levando-os a ganhar poder e controlo sobre aqueles que estão na categoria “Não A”. Esse poder e controlo estão espelhados no sexismo, no antropocentrismo e no especismo. O sexismo oprime as mulheres por elas serem, simplesmente, mulheres – não porque elas são inerentemente indignas ou inferiores, mas simplesmente porque não nasceram com genitália externa e saliente. É evidente que a natureza dos órgãos genitais não é uma diferença moral relevante, ao ponto dos homens receberem privilégios e oportunidades que são negados a quem não nasceu com genitália externa e saliente.
Similarmente, o pensamento antropocêntrico tende a assumir que todos os elementos humanos — cultura, civilizações e os próprios humanos — devem ter poder e precedência sobre todos os elementos não-humanos – o mundo natural e tudo o que nele habita. Novamente, não há diferença moral relevante entre todas as coisas humanas e todas as coisas não-humanas, de modo que o primeiro tenha maior estima ou receba mais poder e privilégio sobre o segundo. Todavia, todas as coisas humanas recebem essa estima e esse poder em relação a todas as coisas naturais e não-humanas e, como resultado, foi concluído como certo e apropriado que a Natureza seja vista como um recurso para uso humano, a qual os humanos exploram, controlam e manipulam para os seus fins pessoais(3). E, frisando, não ser humano não constitui uma distinção moralmente relevante, o que não justifica a exploração, controlo e manipulação dos animais pelos humanos. Ainda assim, aos humanos foi concedida esta vantagem, que perpetua a exploração e manipulação dos animais por e para os seres humanos.
Apesar da falta de qualquer distinção moral e relevante entre homens e não-homens, entre seres humanos, as suas civilizações e o resto da Natureza, e entre os seres humanos e o restante mundo animal, homens e humanos ocupam lugares de privilégio e poder, controlando e manipulando os outros e o mundo ao seu redor. Eis a definição de sexismo, antropocentrismo e especismo: todos os seres e outros elementos que foram agrupados, em conjunto, na categoria “Não A” — mulheres, Natureza e animais não-humanos — são injustamente discriminados e oprimidos por, em nome e em relação aos que se inserem na categoria “A”.
Tal situação justifica o controlo de “A”: quem está na categoria “A” é avaliado como alguém que pode e deve estar no comando, de modo a obter vantagens e servir-se de quem está em “Não A”, o que normaliza ser sexista, antropocêntrico e especista. Por exemplo, as mulheres, ao serem assinaladas como estando mais preocupadas com aspectos materiais (como o corpo) do que com as questões da mente, e sendo julgadas como mais propensas à emoção do que à razão, faz sentido que os homens sejam mais incentivados à educação e formação, bem como terem mais possibilidades de emprego. Assim, também faz sentido as mulheres serem empurradas para o cuidado do lar, para o trabalho doméstico e para a reprodução(4). Se as mulheres são menos cultas e menos civilizadas, é pertinente os homens controlarem as suas vidas. E, da mesma maneira, se as vacas e as galinhas carecem de razão e cultura, pelo que são mais corpo do que mente, também elas podem ser controladas por quem está na categoria “A” e usadas para propósitos “superiores” pela referida.
Através deste processo, “Não A” é visto como/torna-se dependente de “A”. As mulheres são vistas como/tornam-se dependentes dos homens para protecção e apoio financeiro; a Natureza é vista como/torna-se dependente do ser humano para cultivar e administrar áreas selvagens indomadas (distribuição da vida selvagem, inundações e incêndios florestais, por exemplo) e, supostamente, para proteger a Natureza da obliteração; e os animais não-humanos são vistos como/tornam-se dependentes do ser humano em aspectos como “gerir” (como na gestão da vida selvagem), cuidar e fornecer sustento e assistência médica (animais domésticos, etc.). E, em troca de protecção, gerenciamento e disposição, espera-se que aqueles que estão na categoria “Não A” atendam às suas necessidades – como cozinhar, limpar e proporcionar satisfação sexual, oferecer produção e pasto, e fornecer leite, ovos e carne, por exemplo. As mulheres, a Natureza e os animais são igualmente classificados como inferiores, dependentes e, por isso, devidamente controlados e explorados.
Na verdade, por os indivíduos “Não A” serem avaliados como dependentes e irracionais [definições essas criadas pelo grupo que os discrimina, explora e oprime], muitos dos que se encontram na categoria “A” sentem-se no direito de controlar quem está em “Não A” com violência. Sentem, consciente ou inconscientemente, que uma camada de força, cultura e de razão são transferidas para os que estão na categoria “Não A”, daí as mulheres, a Natureza e os animais deverem ser subservientes, de variadas maneiras, à categoria “A”.
Acontece que, mesmo quando “A” não fornece nada [de positivo] para “Não A”, os indivíduos de “A” mantêm uma posição de poder e de controlo sobre “Não A”. Recentemente [e ainda presente em algumas civilizações e culturas], era impossível uma mulher acusar o marido de violação; violentar a Terra continua a ser legal; o abuso de animais, só agora, está a começar a ser reconhecido e tratado como um crime grave (mas, regra geral, tal acontece quando os infractores são visados como perigosos para os seus semelhantes). Assim, não é surpreendente que a violência doméstica, o assédio, a violação em encontros amorosos, a violência contra animais e o abuso permaneçam teimosamente (e irritantemente) tão comuns.

Mulheres e Animais – Corpos Para Exploração
Por partilharem semelhanças entre si, do que com uma árvore ou um riacho, os paralelos da opressão são particularmente marcantes no que diz respeito às mulheres e aos animais não-humanos. Os detentores de poder (“A”) tendem a controlar e a explorar os corpos femininos, especialmente a sua biologia reprodutiva – seja mulher humana ou fêmea animal. A autoridade do marido sobre a esposa, e a incapacidade histórica de acusá-lo de violação ou de reivindicar os seus filhos contra a vontade deste, é um dos inúmeros exemplos do controlo de “A” sobre “Não A”. As mulheres e as crianças são, há muito, tratadas como propriedade exclusiva dos maridos – é a sua mulher e, portanto, a sua vagina para aceder, o seu útero para preencher, os seus filhos para continuarem com o seu nome, a sua linhagem, o seu trabalho e a sua propriedade.
Da mesma forma, os praticantes da denominada “criação animal” também compreendem o gado, os porcos e os perus como a sua propriedade pessoal – a sua vaca e a sua porca e, portanto, as suas vaginas para aceder, os seus úteros para preencher e os seus filhos para serem explorados para ganhos pessoais.
Assim como os seres humanos que criam animais para essa finalidade, que mantêm esses indivíduos em situação de dependência forçada, utilizando os seus corpos físicos para atingir os seus próprios fins, engravidando as fêmeas e reivindicando os seus descendentes, os homens, tradicionalmente, mantinham as esposas em posição de dependência forçada e usavam os seus corpos físicos para os seus próprios fins, engravidando-as e reivindicando os seus descendentes. Lamentavelmente, ainda são muitos os que ainda o fazem.
Embora o casamento tradicional(5) denuncie amplamente o controlo de “A” sobre “Não A”, o tráfico sexual é outro exemplo adequado deste fenómeno. As mulheres apanhadas na rede do tráfico sexual são vítimas que têm os seus corpos vistos como uma mercadoria que pode ser explorada lucrativamente por e para aqueles da categoria “A”. Essas vítimas são zurzidas por terem corpos femininos, órgãos genitais femininos e por serem indivíduos “Não A”. Por serem “Não A”, são vistas pelos indivíduos “A” como controláveis e exploráveis, em que outros indivíduos “A” as comprarão e, portanto, “possuem” parte do indivíduo “Não A”.
Normalmente, essa “propriedade” é comprada para o propósito explícito de “A” ter acesso ao corpo feminino para prazer sexual e, também, para trabalho doméstico. Outros indivíduos “Não A”, vulgo, animais não-humanos, também são adquiridos para os seus corpos e o seu trabalho serem explorados por pessoas da categoria “A” que desejam conquistar objectivos pessoais, nomeadamente o lucro. Assim como as pessoas que são capturadas pela indústria do tráfico sexual, os animais “de criação” são explorados especificamente por causa da sua biologia feminina. Vacas, porcas, peruas e galinhas são, adicionalmente, exploradas pelo seu leite materno, ovos e para reprodução.
Vacas na Indústria dos Lacticínios
Os “seios” (tetas, glândulas mamárias, úberes) e o leite materno das vacas são comoditizados, explorados e controlados, para fins lucrativos, por aqueles que possuem e administram fazendas e indústrias leiteiras. Os mamíferos só amamentam após o parto, pelo que os produtores recorrem a um método denominado rape rack para inseminar artificialmente vacas: consiste em inserir a mão e o braço nas suas vaginas e aspergir o esperma de um bovino através de um dispositivo próprio, para assim engravidar as vacas à força. Quando o bezerro nasce, o fazendeiro retira-o imediatamente da mãe, apesar do desespero das vacas, das suas tentativas em defender as suas crias e do seu lamento contínuo pela perda dos seus recém-nascidos. Dependendo do sexo, o bezerro ou é vendido para ser carne de vitela (machos) ou para ser criado e engravidado à força como a sua mãe (fêmeas), bem como ordenhado para a produção de produtos lácteos. Privada do seu rebento, uma vaca muge desesperadamente durante dias a fio, enquanto as máquinas estão ocupadas a bombear o leite que seria para o seu filho e que será vendido como iogurte, gelado, queijo e leite.
Tal como acontece com as mulheres e jovens apanhadas nas indústrias da violência sexual(6), o stress e a miséria que as vacas experimentam nas fazendas leiteiras têm o seu preço. Estes animais, embora possam viver naturalmente até aos 25 anos, nesta indústria começam a ser um “gasto” depois de cinco ou seis anos de gravidezes, partos, separações forçadas e ordenha perpétua. Nessa fase, são encaminhadas para o abate. Como os seus corpos foram brutalmente fustigados, frequentemente chegam ao matadouro incapazes de andar ou ficar de pé, sendo por isso drogadas ou empurradas para fora dos camiões de transporte. As vacas sofrem na indústria do leite por serem fêmeas — e porque amamentam quando dão à luz — e porque os produtores de leite sentem-se no direito de manipular e explorar a biologia feminina para ganho pessoal. Esses produtores lucram com as secreções mamárias das vacas, com a sua prole e, eventualmente, com o seu corpo quando ela é vendida para a produção de hambúrgueres.
Galinhas na Indústria de Ovos
Assim como as vacas, as galinhas são exploradas precisamente pela sua biologia feminina, já que os seus corpos produzem ovos. Quando as galinhas atingem maturidade sexual suficiente para nidificar, põem ovos até definirem uma ninhada e aí passam pela incubação até os ovos eclodirem. Obviamente, não é nada disso que acontece com as galinhas na indústria de ovos. Nesse negócio, os ovos são incubados num ambiente isolado, longe da mãe galinha: em vez de nascer no escuro, sob a penugem quente e ao som do cacarejo da sua mãe, o pintainho nasce numa superfície dura sob uma luz néon brilhante e silenciosa. As crias passarão o resto das suas vidas num ambiente artificial, sem ar fresco ou luz natural, em confinamento caótico com muitas outras galinhas. (...)
O pintainho recém-nascido é movido ao longo de uma esteira rolante: nessa etapa, os machos são retirados e descartados. Algumas indústrias empilham-nos em sacos de plástico fechados, para que sufoquem até à morte, enquanto outras os atiram para um moedor (vivos). Tal ocorre por os galos não terem utilidade para a indústria dos ovos.
Os pintainhos fêmeas, sem dúvida, ouvem os pios gritantes e desesperados dos seus irmãos enquanto continuam a descer pela esteira rolante, onde são agarradas e empurradas para uma máquina munida de uma lâmina que lhes corta uma parte significativa dos seus bicos. Daí em diante, serão incapazes de se alimentar naturalmente ou de alisar as suas penas adequadamente. Esse processo, o debeaking [debicagem], é extremamente doloroso mas estabelecido como vital para que as galinhas, num ambiente tão lotado e miserável, não se biquem umas nas outras, talvez até à morte.
Se sobreviver à remoção do bico, o pintainho fêmea será transferido para um barracão gigantesco com milhares de outros pintainhos fêmeas, onde irá crescer durante cinco meses. Caso sobreviver [a taxa de mortalidade é elevadíssima], a agora galinha será enviada para as gaiolas em bateria, do tamanho de um micro-ondas, geralmente com outras cinco galinhas. Aí, ela permanecerá, de pé, sobre uma superfície de arames, num espaço que chega a ter mais de 100 mil aves nas mesmas condições. As gaiolas estão dispostas em longas fileiras e empilhadas, o que faz com que as fezes das galinhas que estão por cima acabem por cair nas que estão por baixo. Com o tempo, os seus corpos ficam imundos e as penas quebradiças, de tão sujas.
Muitas vezes, uma companheira de jaula morre e as outras galinhas são obrigadas a viver com o cadáver. A sua carne, que raspa contra os arames da gaiola, causa feridas abertas. Os seus pulmões, que nada mais respiram, são danificados pelo amónio que, consequentemente, se vai espalhando nas cada vez mais sujas e abarrotadas gaiolas.
As gaiolas foram projectadas para roubar da jovem galinha os seus preciosos ovos, que rolam do seu corpo quente para um cocho e transportados para processamento. Durante um ano, sensivelmente, as galinhas continuam a pôr ovos que desaparecem imediatamente assim que são postos, frustrando todos os seus instintos naturais. Assim que este ciclo começa a diminuir, a comida em frente às suas jaulas também diminui. Durante uma a três semanas essas galinhas passam fome, ao qual os criadores chamam de “muda forçada”, e vivem entre e em cima de companheiras enclausuradas que estão mortas ou moribundas. As sobreviventes, quando entram num novo ciclo de postura, têm a sua comida restaurada. Mais uma vez, as aves colocam ovos diariamente que lhes são retirados. A elas nunca lhes é permitido incubar, nutrir as suas crias, criar relacionamentos com os seus filhos ou compartilhar a sua companhia numa comunidade livre de galos e galinhas.
Fortuitamente, o ciclo de postura reduz outra vez e, embora naturalmente elas sejam capazes de iniciar outro ciclo, a indústria não deseja continuar a despender recursos com elas quando começam a apresentar dificuldades ou demasiadas diminuições, até porque os seus corpos podem ser vendidos. São retiradas abruptamente das suas gaiolas, comumente puxadas por uma asa ou uma pata, pela cabeça ou pela cauda, o que pode causar fracturas ou deslocações ósseas e, ou são trituradas (vivas) e vendidas como fertilizante, soterradas (muito provavelmente vivas) ou transportadas num camião para o matadouro. Se enviadas para abate, serão penduradas de cabeça para baixo, com as pernas presas em algemas ou ganchos. É dessa forma que são levadas até à área da matança, onde alguém cortará as suas gargantas. Algumas, mesmo com as gargantas rasgadas, chegam vivas até ao tanque de água a ferver, no qual acabarão, então, por hediondamente sucumbir.
Uma galinha na indústria de ovos sofre toda essa crueldade simplesmente por ter nascido com órgãos reprodutivos femininos, numa sociedade — a nossa sociedade — em que “A” se sente no direito de manipular e explorar os seus corpos e os seus sistemas reprodutores para os seus próprios fins. Assim como homens sexistas acreditam que têm o direito de controlar e explorar mulheres e meninas, os humanos especistas acreditam que têm direito de controlar e explorar animais “de criação”, invadindo vaginas e preenchendo úteros, reivindicando (e explorando) a prole, privando os indivíduos da sua liberdade e, em última análise, tomando as suas vidas.
Opressão Compartilhada, Libertação Compartilhada
As ecofeministas reconheceram causas comuns de discriminação, tais como o dualismo e a hierarquização, levando a sistemas abrangentes de opressão. Discerniram que as mulheres, a Natureza e os animais são equitativamente desvalorizados em relação a quem está na categoria “A” e que são igualmente controlados e explorados pelos da categoria em questão. Repararam que as fêmeas, independentemente de serem humanas ou não-humanas, são igualmente desdenhadas em relação aos seus opressores e frequentemente associadas à categoria de indivíduos “Não A”, sendo vituperadas de forma semelhante pelos indivíduos da categoria “A” por conta dos seus corpos femininos e da sua respectiva anatomia reprodutiva.
Ao desenterrar estes paralelos, as ecofeministas chegaram à conclusão de que não é apropriado lutar pela libertação de apenas um grupo oprimido e ignorar os restantes que são relegados à categoria “Não A” e, portanto, sistematicamente oprimidos e explorados por indivíduos da categoria “A”. Para o ecofeminismo, que reconhece a interligação das opressões várias, libertar apenas um grupo oprimido é, além de enviesada, uma tarefa vazia e uma resposta egoísta. À luz dos sistemas de opressão, expostos pelas ecofeministas, o trabalho em mãos é, claramente, desarraigar causas comuns e desmantelar esses sistemas opressores que estão profundamente enraizados e generalizados. (...)
Resumo
As mulheres, a Natureza e os animais não-humanos padecem de similar discriminação, sendo controlados e explorados num mundo onde há muito se assumiu que é adequado que as mulheres sirvam aos homens, que os humanos explorem, controlem e manipulem o mundo natural e que os humanos explorem, controlem e manipulem os animais não-humanos. Mais notavelmente, as mulheres e os animais “de criação” são manipulados e explorados por causa da sua biologia feminina (...). As ecofeministas inferem que qualquer tentativa de libertar apenas aqueles que se parecem connosco — da nossa espécie — não é apenas egoísta como pode não ter sucesso: as mulheres não serão e não podem ser libertadas até que sistemas abrangentes de opressão e exploração sejam desmantelados, incluindo, além do sexismo, o antropocentrismo, o especismo, entre outros. Por esse motivo, muitas ecofeministas adoptaram uma alimentação vegetal, recusando a apoiar as indústrias da carne, do leite e dos ovos, e aliaram-se a ambientalistas e defensores dos animais com a intenção de ajudar a acabar com a opressão e a exploração em todas as suas formas insidiosas.
(1) Nota adicional da tradutora: Muitos filósofos, ao longo dos séculos, promoveram e enrijeceram este dualismo, associando o elemento racional ao masculino e o elemento emocional ao feminino. Veja-se, por exemplo, Espinosa no seu Tractatus Theologico-Politicus, ao argumentar que as mulheres são racionalmente mais fracas do que os homens e que, por isso, não se devem envolver nas questões políticas. Também afirmou, na mesma obra, que “A lei contra a matança dos animais é baseada mais na superstição vazia e numa compaixão feminina do que propriamente na razão” (E4p37s1).
(2) Adaptação da tradução.
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(4) Nota pessoal da tradutora: A autora não está, com esta inferência, a criticar as mulheres que decidiram, livremente, ficar em casa e a tomar conta dos filhos. A crítica deve-se, sim, ao que infelizmente acontece num contexto geral, em que as mulheres continuam a ser incentivadas, pressionadas e até mesmo coagidas a essas actividades mesmo contra a sua vontade. É uma situação bastante recorrente e que perpetua a discriminação violenta de muitas meninas e mulheres, que permanecem sem o direito de terem autonomia sobre a suas próprias vidas e de poderem possuir escolhas pessoais.
(5) Mais uma vez, a autora não está a atacar quem opta por este tipo de casamento. O alerta é para a ainda utilização do casamento como ferramenta de subserviência feminina, algo que se estendeu milenarmente na nossa sociedade e que continua enraizado em várias civilizações e tradições familiares.
(6) Considero importante frisar que a autora não está a comparar as mulheres, vítimas do tráfico humano e sexual, com as fêmeas não-humanas que são exploradas para consumo. A intenção é apresentar pontos comuns, fomentadores das respectivas opressões, e que acabam por interligar a discriminação de ambos os grupos.
Aceder ao artigo original e integral aqui.
Tradução para português europeu de Raposa Herbívora
17/01/2019
Dieta vegetariana eliminaria mais de 8,000 casos de cancro por ano no Reino Unido, diz estudo
Um estudo revelou que uma alimentação vegetariana poderia reduzir, drasticamente, o número de casos anuais de cancro no Reino Unido. Só o corte do consumo de carne vermelha e processada levaria a menos 8,800 casos de cancro.
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Pela primeira vez Maisie, uma vaca salva de uma fazenda de lacticínios, pode finalmente ser mãe sem ter o seu filho levado para longe de si. Antes de ser resgatada, deu à luz três vezes e em todas elas teve os seus filhos retirados e vendidos.
Felizmente, todo o sofrimento pelo qual Maisie passou tem os dias contados. Devido a problemas de saúde e idade avançada, o fazendeiro deixou de conseguir cuidar da quinta e decidiu encerrá-la. Todas as outras vacas foram vendidas num leilão à excepção de Maisie, que foi encaminhada para o Poplar Spring Animal Sanctuary.
Cozinhar sem leite, ovos, gelatina e mel? Sim, é completamente possível! Seja como agente de crescimento, de ligação, ou até mesmo para adoçar, existem bastantes ingredientes 100% vegetais que fazem o mesmo trabalho e que não interferem na qualidade e sabor dos pratos.
Neste e-book encontrarão dezenas de alternativas de origem vegetal para todos esses produtos de origem animal, assim como informações importantes, comparação de doses e algumas receitas de fazer água na boca. Vejam como podem fazer panquecas sem ovos, cheesecake sem gelatina, entre outras delícias sem crueldade, e abracem o lado verde da força❤
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Com o crescimento do veganismo o número de alternativas vegetais aos produtos animais também aumentou. O queijo, uma dessas alternativas, é cada vez mais fácil de ser encontrado, o que ajuda a motivar os consumidores a experimentar opções igualmente saborosas mas isentas de sofrimento e muito mais saudáveis. Todavia, também existem inúmeras formas de fazer queijo vegetal em casa e que ficam igualmente deliciosas (sem contar que é mais barato). Eis alguns exemplos :)
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Por coincidência, ou talvez não, o aumento do veganismo tem gerado inúmeros “estudos” que procuram problematizá-lo, criando desvantagens, obstáculos e doenças que não existem. Um desses estudos, que foi publicado recentemente pela Revista Superinteressante, anuncia que as crianças que consomem leites vegetais são mais baixas em comparação com as que consomem leite de vaca. De acordo com o mesmo, “após analisarem 5034 meninos e meninas de 2 a 6 anos de idade, os especialistas notaram que a diferença de altura de uma criança de 3 anos que tomava três copos de bebida vegetal para outra da mesma idade que bebia três copos de leite de vaca era de 1,5 centímetros”.
O artigo continua com a questão do cálcio para um correcto desenvolvimento infantil, comparando o leite de vaca com arroz e nozes e rematando que o primeiro tem mais cálcio dos que os últimos. Esqueceram-se foi de referir que existem mais alimentos ricos em cálcio e que o leite está cheio de pus e hormonas, mas a Julia Harger do Vegana é a sua mãe esmiuçou o artigo até à última centelha e tratou de desmascará-lo como só ela consegue fazer. Obrigada Julia, por dares um chapadão de luva branca ao sensacionalismo bacoco patrocinado pelos interesses da indústria dos lacticínios. Vale realçar que a Julia tem uma filha lindíssima, a Domi, que transpira vitalidade e não consome quaisquer alimentos de origem animal, revelando que é possível criar crianças felizes e saudáveis sem explorar e matar seres sencientes.
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Muitas pessoas acreditam que as vacas dão leite constantemente e que, por isso, precisam de ser ordenhadas. A ideia de que o leite que compramos no supermercado provém de animais criados ao ar livre e imensamente felizes, como os anúncios insistem em transmitir, também ajuda a esconder a realidade de uma indústria que explora, mutila, viola e mata milhões de vidas anualmente.
Esta realidade, que é bem mais negra do que o céu azul e os prados verdes que idealizamos, é constituída por várias etapas que, apesar de diferentes, têm algo em comum: o sofrimento perpetuado para que o ser humano possa continuar a consumir leite e derivados.
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