26/03/2026

Rascunhos Antiespecistas | Sexismo & Especismo: Um Ensaio de Lisa Kemmerer


Nota do blogue: Ao percepcionarem sobre certos pontos similares que conduzem à opressão de grupos diferentes, algumas filósofas aprofundaram os seus pensares e investigações e criaram uma vertente feminista que começou a ser difundida e discutida nos anos 70: o Ecofeminismo. Mesmo sendo relativamente recente, foi e é amplamente explicado e defendido por várias feministas de vários países: Ivone Gebara (Brasil), Mariama Sonko (Senegal), Samantha Hargreaves (África do Sul), Françoise d'Eaubonne (França), Alicia Puleo (Espanha), Vandana Shiva (Índia) e Lisa Kemmerer (EUA), autora do artigo traduzido nesta publicação, são algumas dessas mulheres.

Resumidamente, o ecofeminismo é um movimento que correlaciona o feminismo com outras lutas anti-opressão, como o ambientalismo e o especismo, também se estendendo nos direitos de outras minorias e com um olho crítico no sistema capitalista. Por outras palavras, é uma esfera filosófica que advoga a conexão entre lutas libertárias, visto as discriminações (contra mulheres, o ambiente, os animais, etc.) apresentarem simetrias nas suas posturas e perpetuações. Este ensaio de Lisa Kemmerer ajuda a entender o ponto de vista deste posicionamento feminista, além de apresentar algumas dessas simetrias.

Sobre a autora: Lisa Kemmerer é uma filósofa e activista norte-americana reconhecida pelo seu trabalho em Ética Animal e Justiça Interseccional. Bacharel em Estudos Internacionais, Mestre em Teologia e Doutora em Filosofia, é fundadora da Tapestry, uma organização sem fins lucrativos dedicada à educação e ao estudo sobre as várias estruturas opressoras e como estas estão conectadas. As suas dezenas de artigos e livros abordam, precisamente, esse tema através do ecofeminismo, ética alimentar e a consonância entre religião e direitos dos animais.

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Ecofeminismo, Mulheres, Ambiente, Animais
Lisa Kemmerer | DEP. Deportate, Esuli, Profughe, No. 23/2013

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Sistemas de Opressão

Na sua busca para apurar e expor as causas do sexismo, as feministas exploraram o pensamento dualista e a tendência de se formar hierarquias. Com o tempo, essas formas de ver e organizar os indivíduos e o mundo passaram a ser entendidas como forças fundamentais que sustentam e apoiam o sexismo. As ecofeministas, porventura, apontaram que essas mesmas forças criam e apoiam sistemas de opressão que afectam, entre outros elementos, as mulheres, a Natureza e os animais não-humanos.

Dualismo

O dualismo é uma forma de ordenar o mundo através do uso de opostos, como masculino/feminino, civilização/natureza e humano/animal. Esta visão promove uma compreensão reducionista do mundo, em que qualquer coisa e qualquer pessoa que não se qualificar para uma determinada categoria é excluída da mesma e torna-se no outro. O dualismo divide, assim, os seres vivos em duas categorias sexuais: todos os homens são agrupados no nascimento com base na genitália saliente visível, e são considerados separados e distintos dos indivíduos que não possuem genitália saliente – o denominado sexo “oposto”. (...)

De maneira semelhante, a “natureza” é distinguida da civilização, da cultura e dos seres humanos. A Natureza é aquilo que é não é afectado pela Humanidade, e ser humano é ser civilizado e culto: isso é ainda mais evidenciado na nossa tendência dualista de encarar os humanos como separados e distintos de todos os outros animais. O dualismo também divide a mente do corpo e a razão da emoção(1), tratando cada uma como distinta e separada. Estas categorias supostamente exclusivas de masculino/feminino, natureza/cultura e humano/animal, não reflectem adequadamente a complexidade do mundo em que vivemos e nos encontramos. (...)

Hierarquia

O pensamento dualista é corriqueiro no mundo ocidental, bem como em muitas outras civilizações. Através do dualismo, homens, seres humanos, civilização, cultura, mente e o pensamento racional são concebidos como detentores de um conjunto particular de estimadas características, compactando mulheres, animais não-humanos, natureza selvagem, corpos, o mundo material, emoções e intuição numa categoria à parte e considerada inferior. Em Pornography of Meat, a ecofeminista Carol J. Adams usa os termos “A” e “Não A” para descrever esta categorização dualística. Feministas e ecofeministas notaram que o dualismo não é apenas uma divisão de indivíduos e outros elementos em categorias separadas, mas também em categorias iguais. Qualquer elemento e qualquer pessoa inserida na categoria “Não A” é encarada como mutuamente interligada e abaixo de tudo o que compõe a categoria “A”.

A língua portuguesa(2) corrobora este raciocínio: termos depreciativos, utilizados para referir mulheres, são aplicados para referir animais não-humanos, como “vaca”, “galinha” e “porca”. Em comparação, os homens possuem poucas referências relacionadas a animais, sendo que parte das mesmas têm um cunho positivo, como “garanhão” – um forte e viril animal de grande beleza. Em contraste, adjectivos pejorativos, cuja utilização é mal-intencionada e com maldade, são frequentemente reservados para mulheres. Além disso, as mulheres também são visualmente conectadas com animais não-humanos, corpos (em oposição às mentes) e à Natureza, quando retratadas como objectos sexuais ou hipersexualizadas, desde sereias a coelhinhas [da Playboy]. Já os animais, especialmente os explorados como mercadoria, são definidos com traços físicos distintamente femininos, como olhos grandes, pestanas longas e corpos curvilíneos, como poderosamente demonstrado em The Pornography of Meat.

Opressão

Através do dualismo e da hierarquização, indivíduos, atributos e objectos físicos são separados em dois grupos. Um grupo, “A”, tem precedência sobre o outro, “Não A”: tal resulta numa hierarquia que favorece os que se encontram na categoria “A”, levando-os a ganhar poder e controlo sobre aqueles que estão na categoria “Não A”. Esse poder e controlo estão espelhados no sexismo, no antropocentrismo e no especismo. O sexismo oprime as mulheres por elas serem, simplesmente, mulheres – não porque elas são inerentemente indignas ou inferiores, mas simplesmente porque não nasceram com genitália externa e saliente. É evidente que a natureza dos órgãos genitais não é uma diferença moral relevante, ao ponto dos homens receberem privilégios e oportunidades que são negados a quem não nasceu com genitália externa e saliente.

Similarmente, o pensamento antropocêntrico tende a assumir que todos os elementos humanos — cultura, civilizações e os próprios humanos — devem ter poder e precedência sobre todos os elementos não-humanos – o mundo natural e tudo o que nele habita. Novamente, não há diferença moral relevante entre todas as coisas humanas e todas as coisas não-humanas, de modo que o primeiro tenha maior estima ou receba mais poder e privilégio sobre o segundo. Todavia, todas as coisas humanas recebem essa estima e esse poder em relação a todas as coisas naturais e não-humanas e, como resultado, foi concluído como certo e apropriado que a Natureza seja vista como um recurso para uso humano, a qual os humanos exploram, controlam e manipulam para os seus fins pessoais(3). E, frisando, não ser humano não constitui uma distinção moralmente relevante, o que não justifica a exploração, controlo e manipulação dos animais pelos humanos. Ainda assim, aos humanos foi concedida esta vantagem, que perpetua a exploração e manipulação dos animais por e para os seres humanos.

Apesar da falta de qualquer distinção moral e relevante entre homens e não-homens, entre seres humanos, as suas civilizações e o resto da Natureza, e entre os seres humanos e o restante mundo animal, homens e humanos ocupam lugares de privilégio e poder, controlando e manipulando os outros e o mundo ao seu redor. Eis a definição de sexismo, antropocentrismo e especismo: todos os seres e outros elementos que foram agrupados, em conjunto, na categoria “Não A” — mulheres, Natureza e animais não-humanos — são injustamente discriminados e oprimidos por, em nome e em relação aos que se inserem na categoria “A”.

Tal situação justifica o controlo de “A”: quem está na categoria “A” é avaliado como alguém que pode e deve estar no comando, de modo a obter vantagens e servir-se de quem está em “Não A”, o que normaliza ser sexista, antropocêntrico e especista. Por exemplo, as mulheres, ao serem assinaladas como estando mais preocupadas com aspectos materiais (como o corpo) do que com as questões da mente, e sendo julgadas como mais propensas à emoção do que à razão, faz sentido que os homens sejam mais incentivados à educação e formação, bem como terem mais possibilidades de emprego. Assim, também faz sentido as mulheres serem empurradas para o cuidado do lar, para o trabalho doméstico e para a reprodução(4). Se as mulheres são menos cultas e menos civilizadas, é pertinente os homens controlarem as suas vidas. E, da mesma maneira, se as vacas e as galinhas carecem de razão e cultura, pelo que são mais corpo do que mente, também elas podem ser controladas por quem está na categoria “A” e usadas para propósitos “superiores” pela referida.

Através deste processo, “Não A” é visto como/torna-se dependente de “A”. As mulheres são vistas como/tornam-se dependentes dos homens para protecção e apoio financeiro; a Natureza é vista como/torna-se dependente do ser humano para cultivar e administrar áreas selvagens indomadas (distribuição da vida selvagem, inundações e incêndios florestais, por exemplo) e, supostamente, para proteger a Natureza da obliteração; e os animais não-humanos são vistos como/tornam-se dependentes do ser humano em aspectos como “gerir” (como na gestão da vida selvagem), cuidar e fornecer sustento e assistência médica (animais domésticos, etc.). E, em troca de protecção, gerenciamento e disposição, espera-se que aqueles que estão na categoria “Não A” atendam às suas necessidades – como cozinhar, limpar e proporcionar satisfação sexual, oferecer produção e pasto, e fornecer leite, ovos e carne, por exemplo. As mulheres, a Natureza e os animais são igualmente classificados como inferiores, dependentes e, por isso, devidamente controlados e explorados.

Na verdade, por os indivíduos “Não A” serem avaliados como dependentes e irracionais [definições essas criadas pelo grupo que os discrimina, explora e oprime], muitos dos que se encontram na categoria “A” sentem-se no direito de controlar quem está em “Não A” com violência. Sentem, consciente ou inconscientemente, que uma camada de força, cultura e de razão são transferidas para os que estão na categoria “Não A”, daí as mulheres, a Natureza e os animais deverem ser subservientes, de variadas maneiras, à categoria “A”.

Acontece que, mesmo quando “A” não fornece nada [de positivo] para “Não A”, os indivíduos de “A” mantêm uma posição de poder e de controlo sobre “Não A”. Recentemente [e ainda presente em algumas civilizações e culturas], era impossível uma mulher acusar o marido de violação; violentar a Terra continua a ser legal; o abuso de animais, só agora, está a começar a ser reconhecido e tratado como um crime grave (mas, regra geral, tal acontece quando os infractores são visados como perigosos para os seus semelhantes). Assim, não é surpreendente que a violência doméstica, o assédio, a violação em encontros amorosos, a violência contra animais e o abuso permaneçam teimosamente (e irritantemente) tão comuns.


Mulheres e Animais  Corpos Para Exploração

Por partilharem semelhanças entre si, do que com uma árvore ou um riacho, os paralelos da opressão são particularmente marcantes no que diz respeito às mulheres e aos animais não-humanos. Os detentores de poder (“A”) tendem a controlar e a explorar os corpos femininos, especialmente a sua biologia reprodutiva – seja mulher humana ou fêmea animal. A autoridade do marido sobre a esposa, e a incapacidade histórica de acusá-lo de violação ou de reivindicar os seus filhos contra a vontade deste, é um dos inúmeros exemplos do controlo de “A” sobre “Não A”. As mulheres e as crianças são, há muito, tratadas como propriedade exclusiva dos maridos – é a sua mulher e, portanto, a sua vagina para aceder, o seu útero para preencher, os seus filhos para continuarem com o seu nome, a sua linhagem, o seu trabalho e a sua propriedade.

Da mesma forma, os praticantes da denominada “criação animal” também compreendem o gado, os porcos e os perus como a sua propriedade pessoal – a sua vaca e a sua porca e, portanto, as suas vaginas para aceder, os seus úteros para preencher e os seus filhos para serem explorados para ganhos pessoais.

Assim como os seres humanos que criam animais para essa finalidade, que mantêm esses indivíduos em situação de dependência forçada, utilizando os seus corpos físicos para atingir os seus próprios fins, engravidando as fêmeas e reivindicando os seus descendentes, os homens, tradicionalmente, mantinham as esposas em posição de dependência forçada e usavam os seus corpos físicos para os seus próprios fins, engravidando-as e reivindicando os seus descendentes. Lamentavelmente, ainda são muitos os que ainda o fazem.

Embora o casamento tradicional(5) denuncie amplamente o controlo de “A” sobre “Não A”, o tráfico sexual é outro exemplo adequado deste fenómeno. As mulheres apanhadas na rede do tráfico sexual são vítimas que têm os seus corpos vistos como uma mercadoria que pode ser explorada lucrativamente por e para aqueles da categoria “A”. Essas vítimas são zurzidas por terem corpos femininos, órgãos genitais femininos e por serem indivíduos “Não A”. Por serem “Não A”, são vistas pelos indivíduos “A” como controláveis e exploráveis, em que outros indivíduos “A” as comprarão e, portanto, “possuem” parte do indivíduo “Não A”.

Normalmente, essa “propriedade” é comprada para o propósito explícito de “A” ter acesso ao corpo feminino para prazer sexual e, também, para trabalho doméstico. Outros indivíduos “Não A”, vulgo, animais não-humanos, também são adquiridos para os seus corpos e o seu trabalho serem explorados por pessoas da categoria “A” que desejam conquistar objectivos pessoais, nomeadamente o lucro. Assim como as pessoas que são capturadas pela indústria do tráfico sexual, os animais “de criação” são explorados especificamente por causa da sua biologia feminina. Vacas, porcas, peruas e galinhas são, adicionalmente, exploradas pelo seu leite materno, ovos e para reprodução.

Vacas na Indústria dos Lacticínios

Os “seios” (tetas, glândulas mamárias, úberes) e o leite materno das vacas são comoditizados, explorados e controlados, para fins lucrativos, por aqueles que possuem e administram fazendas e indústrias leiteiras. Os mamíferos só amamentam após o parto, pelo que os produtores recorrem a um método denominado rape rack para inseminar artificialmente vacas: consiste em inserir a mão e o braço nas suas vaginas e aspergir o esperma de um bovino através de um dispositivo próprio, para assim engravidar as vacas à força. Quando o bezerro nasce, o fazendeiro retira-o imediatamente da mãe, apesar do desespero das vacas, das suas tentativas em defender as suas crias e do seu lamento contínuo pela perda dos seus recém-nascidos. Dependendo do sexo, o bezerro ou é vendido para ser carne de vitela (machos) ou para ser criado e engravidado à força como a sua mãe (fêmeas), bem como ordenhado para a produção de produtos lácteos. Privada do seu rebento, uma vaca muge desesperadamente durante dias a fio, enquanto as máquinas estão ocupadas a bombear o leite que seria para o seu filho e que será vendido como iogurte, gelado, queijo e leite.

Tal como acontece com as mulheres e jovens apanhadas nas indústrias da violência sexual(6), o stress e a miséria que as vacas experimentam nas fazendas leiteiras têm o seu preço. Estes animais, embora possam viver naturalmente até aos 25 anos, nesta indústria começam a ser um “gasto” depois de cinco ou seis anos de gravidezes, partos, separações forçadas e ordenha perpétua. Nessa fase, são encaminhadas para o abate. Como os seus corpos foram brutalmente fustigados, frequentemente chegam ao matadouro incapazes de andar ou ficar de pé, sendo por isso drogadas ou empurradas para fora dos camiões de transporte. As vacas sofrem na indústria do leite por serem fêmeas — e porque amamentam quando dão à luz — e porque os produtores de leite sentem-se no direito de manipular e explorar a biologia feminina para ganho pessoal. Esses produtores lucram com as secreções mamárias das vacas, com a sua prole e, eventualmente, com o seu corpo quando ela é vendida para a produção de hambúrgueres.

Galinhas na Indústria de Ovos

Assim como as vacas, as galinhas são exploradas precisamente pela sua biologia feminina, já que os seus corpos produzem ovos. Quando as galinhas atingem maturidade sexual suficiente para nidificar, põem ovos até definirem uma ninhada e aí passam pela incubação até os ovos eclodirem. Obviamente, não é nada disso que acontece com as galinhas na indústria de ovos. Nesse negócio, os ovos são incubados num ambiente isolado, longe da mãe galinha: em vez de nascer no escuro, sob a penugem quente e ao som do cacarejo da sua mãe, o pintainho nasce numa superfície dura sob uma luz néon brilhante e silenciosa. As crias passarão o resto das suas vidas num ambiente artificial, sem ar fresco ou luz natural, em confinamento caótico com muitas outras galinhas. (...)

O pintainho recém-nascido é movido ao longo de uma esteira rolante: nessa etapa, os machos são retirados e descartados. Algumas indústrias empilham-nos em sacos de plástico fechados, para que sufoquem até à morte, enquanto outras os atiram para um moedor (vivos). Tal ocorre por os galos não terem utilidade para a indústria dos ovos.

Os pintainhos fêmeas, sem dúvida, ouvem os pios gritantes e desesperados dos seus irmãos enquanto continuam a descer pela esteira rolante, onde são agarradas e empurradas para uma máquina munida de uma lâmina que lhes corta uma parte significativa dos seus bicos. Daí em diante, serão incapazes de se alimentar naturalmente ou de alisar as suas penas adequadamente. Esse processo, o debeaking [debicagem], é extremamente doloroso mas estabelecido como vital para que as galinhas, num ambiente tão lotado e miserável, não se biquem umas nas outras, talvez até à morte.

Se sobreviver à remoção do bico, o pintainho fêmea será transferido para um barracão gigantesco com milhares de outros pintainhos fêmeas, onde irá crescer durante cinco meses. Caso sobreviver [a taxa de mortalidade é elevadíssima], a agora galinha será enviada para as gaiolas em bateria, do tamanho de um micro-ondas, geralmente com outras cinco galinhas. Aí, ela permanecerá, de pé, sobre uma superfície de arames, num espaço que chega a ter mais de 100 mil aves nas mesmas condições. As gaiolas estão dispostas em longas fileiras e empilhadas, o que faz com que as fezes das galinhas que estão por cima acabem por cair nas que estão por baixo. Com o tempo, os seus corpos ficam imundos e as penas quebradiças, de tão sujas.

Muitas vezes, uma companheira de jaula morre e as outras galinhas são obrigadas a viver com o cadáver. A sua carne, que raspa contra os arames da gaiola, causa feridas abertas. Os seus pulmões, que nada mais respiram, são danificados pelo amónio que, consequentemente, se vai espalhando nas cada vez mais sujas e abarrotadas gaiolas.

As gaiolas foram projectadas para roubar da jovem galinha os seus preciosos ovos, que rolam do seu corpo quente para um cocho e transportados para processamento. Durante um ano, sensivelmente, as galinhas continuam a pôr ovos que desaparecem imediatamente assim que são postos, frustrando todos os seus instintos naturais. Assim que este ciclo começa a diminuir, a comida em frente às suas jaulas também diminui. Durante uma a três semanas essas galinhas passam fome, ao qual os criadores chamam de “muda forçada”, e vivem entre e em cima de companheiras enclausuradas que estão mortas ou moribundas. As sobreviventes, quando entram num novo ciclo de postura, têm a sua comida restaurada. Mais uma vez, as aves colocam ovos diariamente que lhes são retirados. A elas nunca lhes é permitido incubar, nutrir as suas crias, criar relacionamentos com os seus filhos ou compartilhar a sua companhia numa comunidade livre de galos e galinhas.

Fortuitamente, o ciclo de postura reduz outra vez e, embora naturalmente elas sejam capazes de iniciar outro ciclo, a indústria não deseja continuar a despender recursos com elas quando começam a apresentar dificuldades ou demasiadas diminuições, até porque os seus corpos podem ser vendidos. São retiradas abruptamente das suas gaiolas, comumente puxadas por uma asa ou uma pata, pela cabeça ou pela cauda, o que pode causar fracturas ou deslocações ósseas e, ou são trituradas (vivas) e vendidas como fertilizante, soterradas (muito provavelmente vivas) ou transportadas num camião para o matadouro. Se enviadas para abate, serão penduradas de cabeça para baixo, com as pernas presas em algemas ou ganchos. É dessa forma que são levadas até à área da matança, onde alguém cortará as suas gargantas. Algumas, mesmo com as gargantas rasgadas, chegam vivas até ao tanque de água a ferver, no qual acabarão, então, por hediondamente sucumbir.

Uma galinha na indústria de ovos sofre toda essa crueldade simplesmente por ter nascido com órgãos reprodutivos femininos, numa sociedade — a nossa sociedade — em que “A” se sente no direito de manipular e explorar os seus corpos e os seus sistemas reprodutores para os seus próprios fins. Assim como homens sexistas acreditam que têm o direito de controlar e explorar mulheres e meninas, os humanos especistas acreditam que têm direito de controlar e explorar animais “de criação”, invadindo vaginas e preenchendo úteros, reivindicando (e explorando) a prole, privando os indivíduos da sua liberdade e, em última análise, tomando as suas vidas.

Opressão Compartilhada, Libertação Compartilhada

As ecofeministas reconheceram causas comuns de discriminação, tais como o dualismo e a hierarquização, levando a sistemas abrangentes de opressão. Discerniram que as mulheres, a Natureza e os animais são equitativamente desvalorizados em relação a quem está na categoria “A” e que são igualmente controlados e explorados pelos da categoria em questão. Repararam que as fêmeas, independentemente de serem humanas ou não-humanas, são igualmente desdenhadas em relação aos seus opressores e frequentemente associadas à categoria de indivíduos “Não A”, sendo vituperadas de forma semelhante pelos indivíduos da categoria “A” por conta dos seus corpos femininos e da sua respectiva anatomia reprodutiva.

Ao desenterrar estes paralelos, as ecofeministas chegaram à conclusão de que não é apropriado lutar pela libertação de apenas um grupo oprimido e ignorar os restantes que são relegados à categoria “Não A” e, portanto, sistematicamente oprimidos e explorados por indivíduos da categoria “A”. Para o ecofeminismo, que reconhece a interligação das opressões várias, libertar apenas um grupo oprimido é, além de enviesada, uma tarefa vazia e uma resposta egoísta. À luz dos sistemas de opressão, expostos pelas ecofeministas, o trabalho em mãos é, claramente, desarraigar causas comuns e desmantelar esses sistemas opressores que estão profundamente enraizados e generalizados. (...)

Resumo

As mulheres, a Natureza e os animais não-humanos padecem de similar discriminação, sendo controlados e explorados num mundo onde há muito se assumiu que é adequado que as mulheres sirvam aos homens, que os humanos explorem, controlem e manipulem o mundo natural e que os humanos explorem, controlem e manipulem os animais não-humanos. Mais notavelmente, as mulheres e os animais “de criação” são manipulados e explorados por causa da sua biologia feminina (...). As ecofeministas inferem que qualquer tentativa de libertar apenas aqueles que se parecem connosco — da nossa espécie — não é apenas egoísta como pode não ter sucesso: as mulheres não serão e não podem ser libertadas até que sistemas abrangentes de opressão e exploração sejam desmantelados, incluindo, além do sexismo, o antropocentrismo, o especismo, entre outros. Por esse motivo, muitas ecofeministas adoptaram uma alimentação vegetal, recusando a apoiar as indústrias da carne, do leite e dos ovos, e aliaram-se a ambientalistas e defensores dos animais com a intenção de ajudar a acabar com a opressão e a exploração em todas as suas formas insidiosas.

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(1) Nota adicional da tradutora: Muitos filósofos, ao longo dos séculos, promoveram e enrijeceram este dualismo, associando o elemento racional ao masculino e o elemento emocional ao feminino. Veja-se, por exemplo, Espinosa no seu Tractatus Theologico-Politicus, ao argumentar que as mulheres são racionalmente mais fracas do que os homens e que, por isso, não se devem envolver nas questões políticas. Também afirmou, na mesma obra, que “A lei contra a matança dos animais é baseada mais na superstição vazia e numa compaixão feminina do que propriamente na razão” (E4p37s1).
(2) Adaptação da tradução.
(3) Francis Bacon, conhecido como o “pai” do Empirismo Moderno, defendeu com veemência esta posição em vários ensaios e no seu livro Novum Organum: “Somente obedecendo à Natureza [para a conhecer] podemos comandá-la.”
(4) Nota pessoal da tradutora: A autora não está, com esta inferência, a criticar as mulheres que decidiram, livremente, ficar em casa e a tomar conta dos filhos. A crítica deve-se, sim, ao que infelizmente acontece num contexto geral, em que as mulheres continuam a ser incentivadas, pressionadas e até mesmo coagidas a essas actividades mesmo contra a sua vontade. É uma situação bastante recorrente e que perpetua a discriminação violenta de muitas meninas e mulheres, que permanecem sem o direito de terem autonomia sobre a suas próprias vidas e de poderem possuir escolhas pessoais.
(5) Mais uma vez, a autora não está a atacar quem opta por este tipo de casamento. O alerta é para a ainda utilização do casamento como ferramenta de subserviência feminina, algo que se estendeu milenarmente na nossa sociedade e que continua enraizado em várias civilizações e tradições familiares.
(6) Considero importante frisar que a autora não está a comparar as mulheres, vítimas do tráfico humano e sexual, com as fêmeas não-humanas que são exploradas para consumo. A intenção é apresentar pontos comuns, fomentadores das respectivas opressões, e que acabam por interligar a discriminação de ambos os grupos.

Aceder ao artigo original e integral aqui.
Tradução para português europeu de Raposa Herbívora
A tradução não obedece ao novo acordo ortográfico.