
Há uns dias, olhei para a pilha de livros de ética animal que tenho para ler há uma eternidade. Primeiro senti um peso oco, daqueles que esmurram o estômago, por me ter apercebido que nem sequer tenho conseguido pegar pelo menos num para começar a estudar. O maternar intenso, juntamente com o assoberbamento emocional causado pelas hediondezes mundanas, empurrou-me silenciosamente para uma desconfortável inércia da qual estou incapaz de sair. Antes, conseguia ainda encontrar algum optimismo no meio da violência e do ódio: conseguia ainda acreditar na mudança. Mas, com tudo o que se tem passado ultimamente, desde massacres de povos inteiros ao retrocesso de direitos humanos básicos, essa centelha de esperança apagou-se brutalmente do meu coração, o que o levou a encolher-se sobre si próprio e a virar pedra para conseguir aguentar toda esta insanidade.
Se antes a excessiva sensibilidade era um problema, agora é a falta dela. O vazio que muitas vezes me acomete, perante tudo o que se passa, esgota-me a força, a vontade e a força de vontade. Faz com que eu sinta que tudo é em vão.
Chegou a um ponto em que o vazio, pessimismo e sensação de inutilidade, juntos, enrolavam-se e empurravam-me para um reino distorcido no qual tudo ficava embaciado na minha cabeça, sem capaz de construir o mínimo discernimento. A mente estava demasiado amorfa. Pelo que coloquei a mão no coração, apesar da muralha rochosa, e aceitei que desistir não é um sinal de fraqueza. Na verdade, perante a pressão social que constantemente nos grita que produtividade é sinónimo de utilidade — além de termos de fingir que o mundo não está a ruir e que tudo está normal —, desistir é uma forma de sobrevivência. E, neste momento, para conseguir sobreviver, preciso de rejeitar essa romantização da produtividade ao máximo e de abrir mão de algumas coisas, como simples leituras e escritas. Às vezes, deixarmo-nos levar pela corrente é melhor do que nadarmos contra ela. Vou deixar fluir, tentar parar de me sentir mal por não estar a ler e a escrever para o blogue, e continuar focada no que tem sido um refúgio e um exercício de abstracção: cozinhar. Posso não trazer um texto filosófico mas trago uma receita doce para estes tempos que têm sido tão amargos, sendo este bolo um dos preferidos daqui de casa e muito fácil de fazer.
Só precisam de:
1 cup de sumo de laranja natural (duas laranjas grandes)
Raspa de 1 ou 2 laranjas
½ cup de óleo de girassol
¾ cup de leite de soja (ou outro que combine bem, como de aveia)
2 cups de farinha de trigo super fina
1 cup de açúcar mascavado
1⁄4 cup de amido de milho
1 colher de sopa de fermento químico
½ colher de chá de bicarbonato de sódio
1 pitada de sal
Pré-aquecer o forno a 180ºC, com calor em cima e em baixo, sem ventilação.
Numa taça, misturar os ingredientes líquidos: sumo de laranja, óleo e leite de soja, juntamente com as raspas de laranja.
Noutra taça, colocar os ingredientes secos: farinha, açúcar, amido de milho, fermento, bicarbonato e sal.
Adicionar os ingredientes líquidos aos secos gradualmente, mexendo com uma espátula o suficiente para que a massa fique homogénea. Não mexer depressa, nem demais.
Verter numa forma para bolos — previamente forrada e untada, se necessário — e levar ao forno durante 45 minutos ou até o palito sair limpo.
A calda é simples: creme de cacau e avelãs, do estilo Valsoia, cacau em pó 100% e água quente. Misturar nas quantidades desejadas, tanto para consistência (mais creme para efeito ganache, mais água e cacau para efeito calda) como para sabor (mais creme para ser mais doce, mais cacau para ser mais amargo). Espalhar no topo do bolo ainda morno, previamente furado com um garfo para extra humidade.
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