28/05/2026

“O teu tofu está a destruir a Amazónia”


Ultimamente, a soja tem sido alvo do nosso cepticismo, que vai desde simples dúvidas até à sua aversão. Tal aversão está a ser motivada por uma moda alimentar, que, apesar de recente, rapidamente se espalhou pelas redes sociais: a dieta carnívora, também chamada de dieta da selva.

A ancestralidade é o argumento (ou deverei dizer falácia?) principal. Afirmam que os nossos primeiros antepassados viveram unicamente à base da caça e que a evolução humana descarrilou com a introdução da agricultura. Da crítica contundente contra as plantas, a soja é uma das mais severamente atacadas, tendo-se tornado como que um símbolo de tudo o que deve ser evitado, daí estar a ser vista com desconfiança, desprezo e repulsa.

As tendências, principalmente alimentares, são cíclicas: só esse facto deveria ser o suficiente para não deixarmos que as mesmas substituam o nosso pensamento crítico. No entanto, é o que está a acontecer, daí não ser surpreendente a facilidade com a qual se está a distorcer tanto a soja. Sobre as suas propriedades nutricionais e fisiológicas — bem como outras questões relacionadas com o consumo hiperbólico de carne — isso ficará para outro artigo. Hoje, prefiro pegar noutro contexto que, apesar de não ser tão utilizado como o da saúde para difamar o coitado do tofu, também tem estado em voga: o ambiental.

No meio de tantas justificações para o consumo de carne, uma delas é a desflorestação causada pela soja e como esta, portanto, é insustentável e rouba o habitat natural de muitas espécies ameaçadas: como é que vão explicar isso, veganos?

Bem, vamos lá, então, explicar: sim, a produção de soja é uma das maiores causadoras de desflorestação, mas com um detalhe fundamental: a larga maioria não é para consumo humano directo.

Desmatamento da Amazónia: quem está a destruir a floresta?

De acordo com a Our World In Data, a criação de gado, sob a forma de pastagens, compõe 80% da desflorestação amazónica. A soja vem a seguir, mas com uma diferença avassaladora: 5 a 10% (esta variação deve-se pelos tipos de estudos e se os efeitos indirectos foram neles contabilizados).

Uma nuance importante é que, apesar do impacto considerável, a maior parte da soja é usada para alimentar animais – ou seja, para além dos 80% de desflorestação causada directamente pela criação de gado, a pecuária também provoca desflorestação indirecta através do cultivo de soja.



Não é de admirar, portanto, que a produção de soja acompanhe, precisamente, o aumento do consumo de animais. Em 2023, cerca de 318 milhões de toneladas (t) de soja foram processadas e distribuídas para ração animal, óleo vegetal e biocombustíveis, ao passo que somente 14 milhões de t foram usadas para alimentação humana directa. Essa soja chegou a ser ultrapassada pela quantidade directamente usada para alimentar os animais – 35 milhões de t.

Ao todo:


Dentro dos 19% para consumo humano, só 7% é para os alimentos à base de soja, como tofu, tempeh, bebida de soja e edamame.

Carne ou tofu: qual exige mais área?


Quanto mais terra um alimento exige para ser produzido, maior tende a ser a pressão sobre os ecossistemas, os habitats naturais e a respectiva vida selvagem.

Para 1 kg de:

• Cordeiro e borrego – usam-se 369.81 m² de terra;
• Carne bovina – 326.21 m²;
• Queijo – 87.79 m²;
• Carne suína – 17.36 m²;
• Carne de aves – 12.22 m².

Em contrapartida, 1 kg de tofu precisa de 3.52 m². Outros vegetais e frutas também usam pouquíssima terra.

Isso significa que:

Produzir 1 kg de carne bovina necessita de quase 100 vezes mais terra do que 1 kg de tofu; queijo, 25 vezes mais; carne suína, 5 vezes mais; carne de aves, 3,5 vezes mais.

Somando esta exigência de terra com o facto de cerca de 77% da soja produzida ser usada para alimentar animais explorados para consumo humano, fica inevitável concluir que a maior responsável pela desflorestação global, no seu todo, é a indústria pecuária.

Tentando fazer uma imagem mental deste uso de terra por kg:

• Carne bovina – 26 lugares de estacionamento;
• Queijo – 7 lugares de estacionamento;
• Tofu – 1/4 de um lugar de estacionamento.

Enquanto isso, se o mundo adoptasse uma dieta de base vegetal, reduziríamos o uso global de terras agrícolas de 4,1 mil milhões para 1 mil milhão de hectares – o equivalente a uma diminuição de 75%.
Com o uso global dessas terras mitigado conseguir-se-ia reduzir a desflorestação, libertando áreas actualmente utilizadas para pecuária e ração, criando-se, deste modo, espaço para a recuperação de habitats naturais. A vida selvagem, seriamente ameaçada, gradualmente refloresceria.

Além de menos terras, com a redução ou eliminação do consumo de animais e dos seus insumos também se conseguiria alimentar mais pessoas. A título de exemplo, se quiséssemos produzir alimento numa área do mesmo tamanho de um campo de futebol, obteríamos:

• 22 kg de carne bovina = ~140 a 150 refeições;
• 81 kg de queijo =  ~540 refeições;
• 420 kg de carne suína = ~2,800 refeições;
• 2,000 kg de tofu = ~13,000 refeições.

Os vários estudos sobre este tema são peremptórios: o consumo directo de plantas — como a soja — é mais eficiente a nível de água, uso de terra, produção calórica e produção proteica.

Posto isto, vale salientar que qualquer tipo de alimentação, obviamente, vai causar impacto ambiental. Esta discussão não é sobre quem é mais ou menos perfeito, ou quem é mais ou menos coerente nos seus valores pessoais: é sobre como se pode reduzir, dentro das nossas possibilidades, a escala desse impacto.

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Recursos utilizados:

Drivers of Deforestation: The world loses 5 million hectares of forest to deforestation each year. What activities are driving this? — Our World In Data

Causes of Deforestation of the Brazilian Amazon — Sérgio Margulis

Pecuária e desmatamento: uma análise das principais causas diretas do desmatamento na Amazônia — O Almeida, S Ávila, S Rivero e W Oliveira