30/06/2026

Quando Se Quer Cuidar E O Trabalho É Ferir: O Custo Humano da Experimentação Animal

Há uns bons anos, ouvi uma estudante a falar sobre certas tarefas que andava a fazer com roedores. Ao mesmo tempo que falava dos animais com carinho, referindo-se a eles como  ratinhos fofinhos, a naturalidade com a qual ela debitava as experiências que estava a realizar neles deixou-me bastante perplexa. Irritei-me visceralmente e, no fundo do meu âmago, vociferei silenciosamente a incongruência de tal discurso. Rotulei a rapariga como hipócrita, que via os ratinhos fofinhos como objectos e que, na verdade, não se importava com eles para nada. Nessa altura, também eu frequentava a faculdade e encontrava-me na fase de estar desmesuradamente furiosa para com práticas especistas, de tal modo que nem questionava as complexas e dissimuladas teias desta engenhosa e manipuladora estrutura.

Foi após ter lido o Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas, de Melanie Joy, que compreendi a crueldade que estas áreas, que exploram animais, perfilam no seu todo: os humanos que nelas participam – como mão-de-obra –  também são impiedosamente atingidos. Têm o coração e a mente desfragmentados à força, dando lugar à rotinização e normalização de práticas hediondas. É uma anestesia obrigatória para conseguirem continuar com o seu trabalho, sob o argumento de que o mesmo é necessário e inevitável — e, ao passo que a Melanie Joy se refere, no livro, aos funcionários de matadouros, o mesmo fez-me recordar desta estudante e dos juízos de valor que decidi ter sobre ela, sem sequer a conhecer, naquele dia. E foi aí que percebi que estas pessoas – as que trabalham nos matadouros, nos laboratórios de investigação científica, etc. – não são monstros. Poderia ser qualquer um de nós – poderia ser eu – no lugar delas. O que mudou não foi o que penso — foi para quem olho.

Por isso, quando descobri a Madeline Krasno, uma antiga trabalhadora-estudante de um laboratório de experimentação animal, percebi que necessitava de partilhar o testemunho dela. Espero, com o mesmo, conseguir apresentar a necessidade de humanizarmos quem depressa resolvemos desumanizar, de forma a que o caminho pela libertação – humana e animal – fique um pouco mais desimpedido — pois, como conseguir trilhar esse caminho quando calamos, à força do nosso preconceito, quem também faz parte dele?

Actualmente a Madeline dedica-se à Justify, uma plataforma que visa unir estudantes e trabalhadores das várias áreas que recorrem à utilização de animais para investigação, com a intenção de denunciar as atrocidades cometidas pelas mesmas — tanto com os animais como com os próprios humanos. Em suma, a organização pretende mostrar, a quem está de fora, que estas pessoas são vítimas – e não cúmplices, como acreditamos – deste sistema.


 Fala um pouco de ti. Quem é a Madeline Krasno?

Desde que me lembro, sempre adorei crianças e animais, e grande parte da minha vida foi passada em funções de cuidado  — tanto de várias espécies [animais] como de crianças, desde a primeira infância até ao ensino secundário. Tenho um mestrado em Educação Humanitária pela Universidade de Valparaiso e licenciaturas em Zoologia e Desenvolvimento Infantil pela Universidade de Wisconsin–Madison.

O meu percurso profissional abrange cuidados com animais, reabilitação de vida selvagem, educação em santuários de animais e desenvolvimento de currículos para aprendentes desde a infância até ao ensino universitário.

Partilho a minha casa com o grande amor da minha vida, Millie Jane, uma cadela cruzada de pastor alemão, bem como com uma enérgica gata bicolor chamada Celia, um divertido gato malhado laranja chamado Calvin, e dois ratos de laboratório reformados, baptizados com nomes de macacos que cuidei no laboratório de primatas: Cheerio e Norm.

Como uma das três cofundadoras da Justify, sinto uma profunda gratidão por poder dedicar a maior parte do meu tempo a construir a organização de que eu própria precisava quando saí do laboratório de primatas pela última vez, em 2013.

 Qual era a tua função no laboratório de animais e que tipo de tarefas desempenhavas?

Como uma estudante universitária inspirada por Jane Goodall, acreditava que trabalhar num laboratório de primatas apoiaria o meu percurso na conservação dos mesmos. Assim, tornei-me cuidadora-estudante de mais de 500 macacos no University of Wisconsin–Madison’s Harlow Primate Lab(1). O meu trabalho incluía alimentar os animais, preparar enriquecimento ambiental, lavar as bandejas sob as gaiolas e as salas dos animais, preparar e administrar medicação (tanto por via oral como por injecção), cuidar de recém-nascidos rejeitados, tratar de grandes quantidades de loiça, reabastecer equipamentos de proteção individual, entre muitos outros afazeres.

Para muitos funcionários de laboratório, testemunhar o que acontece diariamente nesses espaços é extremamente árduo, sobretudo porque grande parte dessas experiências acaba por tornar-se rotineira com o passar do tempo. O cérebro humano adapta-se, para poder lidar com a situação, pelo que práticas que inicialmente seriam chocantes acabam muitas vezes por ser normalizadas, simplesmente para se conseguir continuar a trabalhar.

Tinha 20 anos quando um macaco-rhesus recém-nascido teve uma convulsão e morreu nos meus braços. No dia anterior, tinha chegado ao trabalho e descoberto outro recém-nascido rejeitado, sem vida, numa incubadora. Num único fim-de-semana, coloquei os corpos desses dois recém-nascidos em sacos de risco biológico e levei-os para um congelador. Não foi a primeira vez e não seria a última.

Quando um colega e eu fomos encarregues de retirar um bebé morto dos braços da mãe, em que esta se recusava a largá-lo, fiquei impressionada com a aparente compreensão por parte dela. Dentro de uma gaiola de transporte, alinhada de forma segura a um sistema de contenção sobre uma mesa, ela agarrava-se firmemente ao seu bebé.
Abrimos a porta da caixa de transporte e oferecemos-lhe um marshmallow. Ela avançou, pegou no doce e recuou para dentro da gaiola, ainda com o bebé nos braços. Tentámos novamente. Comeu o marshmallow e recuou, continuando a segurar o seu filho. Uma terceira vez, o mesmo aconteceu.
Mas, à quarta tentativa, a mãe avançou e, em vez de pegar no marshmallow, pousou suavemente o corpo do seu bebé, encostando os lábios à testa da cria antes de recuar para a gaiola — desta vez sem o marshmallow e sem o bebé.
Não tive qualquer dúvida de que a mãe deixou o seu bebé porque percebeu a inutilidade de resistir ao que representávamos. Submeteu-se por resignação, não porque estivesse preparada.

Mais uma vez, coloquei um macaco recém-nascido num saco de risco biológico e num congelador.

Ao cogitar sobre este e tantos outros momentos, posso dizer com toda a certeza que, quando aceitei tornar-me cuidadora de macacos, não era este tipo de trabalho que imaginava.

 Quando começaste a sentir hesitação, ou um conflito ético, em relação ao que ali se passava, e como reagiram os teus supervisores quando decidiste sair?

Senti desconforto quase imediatamente, mas convenci-me de que ter sucesso nesta função e obter uma boa carta de recomendação era fundamental se quisesse seguir os passos da Jane Goodall. Como tantas outras pessoas com quem falei desde então, disse a mim própria que, pelo menos, poderia tentar tornar a vida dos animais menos penosa.

Também tinha a convicção de que, se saísse, alguém menos compassivo ocuparia o meu lugar. Isso fez com que fosse mais difícil me afastar, mesmo quando as coisas não pareciam ser correctas.

Quando saí do laboratório ao fim de dois anos, ofereceram-me uma moldura com uma colagem de fotografias de macacos do laboratório, a agradecer-me em nome de “todos os meus amigos” do Harlow Primate Lab. A minha passagem terminou porque estava a concluir o curso, não porque me tivesse despedido. Tanto quanto sei, o meu supervisor e os meus colegas não ficaram com quaisquer ressentimentos. Eu tinha sempre demasiado receio de expressar o que sentia. Para eles, saí bem.

Só que, na verdade, eu estava tudo menos bem. Esta experiência mudou-me profundamente: levou-me a um nível de conflito emocional e ético para o qual não estava preparada e, mais tarde, a um diagnóstico de perturbação de stress pós-traumático. Durante muito tempo, tive dificuldade em assimilar tudo isso.

Hoje, o que experienciei está no centro de quem sou e do trabalho que desenvolvo como cofundadora e diretora executiva da Justify — apoiando outras pessoas que estiveram dentro deste sistema e ajudando a criar espaço para conversas mais honestas e humanas sobre o que realmente significa fazer parte dele.

 Porque é que a tua universidade tentou censurar-te e impedir-te de falar publicamente sobre o que acontece no laboratório de animais?

Não consigo responder com exactidão sobre as suas motivações, mas aquilo que observámos — e que os tribunais acabaram por reconhecer — foi que a universidade e o NIH (National Institutes of Health) estavam a limitar determinados pontos de vista nas suas plataformas públicas, sobretudo quando se tratava de críticas à investigação com animais.

Como antiga aluna e ex-funcionária da Universidade de Wisconsin–Madison, quis informar melhor os estudantes e os apoiantes da universidade sobre os danos que ocorrem nos laboratórios de primatas no campus. Comecei então a comentar nas suas publicações, nas redes sociais, o que levou à minha censura.

Depois da UW–Madison ter parado de me censurar, na sequência da apresentação do meu processo judicial por liberdade de expressão contra a instituição, reparei que alguns dos meus comentários permaneciam invisíveis para o público. Através de um pedido ao abrigo da FOIA (Freedom of Information Act), descobrimos que as páginas de Instagram e Facebook da universidade utilizavam listas de palavras bloqueadas compostas quase exclusivamente por termos associados à investigação com animais, como “macacos” e “testes”. Estas listas podiam ser alteradas a qualquer momento, tornando praticamente impossível um diálogo público construtivo sobre a investigação com animais realizada no campus.

Outro pedido ao abrigo da FOIA(2) revelou que o NIH(3), o principal financiador da investigação com animais nos Estados Unidos, também bloqueava palavras-chave nas suas páginas de redes sociais. As palavras na sua lista incluíam “macaco”, “chimpanzé”, “testes” e “cruel”. Assim, avançámos também com uma acção judicial por violação da liberdade de expressão contra essa entidade.

Em ambos os casos, o bloqueio de palavras-chave não era apenas uma questão de gestão de conteúdos: era censura. Ao filtrar precisamente as palavras que descrevem o que acontece dentro dos laboratórios, a UW–Madison e o NIH protegiam-se do escrutínio e silenciavam vozes críticas. O que estava em causa não era apenas a minha capacidade de comentar online — era o direito constitucional do público de questionar como são utilizados os impostos nos Estados Unidos para financiar a investigação com animais.

Ganhar estes processos significou poder falar honestamente sobre a minha experiência sem receio de ser silenciada ou sofrer retaliações. Durante muito tempo, senti que as próprias instituições de que fiz parte controlavam a narrativa, mesmo quando eu apenas tentava partilhar aquilo que vivi e o que os animais passavam e passam. Isso ajudou-me a sentir que estava, de certa forma, a compensar o prejuízo do qual fui cúmplice sem nunca ter pretendido sê-lo.

E ganhar estes processos também confirmou o quão estas conversas são importantes, que as pessoas dentro do sistema têm o direito de ser ouvidas e que a transparência é essencial se queremos que a ciência evolua. Contribuiu também, mesmo que modestamente, para alterar o equilíbrio de poder em direcção a uma maior abertura e responsabilização. E tenho orgulho disso.


 Como te sentes hoje em relação ao que viveste e testemunhaste no laboratório?

Sinto inúmeras coisas, mas sobretudo tristeza, arrependimento, clareza e uma compreensão mais profunda daquilo pelo que passei. Fui diagnosticada com perturbação de stress pós-traumático como resultado do meu tempo no laboratório e, com o passar do tempo, reconheci também que a chamada “lesão moral” foi central nessa experiência. Tal discernimento ajudou-me a perceber por que motivo tudo aquilo permaneceu comigo da maneira que permaneceu.

Desenvolvi também muita compaixão por mim própria e por outras pessoas que estiveram em quadros muito semelhantes. Não é que eu tenha seguido em frente, de todo, mas é algo que aprendi a carregar de um jeito que informa o trabalho que faço hoje. Tenho a certeza de que serei sempre assombrada pelos rostos dos macacos… pelos seus sons e pelos seus gritos.

 O que é a Justify?

A Justify é uma organização sem fins lucrativos criada para apoiar pessoas que trabalharam, ou trabalham actualmente, em laboratórios com animais e para defender uma ciência sem sofrimento humano e animal. O nosso foco incide num pormenor que é muitas vezes ignorado: o custo humano da investigação com animais. Isso abrange o impacto emocional, o conflito ético e, para muitos, a experiência de lesão moral que pode surgir ao cuidar de animais enquanto se participa também no seu sofrimento.

O que distingue a Justify é o facto de ser liderada por pessoas que trabalharam dentro da investigação com animais, pelo que o nosso entendimento é vivido e não meramente teórico. Conhecemos a realidade de cuidar de animais enquanto se faz parte de uma estrutura que os prejudica, a pressão para permanecermos calados e o receio de ser mal interpretado ou rotulado como “anti-ciência”. Vivemos na pele o impacto emocional e psicológico contínuos.

Este espaço gera confiança junto de trabalhadores de laboratório, que muitas vezes estão a falar sobre estes assuntos pela primeira vez e isso permite-nos trazer nuances de um tema demasiado polarizado. Como conhecemos a cultura a partir de dentro, conseguimos dialogar com cientistas, instituições e defensores sem recorrer à culpabilização ou à demonização de indivíduos: tal perspectiva é fulcral para criar um diálogo sem barreiras e tecer uma mudança sistémica que, em última análise, reduz o sofrimento tanto de pessoas como de animais.

Trabalhamos em três áreas principais: apoio, partilha de histórias e mudança sistémica. Oferecemos espaços privados, onde trabalhadores de laboratório podem conectar-se e processar as suas experiências. Disponibilizamos recursos para orientar as pessoas, para que compreendam o que estão a sentir, quer ainda estejam nesse trabalho, quer já o tenham deixado. Também damos visibilidade a testemunhos em primeira mão, trazendo à luz o que normalmente permanece oculto, e participamos em conversas mais amplas sobre como fazer avançar a ciência de forma a reduzir o impacto negativo, tanto para animais humanos como não-humanos.

Embora seja uma organização ainda embrionária, as maiores conquistas da Justify têm sido dar visibilidade, legitimidade e estrutura a uma questão que esteve escondida durante demasiado tempo: o custo humano da investigação com animais. Criámos a primeira organização dedicada, liderada por antigos trabalhadores de laboratório, a apoiar outros que enfrentam lesão moral, trauma e isolamento resultantes deste género de trabalho.

Construímos uma rede de trabalhadores antigos e actuais de laboratório, criamos recursos e espaços privados de apoio, organizamos eventos públicos de sensibilização, amplificamos histórias na primeira pessoa e começamos a mudar o debate em torno da investigação com animais, incluindo tanto os animais afetados como as pessoas chamadas a participar nesse processo.

Mostramos que esta não é uma experiência isolada: é urgente descortinar isso, sendo que a Justify está a tornar-se o lugar a que as pessoas recorrem quando estão prontas para questionar, processar, curar ou abandonar o sistema.

 Olhando para trás, o que te dá esperança e o que gostarias que mais pessoas compreendessem sobre a experimentação animal?

Gostaria que as pessoas compreendessem que muitos de nós entramos na investigação animal com boas intenções, não com intenções maliciosas.
Queremos contribuir para o avanço da saúde humana, preocupamo-nos com os animais e procuramos fazer algo com significado. E, ao mesmo tempo, pessoas bem-intencionadas podem fazer parte de sistemas que provocam estragos — e estive incluída neles.

Uma das coisas mais difíceis de aceitar foi perceber que o facto de me preocupar não impedia o sofrimento e, de certa forma, até fazia com que sair [deste trabalho] se tornasse ainda mais complicado. Preocupava-me com quem ocuparia o meu lugar e dizia a mim mesma que, pelo menos, podia tentar tornar a vida dos macacos menos dolorosa.

A indústria da investigação com animais tende a encaminhar pessoas jovens e impressionáveis para este meio, sobretudo estudantes e doutorandos, antes deles entenderem plenamente o que tal trabalho implica ou como pode afectá-los psicologicamente.

Existe uma cultura do silêncio e do secretismo, pelo que muitas pessoas têm receio de falar. Temem represálias, perder o emprego, prejudicar a carreira ou, em alguns casos, até colocar em risco o seu estatuto de visto.
Esse medo silencia imensa gente. Quando as pessoas dentro do sistema são depois rotuladas de “monstros”, isso pode empurrá-las ainda mais para o isolamento e tornar ainda mais difícil procurar apoio ou falar com honestidade sobre as suas experiências — permitindo, no fim de contas, que o sofrimento, tanto humano como animal, continue. Se queremos quebrar esse silêncio precisamos de ponderar, de forma mais crítica, sobre como as narrativas polarizadas, de “nós contra eles”, acabam por calar precisamente as vozes que mais precisamos de ouvir.

Existe também a crença generalizada de que a investigação com animais, por ser regulamentada, significa que eles são bem tratados. Na verdade, essas regulamentações estabelecem comumente padrões mínimos e não condições que evitem o sofrimento. Muitos procedimentos que causam dor, angústia, isolamento e morte precoce são legais e rotineiros, desde que sejam considerados cientificamente justificados.

Assim, quando se diz que os animais são “bem tratados”, isso significa muitas vezes, apenas, que as práticas cumprem as normas, não que sejam verdadeiramente humanas.
E, mesmo quando as pessoas nos laboratórios se preocupam profundamente, estão a operar dentro de um sistema onde o dano é normalizado e difícil de contestar.

É uma realidade complexa, mas se há algo que espero que as pessoas retirem disto é o seguinte: passamos demasiado tempo a fazer suposições uns sobre os outros e muito pouco tempo a fazer perguntas com compaixão e a escutar genuinamente.

A indústria da experimentação animal é poderosa, bem financiada e, em grande medida, escondida do escrutínio público.
Mas o que me dá esperança é o facto do silêncio estar, aos poucos, a quebrar-se. Quando comecei a partilhar a minha história, há anos, sentia-me muito sozinha. Mas, quanto mais falava, mais ouvia outras pessoas – estudantes, técnicos de cuidados animais, investigadores – que também tinham enfrentado o peso moral e psicológico do trabalho de laboratório. Essas vozes, outrora isoladas, estão agora a encontrar-se e a unir-se através da Justify. A mudança não acontece de um dia para o outro, mas a história mostra-nos que sistemas profundamente enraizados mudam quando a verdade e as experiências vividas vêm à superfície. Cada vez que um trabalhador de laboratório fala, cada vez que o público toma consciência do que está oculto, as fissuras deste sistema abrem-se um pouco mais.

 Queres deixar uma mensagem para estudantes e investigadores que trabalham em laboratórios com animais, bem como para activistas pelos direitos dos animais?

Aos estudantes e investigadores que trabalham em laboratórios com animais: se estão a sentir conflito ou se algo não vos parece certo, não estão sozinhos. Muitos de nós entrámos nesta área porque nos preocupamos profundamente com os animais e queremos contribuir para algo que tenha significado. Essa tensão que podem estar a sentir merece espaço e atenção, não ser ignorada. Não precisam de desligar essa parte de vocês para pertencerem ao mundo da ciência.

E aos activistas pelos direitos dos animais: pediria apenas que se lembrem da humanidade das pessoas que estão dentro destas estruturas. Muitas delas estão a lutar mais do que possam imaginar e, quando a conversa se centra na culpa ou em rotular estas pessoas como “más”, isso pode empurrá-las ainda mais para o silêncio e afastá-las do apoio e das conversas honestas que podem conduzir à mudança.

Se queremos progresso — para os animais, para as pessoas e para a ciência — precisamos de mais curiosidade, mais compaixão e mais disponibilidade para nos ouvirmos uns aos outros, especialmente quando é desconfortável

Se és (ex-)estudante, (ex-)trabalhador/a ou (ex-)investigador/a de um laboratório que utiliza animais, podes partilhar a tua história em Justify Global: Share Your Story.

Notas:
(1) Harlow Primate Lab – Laboratório de investigação com primatas da Universidade de Wisconsin-Madison, focado em estudos com macacos em contexto experimental.
(2) FOIA (Freedom of Information Act) – Lei dos EUA que permite ao público solicitar acesso a documentos e informações de entidades governamentais.
(3) NIH (National Institutes of Health) – Instituto Nacional de Saúde dos EUA, sendo a principal agência federal de financiamento da investigação biomédica.