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No meio do caos que as redes sociais se tornaram, ainda há coisas bonitas a acontecer por lá. Uma delas foi, precisamente, ter conhecido a Lívia e o seu projecto de cozinha brasileira e sem crueldade. Se são da área de Lisboa e nunca provaram as suas coxinhas, as suas bolinhas de queijo, os seus rissóis, o seu bolo com cobertura de chocolate branco, precisam de mudar isso rapidamente. Cada dentada sabe a conforto, a amor, e leva-nos a uma viagem para o outro lado do Atlântico. A Lívia, só por ser mulher emigrante, com o seu negócio próprio, já é uma força da natureza. E, assim, quando ela também abraçou o infinito projecto que é a maternidade, sabia que tinha de falar com ela para participar nesta rubrica – e as suas palavras não podiam ser mais cândidas e inspiradoras ♡
Fala um bocadinho de ti e do teu projecto.
Meu nome é Lívia, tenho 41 anos e vivo em Lisboa desde 2016. Sou mãe da Maria Helena, que está com 15 meses e também sou mãe do meu projecto de comida vegana.
A Coxinhas da Lívia começou em 2017 como algo provisório até que eu me estabilizasse financeiramente em Portugal. Vida de imigrante é sempre uma montanha russa até que se possa viver e trabalhar noutro país. Mal sabia eu que esse projecto ganharia a forma que tem hoje, passando a ser o meu principal trabalho. Produzimos salgados, doces e bolos veganos, sendo as coxinhas o nosso principal produto. Digo nosso, pois, somos uma empresa familiar.
Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?
Conheci o termo “vegetarianismo” por volta dos 20 anos, através da minha irmã mais nova: ela precisou fazer um trabalho de escola e escolheu abordar o tema. Desde então ela se tornou vegetariana e eu me tornei junto com ela como uma forma de incentivá-la: ao fim e ao cabo foi ela quem me incentivou. Entretanto, eu não tinha uma alimentação balanceada e acabei por abandonar, voltando a ser anos depois, por volta dos 27 anos. Fiz a transição para o veganismo em 2016 junto com a minha mudança para Portugal e, nesta altura, com muito mais compreensão sobre a minha escolha. O motivo principal foi a questão ética.
Como foi a tua alimentação durante a gravidez? Que cuidados tiveste?
Não muito diferente da alimentação antes da gravidez. Apenas ajustei quantidades conforme a gravidez foi avançando. Os únicos cuidados que tive foi de não comer vegetais crus, pois, não sou imune à toxoplasmose. No mais, mantive uma dieta bastante equilibrada, rica em proteínas vegetais (leguminosas, tofu, tempeh etc.), legumes e carboidratos. Durante toda a gravidez tive apoio de uma nutricionista para ter certeza que comia as quantidades certas para o desenvolvimento da minha bebé.
A maternidade aprofundou o teu olhar em relação ao modo como tratamos os animais?
Certo que não precisei de me tornar mãe para ter esse olhar sobre como é horrendo a forma como a indústria nos faz crer que produzir e matar um animal é importante para a sobrevivência humana. Contudo, a maternidade trouxe muito mais empatia para com as fêmeas não-humanas que são criadas para gerar bebés – contra a sua vontade – para que esses bebés sejam retirados delas mal nascem e irem parar numa embalagem de supermercado. Nada é mais duro para uma mãe do que ter seus filhos retirados à força!

Arte de Angelina Bambina
A teu ver, quais são os maiores preconceitos e desinformações em relação à alimentação vegetal infantil?
“Com essa alimentação ela não vai se desenvolver” ou “Não podes forçar a tua alimentação à tua filha” – escutei esta última e ainda nem grávida estava, de uma médica.
Há ainda muitos preconceitos sobre a alimentação vegetal infantil, sem dúvida, bem como desinformação – mas creio que estes dois comentários resumem bastante o que ainda se ouve quando se fala em crianças veganas. Mesmo a questão da suplementação — que crianças omnívoras também precisam — “não precisaria suplementar se comesse carne”. Na maioria das vezes aceno e sigo a vida, noutras é preciso fazer com que compreendam; poderá apenas ser falta de informação mesmo, e educar é a melhor via.
Está cada vez mais difícil conseguir gerir o tempo para cozinhar e fazer refeições que nutrem. Que conselhos dás para quem tem bebés e crianças e queira fugir de refeições industrializadas o mais possível?
Congelar! Não há nada mais reconfortante para uma mãe num dia corrido do que ter refeições prontas no congelador. Basta uma hora num dia da semana para conseguir preparar refeições variadas e congelar ou então guardar em pequenas marmitas para a semana ou dias seguintes. É o que faço aqui em casa, desde opção de pequeno-almoço e lanche, até mesmo almoço e jantar. Tento ter sempre uma sopa congelada e isso faz uma enorme diferença no dia-a-dia! Ainda esses dias estava a pensar sobre isso enquanto lhe preparava um lanche: “Seria mais fácil um industrializado, mas será que quero isso para a minha filha?”. Fazer tudo toma tempo mas acabo sempre por preparar o lanche para os próximos dias. Isso quer dizer que nunca vou lhe dar industrializados? Não, sei que vai acontecer, mas será sempre a excepção e não a regra.
Como ensinar o respeito pelos animais a crianças muito pequenas, como a tua?
Crianças pequenas aprendem observando, por isso a forma como o adulto trata um animal comunica muito para os pequenos olhos observadores. Temos dois gatos em casa e lhe ensinamos desde cedo que os gatos precisam de carinho e beijinhos. Se vamos em alguma quinta pedagógica ou santuário fazemos o mesmo. Ela tem muita curiosidade e fica muito contente em ver os animais e aos poucos vamos lhe dizendo — ainda que pouco entenda — que os animais são nossos amigos. E nas leituras de livros também, que não controlamos, às vezes pode ter uma situação que não concordamos e vamos lhe explicando a nossa forma de ver o mundo e os animais. Para uma bebé de 15 meses nada faz muito sentido ainda, mas o nosso exemplo vai indicar o entendimento dela no futuro.
Partilha uma das receitas predilectas da Maria Helena.
Panquecas! Um dos seus lanches preferidos.

Ingredientes:
2 colheres de sopa cheias de farinha de aveia
1 colher de sobremesa de linhaça moída
1/2 colher de café de fermento
1/2 banana madura amassada ou maçã ralada
Pitada de canela (opcional)
1/2 chávena de água, leite materno, fórmula ou bebida vegetal
Modo de preparação:
Misturar os secos, adicionar a fruta escolhida e o líquido. Misturar tudo ligeiramente até ficar homogéneo, não mexer ou bater demasiado, o suficiente para deixar uma massa nem muito líquida nem muito densa/espessa.
Aquecer uma frigideira untada levemente com azeite e com a ajuda de uma colher de sopa colocar pequenos discos de panquecas na frigideira. Dourar dos dois lados, e está feito.
Servir com fruta e uma manteiga de oleaginosas!
Obrigada pelo espaço e por falarmos de um tema tão importante para o futuro das nossas filhas! ■
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