07/10/2026

Rascunhos Antiespecistas | Carne, Soja e Masculinidade



Parte da resistência ao antiespecismo não nasce da nutrição, mas de doxas culturais profundamente estabelecidas sobre identidade e género. Uma delas é a conexão entre carne e masculinidade.

Como referi aqui, a soja tem sido amplamente atacada. Além da crescente tendência pró-carne, este ataque cerrado está, também, conectado com o surgimento de um padrão de hipermasculinidade, fruto da manosfera (comunidade que, além de promover misoginia e violência contra as mulheres, é também violenta com os próprios homens), que estabeleceu que certos alimentos devem ser totalmente evitados por serem “femininos”. Produtos à base de soja são alguns deles.

Essa ideia não é propriamente de agora: Carol J. Adams dissecou-a historicamente, socialmente e filosoficamente, há quase 40 anos, mostrando que o paradigma da carne, como alimento essencialmente masculino e associado à virilidade nasceu há mais de 200 anos, de mãos dadas com a consolidação do sistema patriarcal. Outrora, a carne representava o status económico da pessoa: a partir do século XIX passou a ser como que uma calculadora de masculinidade para os homens.

Para acompanhar o perambular do tempo, a narrativa modernizou-se e agora vende-se através de propagandas de churrasco, hambúrgueres gigantes e dietas excessivas em proteínas. A soja, por ser uma proteína vegetal, tem a sua versatilidade arrasada e rejeitada. A disseminação de que produz/imita/aumenta estrogénio no nosso corpo também é bastante aplicada para assustar os homens e relegá-la para comida de mulher.

Tudo isto atingiu proporções tão espantosas que levou a que toda esta questão da carne, da soja e da masculinidade voltasse a ser tema de estudos psicológicos e sociais. As descobertas e interligações desses estudos estão a ser, por falta de palavra melhor, fascinantes:

A rejeição da soja como espelho da masculinidade frágil: por ser rotulada como feminina, os rapazes e os homens recusam-se a consumi-la, principalmente à frente dos seus pares. Um estudo da University of Bath demonstrou que, quando a masculinidade de um homem é colocada em causa, uma das respostas imediatas é rejeitar opções vegetarianas e escolher pratos com carne vermelha;

A preferência pela carne como ferramenta performativa: o seu consumo exagerado é uma forma de deixar claro o estatuto do homem enquanto macho alfa (seja lá o que isso for). Num estudo australiano, homens que se autoidentificavam como “mais masculinos” mostraram menos intenção de reduzir o consumo de carne. Já um inquérito, neste caso norte-americano, teve 53% dos homens a considerar uma dieta carnívora como “masculina”, 49% a classificar a carne como “masculina” e 35% a associar produtos à base de soja ao “feminino”.

O poder da falsa ciência e as suas consequências: neste caso, os homens evitam soja por receio dos fitoestrogénios poderem afectar as suas hormonas. Todavia, são inúmeras as evidências médico-científicas que refutam essa premissa.

A rejeição da soja por preconceito eurocêntrico e colonial: a manosfera, à boleia da extrema-direita, recuperou discursos discriminatórios e racializados que já circulavam no século XIX, quando os impérios britânico e norte-americano associavam dietas maioritariamente vegetais dos povos asiáticos à fragilidade e à feminilidade, em contraste com a suposta virilidade ocidental ligada ao consumo de carne. Os povos asiáticos eram dóceis por comerem arroz; já os ocidentais eram fortes e conquistadores por comerem carne.
A título de curiosidade, houve uma mentalidade similar no século XVI com a colonização dos países sul-americanos por parte dos espanhóis e portugueses. Os primeiros demonizavam o milho; os segundos, a mandioca. Estes e outros alimentos eram vistos como “comida de selvagens”, ao passo que pedaços de porco, vaca e aves eram “comida de gente civilizada”.

Carne = virilidade: a generificação alimentar e o surgimento do “soy boy”

Como mencionei, logo no início do artigo, a manosfera não só é violenta com as mulheres: também o é com os próprios homens, incluindo os que estão dentro dela. É um núcleo que se alimenta das inseguranças dos rapazes e dos homens, exagerando-as e transformando-as num problema gigante, encaminhando estrategicamente a culpa para as mulheres. Em vez de acolherem o jovem, dizem-lhe que está a falhar enquanto homem. O processo de radicalização começou.

Por esse motivo, é raro a manosfera conseguir aliciar homens que se sentem seguros em relação a si próprios (importante salientar que egocentrismo e complexo de superioridade, mesmo parecendo, não constituem autoconfiança), pelo que a táctica aplicada é investir contra a fundação dessa segurança: assim surgiu o soy boy, termo que recorre à soja para pejorar homens que rejeitam a masculinidade artificializada.

De acordo com a manosfera, o soy boy é um rapaz ou um homem fraco, submisso e traidor da masculinidade. Rapazes e homens que são incluídos nesse insulto, regra geral, fazem coisas como respeitar as mulheres, ter empatia, praticar exercício ou desporto por razões de saúde e de bem-estar (e não para parecer um fisiculturista), preferir o diálogo ao confronto directo, ler e jogar. Em suma, rapazes e homens perfeitamente normais e que estão confortáveis com os seus gostos, os seus valores e preferem lidar com as suas vulnerabilidades de uma forma mais saudável.

A alimentação, claro, está incluída nesta categorização: veganos, automaticamente, são soy boys. Homens que não são veganos mas que têm uma dieta diversificada e optam pela opção vegetariana do restaurante, também são soy boys. O que está no prato transformou-se tanto numa arma de arremesso como num escudo de defesa: no primeiro, procura-se diminuir a masculinidade de um homem, ridicularizando-o por não comer a quantidade de carne vermelha que “deveria comer”. No segundo, procura-se cimentar essa masculinidade, preservando a autoimagem, através do consumo exacerbado dessa carne.

As raízes da relação entre consumo de carne e masculinidade são aproveitadas para fazer pressão social e psicológica através de publicidade. Da esquerda para a direita, terminando em baixo: Capa da revista Muscle & Fitness, 2009; Capa de um livro da Esquire, 2011; Anúncio de uma marca de cerveja neozelandesa, 2011.

Esta ligação entre a virilidade e o consumo de carne, que a manosfera hoje explora e desenvolve hiperbolicamente, possui, como indiquei inicialmente, raízes histórico-sociais. Uma dessas raízes é, sabemos agora, uma falácia: o mito do homem-caçador. Por muito tempo acreditou-se que, nas comunidades caçadoras-recolectoras, o homem caçava e a mulher recolectava, pré-estabelecendo papéis de género. Todavia, descobriu-se que tais papéis não existiam e que tanto os homens como as mulheres praticavam as duas actividades. Também se descobriu que, quando os dois caçavam, em detrimento do homem caçar sozinho, havia mais alimento para a comunidade, fundamentando a sua sobrevivência com maior eficácia. No entanto, o mito acabou por se consolidar e tornar-se mais relevante do que os factos.

Por muitos anos, a carne era uma divisória alimentar entre classes: os mais economicamente favorecidos ingeriam-na em abundância, fossem homens ou mulheres, enquanto os menos economicamente favorecidos comiam-na com penúria. A carne, por isso, era vista como um alimento de luxo e ostentação (as famosas tartes com 24 melros, exclusivas das cortes reais, eram uma forma de mostrar isso), enquanto os cereais, as frutas e os vegetais eram tidos como incompletos e pobres – comida de camponês.

Foi por volta de 1800, com o advento da Revolução Industrial, que a associação entre virilidade e consumo de carne se firmou. O operário-máquina necessitava de carne para ficar forte e fazer bem o seu trabalho, o que incentivou à distribuição desigual dos alimentos dentro do próprio lar: enquanto os homens ficavam com os pedaços de animais e com uma refeição mais pronunciada em quantidade, as mulheres e as crianças praticamente ficavam com os restos: batatas, vegetais, pão e chá. A carne era oferecida quase exclusivamente ao homem para que ele permanecesse forte, algo imprescindível num trabalho fisicamente exigente e perigoso.

Carol J. Adams, em A Política Sexual da Carne, oferece alguns exemplos e relatos desse tempo:
Quando a pobreza forçava uma distribuição conscienciosa da carne, quem a recebia eram os homens. Muitas mulheres enfatizavam que tinham guardado a carne para o marido. Explicavam assim as conexões entre o consumo de carne e o papel masculino: “Guardo-a para ele; ele tem de comer carne.” (...) As mulheres comiam carne uma vez por semana com os filhos, enquanto o marido consumia carne e bacon “quase diariamente”.
Hoje sabemos que a força física não depende do consumo de carne e que dietas vegetarianas bem planeadas conseguem sustentar desempenho físico e massa muscular. No entanto, a crença de que a carne é imprescindível para obter essa força, bem como para provar masculinidade e virilidade, está bastante enraizada, fortalecida pelo preconceito, desinformação e pseudociência.

“A soja faz crescer mamas nos homens”

Quem nunca ouviu ou leu essa frase? Até poderia ser o mantra da soja se fosse verdadeiro, de tantas vezes que é pronunciada. Ademais, só nos homens? A sério?
Enquanto rumino, inconformada, tamanha injustiça, deixo para vocês o que os especialistas dizem sobre a soja:

Sandra Silva, nutricionista, explica que “as isoflavonas são consideradas fitoestrogénios e têm uma acção semelhante à dos nossos estrogénios endógenos”, conseguindo ligar-se aos seus receptores. Tais propriedades fazem com que:

Quando os níveis de estrogénio estão baixos (por exemplo, menopausa) – as isoflavonas podem activar ligeiramente o receptor, produzindo um efeito semelhante ao estrogénio, mas muitíssimo mais fraco;

Quando os níveis de estrogénio estão altos – as isoflavonas competem pelo receptor, fazendo com que minimize a sua acção – ou seja, têm um efeito antiestrogénico, igualmente fraco.

Mas, e nos homens?

Mesmo sendo, pelo senso comum, uma hormona feminina, o estrogénio é essencial nos homens, estando ligado à saúde óssea, líbido, função eréctil, cérebro, metabolismo e eixo hormonal. As isoflavonas agem da mesma forma, mas com um detalhe relevante: o efeito é praticamente nulo. Por esse motivo, a evidência clínica disponível não revela associação consistente que possa assinalar a soja como potenciadora ou desencadeadora de um desequilíbrio hormonal que provocará diminuição da testosterona ou seios pronunciados nos homens.

Na verdade, a soja é um alimento nutricionalmente denso. Tem proteína completa, gorduras insaturadas, hidratos de carbono, fibra, magnésio, potássio, ferro, fósforo, folato e vitamina K. Vários estudos e meta-análises apontam que:

Pode ajudar a diminuir o risco de doença cardiovascular, por reduzir moderadamente os níveis de LDL (colesterol mau);

Em caso de diabetes tipo 2, contribui para a melhoria ligeira da sensibilidade à insulina;

Em mulheres pós-menopausa, pode atenuar a perda de densidade mineral óssea;

Por fim, contrariamente ao que se pensa, a soja não aumenta o risco de cancro. De facto, alguns estudos conectam o seu consumo à diminuição desse risco em alguns tipos de cancro, como o gastrointestinal, da próstata, do colon, do endométrio e da mama.

Outro pormenor igualmente interessante: o leite de vaca contém estrogénios verdadeiros, que são mais potentes do que os fitoestrogénios presentes na soja. Todavia, em termos de saúde humana, a evidência actual não mostra efeitos hormonais clinicamente relevantes do consumo normal de leite de vaca. Sendo assim, porque nos afligimos tanto com o leite de soja, cujas isoflavonas são muitíssimo mais fracas do que os estrogénios do leite de mamífera não-humana?

Ironicamente, alguns adeptos da dieta carnívora — bastante defendida pela manosfera — incluem todas as substâncias provenientes de animais na sua alimentação, incluindo leite de vaca (os mais estritos cingem-se a carne vermelha, água e sal), ao mesmo tempo que fogem do leite de soja. Pelos vistos, os critérios usados para justificar tal dieta são ideológicos e não bioquímicos, o que nos leva, novamente, à narrativa do antepassado caçador, à normalização do especismo, à dominância e violência contra os animais como parte, não só do antropocentrismo, mas também do próprio androcentrismo, à carne como completa, vital e masculina e ao vegetal como incompleto, passivo e feminino.
Embora estas interpretações não expliquem todas as escolhas alimentares, ajudam a compreender por que razão certos receios em relação à soja persistem, apesar das evidências não os sustentarem.

***

Recursos utilizados:



New Poll: More Than Half of Men Think Meat Is ‘Masculine’ — Physicians Committee for Responsible Medicine

The Myth of Man the Hunter: Women’s contribution to the hunt across ethnographic contexts — A Anderson, S Chilczuk, K Nelson, R Ruther, C Wall-Scheffler




The Role of Soy Isoflavones in the Prevention of Bone Loss in Postmenopausal Women: A Systematic Review with Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials — A Barańska, W Kanadys, M Bogdan, E Stępień, B Barczyński, A Kłak, A Augustynowicz, M Szajnik, U Religioni


The associations of soya intakes with non-communicable diseases: a scoping review of meta-analyses — Cynthia Sau Chun Yip , Yuk Cheung Yip, Wendy Chan

Imagem: Like Meat