08/09/2026

Maternidade vegana com a Hanna Pomaho 💛 Kind Planted


O algoritmo do Instagram, quando quer, entrega bom conteúdo e, consequentemente, pessoas com conteúdo. Coisa rara na feira das vaidades digital que as redes sociais se tornaram. Foi assim que descobri a Hanna, através de uma carta que ela criou sobre a indústria dos lacticínios. As suas partilhas mostram alguém que não tem medo algum de mergulhar de cabeça e nadar contra a corrente, seja sobre os animais, seja sobre a visão paradigmática da maternidade. O seu testemunho é, a meu ver, um dos mais crus desta rubrica, no qual ela fala, principalmente, sobre como o veganismo inclui respeitar a empatia que as crianças sentem pelos animais e como faz dele, portanto, algo natural do ser humano e não uma imposição. Palavras que, mais do que merecem ser lidas, merecem ser absorvidas.

Fala um bocadinho de ti.

Sou originalmente da Bielorrússia e vivo actualmente nos Países Baixos. A minha formação profissional é em Design UX, sendo que hoje a minha vida é dedicada a ser mãe a tempo inteiro da minha filha de 3 anos e activista pelos direitos dos animais. Recentemente, o meu activismo também tomou um rumo criativo: escrevo livros infantis centrados no veganismo e no respeito pelos animais, e o meu primeiro livro está, neste momento, a ser ilustrado.

Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?

Tornei-me vegana há menos de um ano, embora tenha sido vegetariana durante os sete anos anteriores. Durante muito tempo, estive profundamente condicionada pela ideia de que o veganismo fazia mal à saúde. Tornar-me mãe mudou isso: levou-me a questionar as coisas de forma mais crítica, a procurar efectivamente por investigação científica e, finalmente, compreendi que a narrativa antivegana não passa de uma mentira.
Quando finalmente abri os olhos para a realidade da exploração animal, reconhecendo que os animais são indivíduos sencientes, que não nos pertencem, simplesmente não consegui voltar a fechar os olhos.

Aproveitando para partilhar sobre outras culturas, como é ser mãe e vegana nos Países Baixos?

É um país de grandes contrastes: por um lado, os Países Baixos têm opções veganas fantásticas, comunidades muito boas e inúmeras oportunidades para fazer activismo. Por outro, é um país fortemente agrícola, onde os lacticínios — especialmente o queijo — comportam um papel enorme na cultura alimentar. Além disso, há uma kinderboerderij (quinta pedagógica com animais) em praticamente todos os bairros.
É um desafio constante tentar navegar neste ambiente. Como a minha filha não frequenta uma creche, ainda não teve de enfrentar directamente o conflito diário entre os valores da nossa família e a forma como o resto do mundo, maioritariamente, funciona. Mas, à medida que vai crescendo, começa a reparar nessas contradições. E responder às suas perguntas sobre as mesmas já se tornou uma base integrante do nosso quotidiano.

Adoptaste uma alimentação totalmente vegetal há menos de um ano. Como foi essa mudança, tanto para ti como para a tua criança?

A transição foi incrivelmente tranquila para todos nós: as únicas coisas que nos separavam de uma alimentação de base vegetal eram o queijo, os ovos e o mel. Fizemos a mudança passo a passo, trocando esses alimentos que consumíamos por alternativas de origem vegetal.
Para a minha filha, a única mudança verdadeiramente perceptível foi os ovos. Limitámo-nos a contar-lhe a verdade sobre aquilo pelo qual as galinhas são forçadas a passar para que um ovo chegue ao nosso prato. Ela aceitou, fez várias perguntas muito ponderadas e, passado algum tempo, começou até a sugerir que abordássemos as pessoas que estavam a comprar ovos no supermercado, para lhes contarmos aquilo que sabemos.
Para mim e para o meu marido, a mudança foi igualmente simples e transformou totalmente, para melhor, a forma como comemos. Comprei alguns livros de culinária vegetal e cozinhar tornou-se num verdadeiro passatempo para mim. Nunca comemos de forma tão variada e deliciosa como até agora.


arte de Julianna Bíbor

Tornares-te mãe mudou a forma como encaras o veganismo ou a tua relação com os animais?

Mudou absolutamente tudo para mim. Tornar-me mãe alterou totalmente a minha perspectiva.
Nunca apoiamos jardins zoológicos ou outras formas de entretenimento baseadas no confinamento e na exploração animal. Sempre adorei cães e fiz voluntariado, mas estava convencida de que as galinhas punham ovos e as vacas davam leite porque é assim que a natureza determinou que as coisas fossem.
Mas, certo dia, enquanto estava a cozinhar um ovo para o pequeno-almoço, a minha filha questionou-me do que era ele feito. Foi a partir daí que comecei a aprofundar estas questões e descobri o horror absoluto daquilo que realmente acontece. Viver, na primeira pessoa, a profundidade e a força do vínculo entre uma mãe e o seu filho fez-me sentir fisicamente doente perante a ideia de que existem indústrias que literalmente lucram com a destruição de famílias.

Escreveste uma carta sobre a indústria do lacticínios. Consideras que o veganismo também é uma questão feminista?

Sem dúvida. A indústria dos lacticínios, tal como o resto da pecuária, assenta inteiramente na exploração do sistema reprodutivo feminino e na ruptura sistemática da ligação entre mães e filhos.
Acredito plenamente que não podemos defender genuinamente os valores feministas e a autonomia corporal enquanto financiamos a reprodução forçada e a exploração dos corpos femininos de outras espécies.

Em criança, testemunhaste situações de crueldade extrema contra animais e foste ensinada a vê-las como “a ordem natural das coisas”. Que impacto teve essa dicotomia em ti?

Quando os adultos que amamos e em quem confiamos nos dizem que a violência é “a maneira como o mundo funciona”, tal cria uma dissonância cognitiva profunda e dolorosa.
Hoje percebo, racionalmente, que, enquanto criança, tinha pouquíssimo poder para resistir ou defender o meu ponto de vista perante os adultos que me rodeavam. No entanto, sinceramente, ainda me custa perdoar a minha versão mais jovem por não ter estabelecido essa conexão mais cedo.
Reconectar-me, enquanto adulta, com essa empatia que fora reprimida foi um processo muito pesado. Fez-me ver até que ponto todos nós somos abissalmente condicionados pela sociedade, e essa percepção tornou-se a minha principal motivação para quebrar, com a minha própria filha, este ciclo de crueldade normalizada.

Como é criar uma criança antiespecista num mundo especista? Quais os desafios?

Criar uma criança antiespecista num mundo especista é, indubitavelmente, um desafio constante. As pessoas à nossa volta conseguem ser incrivelmente críticas – mas continuo a tentar encontrar maneiras de desconstruir esses estereótipos e mostrar-lhes que não “comemos só erva”. 
Há, sem dúvida, momentos em que me sinto tão sobrecarregada que sinto que a única solução é cortar relações com pessoas não-veganas, mas percebo que isso não é uma opção.
Com a minha criança, abordo as conversas sobre os animais com absoluta honestidade, procurando encontrar palavras adequadas à sua idade.
Dói todas as vezes, porque sou em quem está, aos poucos, a desconstruir aquela versão perfeita e intocada do mundo em que ela entrou – um mundo onde as mães e os filhos ficam sempre juntos e ninguém magoa deliberadamente outro ser.

Gostarias de deixar alguma mensagem para as mães e os pais, em geral?

A minha principal mensagem é esta: se criam o vosso filho como vegano estão a dar-lhe uma escolha, e não a fazer essa escolha por ele.
É frequente ouvir que os parentes veganos privam os filhos de alguma coisa ou escolhem por eles. Todavia, banalizar a exploração e alimentar as crianças com pedaços de corpos e secreções de animais, antes de elas sequer compreenderem o que são, é que constitui a verdadeira imposição de uma escolha.
Um dia, os vossos filhos poderão sentir-se gratos por terem crescido fora desse padrão de violência, conservando a sua empatia natural intacta. ■