08/08/2026

Biblioteca da Raposinha: “O Protesto”



No meio de tanta azáfama — que, mesmo sabendo que faço imensas coisas, continuo a sentir que nada faço — acabei por semiabandonar esta rubrica, involuntariamente. Preciso urgentemente de parar de criar rubricas quando não consigo ter tempo para elas 🌚 Ainda para mais quando esta tem tanta ternura, típica de tudo aquilo que é infantil. É a mistura perfeita daquilo que mais me define — ser mãe, ser antiespecista e ser obcecada por livros —, pelo que continuar com ela faz todo o sentido, mesmo que demore sete meses a renová-la, como neste caso.

Descobri este livro quando a criança andava numas actividades de escola-floresta, há uns dois anos, e não sei dizer quem ele mais cativou: se a mim, se a ela. A identidade visual minimalista, as poucas palavras mas que tanto dizem, a importância da mensagem... sabia que precisava de arranjar um exemplar para termos em casa.

Assim o foi e rapidamente tornou-se num dos seus livros preferidos. Ela já tem vários livros relacionados com a natureza e os animais, mas este destaca-se por um simples motivo: a paleta de cores. Geralmente, os livros infantis são visualmente ruidosos. Este só recorre a quatro tons, cinco se contarmos com o branco, o que acaba por ter duas vantagens: como contrasta com o livro padrão, chama automaticamente a atenção; e, ao permitir que haja muito espaço para o branco, ajuda a que a criança fique mais atenta à mensagem no lugar de se perder no meio de tanta cor e de tantos elementos.



“Tudo começou quando um pássaro deixou de cantar”

Os animais deixaram de se ouvir. Desde a cidade à floresta, da chita à libelinha, nenhum som é produzido. Além deste pacto silencioso, os animais deixam de fazer o que quer que seja: os selvagens recolhem-se e deixam de ser vistos e os domesticados (incluindo à força, como os elefantes nos circos), recusam-se a executar as suas tarefas. As únicas pessoas que compreendem este protesto são as crianças, que a eles se juntam, deixando de ir à escola e de brincar.

Um silêncio colectivo que grita contra a poluição e a destruição ambiental causadas pelo ser humano.


Sobre a autora: Eduarda Lima é licenciada em Arquitectura e mestre em Motion Graphics (design de movimento). É ilustradora, animadora, designer freelancer e autora de livros infantis, sendo o seu trabalho composto, principalmente, por ilustração e animação 2D e que abrange uma grande variedade de projectos: curtas-metragens, videoclipes, anúncios televisivos, animação de logótipos, tipografia animação de ficção, entre outros. No PIM (Mostra de Ilustração Para Imaginar o Mundo) de 2024, participou com um cartaz pela liberdade do povo palestiniano.
O seu primeiro livro para crianças, O Protesto, publicado em Maio de 2020 pela Orfeu Negro, conquistou o Prémio Nacional de Ilustração 2021, na categoria de menção especial, o Prémio Big Aquisição 2021, na Bienal de Ilustração de Guimarães e foi laureado como um dos melhores livros originais ilustrados pela Image Of The Book em 2020.