
Descobri a Carmen através da divulgação desta rubrica, da qual ela aceitou participar. Comecei a Maternidade Vegana Com... em 2018 e é incrível como os preconceitos conseguem durar anos e serem confundidos com factos, espelho da iliteracia alimentar e também de uma dissonância cognitiva que ergue uma defensiva hostil quando vê-se confrontada com a questão da ética animal. No meio deste turbilhão, é maravilhoso saber que há mães e pais que resistem e que, com pequenos gestos, recusam um sistema cruel através da preservação da empatia natural das crianças pelos animais, coerente com aquilo que é-lhes colocado no prato. O meu muito obrigada, em nome dos animais, e sigamos!
Fala um bocadinho de ti.
Nascida no dia 1 de Novembro (dia do Veganismo, coincidência ou não). Tenho 39 anos, marcados por vários desafios ao longo da vida e especialmente por uma maneira de ver e estar na vida totalmente diferente do que é a “regra”. Sempre a “ovelha verde” da família. Talvez por ter crescido num bairro social, onde vi muita podridão humana, senti desde cedo uma ânsia por justiça e um desejo de defender e proteger quem mais precisa e por isso, a minha licenciatura em Direito. Muito embora a licenciatura, foi no activismo e no voluntariado que encontrei a minha real vocação e por isso mesmo, em paralelo, acabei por tirar uma pós-graduação em Direito dos Animais, de forma a unir estas duas vertentes. Levo a vida com muita empatia pelo próximo (em especial, pelos animais!), resiliência e determinação pela defesa dos meus valores e convicções.
Quando te tornaste vegana? Quais foram os motivos principais?
Tornei-me vegetariana aos 23 anos de idade e vegana aos 30. O que me levou a trilhar este caminho e manter-me nele até hoje, apesar das dificuldades e pressões, foi a empatia, o amor e respeito por todos os seres vivos. O caminho para mim sempre passou pela Libertação Animal e vejo no veganismo mais que uma filosofia de vida: um movimento político, de luta por quem é vítima e não tem voz para se fazer ouvir!
Como foi a tua alimentação durante a gravidez? Que cuidados tiveste?
A minha alimentação continuou igual. Mudei apenas o aporte de certos nutrientes ao longo da gravidez, consoante as necessidades, e fui sempre suplementada (com suplementação vegan e seguida por uma nutricionista, também ela vegan).
Arte de Catie Atkinson
Achas que a maternidade mudou a forma como vives o veganismo ou reforçou ainda mais os teus valores?
Não sinto que tenha mudado, pois, já tinha os meus valores bem vincados. Reforçou apenas o que já sentia e pensava acerca da exploração e crueldade animal que existe no mundo, e como não gostaria que o meu filho fosse mais um a contribuir para esse ciclo. Fico, sim, com receio de que o meu filho não tenha a mesma convicção e valores que eu no futuro, mas isso não consigo controlar. Naquilo que puder, e enquanto puder, irei fornecer informação e uma orientação para que ele respeite toda a forma de vida, seja empático por cada uma e faça diariamente o melhor que puder para melhorar a vida de cada ser e que não contribua para um sistema especista, baseado na exploração e crueldade animal.
O teu bebé está na fase da introdução alimentar. Quais foram os primeiros alimentos que lhe ofereceste? Houve algum que te tenha surpreendido pela reacção dele?
Sim, ele já iniciou a alimentação sólida. A alimentação dele também é toda vegan e os primeiros alimentos que lhe dei foram legumes — abóbora, couve flor, brócolos — e frutas – pêssego, figo, manga, abacate. Surpreendeu-me não ser fã de maçã, que é algo que a maioria dos bebés gosta, e ele não é fã 😅 O abacate não gostou, mas eu também não gosto, por isso não julgo 😁
Ainda sobre a introdução alimentar, sentiste algum preconceito ou resistência por parte de profissionais de saúde ou de familiares? Como lidaste com isso?
Se senti preconceito e resistência por parte de profissionais de saúde e da família acerca da introdução alimentar do Rafael? Uiiii! Foi o que mais senti... acho que a maioria das mães vegan infelizmente sente isso.
Sempre senti preconceito. Ao engravidar piorou bastante, pois, a carga e pressão para mudar a minha alimentação para “não prejudicar o bebé” foi enorme e de todos os lados, praticamente. As minhas escolhas foram sempre colocadas em causa enquanto gerava uma vida. Dos episódios mais marcantes de que me recordo, foi terem-me dito numa das consultas, onde era seguida, Que seria uma sorte se o bebé sobrevivesse, dada a minha alimentação. Depois, o Rafael nasceu e logo na maternidade já o queriam entupir de tudo e mais alguma coisa porque podia ter falta de vitaminas, porque a mãe é vegan e por precaução era melhor fazer logo uma data de suplementação, o que eu recusei. Também queriam fazer análises logo no primeiro mês, para confirmar que estava tudo certo e que não teve falta de nutrientes durante a gestação devido à minha alimentação.
Ao iniciar a alimentação não foi diferente: muitas questões, dúvidas e julgamentos. Tantas vezes ouvi a frase “Não vai dar nem ovo?!”. Ele é seguido por uma nutricionista e suplementado. O curioso é que esta preocupação, de um acompanhamento e de uma suplementação, deveria existir para cada criança, independentemente da alimentação que tenha, porque a verdade é que os défices nutricionais existem na maioria das crianças e a esmagadora maioria não é vegan.


Arte de Linda Bell
O que significa, para ti, educar um filho para crescer com empatia por todas as formas de vida?
O papel mais importante que alguém pode ter é educar outro ser humano e orientá-lo para que seja uma pessoa empática e que respeite todas as forma de vida. Levo esse papel muito a sério e, sinceramente, causa-me muito ansiedade pensar que posso não estar à altura, e que a minha voz e a minha mão poderão não ser suficientes contra tantos e tão maus exemplos que se vê e ouve diariamente. De qualquer forma, faço o que está ao meu alcance e essa preocupação começou desde a gestação dele, que continuou totalmente vegan e activista.
O que gostarias que mudasse na forma como a sociedade encara famílias que educam os filhos a respeitar todos os animais?
Sinceramente, para mim, o ideal seria uma sociedade na qual todas as famílias tivessem esta filosofia de vida, mas infelizmente sei que é impossível, pelo menos para já. Por isso, a curto prazo, gostaria que houvesse respeito, confiança e empatia (esta palavra, para mim, devia estar presente no dicionário e no dia-a-dia de cada um) por quem educa filhos nesta filosofia. É avassalador viver a maternidade (ainda para mais quando é solo, como a minha!) com todos os desafios e obstáculos inerentes à mesma, quanto mais se somarmos críticas, pressões e julgamentos extra. São completamente desnecessários para acrescentar à luta diária que uma mãe já trava. Por isso, empatia e respeito era o que desejava! ■
Sinceramente, para mim, o ideal seria uma sociedade na qual todas as famílias tivessem esta filosofia de vida, mas infelizmente sei que é impossível, pelo menos para já. Por isso, a curto prazo, gostaria que houvesse respeito, confiança e empatia (esta palavra, para mim, devia estar presente no dicionário e no dia-a-dia de cada um) por quem educa filhos nesta filosofia. É avassalador viver a maternidade (ainda para mais quando é solo, como a minha!) com todos os desafios e obstáculos inerentes à mesma, quanto mais se somarmos críticas, pressões e julgamentos extra. São completamente desnecessários para acrescentar à luta diária que uma mãe já trava. Por isso, empatia e respeito era o que desejava! ■
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